Filme Demência

Dossiê Inácio Araújo

Filme Demência
Direação: Carlos Reichenbach
Co-roteiro, co-diálogos: Inácio Araújo
Brasil, 1986.

Por Filipe Chamy

Alice no País das Maravilhas é icônico, entre outras razões, porque é uma leitura fascinante de qualquer maneira que seja feita: ou tendo tudo como verdade, real, acontecido daquele jeito narrado por Lewis Carroll, ou sendo tudo símbolos, representações, enigmas, jogos. Filme demência também é uma obra cuja chave pode estar em sua decodificação, mas que impressiona também por seus choques de sentidos. Ou seja: no final das contas, as coisas valem por elas mesmas, e, ainda que não entendamos suas reais dimensões, suas características estão todas lá para serem notadas, conscientemente ou não.

Num dos primeiros minutos do filme de Carlos Reichenbach, a mulher com quem o protagonista está diz a ele, após ser acordada por um delírio de representação: “Fausto, enlouquecer não adianta”. Uma de tantas cenas que podem explicar ou não o filme, essa passagem vem bem a mostrar o grande conflito que permeia o filme: o fantástico e o mundano. A todo instante, Fausto tenta não ser literal, mas o mundo cotidiano o esmaga, com suas percepções brutas. Então é comum vermos Fausto com o olhar perdido, incapaz de reagir, solto num mundo de alegorias, fantasmas, visões. E da mesma maneira é cada vez mais gritante e violenta a rejeição que as personagens fazem a essas idiossincrasias.

O hoje crítico “em tempo integral” Inácio Araújo e o próprio diretor Carlos Reichenbach assinam a história do filme. Então quando dois cinéfilos se juntam, é fácil perceber as referências, sutis ou não, a filmes e artistas que eles admiram ou por quem foram influenciados. Alguns exemplos: o expositor chamado E. V. Stroheim, os pôsteres de filmes de Fuller (ídolo dos dois roteiristas) e outros cineastas, certas cenas burlescas ou trágicas ou engraçadas que fazem menção à obra de mil diretores ou dramaturgos ou o que seja, pois aqui realmente se passeia com desenvoltura de poesia à política, passando pelo cinema e outras formas de expressão.

Então nessa miscelânea talvez pareça fácil se perder, mas o único perdido, entre a ideia e a imagem, é o protagonista, feito com grande intensidade por Ênio Gonçalves. É ele que não saberá que sonho seguir (ou perseguir), que se deterá ante o real, desabando sem forças quando ninguém o ampara em seus confrontos lúcidos com seus tormentos íntimos, que entenderá afinal que a pior insanidade é a da intranquilidade consigo mesmo.

Trata-se de uma jornada de reparação ou de descoberta? De desilusão ou de serenidade? Ao longo de sua jornada, Fausto (o nome, outra referência) deparar-se-á com os mais estranhos tipos: uma moça libidinosa, um fumante inveterado, uma velha caronista. Mas serão todas essas pessoas avatares de Mefisto, o estranho ser sem gênero interpretado com força e presença por Emílio Di Biasi? Novamente retomamos o estribilho: não importa saber a verdade. Porque a verdade de Filme demência é a verdade do cinema, é o que está e não está na tela, não é uma questão de interpretação e sim de observação.

De qualquer modo, segue Fausto em sua busca. O filme tem uma galeria de personagens bizarros que podem ser vistos como distorções dos caracteres de seu protagonista: temos o amigo malandro que no fundo é medroso — uma constante na vida de Fausto é não saber se impor —, o homem que procura cigarros na fábrica fechada — a fábrica de Fausto, negócio que tinha e no qual fracassou, talvez se ele retirar os cigarros dali ele retire sua indignidade —, a moça que gosta dele e que ele julga provavelmente muito simplória. E, evidentemente, temos a paradisíaca paisagem que ele tenta achar (o que espera encontrar lá?) e a menina que o segue como uma lembrança de morte. Mas e se a morte para ele é vida? Nessa gama de onirismo culpado e caos da sociedade contemporânea, Fausto acha enfim seu rumo em seus próprios medos.

Aleluia Gretchen

Dossiê Inácio Araújo

Aleluia, Gretchen
Direção: Sylvio Black
Montagem: Inácio Araújo
Brasil, 1976.

Por Filipe Chamy

Se em um filme sobre o relacionamento romântico-amoroso de um casal uma cena onde a esposa trai o marido é colocada logo no início, o espectador certamente ficará contra ela. Pensará: “essa mulher não presta”, “por que ela faz isso com o marido?”, “espero que ele se vingue”. Se pouco tempo depois o marido é mostrado traindo a esposa, o espectador sente-se recompensado. Bradará: “tomou, vagabunda”. Mesmo que, no filme, o sujeito não desconfie nem minimamente do comportamento da esposa, o espectador sente como se de alguma maneira ele tivesse essa ciência e sua traição tenha sido apenas em resposta a isso, uma pura consequência da infidelidade de sua parceira. Quer dizer: ele traiu porque quis, mas se a mulher traiu antes, ele tem esse direito.

