Alma Corsária

Dossiê Carlos Reichenbach

Alma Corsária

Direção: Carlos Reichenbach

Brasil, 1993.

Por Gabriel Carneiro

Nos anos 90, Carlão se voltou a um passado não tão distante, resgatando memórias, amigos e personagens de sua história para compor um mosaico dos anos 60 e 70. Na abertura, Carlão já afirma que o longa-metragem havia sido baseado em pessoas queridas a eles – e vemos fotos de Orlando Parolini, Jairo Ferreira, Roberto Miranda, entre outros. São esses mesmos amigos que fazem pequenas aparições, em momentos esparsos, dando um tom genuinamente forasteiro ao filme, como se do inesperado nascesse a juvenilidade.

Alma Corsária, realizado em tempos pós-Collor, é um filme renovador na carreira de Reichenbach, seguindo uma verve política diferente. Impregnar seu longa-metragem de discursos filosóficos que poderiam ser subversivos à época da ditadura não tem mais sentido. Carlão, em Alma Corsária, volta-se a um cinema de memória, que já fora a tônica de Filme Demência – e é, por isso, pelo passeio pela história de um personagem em seus mais variados momentos e angústias, que Filme Demência me parece o precursor de Alma Corsária e de seu posterior Dois Córregos; são filmes que se coadunam na maneira de olhar a vida e o universo ao redor do personagem.

A trajetória de dois amigos, Xavier e Torres – inspirada na parecença de dois poetas, Cesário Verde e Augusto dos Anjos, que viveram em tempos e espaços diferentes -, é relatada a partir do lançamento de um livro conjunto, Sentimento Ocidental, na Pastelaria Espiritual. Revemos a história de ambos, com ênfase em Torres (numa incrível atuação de Bertrand Duarte). Adolescentes nos anos 50, um pobre, outro rico, no bairro do Jabaquara; a juventude e a rebeldia política dos anos 60, quando se descobrem homens e amantes. Em diferentes episódios, Reichenbach reverbera a juvenilidade do longa, mesmo quando, obscurecido por problemas de diferentes frontes, Torres tem de encarar o lado triste da vida.

A melancolia está no filme, uma melancolia pesarosa e caótica, mas que não por isso menos juvenil. Incorporando influências de um mundo bizarro, talvez até de Twin Peaks, do David Lynch (a anã que dança), mas sempre com momentos que perfazem o olhar contemplativo em suas mais diversas esferas – do suicida à virgem fogosa (interpretada pela então jurada de calouros, Flor). Os momentos que podem parecer desconexos ao andamento de Alma Corsária são os que mais justificam a mística, ao comporem um cenário complexo e delicioso, juntando um amontoado de diferentes pessoas no mesmo tempo-espaço. Vemos o amigo e colega Eduardo Aguilar (também assistente de direção e quem encorajou Carlão a realizar Alma Corsária) entregar um Oscar a Samuel Fuller, encarnado por Maurice Legeard, assim como Inácio Araujo num

restaurante chinês recitando versinhos. Mas a cena mais bonita do filme, fruto disso, é quando um negro vestido de carregador entra na Pastelaria, onde foi colocado um piano, senta-se e começa a tocar uma belíssima composição de Claude Debussy. A música nos leva a diferentes planos: um halterofilista que performa na frente do local; as memórias de Hong Kong e de Honolulu – filmagens em 16mm feitas pelo pai do cineasta.

O passeio da câmera nas memórias de China e de Verinha é o mesmo pela memória de Torres – uma forma de melhor conhecer os lugares por onde andou, em especial, São Paulo. As mulheres de sua vida são uma tendência a parte do Romantismo boêmio do personagem corsário: são poucas, mas cruciais e determinantes em sua existência. Por elas, nutre em especial carinho, mesmo que não haja relação amorosa entre eles. Desprende a mesma atenção para a prostituta Anésia, ao fingir-se noivo, a Eliana, ao abrigá-la – conhecendo a paixão -, ou a mulher misteriosa que visita sua mente de tempos em tempos, como se algo quisesse avisá-lo.

O papel da música e da dança no filme equivale a uma dessas mulheres para o cineasta, visto o mesmo cuidado ao construir tais cenas – a misteriosa mulher que baila com um pano amarelo só reforça a imagem enigmática e apaixonante da personagem. É ela que fechará o ciclo do filme, ao finalmente se comunicar com Torres.

A anarquia das situações, e os personagens inusitados, conferem ao longa-metragem um balanço perfeito entre a melancolia da morte que ronda todo o filme e a juventude viva presente em todas as cenas – como se a crença na amizade transformasse o olhar ao passado.