Chico Viola não Morreu

Especial Wilza Carla

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Chico Viola Não Morreu
Direção: Román Viñoly Barreto
Brasil/Argentina, 1955.

Por Gabriel Carneiro

Rei da Voz. Francisco Alves. Chico Viola. Todos esses nomes identificam uma pessoa, um cantor magistral que encantou o público nos anos 30 e 40, com sua potente voz e suas canções de amor, saudade e desilusão. Morto em 1952, ganhou uma cinebiografia pouco tempo depois, em 1955, pela Atlântida, que queria capitalizar em cima desse ícone da música, falecido precocemente num acidente de carro na via Dutra quando voltava de um show em São Paulo, aos 54 anos.

Filme de estrutura clássica, narrada a partir de um grande flashback – Chico Viola, no carro, relembra toda sua vida -, já acerta no título. Chico Viola talvez seja o nome mais íntimo e menos pomposo que o cantor recebeu, mais ligado às suas raízes – e é o que Chico Viola Não Morreu pretende, trazer de forma bastante humanizada o cantor, usando de todos os recursos que a ficção possibilita (assim como todos os clichês também). Afinal, Chico Viola, o ídolo, também é uma pessoa passível de problemas – vemos seu pai o reprimindo porque quer cantar, sua aventura pelo circo, sua passagem por várias funções profissionais, seus amores e desamores, sua descoberta num boteco de madrugada e, enfim, seu sucesso. Mas o sucesso, a priori, é o que menos importa. Todos conhecem seu sucesso, todos conhecem o Rei da Voz, todos conhecem Francisco Alves. Conheciam, ao menos, em 1955. O grande triunfo está aí, em trazer esse repertório desconhecido do público – e não importa minimamente que não seja o que realmente aconteceu. O Homem que Matou o Facínora, de John Ford, só foi realizado em 1962, mas seu principal ensinamento, já vinha sendo usado, de maneira até instintiva, muito antes. Entre a realidade e a lenda, publique-se a lenda: Chico Viola Não Morreu; ele permanece vivo através de suas músicas, ou algo do gênero – aliás, vale notar que Chico Viola não morreu muito antes que Elvis.

Com roteiro de Gilda de Abreu – que havia emplacado um dos maiores sucessos do cinema brasileiro dez anos antes, com o também musical O Ébrio, com Vicente Celestino -, Chico Viola Não Morreu traz grande elenco: Cyll Farney como Chico Viola, Eva Wilma como Maria das Trancinhas versão adulta, Wilson Grey como Maneco, Heloísa Helena como cigana e Wilza Carla em começo de carreira, esbelta, num físico muito diferente do qual ficou conhecida.

É claro, não se deve esperar uma grande obra-prima do filme. Não foi feito para isso. Mas dentro do que se propõe, o diretor argentino Román Viñoly Barreto consegue fazer um bom filme clássico, com muito menos problemas que esses dramas musicais tinham na época – e cito aqui novamente O Ébrio -, a começar pela duração (85 minutos), e sabendo bem o tom a usar. A se ver.

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Com as Calças na Mão

Especial Wilza Carla

 

Com as Calças na Mão
Direção: Carlo Mossy
Brasil, 1975. 

Por Leo Pyrata
 

Em tempos de trevas cômicas onde o cinema brasileiro tem como representantes tranqueiras constrangedoras como Cilada.com e De pernas pro ar, a possibilidade de ter acesso através do Canal Brasil e da internet a filmes como Com as calças na mão é um privilégio. Dizem que todo pessimista costuma ser um apologista do passado, mas creio que não se trata de pessimismo e sim um desejo de que nosso cinema consiga voltar a lidar com a própria sexualidade sem soar reacionário, pudico e recalcado.

Com as calças na mão, de Carlo Mossy, começa pelo final com o personagem Reg (interpretado por Mossy) sendo levado amarrado numa maca para sua castração. Um grupo de mulheres acompanha a maca até a porta do centro cirúrgico. Na sala de operação, Reg apaga anestesiado e entramos em seu universo num momento anterior à crise do hospital. Não por acaso, somos transportados para outro momento crítico para Reg, que foge pela janela de um flagrante de Chinfrólio , marido de Onestalda .Estamos no maravilhoso mundo da pornochanchada e temos a comédia erótica brasileira num momento bastante inspirado.

Reg é o macho alfa cujas peripécias acompanhamos por diversos episódios. Dono na firma “Tem Tudo,” que sofre com a gagueira da secrétária e com a constante ausência de seus funcionários. O que leva Reg a delegar para si mesmo as entregas dos mais diversos produtos oferecidos por sua empresa. Logo percebemos que essa prontidão é levada por Reg ao pé da letra.

