Aleluia Gretchen

Dossiê Inácio Araújo

Aleluia, Gretchen
Direção: Sylvio Black
Montagem: Inácio Araújo
Brasil, 1976.

Por Filipe Chamy

Se em um filme sobre o relacionamento romântico-amoroso de um casal uma cena onde a esposa trai o marido é colocada logo no início, o espectador certamente ficará contra ela. Pensará: “essa mulher não presta”, “por que ela faz isso com o marido?”, “espero que ele se vingue”. Se pouco tempo depois o marido é mostrado traindo a esposa, o espectador sente-se recompensado. Bradará: “tomou, vagabunda”. Mesmo que, no filme, o sujeito não desconfie nem minimamente do comportamento da esposa, o espectador sente como se de alguma maneira ele tivesse essa ciência e sua traição tenha sido apenas em resposta a isso, uma pura consequência da infidelidade de sua parceira. Quer dizer: ele traiu porque quis, mas se a mulher traiu antes, ele tem esse direito.

Por que esse prólogo? Imaginem agora o contrário: o filme lá pelo meio e o marido trai a inocente esposa. Depois é mostrada uma cena onde ela trai seu parceiro conjugal. E então? Quem a condenará? Todos passarão a apoiá-la, pois agora quem foi traído?

O filme escrito e dirigido, a montagem passa a ser um problema diegético, referente à própria lógica narrativa que o filme deseja expressar. Nos exemplos dados acima, a ordem dos planos é capital para a compreensão da história, e se ela for ineficaz, abrupta ou incoerente, o filme não flui com sua devida cadência, codifica erradamente as mensagens-símbolo visuais do cineasta, compromete o desempenho do filme, portanto.

O montador deste Aleluia, Gretchen é Inácio Araújo, e, como crítico e cinéfilo (conhecedor de Hitchcock, Fuller, Hawks), entende que esse princípio deve ser observado e trabalhado com certo respeito inerente mesmo a essas funções anônimas que estruturam o filme.

Mas Aleluia, Gretchen tem uma falha inerente a sua própria essência: o filme dirigido por Sylvio Black tem por base a instalação do pensamento nazista em uma realidade exo-européia, ou seja, fora da Alemanha, o germe do neo-nazismo. Então quando a realidade dos fatos (mesmo que ficcionalizados) obriga o filme a seguir uma determinada cartilha cronológica, a montagem ressente-se um pouco dessa prisão — como de resto ressente-se o filme por apresentar-se como uma obra onde os personagens são esmagados por sua visão na História; paradoxalmente, os simpatizantes do fascismo encontram em filmes assim uma unidade de pensamento com seus colegas de massificação que mais assemelha seu comportamento ao comunismo: todos iguais, todos juntos. E quando essas criações falam tanto de Hitler, Segunda Guerra, patriotismo e ideais, tudo isso soa tão ridículo e artificial que elas viram caricatura, ou pior, perdem-se no discurso. Sabemos que existiram tipos assim, mas o realismo de suas construções não impede sua impertinência cinematográfica. É tedioso comprovar que quando as personagens se envolvem nos tais eventos históricos, a História mata suas vidas: e elas ficam apáticas, desérticas, uniformes, sem qualquer distinção, e suas ações não interessam pois servem apenas de peça a uma máquina que, elaborada sem paixão pelo diretor Sylvio Black, resume seu funcionamento a diálogos batidos sobre o engano da juventude hitlerista, ou à exposição do inconformismo dos imigrantes expulsos de seus países e pensamentos, ou a um final esquemático onde a alegria brasileira acaba servindo de mote a uma forçada confraternização dos povos. Prende-se o público-alvo com cordas falsas de comprometimento, enfim.

Filme interessante mas pouco maduro, agradável mas não memorável, sabotado por suas próprias armadilhas, Aleluia, Gretchen é, mais que um retrato de uma geração, um pequeno fotograma do cinema brasileiro, caso de montagem mais eficiente que a direção, e, para retomar o exemplo do começo, uma traição desordenada e por isso sem torcida.

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