As Safadas

Dossiê Carlos Reichenbach

As Safadas (ep. A Rainha do Fliper)

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 1982.

Por Gabriel Carneiro

(Pode conter spoilers)

Primeiro dos três episódios de As Safadas, produção de A. P. Galante, A Rainha do Fliper é uma interessante brincadeira de Carlos Reichenbach. Deixando de lado o discurso mais politizado, o cineasta se solta dentro do gênero da comédia erótica, fazendo uma exemplar produção. Não que os conflitos dos personagens não existam – estão lá e são expostos -, mas o encadeamento do episódio nos leva ao deboche dos personagens-tipos, que assolavam os filmes da Boca.

O filme começa quando Tesinho vai a uma casa de jogos eletrônicos em busca de Reginéia, conhecida como “a rainha do fliper”. Sem se verem há muitos anos, Reginéia larga o fliperama – renda dela e de seu namorado cafajeste -, para conversar com ele. Surge então para a rainha o conflito entre um homem certo e bom (Tesinho) e o típico cafajeste (o namorado). O interessante é que, à medida que passa, parece que a opção será a óbvia – afinal, toda moça quer se acertar na vida, com um homem certo. O cineasta não quer saber disso. Evoca o marginal e o deboche, e um certo conformismo por parte dos personagens, para quebrar com o óbvio.

A rainha, que largara a família, para viver na clandestinidade moral com o cafajeste, arrepende-se. Ela quer um futuro diferente – mas quem disse que o futuro lhe reserva isso? O mais próximo da decência moral vem de um fracassado, abandonado pela mulher e filho, vivendo num hotel de quinta categoria, que, queira-se ou não, era a esperança que o público masculino que com ele se identifica tinha – não é todo dia que se consegue uma beldade como Zilda Mayo. Entremeado pela nudez da atriz, a conclusão parece ser que o caminho é um só. Um final conformista e não por isso menos poético. É a impotência do ser humano diante de seu futuro. Tudo continua igual.

Mesmo aqui, uma notória pornochanchada, o que parece guiar o episódio é a angústia feminina – aspecto marcante na carreira de Reichenbach. Vemos também a exuberante Zilda Mayo, a todo momento, sendo referenciada como “a rainha”. Rainha do que? Do fliper, (do sexo) e é isso. Ela se resume a uma banalidade. Ela se enxerga sem importância alguma – de que vale ser excelente no fliperama, se toda sua vida está errada.

A Rainha do Fliper é sucedido pelos episódios Uma aula de Sanfona, estréia (e única experiência) de Inácio Araujo na direção, e Belinha, a virgem, de Antonio Meliande, numa rara combinação de episódios igualmente bons. Ressuscitado pelo Canal Brasil, As Safadas merece ser assistido.

As Libertinas

Dossiê Carlos Reichenbach

As Libertinas (Episódio: Alice)

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 1968.

Por Gabriel Carneiro

Primeiro e pior dos três episódios de As Libertinas (os outros são Angélica, de Antonio Lima, e Ana, de João Callegaro), Alice é um longo e arrastado média-metragem sobre o adultério de um homem com a Alice do título. Porém, insatisfeito em explorar a personagem Alice, Carlos Reichenbach esquece-a no meio do filme para contemplar a libertinagem da personagem Augusta, esposa do adúltero, que também pula a cerca.

Ao que inicialmente parece uma tentativa de debochar de toda aquela situação esquisita, usando elementos tais como diferentes cenas que partem do mesmo princípio, como se uma substituísse a outra, através, especialmente, da mente de quem está vivendo a cena, o episódio de Reichenbach se perde na metade. Parece que ao tentar resolver de maneira satisfatória seu episódio, só o prolongasse, em busca de uma solução que nunca vem. Chega um momento, em que sem ter mais saída, ele encerra seu episódio com uma cena non-sense que busca certa graça estética. Porém, parte disso poderia ser poupado, principalmente quando a chata Augusta toma conta do filme para dar uma espécie de quebrada na verve do longa. Augusta toma o papel do homem e deixa de ser apenas o objeto sexual, passando a explorar sexualmente, e fora do casamento, um homem. Seria a forma, talvez, de Reichenbach vingar essa mulher traída – que se mostra muito mais desencanada que o marido. Nisso, Alice, bela e graciosa, apaixonada pelo marido de Augusta, fica deslocada, e numa cena banal, pega um ônibus e desaparece do filme.

