O Rei da Boca

Especial Wilza Carla

O Rei da Boca
Direção: Clery Cunha
Brasil, 1982.

Por Ailton Monteiro
 

Roberto Bomfim é um ator que funciona perfeitamente para fazer tipos rudes, brutos. Um de seus papéis mais memoráveis no cinema foi o do sequestrador Mil e Uma, do drama Terror e Êxtase (1979), de Antônio Calmon. Ele é a coluna de sustentação de O Rei da Boca (1982), de Clery Cunha. Bonfim interpreta Pedrão, um sujeito que saiu da roça para se tornar o maior traficante e gigolô da Boca do Lixo em São Paulo. O filme já começa com o final, com o personagem sendo preso pela polícia e recebendo gargalhadas escarnecedoras da cafetina vivida por Wilza Carla, em pequeno, mas marcante papel. 

Desta cena, o filme volta no tempo e nos mostra a trajetória de Pedrão, de quando ele conhece dois homens que estão procurando a sorte à cata de pedras preciosas. Depois de meses sem encontrar nada, ele consegue achar uma pedra bem valiosa e por causa dela sofre torturas, tanto do patrão quanto da polícia. Mas sempre negando a acusação de ter escondido a pedra. Depois de apanhar da polícia e de pegar a pedra de volta, mata o colega traidor e o patrão e foge para São Paulo, depois de ter vendido a pedra por menos do que ela valia. Mal chegando na “selva de pedra”, ele se envolve logo numa discussão besta num bar e vai parar na cadeia, quando conhece um traficante de maconha. Como não tem o que fazer e não sabe ler nem escrever, aceita a oportunidade de se tornar vendedor da erva. Aos poucos, ele vai crescendo, a ponto de ter várias bocas e dominar muitos prostíbulos da região.

O filme tem uma essência bem marginal, com fotografia despojada, muito palavrão, sexo pago e corrupção por todos os lados. No entanto, Pedrão, apesar de tudo, não é um personagem a provocar o ódio da audiência, por piores que sejam os seus atos. Afinal, se todo o sistema é corrupto, incluindo advogados, delegados e policiais, não fica tão difícil assim seguir o personagem em sua trajetória sem julgá-lo. O que há de admirável nele é sua força e coragem. O que há de reprovável fica por conta da moral de cada espectador.  No grande elenco coadjuvante, destaque para Zaira Bueno, no papel de Valeska, uma stripper que se envolve com a gangue de Pedrão e contribui com dois dos melhores momentos do filme.

 

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