Curtas em 35mm

Dossiê Carlos Reichenbach

Curtas em 35mm

Por Filipe Chamy

Sonhos de vida

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 1979.

Esse curta-metragem de Carlos Reichenbach é um despretensioso trabalho filmado em apenas dois dias, mas que nem por isso é uma obra inútil ou irrelevante; antes de mais nada, é uma espécie de resumo do que filmara até então, com uma evidente preocupação pelo destaque da figura feminina (uma das principais marcas do diretor) e pelo registro sem glamour de uma realidade que não busca exatamente combater ou denunciar, mas mostrar, com intenções narrativas de desenvolver os personagens, e não de tecer um comentário social para fins duvidosos ou inócuos. Em outras palavras, Sonhos de vida é um exercício de estilo.

É a história simples de duas moças mais simples ainda, que empreendem juntas uma viagem, de ônibus, para uma terra de águas. No caminho, impressões e vivências são compartilhadas e a relação entre elas cresce consideravelmente, de maneira bastante perceptível ao espectador. Antes de marcar um clichê, essa opção estrutural é uma maneira de cadenciar as mudanças das personagens e inserir os comentários do cineasta, sobre o amor, a vida, o cotidiano. O dia-a-dia está muito presente na sujeira do realismo retratado no curta. Também é possível observar a graça da figura feminina, que se impõe sempre sobre a masculina. Uma das tônicas, aliás, do cinema de Carlos Reichenbach, mesmo quando o diretor não faz declaradamente essa confissão.

De um lado, o cinema-esteta, dos planos bem fotografados, que interessava cada vez mais ao cineasta; de outro, o cinema-narração, prender o espectador, fazê-lo amar as pessoas que “pertencem” ao filme, motivá-lo a seguir seus dramas e a compreender suas ações. O humanismo é a chave desta pequena trama, e, como não poderia deixar de ser, as moças retratadas em Sonhos de vida não são tipos de caricatura ou marionetes vazias. São pessoas que têm aspirações, projetos, frustrações e alegrias.

O cinema captura e universaliza esses sentimentos de gente vizinha, emoções que são profundas na medida da grandeza da existência pequena, de “gente à toa”. Não as ignoremos.

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Olhar e sensação

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 1994.

Esse curta-metragem conceitual é uma das muitas declarações de amor de Carlos Reichenbach à cidade que o acolheu e que ele tanto ama, São Paulo. Paisagens, imagens um tanto distorcidas pelo deliberado desejo de homenagear a fase experimental de Jean-Luc Godard, a beleza pictórica do som; tudo no caldeirão entusiasmado do diretor, que brinca com o projeto que lhe foi confiado e realiza uma obra estranhamente autoral, como prova o eco de sua relação com seu pai, evocada por meio de uma fotografia em que aparece pequeno junto a ele.

Esse anseio a uma sinestesia cinematográfica é um plano antigo do cineasta, e neste pequeno espaço ele pode se abandonar à liberdade da experiência. É aquele tipo de trabalho de valor sentimental ao artista, e mesmo assim a paixão e o empenho são tamanhos que o espectador pode extrair prazer dessa sinceridade pulsante.

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Equilíbrio e graça

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 2002.

Outro curta conceitual de Reichenbach, feito a convite da Petrobrás, e que mais uma vez duela com o jogo de sentidos versus imagens. Música, luz, som, características que afloram no curta pela percepção do belo.

Também temos o encontro do pensamento ocidental com o oriental, choque de culturas do qual se extrai a reflexão. A nobreza do entendimento, da ponderação, da filosofia, tema sempre implícito nas obras do diretor, notadamente como uma referência irreverente, vide a empolgada groupie de Falsa loura, que desfila apenas de calcinha declamando passagens do Platão que tem nas mãos.

Porque para Reichenbach o equilíbrio e a graça não estão nas solenidades, burocracias e intelectualismos. A importância e grandeza das coisas está nesses pequenos momentos de indefinição, como neste filme.