A proposta do cinema popular existente no Com as calças na mão aposta no humor picante e tempera suas situações deixando que a insinuação do erotismo transite elegante. Existe uma intenção clara de demarcar esse universo com os tons “sa-ca-nas” para que os personagens existam ali, criando um pacto tácito com o espectador. Afinal , como Mossy mesmo bem diz em um depoimento disponível no youtube dado nos bastidores do filme A Volta do Regresso, de Marcelo Valletta: “Todo brasileiro é pornochanchadeiro de nascimento”.

O meio encontrado pelo filme opera numa linguagem visual bem próxima dos quadrinhos, possibilitando o uso hiperbólico de todo um acúmulo de clichês e estereótipos bricolados de forma bastante potente no roteiro, propiciando a exploração antropofágica da narrativa. Assim, temos o farsesco a serviço do espetáculo cinematográfico .

Fazendo uso do duplo sentido e criando imagens onde a comédia física, o uso de gags cartunescas e um elenco caricato reforçam a liga produzida pela decupagem e pela escolha acertadíssima de grandes nomes do elenco como Wilson Grey, Zezé Macedo, Hugo Bidet, Henriqueta Brieba, Jorge Dória, Tião Macalé, Adele Fàtima,Lady Francisco, Wilza Carla e muitos outros.

Como esquecer Wilza Carla de enfermeira dublada de forma bastante sugestiva com um timbre sussurrado de garota indefesa contrastando com suas curvas de musa de Botero?A cena da aula de tênis erótico trás a lembrança do plano em que Jura Otero baila sobre a cidade em Bang Bang, de Andrea Tonacci.

Outro ponto sensacional do filme é a maneira bem resolvida com que os patrocinadores e apoiadores do filme são inseridos no roteiro, assim como a forma quase cínica com que seus produtos são apresentados. Com as calças na mão não é apenas um clássico da Pornochanchada, mas também um grande filme de cinema brasileiro. Um filme que soube fazer da história do tesão incontrolável de um homem um espetáculo engenhoso e divertido.

Depoimento: Castor Guerra

Dossiê Toni Cardi

Depoimento de Castor Guerra
 

O início da minha carreira artística foi como figurante. Não tenho nenhuma vergonha em falar isso. Meu primeiro longa-metragem foi Um Pistoleiro Chamado Caviúna, junto com o Tony Vieira. Depois, eu fiz Gringo, o Último Matador e comecei a freqüentar a Rua do Triunfo, que era o centro da produção cinematográfica.

Nisso, eu fui fazer figuração num filme do Mazzaropi, chamado O Grande Xerife. Eu ganhei um cachê de coadjuvante, quando na verdade eu fazia figuração. Fiquei 22 dias na fazenda em Taubaté com toda a equipe. No primeiro dia que eu cheguei, ninguém falava comigo. Eu era um inteiro desconhecido e também só conhecia o Mazzaropi. Mas eu ia me sentar na mesa com ele?

Essa passagem que eu vou te falar sobre o Toni Cardi, eu gostaria de falar olhando nos olhos dele. Ele foi uma das primeiras pessoas a conversar comigo e me perguntou qual seria a minha função naquela produção. “Vou fazer figuração”, respondi. “Legal. Escuta, você vai pra Tremembé com a gente?”. Puxa, eu nem sabia que existia essa cidade. Depois do jantar, uma kombi levou a gente pra dar um passeio em Tremembé. Me lembro que estava tendo uma festa ou uma espécie de quermesse lá. Nós ficamos andando juntos e olhando as moças.

O Toni Cardi foi a primeira pessoa a me respeitar como figurante. Ele me ensinou isso. Eu nunca imaginei que um ator do porte dele pudesse ter uma atitude como aquela. Na época, ele já era uma estrela, um grande nome. Nunca vou me esquecer desse episódio que vivi com ele.

 

Castor Guerra é ator. Trabalhou com Toni Cardi em O Grande Xerife (1972).

Depoimento: Virgilio Roveda

Dossiê Toni Cardi

Depoimento de Virgílio Roveda

Conheci o Toni Cardi em 1966, quando eu trabalhava numa produção do Raffaele Rossi. A gente foi filmar um documentário sobre um restaurante da região de Piracicaba. De São Paulo, fomos eu, Ewerton de Castro e Roberto Leme. Todos em começo de carreira. Desde o início, percebi que o Toni era um cara bem intencionado. Mas, infelizmente, o Rossi não tinha estrutura para dirigir aquele trabalho. O documentário acabou não acontecendo.

