Com as Calças na Mão

Especial Wilza Carla

 

Com as Calças na Mão
Direção: Carlo Mossy
Brasil, 1975. 

Por Leo Pyrata
 

Em tempos de trevas cômicas onde o cinema brasileiro tem como representantes tranqueiras constrangedoras como Cilada.com e De pernas pro ar, a possibilidade de ter acesso através do Canal Brasil e da internet a filmes como Com as calças na mão é um privilégio. Dizem que todo pessimista costuma ser um apologista do passado, mas creio que não se trata de pessimismo e sim um desejo de que nosso cinema consiga voltar a lidar com a própria sexualidade sem soar reacionário, pudico e recalcado.

Com as calças na mão, de Carlo Mossy, começa pelo final com o personagem Reg (interpretado por Mossy) sendo levado amarrado numa maca para sua castração. Um grupo de mulheres acompanha a maca até a porta do centro cirúrgico. Na sala de operação, Reg apaga anestesiado e entramos em seu universo num momento anterior à crise do hospital. Não por acaso, somos transportados para outro momento crítico para Reg, que foge pela janela de um flagrante de Chinfrólio , marido de Onestalda .Estamos no maravilhoso mundo da pornochanchada e temos a comédia erótica brasileira num momento bastante inspirado.

Reg é o macho alfa cujas peripécias acompanhamos por diversos episódios. Dono na firma “Tem Tudo,” que sofre com a gagueira da secrétária e com a constante ausência de seus funcionários. O que leva Reg a delegar para si mesmo as entregas dos mais diversos produtos oferecidos por sua empresa. Logo percebemos que essa prontidão é levada por Reg ao pé da letra.

A proposta do cinema popular existente no Com as calças na mão aposta no humor picante e tempera suas situações deixando que a insinuação do erotismo transite elegante. Existe uma intenção clara de demarcar esse universo com os tons “sa-ca-nas” para que os personagens existam ali, criando um pacto tácito com o espectador. Afinal , como Mossy mesmo bem diz em um depoimento disponível no youtube dado nos bastidores do filme A Volta do Regresso, de Marcelo Valletta: “Todo brasileiro é pornochanchadeiro de nascimento”.

O meio encontrado pelo filme opera numa linguagem visual bem próxima dos quadrinhos, possibilitando o uso hiperbólico de todo um acúmulo de clichês e estereótipos bricolados de forma bastante potente no roteiro, propiciando a exploração antropofágica da narrativa. Assim, temos o farsesco a serviço do espetáculo cinematográfico .

Fazendo uso do duplo sentido e criando imagens onde a comédia física, o uso de gags cartunescas e um elenco caricato reforçam a liga produzida pela decupagem e pela escolha acertadíssima de grandes nomes do elenco como Wilson Grey, Zezé Macedo, Hugo Bidet, Henriqueta Brieba, Jorge Dória, Tião Macalé, Adele Fàtima,Lady Francisco, Wilza Carla e muitos outros.

Como esquecer Wilza Carla de enfermeira dublada de forma bastante sugestiva com um timbre sussurrado de garota indefesa contrastando com suas curvas de musa de Botero?A cena da aula de tênis erótico trás a lembrança do plano em que Jura Otero baila sobre a cidade em Bang Bang, de Andrea Tonacci.

Outro ponto sensacional do filme é a maneira bem resolvida com que os patrocinadores e apoiadores do filme são inseridos no roteiro, assim como a forma quase cínica com que seus produtos são apresentados. Com as calças na mão não é apenas um clássico da Pornochanchada, mas também um grande filme de cinema brasileiro. Um filme que soube fazer da história do tesão incontrolável de um homem um espetáculo engenhoso e divertido.

Anúncios