Talvez pela herança cultural de Reichenbach, buscando sempre flertar com o autoral e, nesse caso, com a marginália, ele cria um filme recheado de um clima fake, avacalhado por natureza, com cenas estereotipadas e non-sense, tentando encontrar uma identidade – assim como busca criar para seus personagens -, e parece não ser bem sucedido – em nenhum dos casos. Primeira experiência do cineasta em longas-metragens, mesmo que em As Libertinas seja um longa de episódios, o filme carece de estrutura. São poucas as cenas que se sustentam, e o ritmo lerdo para que se propõe pode entediar o espectador.

Ao final do episódio, fica claro que é um filme de partida, de começo, de experimentação – típica de quem ainda não entendeu direito o que fazer e como fazer. Felizmente, o grande mestre Carlos Reichenbach se acertou muito bem nos anos seguintes, realizando obras-primas autorais, e deixando de lado, o que talvez seja a grande frustração em Alice, o olhar de rebelde sem causa.

Anjos do Arrabalde – As Professoras

Dossiê Carlos Reichenbach

Anjos do Arrabalde – As Professoras

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 1987.

Por Ailton Monteiro, especialmente para a Zingu!*

Uma das coisas mais admiráveis no cinema de Carlos Reichenbach, carinhosamente conhecido como Carlão, é a sua aproximação com a alma das mulheres. Grande parte de seus filmes é narrada pelo ponto de vista feminino. Elas são mostradas em sua fragilidade, mas principalmente em sua força e independência. Anjos do Arrabalde (1987) antecipa o que o cineasta mostraria em trabalhos mais recentes – Garotas do ABC (2004) e Falsa Loura (2008) – embora na comparação com esses dois, o mais premiado dos filmes de Carlão saia perdendo.

Hoje visto, Anjos do Arrabalde parece uma matéria bruta, distante da elegância e da fluidez narrativa dos dois outros trabalhos citados que abordam o universo feminino. Talvez o fato de ter personagens demais para lidar tenha sido um problema. É um filme-painel que nem sempre funciona. Embora lá pelo final o filme quase dê conta desses personagens, a impressão é de que algo saiu do controle. Principalmente quando o final trágico não convence ou não traz a catarse necessária.

Mesmo não estando entre as melhores obras de Carlão, Anjos do Arrabalde tem os seus momentos inspirados. A maior parte deles nas cenas em que Betty Faria aparece. Ela interpreta uma professora que tem a fama de ter uma vida sexual um pouco diferente. Talvez lésbica, pensam alguns. Outra personagem-chave da trama é a manicure interpretada por Vanessa Alves, atriz que já havia trabalhado com Carlão em O Paraíso Proibido (1981), entre outros. Com o tempo, acabou se tornando uma espécie de musa do diretor, totalizando com ele cinco filmes.

Vanessa abre o filme como a jovem estuprada e agredida. A primeira imagem do longa é do sujeito levantando as calças, enquanto ela está caída no chão, num matagal. Logo depois, vemos um plano geral de um bairro da periferia de São Paulo, seguido dos créditos e da música no acordeon, que se tornaria marca de Anjos do Arrabalde. Inclusive, há uma cena interessante em que Clarice Abujamra põe um disco para tocar de um tal Carlão do Acordeon. Na capa do disco, vemos uma foto do próprio diretor, em momento hitchcockiano. Outros momentos que são bem a cara do cineasta são a citação ao poeta Jorge de Lima e as homenagens aos cineastas Luís Sérgio Person – que dá nome à escola do filme – e Shohei Imamura.

Anjos do Arrabalde ganhou três prêmios no festival de Gramado: melhor filme, melhor atriz (Betty Faria) e melhor atriz coadjuvante (Vanessa Alves).

*Ailton Monteiro é cinéfilo de carteirinha e editor do blog Diário de Um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog em 2004.  

