Os Monstros de Babaloo

Especial Wilza Carla

Os Monstros de Babaloo
Direção: Elyseu Visconti
Brasil, 1970. 

Por Sérgio Andrade
 

Um dos mais representativos exemplares do Cinema Marginal, Os Monstros de Babaloo foi interditado pela censura do regime militar provavelmente pelo modo pouco lisonjeiro com que retrata uma certa elite brasileira. Os monstros são os membros de uma família disfuncional que vive num palacete na fictícia ilha de Babaloo: o pai, o mega-empresário Dr. Badu, dono de fábricas de banana, jiló e sardinha, parece um elo perdido da evolução humana (Badu); a mãe, Madame de Bouganville, é obesa e tirana (Wilza Carla); o filho, Pudim, é meio mongo e gay; e a tia Babá uma velhinha de incríveis pernas tortas (Dona Yolanda), aos quais vem se juntar a filha mais velha, a única que aparenta alguma normalidade (Helena Ignês). Em torno deles circulam a empregada Frinéia (a impagável Zezé Macedo), o motorista japonês Tapioca (Kasuo Kon) e o chefe de polícia negro. 

A família vive isolada do mundo, alheia às notícias que vêm pelo rádio informando que o povo está tentando saquear e queimar suas propriedades aos gritos de “morte aos Babaloo” e “a ilha é nossa”. Dr. Badu apenas recomenda ao chefe da polícia que baixe a repressão no povo. 

A única preocupação deles é consumir. Comprar, comer, trepar. A Madame tem um caso com galã de bang-bang à italiana, enquanto o marido enfileira várias e jovens amantes: a manicure e duas “modelos e atrizes” (as então gatíssimas Betty Faria e Tânia Scher); o filho é seduzido por dois caras e a filha dá pro japa. 

Totalmente sem noção, esse pessoal só pensa em comprar coisas caras e inúteis, dar do bom e melhor pros amantes e exaltar seu ufanismo (numa cena eles cantam o hino da seleção de futebol de 70: noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração…), legítimos filhos do “milagre econômico” que são. 

Quando seu contador lhe mostra números preocupantes sobre as dívidas das empresas, mostrando que 2 + 2 = 4, Badu responde categoricamente: “Não, 2 e 2 é 22!”. Com a chegada da falência, laços familiares e equilíbrio psicológico entram em colapso, levando a desagregação e a morte. No final, apenas quem se dá bem é a filha de aparência normal, mas na verdade ardilosa e gananciosa. Os outros membros da família, apesar da aparência grotesca, até provocam nossa simpatia pela caricatura de uma classe dominante alienada, preocupada apenas com seu bem-estar, mas sem ver maldade nisso. Como já disse alguém, as crianças adoram os monstros. 

Elyseu Visconti Cavalleiro, gravador e desenhista de formação, ao mesmo tempo em que cria cenas de puro trash, também sabe mostrar, como o Visconti italiano, a decadência de forma elegante, realçada pela fotografia de Renato Laclete, com uma pitada de Pasolini.  Reunindo um elenco de veteranos da chanchada, como Badu e Zezé (que tem um antológico número musical) e revelações recentes como Helena, Betty e Tânia ao lado de iniciantes e amadores, seu filme torna-se um regalo para o olhar. 

E boa parte disso deve-se a impressionante interpretação de Wilza Carla. Com uma cabeleira leonina, vestindo figurinos de Helio Eichbauer, sua Madame de Bouganville é a voracidade em pessoa, devorando latas de sardinha e marmelada, investindo contra a frágil Frineia, implicando com o filho, rolando na cama com o amante, exigindo que o marido compre, compre, compre e no final até matando, tudo com a classe de uma verdadeira dama da sociedade. 

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