Por que esse prólogo? Imaginem agora o contrário: o filme lá pelo meio e o marido trai a inocente esposa. Depois é mostrada uma cena onde ela trai seu parceiro conjugal. E então? Quem a condenará? Todos passarão a apoiá-la, pois agora quem foi traído?

O filme escrito e dirigido, a montagem passa a ser um problema diegético, referente à própria lógica narrativa que o filme deseja expressar. Nos exemplos dados acima, a ordem dos planos é capital para a compreensão da história, e se ela for ineficaz, abrupta ou incoerente, o filme não flui com sua devida cadência, codifica erradamente as mensagens-símbolo visuais do cineasta, compromete o desempenho do filme, portanto.

O montador deste Aleluia, Gretchen é Inácio Araújo, e, como crítico e cinéfilo (conhecedor de Hitchcock, Fuller, Hawks), entende que esse princípio deve ser observado e trabalhado com certo respeito inerente mesmo a essas funções anônimas que estruturam o filme.

Mas Aleluia, Gretchen tem uma falha inerente a sua própria essência: o filme dirigido por Sylvio Black tem por base a instalação do pensamento nazista em uma realidade exo-européia, ou seja, fora da Alemanha, o germe do neo-nazismo. Então quando a realidade dos fatos (mesmo que ficcionalizados) obriga o filme a seguir uma determinada cartilha cronológica, a montagem ressente-se um pouco dessa prisão — como de resto ressente-se o filme por apresentar-se como uma obra onde os personagens são esmagados por sua visão na História; paradoxalmente, os simpatizantes do fascismo encontram em filmes assim uma unidade de pensamento com seus colegas de massificação que mais assemelha seu comportamento ao comunismo: todos iguais, todos juntos. E quando essas criações falam tanto de Hitler, Segunda Guerra, patriotismo e ideais, tudo isso soa tão ridículo e artificial que elas viram caricatura, ou pior, perdem-se no discurso. Sabemos que existiram tipos assim, mas o realismo de suas construções não impede sua impertinência cinematográfica. É tedioso comprovar que quando as personagens se envolvem nos tais eventos históricos, a História mata suas vidas: e elas ficam apáticas, desérticas, uniformes, sem qualquer distinção, e suas ações não interessam pois servem apenas de peça a uma máquina que, elaborada sem paixão pelo diretor Sylvio Black, resume seu funcionamento a diálogos batidos sobre o engano da juventude hitlerista, ou à exposição do inconformismo dos imigrantes expulsos de seus países e pensamentos, ou a um final esquemático onde a alegria brasileira acaba servindo de mote a uma forçada confraternização dos povos. Prende-se o público-alvo com cordas falsas de comprometimento, enfim.

Filme interessante mas pouco maduro, agradável mas não memorável, sabotado por suas próprias armadilhas, Aleluia, Gretchen é, mais que um retrato de uma geração, um pequeno fotograma do cinema brasileiro, caso de montagem mais eficiente que a direção, e, para retomar o exemplo do começo, uma traição desordenada e por isso sem torcida.

O Jeca Macumbeiro

Dossiê Inácio Araújo

O Jeca Macumbeiro
Direção: Amácio Mazzaropi e Pio Zamuner
Montagem: Inácio Araújo
Brasil, 1974

Por Leando Caraça

O caboclo Pirola (Mazzaripi) recebe a visita de compadre Nhonhô, sem esperar que isso fosse complicar tanto a sua vidinha. O velho amigo, já sentido a morte se aproximar, deixa como presente para Pirola, um saco cheio de dinheiro. Nhonhô juntou a bufunfa para quando fosse casar, só que agora já é tarde demais. “Deus dá o saco, mas o diabo leva embora toda a farinha”, lembra Pirola ao pobre companheiro. Com medo de guardar a dinheirama em casa, o matuto deixa a fortuna aos cuidados do Coronel Januário (Joffre Soares), o manda-chuva local e também sogro de Pirola.

Completamente falido, Januário e sua esposa tentam de todos as formas desfazer o casamento de seu filho Mário (Ivan lima) com Filomena (Selma Egrei), a filha de Pirola. A intenção deles é que Mário se case com Ester (Maria do Roccio), a filha do maior credor do coronel. Para dar um basta na situação, Januário decide pegar para si a fortuna de Pirola.

Sem ter a quem pedir ajuda, já que é a sua palavra contra a do Coronel, Pirola resolve confrontar o seu inimigo no campo de batalha dele. Acontece que Januário, supostamente, também é pai-de-santo e costuma realizar sessões espíritas em sua residência – a farsa ajuda e muito a manter a população de local assustada e bem quieta. Pois é em uma dessas atividades mediúnicas, que Pirola vai encorporar (só de mentira) a entidade do Caboclo Chupa-Roia e dar sentido ao título do filme. O assunto será resolvido de fato, quando Mário descobrir a verdade por trás dos fatos e ajudar Filomena e seu pai.

O Jeca Macumbeiro foi a maior bilheteria da carreira de Amácio Mazzaropi, vendendo mais ingressos no Brasil do que diversos blockbusters americanos da época (como Inferno na Torre e Tubarão). Mazzaropi provou novamente que possuía um grande tino comercial ao juntar a figura do matuto com temas religiosos e sobrenaturais. Não é a toa que as produções posteriores do ator-cineasta também iam nessa onda (O Jeca Contra o Capeta, Jecão… Um Fofoqueiro no Céu, O Jeca e a Égua Milagrosa).