Amor, Palavra Prostituta

Dossiê Carlos Reichenbach

Amor, Palavra Prostituta

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 1981.

Por Marcelo Carrard

Existem títulos de filmes que parecem perturbadores enigmas para o espectador. Belo, forte, profundo: Amor, Palavra Prostituta é um convite a contemplação de imagens gélidas e ao mesmo tempo quentes em que veremos o desfile de personagens muito característicos da filmografia de Carlos Reichenbach, numa estranha atmosfera de melancolia. O filme é fruto da união de talentos lendários da Boca do Lixo paulistana. Reichenbach dirigiu e fotografou o filme, e ao lado do crítico Inácio Araujo escreveu o roteiro. Araujo colaborou também na cenografia e foi um dos produtores ao lado de Jean Garret e de Cláudio Cunha. No elenco, ao menos três musas eternas aparecem como protagonistas femininas: Patricia Scalvi, no papel da operária da indústria têxtil Rita; Alvamar Taddei, no papel da jovem e inexperiente Lilita; e Zaira Bueno, no papel de Berenice, a jovem rica. Esse trio de mulheres moverá as ações dos dois protagonistas masculinos do filme: Orlando Parolini, no papel de Fernando, um professor desempregado que vive à custa da namorada, Rita; e Roberto Miranda, no papel de Luis Carlos, amante de Lilita. Inicialmente, o que vemos é um final de semana com esses dois casais, em que Luis Carlos, ex-aluno de Fernando, questiona o antigo mestre sobre seu relacionamento com uma operária. Toda essa ação inicial sofre uma violenta ruptura quando ficam diante da figura mórbida e absolutamente simbólica de um homem enforcado, em meio ao cenário “morto” onde se encontram, às margens de um rio poluído.

Podemos observar nesse filme alguns elementos posteriormente trabalhados por Reichenbach. A protagonista operária da indústria têxtil aparece tempos depois em filmes ambientados no ABC e em outras regiões periféricas de São Paulo como, Garotas do ABC e Falsa Loura. As referências literárias e filosóficas, a utopia, a busca do amor, o hedonismo, são outros elementos recorrentes na obra de Reichenbach que se fazem presentes em Amor, Palavra Prostituta. A narrativa melodramática é trabalhada nos pequenos dramas pessoais e nas ações das personagens. Lilita aparece grávida e seu amante quer que ela faça um aborto, ao mesmo tempo em que sua mãe deseja que ele namore a filha do chefe, Berenice. São pequenas tramas que aparecem em “tintas suaves” no roteiro afiado do filme. Um dos momentos mais nostálgicos é quando aparece o Cine Marabá, em sua arquitetura original, com o cartaz de O Iluminado, de Stanley Kubrick. As cenas de nudez e sexo são muito bem realizadas e todas possuem uma apurada composição, fruto do olhar sensível de Reichenbach como fotógrafo. Todas as ações e desdobramentos do longa parecem mais uma ponte para seu grande momento, encenado em um quarto, nas sequências do aborto e do redentor banho. Justamente essas foram as que causaram mais problemas com a censura, que exigiu cortes. Poucas foram as sessões em que Amor, Palavra Prostituta foi exibido totalmente sem cortes.

Como composição, como construção dramática, a sequência do aborto é mostrada com sutileza, sem pirotecnias e cacoetes estéticos; sua simplicidade impõe uma poesia que cresce quase sem diálogos para o banho redentor no chuveiro, no transe da imagem das águas e nos olhares contemplativos que, ordenados em um perfeito trabalho de edição, luz e som, acabou criando não só um dos momentos mais sublimes da filmografia de Reichenbach, mas da história do moderno cinema brasileiro.

Alma Corsária

Dossiê Carlos Reichenbach

Alma Corsária

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 1993.

Por Gabriel Carneiro

Nos anos 90, Carlão se voltou a um passado não tão distante, resgatando memórias, amigos e personagens de sua história para compor um mosaico dos anos 60 e 70. Na abertura, Carlão já afirma que o longa-metragem havia sido baseado em pessoas queridas a eles – e vemos fotos de Orlando Parolini, Jairo Ferreira, Roberto Miranda, entre outros. São esses mesmos amigos que fazem pequenas aparições, em momentos esparsos, dando um tom genuinamente forasteiro ao filme, como se do inesperado nascesse a juvenilidade.