O Toni cuidava dessa parte de produção e deu a cara para bater. Me lembro dele sempre ser um cara muito batalhador. Durante muitos anos, freqüentamos a Boca juntos e ele militou na TV Tupi também. O Toni fez filmes com vários realizadores, lembro que algumas coisas com o Ary Fernandes e mesmo com o José Mojica Marins. Inclusive, estivemos juntos no A Virgem e o Machão.  Poxa, esse filme foi realizado em São Sebastião. Diz no letreiro que eu era assistente de câmera, mas eu fui assistente de tudo, inclusive fiz alguma coisa de produção, trabalhei como um camelo.

Me lembro que o Toni Cardi tinha aquelas preocupações típicas de ator. Ainda mais ele, que sempre foi galã. Mas ele não se restringia a isso. Ele tinha um espírito solidário com todos da equipe, sempre foi uma pessoa de bom caráter e bastante empenhado no campo de filmagem. Posso falar isso porque tivemos alguns trabalhos juntos.

Também trabalhos juntos no Meu Nome É Tonho, em que ele não fez corpo mole. Nossa estrutura nesse filme era o mínimo, tanto em equipamento, câmera e negativo. Mesmo assim, conseguimos ganhar vários prêmios pelo trabalho de gente como o Peter Overbeck na fotografia e o Luiz Elias na montagem. Esse filme foi realizado em 1969, na região onde tinha sido feito O Cangaceiro, do Lima Barreto, exatos quinze anos antes.

O elenco masculino era numeroso: Toni Cardi, Zé Ferreira, Allan Fontaine, Cláudio Viana. Esse Cláudio Viana era um carioca meio folgado. Mas folgado no bom sentido, no fundo era um sarrista. Ele se deu muito bem com o Toni e eles aprontaram algumas juntos.

Os dois aprontaram várias para cima do Allan Fontaine. Porque o cara dizia que era um baita cavaleiro e na realidade nem sabia subir em cima de um cavalo. O Fontaine também dizia que era o maior gatilho e não sabia segurar uma arma. O Candeias não gostou disso. Tanto que se você ver o filme, percebe que o Allan não usa calça e sim uma espécie de quiripá. Ele estava reclamando do personagem dele e o Candeias disse: “Poxa, já que você está reclamando vou deixar o seu personagem sem calças”. Teve uma tomada em que ele caiu cinco vezes do cavalo. Esse filme teve várias coisas divertidas. Mas foi um trabalho importante. Tanto que durante as filmagens, choveu muito. Mas nós conseguimos contornar todas essas dificuldades e fizemos o trabalho rapidamente.

O Toni Cardi era um excelente cavaleiro, sabia andar de cavalo com a maior facilidade. Posso dizer que a relação dele com o Candeias foi muito boa, nunca tiveram uma discussão. O nome dele é Irineu Travaglini, mas ficou conhecido pelo pessoal do cinema como Toni Cardi. Grande sujeito.

 

Virgílio Roveda é diretor de fotografia, assistente de direção e diretor de produção. Trabalhou com Toni Cardi em Meu Nome É Tonho (1969), O Grande Xerife (1972) e A Virgem e o Machão (1974).

 

Expediente

EDITOR-CHEFE: Adilson Marcelino 

EDITOR DOSSIÊ TONI CARDI: Matheus Trunk 

CONSELHO EDITORIAL: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Gabriel Carneiro, Matheus Trunk e Vlademir Lazo Correa 

REDATORES: Adilson Marcelino, Ailton Monteiro, Andrea Ormond, Daniel Salomão Roque, Diniz Gonçalves Júnior, Edu Jancz, Filipe Chamy, Gabriel Carneiro, Marcelo Carrard, Matheus Trunk, Sergio Andrade e Vlademir Lazo Correa. 

REDATORES CONVIDADOS: Leonardo “Leo Radd” Freitas, Leo Pyrata, Rodrigo Pereira.

CONVIDADOS ESPECIAIS: Carlos Miranda, Castor Guerra, José Lopes, Virgílio Roveda.  

CONTATO: revistazingu@gmail.com 

Adilson Marcelino tem paixão pelo cinema nacional em geral e acredita piamente na máxima atribuída a Paulo Emílio Salles Gomes, de que o pior filme brasileiro nos diz mais que o melhor estrangeiro. Chamado por um grupo de jornalistas como o Super Adilson do Cinema Brasileiro, é graduado em Letras e em Jornalismo. Trabalha com cinema desde 1991: foi bilheteiro, gerente, assessor de imprensa, programador, redator e apresentador de programa de rádio. É pesquisador, editor do site Mulheres do Cinema Brasileiro – premiado com o troféu Quepe do Comodoro, outorgado pelo Carlão Reichenbach -, e do blog Insensatez. É o atual Editor-Chefe da Zingu! 