Leandro Caraça é pesquisador de cinema de gênero. Colabora com o blog O Dia da Fúria e mantém o blog Viver e Morrer no Cinema.

O Fotógrafo

Dossiê Inácio Araújo

O Fotógrafo
Direção: Jean Garret
Co-argumento, Co-roteiro: Inácio Araújo
Brasil, 1981

Por Leo Cunha

Jean Garrett terminou sua carreira cinematográfica em meados da década de 80, dirigindo filmes assumidamente pornôs, como Entra e sai e Fuk Fuk à Brasileira, mas preferiu assiná-los como J.A. Nunes (seu sobrenome verdadeiro, por sinal). Poucos anos antes, porém, em filmes como O fotógrafo, seu cinema estava mais para Walter Hugo Khouri do que para Tony Mel (pseudônimo assumido por Antonio Meliande para assinar seus filmes de sexo explícito).

O fotógrafo é um filme com ambições psicológicas e sociais, direção elegante, fotografia de cuidado artesanal. No que diz respeito ao apuro dos enquadramentos e da mise-en-scène em geral, os méritos cabem ao próprio Garrett, que, aliás, começou sua carreira como fotógrafo. No que se refere à trama, porém, o crédito deve ser compartilhado com Inácio Araújo, com quem assinou o roteiro.

O fotógrafo do título é Dênis, um sujeito com grande talento para editoriais de moda e ensaios sensuais. Ele vive praticamente fechado em sua casa/estúdio, clicando (e muitas vezes seduzindo) beldades nuas, mas sonha sair deste enclausuramento (físico, profissional e moral) fotografando o que está do lado de fora da janela. Principalmente uma linda vizinha (interpretada por Aldine Muller), por quem se encanta.

Porém, quando finalmente se aproxima da vizinha, Dênis vê ameaçada sua autoconfiança, tanto de conquistador quanto de grande profissional. A moça, que estuda sociologia da USP, despeja sobre ele um punhado de conceitos e categorias marxistas, decretando que ele é um escravo da burguesia e que seu trabalho é algo banal e alienado. “Essas fotos capciosas têm um valor sociologicamente nulo. Além do mais, a mulher é coisificada e o corpo transformado em mercadoria (…) Você é explorado duas vezes: o patrão que tira a mais valia e as mulheres que te usam de escada para atingir um falso estrelato.” A estudante garante (e Dênis acredita) que quer aprender fotografia com intuitos muito mais “nobres”: registrar a miséria e a injustiça que estão ao seu redor: “No caminho entre a faculdade e a minha casa, a gente vê tanta miséria, que é impossível ficar indiferente. Isso deve ser documentado.”

É difícil não enxergar um aspecto metalinguístico nesta trama, se a cotejamos com a trajetória do próprio Garrett (e alguns colegas da Boca do Lixo), sujeitos ao dilema entre fazer arte “culta”, ou “respeitável” e obras de apelo sensual, popular, comercial, etc. Por outro lado, o filme deixa transparecer uma ironia com relação ao discurso pronto e amarrado da estudante. Assim, O fotógrafo mantém uma ambiguidade, sem jamais cair no tom “demonstrativo” (para usar um termo recorrente nas críticas cinematográficas de Inácio) ou no “mensageirismo” – para tomar emprestado o termo usado pelo crítico (do veículo) rival, Luiz Carlos Merten.

O fotógrafo sai-se muito melhor do que seu protagonista, que vê sua frustração se materializar numa grande brochada em sua primeira (e única) oportunidade diante da musa nua, e em seguida, para completar, vê-se descartado como um homem-objeto, por Patrícia, a assistente a quem considerava uma tola eternamente apaixonada e submissa. Apesar da voz monocórdica (ou talvez por causa dela), Roberto Miranda consegue criar um protagonista fascinante, com um lado cafajeste e um lado artista sonhador, um lado arrogante e um lado inseguro.

Como bem argumentou Andrea Ormond, em seu blog Estranho Encontro, este filme (e outros de Garrett) se distanciam da visão pretensamente machista que se costuma atribuir, de forma generalizada, ao cinema da Boca do Lixo. Segundo Ormond, Garrett “demonstrava perspectiva bastante original a respeito do batido tema da tensão entre os sexos”. Na mesma linha de argumentação, Alessandro Gamo, em sua tese de doutorado, Vozes da boca (Unicamp, 2006), salienta que Garrett “tenta mudar a abordagem moral da Boca, com dois filmes que representam a sexualidade por um viés feminino, em Mulher, mulher e A mulher que inventou o amor, além do intimista O fotógrafo.”

Vale ressaltar, enfim, alguns achados narrativos do filme. Em várias cenas, Dênis, sozinho, narra suas conversas com a estudante, dizendo tanto suas falas quanto as dela, enquanto a imagem mostra apenas fotografias que ele tirou da musa. O recurso é intrigante, gerando no espectador a dúvida: será que estamos testemunhando um diálogo que se passa na imaginação de Dênis, em seu desejo? Será uma conversa futura, a lembrança de uma conversa já ocorrida, ou um pouco de cada?