Alma Corsária, realizado em tempos pós-Collor, é um filme renovador na carreira de Reichenbach, seguindo uma verve política diferente. Impregnar seu longa-metragem de discursos filosóficos que poderiam ser subversivos à época da ditadura não tem mais sentido. Carlão, em Alma Corsária, volta-se a um cinema de memória, que já fora a tônica de Filme Demência – e é, por isso, pelo passeio pela história de um personagem em seus mais variados momentos e angústias, que Filme Demência me parece o precursor de Alma Corsária e de seu posterior Dois Córregos; são filmes que se coadunam na maneira de olhar a vida e o universo ao redor do personagem.

A trajetória de dois amigos, Xavier e Torres – inspirada na parecença de dois poetas, Cesário Verde e Augusto dos Anjos, que viveram em tempos e espaços diferentes -, é relatada a partir do lançamento de um livro conjunto, Sentimento Ocidental, na Pastelaria Espiritual. Revemos a história de ambos, com ênfase em Torres (numa incrível atuação de Bertrand Duarte). Adolescentes nos anos 50, um pobre, outro rico, no bairro do Jabaquara; a juventude e a rebeldia política dos anos 60, quando se descobrem homens e amantes. Em diferentes episódios, Reichenbach reverbera a juvenilidade do longa, mesmo quando, obscurecido por problemas de diferentes frontes, Torres tem de encarar o lado triste da vida.

A melancolia está no filme, uma melancolia pesarosa e caótica, mas que não por isso menos juvenil. Incorporando influências de um mundo bizarro, talvez até de Twin Peaks, do David Lynch (a anã que dança), mas sempre com momentos que perfazem o olhar contemplativo em suas mais diversas esferas – do suicida à virgem fogosa (interpretada pela então jurada de calouros, Flor). Os momentos que podem parecer desconexos ao andamento de Alma Corsária são os que mais justificam a mística, ao comporem um cenário complexo e delicioso, juntando um amontoado de diferentes pessoas no mesmo tempo-espaço. Vemos o amigo e colega Eduardo Aguilar (também assistente de direção e quem encorajou Carlão a realizar Alma Corsária) entregar um Oscar a Samuel Fuller, encarnado por Maurice Legeard, assim como Inácio Araujo num

restaurante chinês recitando versinhos. Mas a cena mais bonita do filme, fruto disso, é quando um negro vestido de carregador entra na Pastelaria, onde foi colocado um piano, senta-se e começa a tocar uma belíssima composição de Claude Debussy. A música nos leva a diferentes planos: um halterofilista que performa na frente do local; as memórias de Hong Kong e de Honolulu – filmagens em 16mm feitas pelo pai do cineasta.

O passeio da câmera nas memórias de China e de Verinha é o mesmo pela memória de Torres – uma forma de melhor conhecer os lugares por onde andou, em especial, São Paulo. As mulheres de sua vida são uma tendência a parte do Romantismo boêmio do personagem corsário: são poucas, mas cruciais e determinantes em sua existência. Por elas, nutre em especial carinho, mesmo que não haja relação amorosa entre eles. Desprende a mesma atenção para a prostituta Anésia, ao fingir-se noivo, a Eliana, ao abrigá-la – conhecendo a paixão -, ou a mulher misteriosa que visita sua mente de tempos em tempos, como se algo quisesse avisá-lo.

O papel da música e da dança no filme equivale a uma dessas mulheres para o cineasta, visto o mesmo cuidado ao construir tais cenas – a misteriosa mulher que baila com um pano amarelo só reforça a imagem enigmática e apaixonante da personagem. É ela que fechará o ciclo do filme, ao finalmente se comunicar com Torres.

A anarquia das situações, e os personagens inusitados, conferem ao longa-metragem um balanço perfeito entre a melancolia da morte que ronda todo o filme e a juventude viva presente em todas as cenas – como se a crença na amizade transformasse o olhar ao passado.

