Bens Confiscados

Dossiê Carlos Reichenbach

Bens Confiscados

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 2004.

Por Vlademir Lazo Correa

O diretor Carlos Reichenbach abre Bens Confiscados com um belíssimo plano, tendo edifícios, ao fundo, que mostram a figura elegante de uma mulher com a expressão melancólica, e intercala com rápidas passagens que ilustram prédios de uma grande metrópole, para, em um relance num movimento de câmera sinuoso e sutil, cortar do subjetivo para o objetivo, revelando a verdadeira condição da personagem naquele determinado momento: ela está parada na cobertura de um apartamento, contemplando o abismo lá de baixo, pronta para se jogar. É uma cena que dura poucos segundos, porém o suficiente para ilustrar o quanto Reichenbach preza o seu ofício, visto que muitos de nossos cineastas optariam por um modo mais prosaico e banal na decupagem dessa sequência (e certamente esticando-a para torná-la mais melodramática); no entanto, Reichenbach opta por uma solução visual mais inteligente, simples até, porém de uma concepção bastante elaborada e admirável para o que vai servir de estopim à história que pretende contar.

Há um pano de fundo político em Bens Confiscados, que serve de palco ao drama dos personagens, sem esmagar o interesse que essas figuras humanas despertam. O filme trata de situações que nossos políticos tendem a conservar como sempre atual: a corrupção, os escândalos e falcatruas de senadores, no caso um congressista que atende pelo nome de Américo Baldini (um personagem oculto à moda Rebecca, de Hitchcock, citado o tempo todo e propulsor de quase todos os acontecimentos, sem jamais aparecer em cena), denunciado pela ex-esposa (Beth Goulart) que torna pública as suas irregularidades no poder, em depoimentos com ares de comédia. O suicídio da amante do senador é que desencadeará os acontecimentos em torno do filho ilegítimo do político, que manda seqüestrá-lo para evitar que seja descoberto e usado pela grande mídia para denegrir ainda mais sua imagem pública, que começa a se desgastar. O adolescente é levado para uma chácara de uma cidade balneária nos confins do Rio Grande do Sul, onde deverá permanecer escondido, sob os cuidados de uma antiga amante do senador, a dedicada enfermeira Serena (Betty Faria), e os dois viverão por um tempo em contato apenas com o violento caseiro (Werner Schünemann) e a menina que o serve como esposa (Márcia Oliveira), em um recurso semelhante a outros filmes de Reichenbach, o de isolar os personagens num único local, e trabalhar a ação e o drama em torno dessa circunstância, dos conflitos que explodem desse convívio, e também o envolvimento e auto-descoberta nesse ritual de transformação e amadurecimento pelo qual passam a enfermeira, o rapaz e a esposa oprimida e submissa, que recusa o dinheiro que a personagem de Betty Faria lhe oferece para ir embora dali, encarando cheia de fatalismo um firmamento imenso com a resignação dos que acreditam que o que está escrito não pode ser modificado.

Por falar em cores, Bens Confiscados tem um trabalho de iluminação sem igual no cinema brasileiro recente, com inúmeras matizes de azul experimentadas pelo fotógrafo Jacob Solitrenick. Antes das filmagens, ele assistiu, sob recomendação do diretor, os clássicos Palavras ao Vento (de Douglas Sirk) e Martha (de R.W. Fassbinder), para que servissem de influência ao seu trabalho – que utiliza a cor como um elemento dos mais dramáticos, reforçando o fortíssimo tom melancólico e intimista ao mesmo tempo. Dessa forma, as paisagens frias do sul quase que são absorvidas pelo filme como um todo, seja na câmera ou na condução da narrativa e dos atores, especialmente de Betty Faria, que está fantástica num daqueles papéis femininos que Reichenbach é especialista em inventar, e numa entrega da atriz ao seu trabalho que chega a ser comovente.

Mas se o olhar de Reichenbach às suas figuras femininas é o de um mestre privilegiado, o mesmo nem sempre acontece com os personagens masculinos. Por vezes, eles arranham o brilho do filme, como o do zelador – que exagera em sua truculência a ponto de quase se tornar um estereótipo de violência -, ou mesmo o do filho do político (também prejudicado pela inexperiência do seu interprete), que raramente desperta a empatia do público, pouco convincente nas ocasiões em que tenta defender a esposa do caseiro. Se o filme seguinte de Reichenbach, Falsa Loura, é bem mais resolvido, um dos motivos é que, se a parte masculina também deixa a desejar, isso não interfere em nada, visto que Falsa Loura gira completamente em órbita de sua protagonista, na forma de como uma personagem pode se impor sobre todo um espaço e no ambiente a sua volta, ao contrário de Bens Confiscados, que depende muito dos personagens e atores masculinos.

O filme ganha um fôlego novo perto do final quando Serena e o adolescente se deslocam para um hotel à beira-mar, com momentos que realçam a solidão e fragilidade dos personagens. O romance que se insinua entre os dois não impressiona tanto, mas serve para acentuar as suas reflexões e suas angústias. Em particular, o beijo entre Serena e o rapaz deslumbra mais pela forma como é filmado, com fusões dos telhados. Não poderia deixar de ser citada outra sequência memorável nesse sentido, o quase ménage à trois no cais entre o adolescente e as duas pedagogas que o perseguem. A cena, noturna, dura poucos segundos e não mostra nada de nudez ou de sexo. Restringem-se a toques, gestos e carícias, o que torna a sequência mais bonita e nos impressiona pela delicadeza e pelos cortes suaves, em mais um exemplo brilhante de decupagem no cinema de Carlos Reichenbach.  

Ao final, todos os personagens de um modo ou de outro tomam o seu rumo e seguem os seus caminhos, permanece Serena, antes uma mulher resolvida e independente, agora com sua alma dilacerada e suas convicções estremecidas, num close implacável ao qual Reichenbach (um cineasta comumente generoso com os seus personagens, mas sobretudo fiel ao seu cinema) não foge ao dever de prolongar o máximo possível para encerrar a cadeia de eventos que, por fim, arruína as certezas de Serena que se dissolvem diante de nós.