A destacar também as diversas metáforas fálicas, tanto visuais quanto verbais, que se espalham pelo filme. Uma das mais divertidas aparece na cena em que Dênis está fotografando um casal de modelos, ela novata e ele gay. Percebendo que o rapaz não demonstra suficiente tesão em cena, Dênis fustiga: “Vamos, Marcos, enlace ela com mais vigor, com mais vontade”. Depois, quando percebe que o rapaz não se empolga mesmo, o fotógrafo apela para a ironia e, fingindo que está apenas dirigindo a foto, dispara: “levanta o cachimbo, Marcos!” Apenas um detalhe, é claro, mas bem adequado a um filme que não se leva tão a sério e que, no fundo, desconfia de quem o faz.

Leo Cunha é professor de cinema, escritor e integrante da revista Filmes Polvo.

O Guru e os Guris

Dossiê Inácio Araújo

Os Gurus e os Guris
Direção: Jairo Ferreira
Montagem: Inácio Araújo
Brasil, 1972

Por Cid Nader

Falar de Jairo Ferreira é lembrar do que houve de melhor na maneira de observação e destrinchamento crítico o suficientemente profundo para alcançar as entranhas do cinema nacional. Com O Guru e os Guris, mesmo sem saber ou imaginar que o padrão de comportamento dos personagens (reais, ou à semelhança mais próxima da verdade) representaria por corpos e mentes, com o passar dos anos, sua própria figura e a de seus admiradores – ele virou o guru de um amontoado de guris fanáticos pelo sabor das entranhas que sempre buscou colocar à mostra, e à degustação -, Jairo apontou de maneira direta para tudo que viria a se confirmar: com a redescoberta (ou atenção devida) do verdadeiro cinema tupiniquim que deveria interessar, e pelo surgimento de uma crítica que entenderia de verdade os âmagos da arte – mesmo que numa escala não tão grande. No filme, o que ele pensava é colocado em prática de maneira radical, e com raríssima importância de alcance.

Filme (experimentação, documentário?) fragmentado, onde o guru Maurice Legeard (responsável pela Cinemateca de Santos) vocifera, anda pela cidade, sobe de bondinho até a igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat para, literalmente, queimar o filme (e de quebra, um projetor), encerrando a peregrinação reclamatória numa mesa de boteco (com cervejas, como usa ser praxe entre os do mundo da cinefilia), ante observadores guris discípulos barbudos: como se estrangeiros intelectuais fossem. A fragmentação, que era palavra de ordem no cinema marginal (alvo de atenção e adoração do crítico-poeta-cineasta), se faz totalmente intrometida no modo de montagem do trabalho, e evidencia as maneiras de enxergar nosso cinema, e os jeitos de cobrar atenção, de quem seguia tendências ditadas (desde barbas intelectuais como as dos guris, até a admiração brotada pelas coisas de Walter Disney) pelas opiniões e modismos vindos de fora.

No filme, Maurice louva o cinema nacional de todas as maneiras, e Jairo imprime seu modo de concordar com o discurso messiânico que indicava a necessidade de se entender a importância de uma cinematografia que era díspar (“nossa cultura é forte pela diferença entre nossos cineastas”), tanto quanto autêntica. Se fala que produzíamos cem filmes, para que somente dez ou quinze iriam às telonas; há o excesso na tinta da voz de um Pato Donald criando sonoridade agressiva enquanto é cobrada a anuência (subserviência) ao Walt Disney já citado; coloca-se em dúvida aclamados gênios do cinema (porque estrangeiros) para criar potência em favor dos nossos, desmerecidos pela maioria; se pinta a catástrofe para nossa produção, mas de modo inflamado e nada conformado.

Tal modelo de fragmentação adotado permite que costuras de imagens, sons, falta de som, músicas, ganhem autenticidade pelas mãos de Inácio Araújo (montador, ali, crítico dos mais importantes, agora), além de exigir atenção ao que é bela e “bondosamente” sugerido. Mas, muito longe de parecer peça que “somente” coloca dados importantes, aqui e ali, há a evidente noção de continuidade (melhor: de condução do fluxo), orientada pelo discurso oral (mesmo que messiânico na forma de expressão) – forma-se pelas palavras um fio condutor do grande “resto todo”.

O Gurus e os Guris foi seu primeiro curta-metragem (de uma série de seis), filmado em 35mm, e que constituiu parte de algo genial e único denominado como “Cinema de Invenção”. Um início que faz perceber o quanto o “falar” dele ( e o seu escrever) não era tudo que poderia oferecer; juntando-se ao cinema que o crítico-poeta realizou, em espocares que surgiam como confirmações visuais do que ditava em textos e palavras, era obra que, aglutinada, compunha um todo que berrava, como de nenhuma outra parte se notara antes, contra as normalidades e as acomodações.

Cid Nader é jornalista, editor , redator, crítico do site Cinequanon.