A Ilha dos Prazeres Proibidos

Dossiê Carlos Reichenbach

A Ilha dos Prazeres Proibidos

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 1979.

Por Sergio Andrade

(Contém spoilers)

Trabalhando sob encomenda, com um orçamento reduzidíssimo, Carlos Reichenbach conseguiu realizar um filme autoral dentro do esquema de produção comercial da Boca do Lixo e ter seu maior sucesso de público, com quatro milhões de espectadores

A trama gira em torno de Ana (Neide Ribeiro), uma assassina profissional disfarçada de jornalista, que é contratada por um grupo de extrema direita para ir até a Ilha dos Prazeres Extremos, local habitado por figuras estranhas e bandoleiros e onde as pessoas vivem em total liberdade sexual, para matar um rebelde, um escritor exilado e sua esposa, e o guia que a irá acompanhar.

Esse é Sérgio (Roberto Miranda), um ex-jornalista que morou um bom tempo na ilha, mas agora vive no continente ao lado da namorada Lua (Teca). Ana elimina a desconfiada Lua e segue com Sérgio até a fronteira, onde os dois são revistados. Nunca é mencionado onde fica a tal ilha, mas pela música da trilha sonora imagina-se que seja em algum lugar do Caribe (na realidade as filmagens aconteceram em Peruíbe, Itanhaém e Iguape).

Chegando lá, Ana descobre que a ilha é um lugar como qualquer outro e que sua mística é divulgada apenas para manter longe os intrusos. Mas ela tem que cumprir sua missão.

O rebelde Nilo (Fernando Benini) é um cara meio maluco que vive recitando palavras de ordem de teor anarquista e mora numa barraca na praia junto com suas companheiras Brigitte (Fátima Porto) e Monique (Zilda Mayo). Eles aguardam a visita de um comerciante chamado Luc Moullet (nome de um diretor da Nouvelle Vague que fez um filme intitulado Brigitte et Brigitte e outro Les Contrebandières, com uma atriz chamada Monique!). Já o escritor exilado William Solanas (Carlos Casan), autor de títulos como Prazer, Necessidade e Tabu e A Função do Prazer mora numa bela casa em frente à praia com sua insatisfeita esposa Lucia (Meire Vieira), que foi amante de Sérgio no passado.

Tudo isso não passou despercebido pela severa censura do regime militar, que exigiu cortes. Porém, mais importante que a política e o sexo livre, o que sobressai aqui são as angústias, dúvidas, receios e contradições experimentadas pelos personagens. Sérgio e Lucia, por exemplo, se amam, mas não conseguem reatar a relação porque também amam William. É a sisuda Ana, porém, quem passará pelo conflito maior, pois ficará dividida entre o prazer sexual alcançado com Nilo e a necessidade de matá-lo. No final, os dois estarão simbolicamente vestidos de forma quase idêntica, de blusa amarela e calça jeans, correndo pela praia antes dela o esfaquear e explodir seu corpo com dinamite.

Carlão misturou suas influências cinematográficas (Rogério Sganzerla, Samuel Fuller, Jean-Luc Godard, o cinema de sentimentos de Valerio Zurlini) e literárias (Wilhelm Reich, Oswald de Andrade, Mikhail Bakhunin), com meia dúzia de cenas de sexo exigidas pelo produtor A. P. Galante para agradar seu público cativo, mas mesmo essas cenas fogem ao convencional dos filmes da Boca, pois foram dirigidas com extrema delicadeza, algumas ao som de música clássica.

A Ilha dos Prazeres Proibidos é um filme, como bem o definiu seu autor, amoral e libertário, terminando de forma bastante ousada com dois homens e uma mulher se abraçando e beijando enquanto a câmera gira ao redor deles.

Numa época tão difícil para o cinema brasileiro como a atual, com tantas produções caras e anódinas, faz muito bem podermos assistir um filme de produção barata, sem verba governamental, sem astros globais (os atores são todos da Boca, e excelentes), com uma equipe técnica reduzida (Carlão foi também fotógrafo e câmera), mas explodindo de criatividade como esse.