Ailton Monteiro é mestrando em Letras-Literatura pela Universidade Federal do Ceará. Mantém desde 2002 o blog Diário de um Cinéfilo, um espaço muito querido (pelo menos por parte de seu realizador) e agraciado com o Quepe do Comodoro. Tem um gosto tão diversificado por cinema que quer ver a maior quantidade possível de filmes que o seu tempo de vida puder lhe proporcionar. Contribui eventualmente para os sites Scoretrack e Pipoca Moderna. Também tem forte interesse por literatura, religião (em seu sentido mais amplo) e rock’n’roll. 

Andrea Ormond, pesquisadora e crítica de cinema, mantém desde 2005 o blog Estranho Encontro  (http://estranhoencontro.blogspot.com), inteiramente dedicado à revisão crítica do cinema brasileiro. Escreve na revista Cinética, além de integrar o conselho editorial da revista Zingu!. Colaborações publicadas nas revistas Filme Cultura e Rolling Stone, dentre outros veículos. 

Daniel Salomão Roque possui um gosto cinematográfico bipolar, oscilante entre Jacques Tati e Jörg Buttgereit. Afeito a filmes dos mais diversos tempos, recantos e tendências, ele tem, contudo, um carinho especial pelo film noir e suas derivações, pelas fitas B estadunidenses dos anos 50/60 e pelo cinematografia popular latino-americana. Adepto de Samuel Fuller, acredita que o cinema é um campo de batalha e também uma área de garimpo: o prazer da descoberta anda lado a lado com os extremos da emoção. Ele já fez curadoria de cineclubes em parceria com a Prefeitura de Osasco, colaborou com a finada Revista Zero, manteve uma coluna sobre quadrinhos nos primórdios da Zingu! e hoje estuda História na Universidade de São Paulo. 

Diniz Gonçalves Júnior é paulistano e poeta. Tem trabalhos publicados na Cult, no Suplemento Literário de Minas Gerais, naArtéria, na Nóisgrande, na Sígnica, em O Casulo, na Zunái, na Germina, na Paradoxo, no Mnemocine, no Jornal de Poesia, na Freakpedia, e no Weblivros. Autor do livro Decalques (2008). 

Edu Jancz (pseudônimo de José Edward Janczukowicz) é jornalista diplomado, formado em Cinema pela FAAP e pelas críticas de Rubem Biáfora, Carlos M. Motta e Alfredo Sternheim (no Estadão). Gosta de cinema. Sem nenhum preconceito. Nenhum pré-conceito. Vê todos os filmes – dos faroestes italianos (dos quais é grande fã) aos clássicos mais e menos conceituados. Sua lista dos 100 melhores filmes do mundo nunca empata com a crítica “acadêmica”. Cobriu para a revista Big Man Internacional o período explícito da Boca do Lixo: desde Coisas Eróticas até o fim de sua atividade. Acredita que a Boca do Lixo – com sua vasta produção  de cinema brasileiro (sem dinheiro da Embrafilme) –  merece um resgate digno, sempre relegado pela “grande e preconceituosa imprensa”.

Filipe Chamy é geralmente descrito pelas pessoas que convivem com ele como sendo um idiota; mas é muito mais do que simplesmente isso. Fundamentalmente, é um apreciador de coisas belas, mesmo quando elas são feias. Groucho-marxista convicto, nunca fala sério — mesmo que pensem o contrário —, e tem ojeriza a autoridades (e alergia a poderosos). Tenta viver a filosofia “Hakuna Matata”, mas acaba se preocupando mais do que deveria. É escritor frustrado, músico falido e apaixonado consumidor de arte. 

Gabriel Carneiro é um pretenso jornalista e crítico de cinema, mais pretenso ainda pesquisador. Formado em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, o que gosta mesmo é de assistir filmes e ponderar sobre eles. Como iniciação científica, pesquisou a filmografia de Guilherme de Almeida Prado. Já escreveu no portal Cinema com Rapadura, e manteve por três anos e meio o blog Os Intocáveis. Rascunhou em alguns outros lugares. Atualmente, também escreve no Cinequanon e na Revista de CINEMA. Adora resmungar, e adora as feminices das mulheres que o rodeiam – é fato, a falta da simples presença feminina o deixa deprimido. A cada dia sua admiração por filmes de baixo orçamento aumenta – tanto que fez um TCC sobre a ficção científica de 1950-64 e planeja fazer um filme de terror. Foi editor-chefe da Zingu! entre maio de 2009 e dezembro de 2010. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial da revista. 