Uma Aula de Sanfona

Dossiê Inácio Araujo

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Uma Aula de Sanfona
(Ep. de As Safadas)
Direção, Argumento, Roteiro, Montagem: Inácio Araújo
Brasil, 1982.

Por Gabriel Carneiro

Único filme dirigido por Inácio Araujo, já no início da decadência da Boca do Lixo enquanto pólo produtor, Uma Aula de Sanfona, segundo episódio do longa As Safadas – que ainda conta com episódios de Carlos Reichenbach e Antonio Meliande -, é um ótimo exemplo da produção barata de qualidade da Boca. Nele, Sandra Graffi é uma moça que se subjuga às vontades de um mulherengo e se irrita profundamente com um gordo que toca sanfona (literalmente), vivido por um excelente Cláudio Mamberti. Porém, buscando provocar ciúmes, ela acaba se envolvendo até demais com o gordo.

aula_de_sanfonaSó a premissa já vale o interesse nesse média. Aliás, nessa época de abertura da censura – o filme de sexo explícito já dava as caras por aqui -, para manter o interesse do público (mas não só), surgiram muitos filmes interessantes a lidar com fetiches e afins. Caso desse Uma Aula de Sanfona, que não é bem um fetiche dentro do filme, mas pode muito bem ser fora; caso de, por exemplo, O Uso Prático dos Pés, episódio de As Taras de Todos Nós, de Guilherme de Almeida Prado, que trata do fetiche por pés.

A força do filme está justamente na construção e caracterização dos personagens: Graffi como uma exibida mesquinha, sem respeito pelos outros, e Mamberti como o gordo acanhado, que não sabe se portar frente às mulheres. A operação de inversão nessa história que dá o apelo cômico, mas apenas graças às situações banais a que os personagens são submetidos, em especial Mamberti. Em determinada cena, o gordo é chamado para consertar o chuveiro da moça, sendo apresentada pela amiga. O desconforto dele é tão grande, que só reforça o espectro vitimizado de seu personagem, meramente por ser gordo.

A dualidade entre o sexualmente aceitável é a tônica da graça do filme: o gordo e a gostosa. Dela, surge toda a graça do filme, ainda mais com a subsequente virada. Porém, o final talvez se exceda, numa vontade muito grande de radicalizar a conclusão da história. Ao término, a sensação que fica é que o filme foi feito por uma feminista de carteirinha, já que a ideia é que um homem é pior que o outro – há sempre um monstro por baixo da ternura, ou algo assim. Não que fosse a ideia de Inácio, claro, mas o que fica é que a personagem feminina é uma eterna vítima do comportamento masculino – ainda que ela contribua em parte para essa característica.

Noves fora, Uma Aula de Sanfona adentra com sutileza no rol das grandes comédias eróticas feitas na Boca do Lixo, em muito pela conjunção do ousado (tematicamente) com o gênero.

Carta ao Leitor

O domínio da síntese não é para qualquer um. Ainda mais quando o objeto é cinema, que abre janelas e mais janelas para tráfego generoso de reflexão e de compreensão. Poucos conseguem dizer o que parece essencial em pouquíssimas linhas. A americana Pauline Kael exercitou essa façanha, muitas vezes impregnando seus textos de pitadas engraçadíssimas de sarcasmo, com talento que pode ser saboreado no livro 1001 Noites no Cinema com Pauline Kael. O brasileiro Inácio Araújo é outro, ainda que o registro de sua pena seja diverso da crítica estadunidense. Há uma elegância, uma precisão e um conhecimento de causa tão profundo nos textos de Inácio, que não raro suspiramos com uma certa inveja doce “ah, como eu gostaria de saber escrever assim!” ou “é tudo o que eu gostaria de dizer”.

Acompanhar a coluna de Inácio no jornal Folha de S. Paulo é rotina ansiada, como, para os crentes, devorar as tiras de horóscopo no início do dia. Assim como o zodíaco parece iluminar seus discípulos, a leitura de Inácio ilumina não só os filmes, nem o cinema, mas a própria vida. E mesmo quando lhe é exigido fôlego maior, como nos livros que publicou ou nos debates que participa, o encanto e a inteligência, e seu dom de professá-la, continuam lá intactos.

Leitores apaixonados da arte de Inácio Araújo, nós da Zingu! sempre o ouvimos a partir de seus escritos, debates, entrevistas e cursos. E como não poderia deixar de ser, também nos seduziu com igual fascínio pela sua marcante atuação no cinema da Boca do Lixo, seja como montador, roteirista e cineasta – dirigiu um único filme, o inesquecível episódio Uma Aula de Sanfona, do longa As Safadas. Daí que a vontade de um olhar mais aproximado e uma conversa ao pé do ouvido foi se acalentando aos poucos para emergir neste dossiê que agora apresentamos aos nossos leitores.

Conversamos longamente com Inácio Araújo, que nos falou da sua trajetória, repassando os filmes, sua forma de ver o cinema, suas críticas, em entrevista saborosa levada a cabo por nosso redator e membro do Conselho Editorial, Gabriel Carneiro. Redatores fixos da Zingu! e colaboradores convidados esquadrinharam quase a totalidade de filmes em que Inácio está na ficha técnica, possibilitando um recorte amplo de sua carreira no cinema. Destacamos também, em apresentação de capas, sua obra escrita publicada.