Filmes

Coluna do Biáfora

Esta Rua Tão Augusta, 1966/8

As Libertinas (ep. Alice), 1968

Corrida em Busca do Amor, 1971

Lilian M. – Relatório Confidencial, 1975

Sede de Amar – Capuzes Negros, 1978

A Ilha dos Prazeres Proibidos, 1979

O Império do Desejo, 1980

O Paraíso Proibido, 1981

Amor, Palavra Prostituta, 1981

As Safadas (ep. A Rainha do Fliper), 1982

Extremos do Prazer, 1983

Filme Demência, 1986

Anjos do Arrabalde – As Professoras, 1987

City Life (ep. Desordem em Progresso), 1990

Alma Corsária, 1993

Dois Córregos – Verdades Submersas no Tempo, 1999

Garotas do ABC, 2003

Bens Confiscados, 2004

Falsa Loura, 2007

Curtas em 35mm

Outros Curtas

Filmografia

Coluna do Biáfora

Filmes de Reichenbach

Textos: Rubem Biáfora

Seleção: Sergio Andrade

A Ilha dos Prazeres Proibidos

“Carlão Reichenbach (moço de sete instrumentos, inclusive aqueles, fortíssimos, de ser ótimo fotógrafo e câmera), dando conta de uma encomenda comercial erótico-comercial do produtor Galante e da empresa Sul-“Ouro”. Bela e perigosa jornalista é enviada à “Ilha dos Prazeres Extremos” a fim de dar cabo de três pessoas: um rebelde político e um casal de refugiados por motivos não muito claros. Carlão adora o cinema tipo deboche. “Udigrudi” (rótulo de mau gosto) como o fazem Julio Bressane, Candeias, Sganzerla (e esta fita ele a realizou pensando na iconoclastia de “A Mulher de Todos”, dirigida pelo último).

O ator Olindo Dias faz o papel de Luc Mollet, na verdade nome de um crítico “nouvelle vague” que dirigiu um filme talvez afim, chamado “Les Contrabandiers”. A atriz Neide Ribeiro parece vulgarmente bonita na tela, mas suas colegas de elenco, Meyre Vieira e Zilda Mayo precisam urgentemente trocar seus clichês “sexy”, uma para papéis como o que Gloria Holden representou no longínquo (1936) “A Filha de Drácula” e outra mais numa linha cômica entre Charlotte (Pernalonga) Greenwood e Betty Garrett. O argentino Carlos Casan já foi ator de Torre-Nilsson, Fernando Ayala e do francês Charles Deray.”

*Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 14/01/77.

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O Paraíso Proibido

“Empenho narrativo do diretor-autor-iluminador Reichenbach, na mesma linha à William Witney ou Eugene Forde de seu participante “A Ilha dos Prazeres Proibidos”. Mas a rubrica Galante já acostumou e condicionou todo um tipo de exigência de público, já condicionou até as ilações dos títulos de suas produções. E a história e parte da colocação de elenco, talvez colidam com os retoques de fotografia e narração.”

*Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 18/10/81.

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Amor, Palavra Prostituta

“O cinema de Carlão Reichenbach, num filme que ele e seus colaboradores – Inácio Araujo, Eder Mazzini, Cláudio Cunha, o distribuidor e co-produtor da Brasil Internacional Cinematográfica Alfredo Cohen e parece que também o diretor Jean Garrett – quiseram tão diferente, que procuraram e propalaram bases e ilações no pensamento de Soren Kierkegaard. Isso tudo para contar a história num meio operário de causar espécie e narrar um caso de bitolamento e egoísmo. De certo modo, nada de espantar, pois que a maioria das fitas e a maioria das histórias é sobre os jogos da insensibilidade do mais forte ou mais ambicioso e “pragmático” sobre o sonhador, o boa fé, o desprevenido, o que tem a “divina loucura”. A censura, porém não apreciou muito o enfoque “não habitual” de Carlão, e foi igualmente insensível aos seus acertos, quanto ao corte de ouro de suas enquadrações, sua sem rebuços direção de atores, sua movimentação, ritmo interior e poder de sucessão de imagens. E o filme, anterior a “O Paraíso Proibido”, só foi liberado agora, e parece que não intacto. Patrícia Scalvi é a operária que estranhamente mantém um nefelibata com a catadura rasputinesca de Orlando Parolini. Mas este apesar da catadura a Eduardo Ciannelli & velho Lionel Stander e da cabeleira hippie, tem um lado bom, tão bom que até fez com que Carlão, naquela cena final da compreensão mútua entre Parolini e obrigatoriamente abortiva Alvamar Taddei, lembra em algo o do entendimento e aceitação final entre Monica Vitti e Gabriele Ferzetti no antonionesco “A Aventura”. Quanto a Roberto Miranda, que até então era apenas um ator de profissionalismo para as emergências da “Boca”, aqui marcou um tento: seu papel de empregado “Caxias”, de carreirista, de macho medíocre, de intelecto, deu-lhe uma linha, uma compostura inesperadas que o transformaram agora num intérprete de personalidade. E Patrícia Scalvi é a Margaret O’Brien crescida (no bom sentido), é a Shioban MacKenna, e a irlandesa ou escocesa convicção à Susan Hayward de sempre, mas continua precisando de um filme e um papel à sua medida e só para ela.”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 27/03/82.