Marcelo Carrard é jornalista e crítico de cinema. Autor da tese de mestrado: O Cozinheiro, O Ladrão, Sua mulher e o Amante – Peter Greenaway e Os Caminhos da Fábula Neobarroca, colaborou no livro O Cinema da Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90, organizado pela pesquisadora Lúcia Nagib. Nesse livro, foi o responsável pelas entrevistas com os diretores José Joffily, Silvio Back e Neville de Almeida. Doutorado em cinema pela Unicamp. Grande conhecedor de cinema oriental, europeu e mesmo brasileiro, ministra cursos e workshops. Manteve o blog Mondo Paura, premiado no troféu Quepe do Comodoro. Carrard é também crítico do site Boca do Inferno, o maior em português dedicado ao Cinema Fantástico. Muito sincero e honesto, o que lhe causa grandes problemas frente os pseudointelectuais de esquerda que pensam que escrevem na “Cahiers du Cinema”. Assina a coluna Cinema Extremo, dedicado a filmes feitos fora da linguagem comum. 

Matheus Trunk é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi editor-chefe da Zingu! entre outubro de 2006 e abril de 2009. Trabalhou na revista Transporte Mundial, no jornal Nippo-Brasil e no jornal Metro ABC. Atualmente é assessor de imprensa. Fanático por cinema brasileiro, música popular e pela Sociedade Esportiva Palmeiras, é editor do blog Violão, Sardinha e Pão. 

Sergio Andrade é bibliotecário e cinéfilo dos mais atuantes. É fã de cinema extremo, mas também de grandes diretores. Em matéria de cinema brasileiro também é grande entendido, sendo fã de carteirinha do saudoso crítico Rubem Biáfora. Mantém uma relação de amor com a Cinemateca Brasileira, por ter trabalhado lá nos arquivos da entidade. Mantém os blogs Kinocrazy e Indicação do Biáfora. 

Vlademir Lazo Correa é gaúcho de nascimento e tem como única qualidade inquestionável nessa vida o fato de ser torcedor fanático do Sport Club Internacional, de Porto Alegre. Escritor sem obra e atleta cujo único esporte é o jogo de xadrez, é apaixonado por antiguidades das mais diversas, dedicando-se a colecionar discos de vinil que ninguém mais quer e livros velhos de sebos empoeirados que quase ninguém lê. Desde que se conhece por gente aprecia o cinema em suas mais diferentes formas, vertentes e direções ao ponto de estar se convertendo em um museu de imagens e só prestar nesse mundo para assistir filmes e, ocasionalmente, escrever sobre eles. Foi colunista do site Armadilha Poética e mantém (só não sabe até quando) o blog O Olhar Implícito. 

 

Filmografia

Dossiê Toni Cardi

Filmografia

1978- O Vigilante Rodoviário de Ary Fernandes
1976- Os Trombadinhas de Anselmo Duarte
1974- Até a Última Bala de Luigi Picchi
1974- A Virgem e o Machão de José Mojica Marins
1974- Pedro Canhoto, o Vingador Sexual de Rafaelle Rossi
1973 – A Noiva da Noite de Lenita Perroy
1973- Sob o Domínio do Sexo de Tony Vieira
1972- Os Irmãos sem Coragem de Antonio B. Thomé
1972 – O Grande Xerife de Amácio Mazzaropi e Pio Zamuner
1972- Nua e Atrevida de Flávio Ribeiro Nogueira
1972- Águias de Fogo de Ary Fernandes
1971- Fora das Grades de Astolfo Araújo
1971- O Homem Lobo de Raffaele Rossi
1970- Até o Último Mercenário de Ary Fernandes e Penna Filho
1969- Uma Pistola Para Djeca de Amácio Mazzaropi e Pio Zamuner
1969- Águias em Patrulha de Ary Fernandes
1969- Meu Nome é Tonho de Ozualdo Candeias
1968- No Paraiso das Solteironas de Amácio Mazzaropi e Pio Zamuner 
1968- Panca de Valente de Luiz Sérgio Person
1968- O Estranho Mundo de Zé do Caixão de José Mojica Marins
1968- O Jeca e a Freira de Amácio Mazzaropi