Esta edição da Zingu! apresenta ainda o especial O Índio no Cinema Brasileiro, tema que ao longo da nossa histórica cinematográfica seduziu cineastas de diferentes linhagens, com um texto introdutório e uma seleção de oito títulos.

E para fechar, tem também as nossas tradicionais colunas.

Boa leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da
Zingu!

Todo Dia era Dia de Índio

Especial O Índio no Cinema Brasileiro

Por Adilson Marcelino

“Todo dia era dia de índio, mas agora ele só tem o dia 19 de abril” já cantava Baby do Brasil, então Baby Consuelo, em hit nas rádios do país em 1981 composto por Jorge Benjor, então Jorge Bem. Passados mais de meio século da colonização e mais de trinta anos da canção, a questão indígena ainda permanece marginalizada por uma cultura reinante no país que ainda a enxerga apenas pelas tintas do exotismo.

Além do sangue e do imaginário, a herança indígena e sua continuidade na cena brasileira seduziu nossos cineastas desde o os primeiros tempos do cinema. Na literatura, José de Alencar construiu todo um universo mítico sobre os índios, não à toa despertando o interesse do cinema ainda na décadas de 1910 e 20 – Vittorio Capelaro com O Garani em 1916, e Iracema, em 1919; Luiz de Barros com Ubirajara em 1919; João de Deus com O Guarani em 1920; Vittorio Capellaro novamente com O Guarani em 1926.

Tanto as hitórias de Iracema como de o Guarani continuaram com forte apelo, resultando em filmes nas décadas de 30, 40, 50, 70 e 90: Iracema (1931), dirigido por Jorge S. Konchin; Iracema (1949), dirigido por Vittorio Cardinalli e Gino Talamo; Iracema, A Virgem dos Lábios de Mel (1979), de Carlos Coimbra. O Guarani (1950), de Riccardo Freda; O Guarani (1979), de Fauzi Mansur; O Guarani (1996), de Norma Bengell

Diferentes modelos de produção e diferentes ciclos do cinema brasileiro focalizaram o tema, pela lente de cineastas como Humberto Mauro, Alfredo Palácios, Nelson Pereira dos Santos, André Luiz de Oliveira, Zelito Vianna, Oswaldo Caldeira, Sérgio Bianchi, Lúcia Murat, Luiz Aberto Pereira, Fábio Barreto, Sylvio Back, Guel Arraes, Andrea Tonacci, Tânia Lamarca.

Este especial da Zingu! O Índio no Cinema Brasileiro apresenta um recorte de oito títulos, em uma produção que vai da década de 1970 até os anos 2000.

Dessa forma, temos do classicismo de Carlos Coimbra em Iracema, A Virgem dos Lábios de Mel (1979) ao cinema de invenção de Andrea Tonacci em Serras da Desordem (2006); das provocações de Sérgio Bianchi em Mato Eles? (1982) e de Sylvio Back em Yndio do Brasil (1995) à versão anódina de O Guarani (1996) dirigida por Norma Bengell; dos impactantes Brava Gente Brasileira (2000), de Lucia Murat, e Hans Staden (2000), de Luiz Alberto Pereira, ao estilo personalíssimo de Guel Arraes com Caramuru, A Invenção do Brasil (2001).

Este recorte, claro, não procura esgotar o tema, e nem estão aqui elencados alguns dos mais importantes filmes. A intenção é apresentar uma diversidade que possa servir como introdução a essa trajetória em que o cinema brasileiro voltou sua lente para a raiz mais profunda do país.

Expediente

EDITOR-CHEFE: Adilson Marcelino

CONSELHO EDITORIAL: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Gabriel Carneiro, Matheus Trunk e Vlademir Lazo Correa

REDATORES: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Diniz Gonçalves Júnior, Filipe Chamy, Gabriel Carneiro, Marcelo Carrard, Matheus Trunk, Sergio Andrade, Vlademir Lazo Correa e William Alves

REDATORES CONVIDADOS: Ailton Monteiro, Cid Nader, Daniel Caetano, Donny Correia, Heitor Augusto, Leandro Caraça, Leo Cunha, Marcelo Miranda, Vébis Junior.

CONTATO: revistazingu@gmail.com

Adilson Marcelino tem paixão pelo cinema nacional em geral e acredita piamente na máxima atribuída a Paulo Emílio Salles Gomes, de que o pior filme brasileiro nos diz mais que o melhor estrangeiro. Chamado por um grupo de jornalistas como o Super Adilson do Cinema Brasileiro, é graduado em Letras e em Jornalismo. Trabalha com cinema desde 1991: foi bilheteiro, gerente, assessor de imprensa, programador, redator e apresentador de programa de rádio. É pesquisador, editor do site Mulheres do Cinema Brasileiro – premiado com o troféu Quepe do Comodoro, outorgado pelo Carlão Reichenbach -, e do blog Insensatez. É o atual Editor-Chefe da Zingu!