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As Safadas

“Resultado de uma lei de obrigatoriedade mal formulada. Filme “rodado” simultaneamente em menos de uma semana, em três episódios e com três diretores (preferivelmente também autores fotógrafos, fazendo câmera ou cenografia e montagem), desimcumbindo-se fustigados da tarefa. As três histórias são obrigatoriamente eróticas, e o mais mencionável é a estréia na direção do montador Inácio Araujo. Na história de Carlão Reichenbach, Zilda Mayo é a “Vamp” dos fliperamas, explorada por um cafetão (Koppa, ótimo, e dando até sentido ao cartaz de publicidade). Na de Inácio, dois casais humildes em desencontro, apesar da ligação puramente física de um deles, acabam descobrindo a compreensão numa troca de parceiros. E na de Toninho Meliande, a amarfanhada Vanessa vai casar com moço quarentão, para poder comprar o enxoval, aconselhada por uma expert resolve ceder até certos limites a lubricidade de três ricos e maduros cavalheiros: Hingst, Dias e Pignatari.”

*Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 09/05/82.

Depoimento de Vanessa Goulart

Dossiê Carlos Reichenbach

Lembro-me do meu primeiro encontro com Carlão. Na época, eu morava no Rio e recebi um telefonema da diretora de casting dizendo que o Carlão queria me conhecer para um papel no filme Dois Córregos. Fui para São Paulo e o conheci – foi um encontro delicioso, o tempo passou correndo -, houve uma empatia muito grande, mas nenhum compromisso firmado. Voltei para o Rio e uma semana depois recebi o roteiro do filme com o convite formal para viver a Ana Paula – que alegria! Começava nesse momento uma parceria especial que se repetiu em Garotas do ABC. Carlão no set, com todo aquele tamanho, é de uma delicadeza só e passa um carinho paternal para todos da equipe. Os filmes do Carlão transmitem a sua alma em cada fotograma, são tão únicos e pessoais que caracterizam o puro cinema de autor. Espero dividir o set com ele muitas vezes, meu grande padrinho…

Vanessa Goulart é atriz, e trabalhou com Carlão em dois filmes, Dois Córregos e Garotas do ABC

Depoimento de Sérgio Alpendre

Dossiê Carlos Reichenbach

Generosidade é a principal característica de Carlão Reichenbach. É justamente o que faz com que o apelido Carlão seja bem apropriado. É um diretor e amante de cinema que não esconde suas jóias. O que ele descobre, todos que o lêem, conversam ou o escutam descobrem mais ou menos junto. Vendo seus filmes, temos uma ideia de suas últimas (re)descobertas. Por isso, seu cinema é tão especial. Mesmo nos filmes irregulares, sentimos uma pulsão, um desejo de fazer cinema que é raro de se perceber nos dias de hoje, com filmes totalmente formatados para circuito ou festivais. Com Carlão, teremos sempre a certeza de contar com uma obra que ignora barreiras e fórmulas.

Sérgio Alpendre é crítico de cinema e amigo de Carlão