Filmografia

Especial Wilza Carla

Filmografia

Chico Viola Não Morreu, 1955, de Román Viñoly Barreto
Leonora dos Sete Mares, 155, de Carlos Hugo Christensen
Trabalhou Bem , Genival, 1955, de Luiz de Barros
Genival é de Morte, 1956, de Aloísio T. de Carvalho
Tem Boi na Linha, 1947, de Aloísio T. de Carvalho
Minha Sogra é da Polícia, 1958, de Aluísio T. de Carvalho
As Aventuras de Chico Valente, 1968, de Ronaldo Lupo
O Rei da Pliantragem, 1968, de Jacy Campos
Palmeiras Negras (Svarta Palmkronor) , 1968, de Lars-Magnus Lindgren
O Impossível Acontece – segmento O Reimplante, 1969, de Anselmo Duarte
Macunaíma, 1969, de Joaquim Pedro de Andrade
Os Herdeiros, 1970, de Carlos Diegues
Ipanema Toda Nua, 1971, de Libero Miguel
Os Monstros de Babaloo, 1971, de Elyseu Visconti
Pra Quem Fica, Tchau, 1971, de Reginaldo Faria
Mais ou menos Virgem, 1973, de Mozael Silveira
Salva-se quem Puder, 1973, J.B. Tanko
Ainda Agarro Esta Vizinha, 1974, de Pedro Carlos Róvai
As Loucuras de um Sedutor, 1975, de Alcino Diniz
Um Soutien para Papai, 1975, de Carlos Alberto de Souza Barros
Com as Calças na Mão, 1975, de Carlo Mossy
A Ilha das Cangaceiras Virgens (1976), de Roberto Mauro
Socorro! Eu não Quero Morrer Virgem, 1976, de Roberto Mauro
O Vampiro de Copacabana, 1976, de Xavier de Oliveira
Guerra Conjugal, 1976, de Joaquim Pedro de Andrade
As Massagistas Profissionais, 1976, de Carlo Mossy
Costinha e o King Mong, 1977, de Alcino Diniz
As Eróticas Profissionais, 1977, de Mozael Silveira
Será que Ela Aguenta?, 1977, de Roberto Mauro
Seu Florindo e suas Duas Mulheres, 1978, de Mozael Silveira
Loucuras… O Bumbum de Ouro, 1979, de Carlos Imperial
Os Pastores da Noite, 1979, de Marcel Camus
Sexo às Avesas, 1982, de Fauzi Mansur
O Rei da Boca, 1982, de Clery Cunha
O Menino Arco-Íris, 1983, de Ricardo Bandeira
Põe Devagar… Benm Devagarinho, 1983, de Tony Rabatoni
Vai-e-vem à Brasileira, 1983, de Manoel Carlos Simeão da Silva
Os Campeões, 1983, de Carlos Coimbra
Bacanal na Ilha da Fantasia, 1984, deHércules Breseghelo
Mulher de Proveta, 1984, de José Rady
Clube do Sexo, 1984, de Rubem Rey
Padre Pedro e a Revolta das Crianças, 1984, de Francisco Cavalcanti
Made in Brazil – segmento Fim de Semana Impossível, 1985, de Carlos Nascimbeni
Prisioner of Rio, 1985, de Lech Majewski

Os Monstros de Babaloo

Especial Wilza Carla

Os Monstros de Babaloo
Direção: Elyseu Visconti
Brasil, 1970. 

Por Sérgio Andrade
 

Um dos mais representativos exemplares do Cinema Marginal, Os Monstros de Babaloo foi interditado pela censura do regime militar provavelmente pelo modo pouco lisonjeiro com que retrata uma certa elite brasileira. Os monstros são os membros de uma família disfuncional que vive num palacete na fictícia ilha de Babaloo: o pai, o mega-empresário Dr. Badu, dono de fábricas de banana, jiló e sardinha, parece um elo perdido da evolução humana (Badu); a mãe, Madame de Bouganville, é obesa e tirana (Wilza Carla); o filho, Pudim, é meio mongo e gay; e a tia Babá uma velhinha de incríveis pernas tortas (Dona Yolanda), aos quais vem se juntar a filha mais velha, a única que aparenta alguma normalidade (Helena Ignês). Em torno deles circulam a empregada Frinéia (a impagável Zezé Macedo), o motorista japonês Tapioca (Kasuo Kon) e o chefe de polícia negro. 

A família vive isolada do mundo, alheia às notícias que vêm pelo rádio informando que o povo está tentando saquear e queimar suas propriedades aos gritos de “morte aos Babaloo” e “a ilha é nossa”. Dr. Badu apenas recomenda ao chefe da polícia que baixe a repressão no povo. 

A única preocupação deles é consumir. Comprar, comer, trepar. A Madame tem um caso com galã de bang-bang à italiana, enquanto o marido enfileira várias e jovens amantes: a manicure e duas “modelos e atrizes” (as então gatíssimas Betty Faria e Tânia Scher); o filho é seduzido por dois caras e a filha dá pro japa. 

Totalmente sem noção, esse pessoal só pensa em comprar coisas caras e inúteis, dar do bom e melhor pros amantes e exaltar seu ufanismo (numa cena eles cantam o hino da seleção de futebol de 70: noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração…), legítimos filhos do “milagre econômico” que são. 

Quando seu contador lhe mostra números preocupantes sobre as dívidas das empresas, mostrando que 2 + 2 = 4, Badu responde categoricamente: “Não, 2 e 2 é 22!”. Com a chegada da falência, laços familiares e equilíbrio psicológico entram em colapso, levando a desagregação e a morte. No final, apenas quem se dá bem é a filha de aparência normal, mas na verdade ardilosa e gananciosa. Os outros membros da família, apesar da aparência grotesca, até provocam nossa simpatia pela caricatura de uma classe dominante alienada, preocupada apenas com seu bem-estar, mas sem ver maldade nisso. Como já disse alguém, as crianças adoram os monstros. 