Andrea Ormond é formada em Letras e Direito pela PUC-Rio, escritora, pesquisadora e crítica de cinema. Mantém desde 2005 o blog Estranho Encontro, exclusivamente sobre cinema brasileiro. Colaboradora nas revistas Zingu!, Rolling Stone, Filme Cultura, Cinética e Freakium.

Diniz Gonçalves Júnior é paulistano e poeta. Tem trabalhos publicados na Cult, no Suplemento Literário de Minas Gerais, naArtéria, na Nóisgrande, na Sígnica, em O Casulo, na Zunái, na Germina, na Paradoxo, no Mnemocine, no Jornal de Poesia, na Freakpedia, e no Weblivros. Autor do livro Decalques (2008).

Filipe Chamy é geralmente descrito pelas pessoas que convivem com ele como sendo um idiota; mas é muito mais do que simplesmente isso. Fundamentalmente, é um apreciador de coisas belas, mesmo quando elas são feias. Groucho-marxista convicto, nunca fala sério — mesmo que pensem o contrário —, e tem ojeriza a autoridades (e alergia a poderosos). Tenta viver a filosofia “Hakuna Matata”, mas acaba se preocupando mais do que deveria. É escritor frustrado, músico falido e apaixonado consumidor de arte.

Gabriel Carneiro é um pretenso jornalista e crítico de cinema, mais pretenso ainda pesquisador. Formado em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, o que gosta mesmo é de assistir filmes e ponderar sobre eles. Como iniciação científica, pesquisou a filmografia de Guilherme de Almeida Prado. Já escreveu no portal Cinema com Rapadura, e manteve por três anos e meio o blog Os Intocáveis. Rascunhou em alguns outros lugares. Atualmente, também escreve no Cinequanon e na Revista de CINEMA. Adora resmungar, e adora as feminices das mulheres que o rodeiam – é fato, a falta da simples presença feminina o deixa deprimido. A cada dia sua admiração por filmes de baixo orçamento aumenta – tanto que fez um TCC sobre a ficção científica de 1950-64 e planeja fazer um filme de terror. Foi editor-chefe da Zingu! entre maio de 2009 e dezembro de 2010. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial da revista.

Marcelo Carrard é jornalista e crítico de cinema. Autor da tese de mestrado: O Cozinheiro, O Ladrão, Sua mulher e o Amante – Peter Greenaway e Os Caminhos da Fábula Neobarroca, colaborou no livro O Cinema da Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90, organizado pela pesquisadora Lúcia Nagib. Nesse livro, foi o responsável pelas entrevistas com os diretores José Joffily, Silvio Back e Neville de Almeida. Doutorado em cinema pela Unicamp. Grande conhecedor de cinema oriental, europeu e mesmo brasileiro, ministra cursos e workshops. Manteve o blog Mondo Paura, premiado no troféu Quepe do Comodoro. Carrard é também crítico do site Boca do Inferno, o maior em português dedicado ao Cinema Fantástico. Muito sincero e honesto, o que lhe causa grandes problemas frente os pseudointelectuais de esquerda que pensam que escrevem na “Cahiers du Cinema”. Assina a coluna Cinema Extremo, dedicado a filmes feitos fora da linguagem comum.

Matheus Trunk é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi editor-chefe da Zingu! entre outubro de 2006 e abril de 2009. Trabalhou na revista Transporte Mundial, no jornal Nippo-Brasil e no jornal Metro ABC. Atualmente é assessor de imprensa. Fanático por cinema brasileiro, música popular e pela Sociedade Esportiva Palmeiras, é editor do blog Violão, Sardinha e Pão.

Sergio Andrade é bibliotecário e cinéfilo dos mais atuantes. É fã de cinema extremo, mas também de grandes diretores. Em matéria de cinema brasileiro também é grande entendido, sendo fã de carteirinha do saudoso crítico Rubem Biáfora. Mantém uma relação de amor com a Cinemateca Brasileira, por ter trabalhado lá nos arquivos da entidade. Mantém os blogs Kinocrazy e Indicação do Biáfora.

Vlademir Lazo Correa é gaúcho de nascimento e tem como única qualidade inquestionável nessa vida o fato de ser torcedor fanático do Sport Club Internacional, de Porto Alegre. Escritor sem obra e atleta cujo único esporte é o jogo de xadrez, é apaixonado por antiguidades das mais diversas, dedicando-se a colecionar discos de vinil que ninguém mais quer e livros velhos de sebos empoeirados que quase ninguém lê. Desde que se conhece por gente aprecia o cinema em suas mais diferentes formas, vertentes e direções ao ponto de estar se convertendo em um museu de imagens e só prestar nesse mundo para assistir filmes e, ocasionalmente, escrever sobre eles. Foi colunista do site Armadilha Poética e mantém (só não sabe até quando) o blog O Olhar Implícito.

William Alves, 24 anos, é belorizontino e eterno postulante a jornalista, estudante de Comunicação Social na capital mineira. Ele acredita em um tipo de crítica cinematográfica mais simples e objetiva, largando de lado todas as citações desnecessárias e a cânones literários. Queria ter visto os Stones em 68 e pegado a Ava Gardner em 46. É fã de westerns, futebol inglês e da Rockstar Games. Tem um blog que ninguém lê, o Lazarus Threw the Party. Aprecia especialmente o cinema marginalizado de Sganzerla e Bressane, embora não deixe de olhar com carinho a filmografia do Nelson Pereira dos Santos. Já largou uma porção de maus hábitos, mas o Marlboro vermelho continua

História: Senhora em Close-Up

Dossiê Geraldo Vietri

 
Por Adilson Marcelino
 

Editada pelo notável Minami Keizi, a Cinema em Close-Up, que circulou em meados dos anos 1970 (75/77), foi, e é, verdadeira bíblia do cinema popular, sobretudo da Boca do Lixo. Atualmente disputadíssima por pesquisadores, a publicação faz radiografia generosa do cinema brasileiro feito na época, abrindo espaço para todo tipo de produção, seja dos nomes ligados ao Cinema Novo e ao Cinema Marginal, mas reservando lugar especial para os personagens do cinema popular em matérias, reportagens, perfis, fotos e coberturas de filmagens.

Abaixo, uma matéria sobre Senhora, oitavo filme dirigido por Geraldo Vietri. Superprodução para a época bancada por Cassiano Esteves – veterano e importante produtor de filmes fundamentais como A Mulher que Inventou o Amor (1980), de Jean Garret, e parceiro de Vietri em vários filmes – e pelo próprio cineasta, Senhora tem no elenco Elaine Cistina, Paulo Figueiredo, Annamaria Dias, Flávio Galvão, Elisabeth Hartmann, Etty Fraser, e grande elenco – o filme está resenhado nesta edição.

Por erro de diagramação da revista, a segunda parte da matéria tem como pano de fundo bela foto de cena do filme com os protagonistas Elaine Cristina e Paulo Figueiredo, mas que impossibilita a leitura – veja foto que ilustra esta página. Mas dá para ver pela brechas que, na matéria, seria citado Shakespeare e seu Othelo, e outras questões sobre a realização da produção.

Com vocês então parte dessa matéria histórica:

SENHORA

José de Alencar

Filmou-se Senhora, de José de Alencar. Filmou-se porque é preciso fixar no cinema (a exemplo da televisão) uma tradição da Literatura Brasileira. E nada melhor do que José de Alencar, um grande poeta da língua pátria, para termos um ponto de partida na escalada às grandes realizações. A História da Ficção em nossa terra muito deve ao romancista cearense, não só pelo retrato que nos apresenta de tantos ângulos do chão nacional, de seu povo, suas idéias, mas também pela imposição de uma língua brasileira, de um estilo brasileiro, intransferível, personalizado.

Tratou-se o empreendimento (Senhora no Cinema) de arrojo muito grande, considerando a super-produção que o romance exigia. Desenrola-se a história numa época de muitos requintes (1870), em que tudo teve de ser reconstituído, desde cenários até pequenos objetos de cena, para se retratar fielmente aqueles dias do império brasileiro.

Para ter-se idéia do trabalho e valor desta produção, foram confeccionados especialmente para o filme cento e dois trajes femininos e oitenta e sete masculinos. No que se refere a cenografia, o trabalho foi ainda mais insano; desde a pesquisa até a reconstrução de salas, trechos de ruas, carruagens, etc., aconteceram meses e muitos milhões rodando. Orçado inicialmente em oitocentos mil cruzeiros, Cassiano Esteves e Geraldo Vietri acabaram dispendendo quase um milhão, dos novos. Mas valeu a pena, pois o resultado obtido nivela-se perfeitamente e em alguns casos supera o gabarito de um Independência ou Morte, de um São Bernardo, A Moreninha, A Mestiça, etc.

Apenas seguidores e não precursores, a intenção de Vietri e de Cassiano é a de “engrossar a corrente” de fitas com possibilidade de serem exibidas (e respeitadas quando vistas) em outros países. O Histórico é, constatado artisticamente, um dos poucos gêneros do Cinema Brasileiro com público certo lá fora. O estrangeiro sabe que o Brasil existe, quer conhecê-lo, à sua gente. Sabe também o estrangeiro que para se conhecer um núcleo social é necessário antes de tudo o conhecimento de suas raízes. Não é diferente com o brasileiro. Conhecendo-lhe o cerne, é fácil entendê-lo. E nada melhor do que José de Alencar para iniciar (ou prosseguir) tal trajetória até o auto-conhecimento. Foi quase obrigação escolhê-lo para o projeto, ele e o seu mais apaixonante trabalho: Senhora.

É a história da môça pobre que perde o namorado para outra um pouco melhor situada financeiramente. A primeira recebe uma herança e enriquece, depois comprando o homem que a abandonou. Não sabe quem é sua compradora, mas vende-se assim mesmo. Encontram-se apenas na cerimônia de casamento. Casam-se. Ela não aceita a consumação carnal, imposta pela união. Já premeditara isso também. E daí em diante vivem tempos negros, de frustrações e dissentimentos, sem que haja meios de se desligarem legalmente.

Como vêm, nada de sexo, sujo ou limpo. Apenas uma análise de um aspecto da psicologia humana, a ambição. Como Sha…

(a matéria prossegue, mas ilegível, na segunda página, que é essa que ilustra acima).