Elyseu Visconti Cavalleiro, gravador e desenhista de formação, ao mesmo tempo em que cria cenas de puro trash, também sabe mostrar, como o Visconti italiano, a decadência de forma elegante, realçada pela fotografia de Renato Laclete, com uma pitada de Pasolini.  Reunindo um elenco de veteranos da chanchada, como Badu e Zezé (que tem um antológico número musical) e revelações recentes como Helena, Betty e Tânia ao lado de iniciantes e amadores, seu filme torna-se um regalo para o olhar. 

E boa parte disso deve-se a impressionante interpretação de Wilza Carla. Com uma cabeleira leonina, vestindo figurinos de Helio Eichbauer, sua Madame de Bouganville é a voracidade em pessoa, devorando latas de sardinha e marmelada, investindo contra a frágil Frineia, implicando com o filho, rolando na cama com o amante, exigindo que o marido compre, compre, compre e no final até matando, tudo com a classe de uma verdadeira dama da sociedade. 

Os Herdeiros

Especial Wilza Carla

Os Herdeiros
Direção: Carlos Diegues
Brasil, 1969.

Por Vlademir Lazo

Muitas das críticas mais exageradas (e algumas injustas) que se faz ao Cinema Novo brasileiro são perfeitamente aplicáveis a Os Herdeiros. Difícil demarcar quando, de fato, termina o movimento, mas existe quase um consenso de que ele não sobrevive muito tempo depois do AI-5, em dezembro de 1968. Depois ainda surgiriam alguns belos rebentos com O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e Macunaíma (concebidos nesse período), mas a pá de cal foi com o desastre artístico de Os Herdeiros. Com o AI-5 tornava-se impossível falar do país mais abertamente e com liberdade, e o resultado foi uma alegoria que não vai pra direção alguma como Os Herdeiros.

Por outro lado, todos que acompanham cinema brasileiro há certo tempo sabem que Carlos Diegues nunca foi bem-sucedido numa veia mais autoral. Seus melhores filmes foram realizados na segunda metade da década de setenta, quando soube lidar melhor com suas experiências e visão de cinema, de resto ele foi um dos tantos realizadores nacionais e estrangeiros que primeiro começam no cinema de arte e depois caem no pior comercialismo. Não seria exagero dizer que os seus filmes no Cinema Novo na década de 1960 foram os que dentre o movimento pior envelheceram  com o tempo.

Em Os Herdeiros, ele tenta dar conta de uma tarefa impossível àquela altura: falar do Brasil num passado recente e contemporâneo, compondo um painél da nação no século XX, adotando primeiro, por cerca de uma hora, uma estrutura bastante rígida, com capítulos curtos que sintetizam a nossa História dos anos 30 aos 50. O filme abre na fazenda de São Martinho, às vésperas da Revolução de 1930, em torno das oligarquias prestes a perderem alguns dos seus privilégios, e pula décadas e quinquênios passando pelo Estado Novo e suas torturas, o final da Segunda Guerra e a deposição de Getúlio Vargas, o retorno ao poder e posterior suicidio do presidente, etc. O núcleo dramático é uma família arruinada de plantadores de café, os Almeida, com a qual se alia Jorge Ramos (Sergio Cardoso), um jornalista ambicioso que se casa por interesse com a herdeira do clã, e após a redemocratização do país em 1945, instala-se na metrópole e se torna um político poderoso passando a perna em amigos e correligionários.

Durante quase toda essa primeira hora (o filme inteiro tem 95 minutos), Os Herdeiros beira a historiografia pura enquanto mostra a ascenção de Jorge Ramos. Não há cena ou diálogo que não esteja ali para ilustrar o seu respectivo momento histórico. Não fosse a suntuosidade da produção (a cenografia e o figurinos foram premiados), muitos de seus momentos poderiam passar como uma aula do Telecurso. Um épico didático-histórico com grande elenco: além de Cardoso, Mario Lago (como o patriarca dos Almeida), Odete Lara (com direito a um número musical, ela que gravou um disco excepcional com Vinicius de Moraes), Paulo Porto, Isabel Ribeiro, Luiz Linhares, Grande Otelo (como o lider de uma manifestação pela renúncia de Vargas e anos depois chora por sua morte), Hugo Carvana, Anecy Rocha, entre outros. Até estrelas internacionais surgem em cena: Jeanne Moreau aparece numa ponta (quatro anos depois ela protagonizaria um dos piores filmes de Diegues, o infeliz Joanna Francesa) e até Jean-Pierre Léaud (o ator fetiche da Nouvelle Vague), o qual suas aparições em Os Herdeiros causam constrangimentos. A homenageada do especial desta edição da Zingu!, Wilza Carla, aparece num breve momento, ao lado de um jovem Daniel Filho como hóspedes gringos numa refeição no Copacabana Palace nos anos 40.

Carlos Diegues talvez houvesse realizado um trabalho mais memorável se tivesse o amparo de um romance de qualidade como base para Os Herdeiros. Ao invés disso, preferiu ele próprio conceber um roteiro original para o seu filme, perdendo em substância e profundidade. Pode-se não ter paciência ou reclamar de alegorias como Terra em Transe ou A Idade da Terra, mas estes são puro cinema de invenção e radicais experiências de linguagem, enquanto que Os Herdeirose, em grande parte do tempo, ressente-se de ser quadradinho demais (e sem um inconformismo político de outros filmes brasileiros da época,  como o próprio Terra em Transe e O Desafio). Em determinadas sequências o filme mais parece uma minissérie de TV bem-cuidada com pano de fundo histórico.

Nos últimos trinta e cinco minutos, o filme se passa na década de 60 (a partir da fundação de Brasília), quando ao ter que falar de um período tão próximo da época de sua realização, Os Herdeiros se assume como alegoria pura, difusa e tropicalista, entre retornos a Fazenda de São Martinho e as lutas pelo poder em Brasília e no Rio de Janeiro, em meio ao advento da televisão. O conflito dramático dessa vez é entre Jorge Ramos e seu filho, o qual espera tornar o seu herdeiro, mas que se volta contra ele como vingança por suas vítimas, aliando-se aos militares e traindo o pai. Grande parte do filme é musicado por Villa-Lobos e canções populares, o que inclui a participação em cena de intérpretes como Dalva Oliveira, Nara Leão, Bob Nelson e um jovem Caetano Veloso.

Exibido na Quinzena de Realizadores em Cannes e no Festival de Veneza,  Os Herdeiros pode ser considerado um elefante branco do cinema brasileiro. Na época, Carlos Diegues, em entrevista para a Cahiers Du Cinèma, decretaria que o Cinema Novo morrera. Seu filme então seria o atestado de óbito.

O Rei da Boca

Especial Wilza Carla

O Rei da Boca
Direção: Clery Cunha
Brasil, 1982.

Por Ailton Monteiro
 

Roberto Bomfim é um ator que funciona perfeitamente para fazer tipos rudes, brutos. Um de seus papéis mais memoráveis no cinema foi o do sequestrador Mil e Uma, do drama Terror e Êxtase (1979), de Antônio Calmon. Ele é a coluna de sustentação de O Rei da Boca (1982), de Clery Cunha. Bonfim interpreta Pedrão, um sujeito que saiu da roça para se tornar o maior traficante e gigolô da Boca do Lixo em São Paulo. O filme já começa com o final, com o personagem sendo preso pela polícia e recebendo gargalhadas escarnecedoras da cafetina vivida por Wilza Carla, em pequeno, mas marcante papel. 

Desta cena, o filme volta no tempo e nos mostra a trajetória de Pedrão, de quando ele conhece dois homens que estão procurando a sorte à cata de pedras preciosas. Depois de meses sem encontrar nada, ele consegue achar uma pedra bem valiosa e por causa dela sofre torturas, tanto do patrão quanto da polícia. Mas sempre negando a acusação de ter escondido a pedra. Depois de apanhar da polícia e de pegar a pedra de volta, mata o colega traidor e o patrão e foge para São Paulo, depois de ter vendido a pedra por menos do que ela valia. Mal chegando na “selva de pedra”, ele se envolve logo numa discussão besta num bar e vai parar na cadeia, quando conhece um traficante de maconha. Como não tem o que fazer e não sabe ler nem escrever, aceita a oportunidade de se tornar vendedor da erva. Aos poucos, ele vai crescendo, a ponto de ter várias bocas e dominar muitos prostíbulos da região.

O filme tem uma essência bem marginal, com fotografia despojada, muito palavrão, sexo pago e corrupção por todos os lados. No entanto, Pedrão, apesar de tudo, não é um personagem a provocar o ódio da audiência, por piores que sejam os seus atos. Afinal, se todo o sistema é corrupto, incluindo advogados, delegados e policiais, não fica tão difícil assim seguir o personagem em sua trajetória sem julgá-lo. O que há de admirável nele é sua força e coragem. O que há de reprovável fica por conta da moral de cada espectador.  No grande elenco coadjuvante, destaque para Zaira Bueno, no papel de Valeska, uma stripper que se envolve com a gangue de Pedrão e contribui com dois dos melhores momentos do filme.