O Guru e os Guris

Dossiê Inácio Araújo

Os Gurus e os Guris
Direção: Jairo Ferreira
Montagem: Inácio Araújo
Brasil, 1972

Por Cid Nader

Falar de Jairo Ferreira é lembrar do que houve de melhor na maneira de observação e destrinchamento crítico o suficientemente profundo para alcançar as entranhas do cinema nacional. Com O Guru e os Guris, mesmo sem saber ou imaginar que o padrão de comportamento dos personagens (reais, ou à semelhança mais próxima da verdade) representaria por corpos e mentes, com o passar dos anos, sua própria figura e a de seus admiradores – ele virou o guru de um amontoado de guris fanáticos pelo sabor das entranhas que sempre buscou colocar à mostra, e à degustação -, Jairo apontou de maneira direta para tudo que viria a se confirmar: com a redescoberta (ou atenção devida) do verdadeiro cinema tupiniquim que deveria interessar, e pelo surgimento de uma crítica que entenderia de verdade os âmagos da arte – mesmo que numa escala não tão grande. No filme, o que ele pensava é colocado em prática de maneira radical, e com raríssima importância de alcance.

Filme (experimentação, documentário?) fragmentado, onde o guru Maurice Legeard (responsável pela Cinemateca de Santos) vocifera, anda pela cidade, sobe de bondinho até a igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat para, literalmente, queimar o filme (e de quebra, um projetor), encerrando a peregrinação reclamatória numa mesa de boteco (com cervejas, como usa ser praxe entre os do mundo da cinefilia), ante observadores guris discípulos barbudos: como se estrangeiros intelectuais fossem. A fragmentação, que era palavra de ordem no cinema marginal (alvo de atenção e adoração do crítico-poeta-cineasta), se faz totalmente intrometida no modo de montagem do trabalho, e evidencia as maneiras de enxergar nosso cinema, e os jeitos de cobrar atenção, de quem seguia tendências ditadas (desde barbas intelectuais como as dos guris, até a admiração brotada pelas coisas de Walter Disney) pelas opiniões e modismos vindos de fora.

No filme, Maurice louva o cinema nacional de todas as maneiras, e Jairo imprime seu modo de concordar com o discurso messiânico que indicava a necessidade de se entender a importância de uma cinematografia que era díspar (“nossa cultura é forte pela diferença entre nossos cineastas”), tanto quanto autêntica. Se fala que produzíamos cem filmes, para que somente dez ou quinze iriam às telonas; há o excesso na tinta da voz de um Pato Donald criando sonoridade agressiva enquanto é cobrada a anuência (subserviência) ao Walt Disney já citado; coloca-se em dúvida aclamados gênios do cinema (porque estrangeiros) para criar potência em favor dos nossos, desmerecidos pela maioria; se pinta a catástrofe para nossa produção, mas de modo inflamado e nada conformado.

Tal modelo de fragmentação adotado permite que costuras de imagens, sons, falta de som, músicas, ganhem autenticidade pelas mãos de Inácio Araújo (montador, ali, crítico dos mais importantes, agora), além de exigir atenção ao que é bela e “bondosamente” sugerido. Mas, muito longe de parecer peça que “somente” coloca dados importantes, aqui e ali, há a evidente noção de continuidade (melhor: de condução do fluxo), orientada pelo discurso oral (mesmo que messiânico na forma de expressão) – forma-se pelas palavras um fio condutor do grande “resto todo”.

O Gurus e os Guris foi seu primeiro curta-metragem (de uma série de seis), filmado em 35mm, e que constituiu parte de algo genial e único denominado como “Cinema de Invenção”. Um início que faz perceber o quanto o “falar” dele ( e o seu escrever) não era tudo que poderia oferecer; juntando-se ao cinema que o crítico-poeta realizou, em espocares que surgiam como confirmações visuais do que ditava em textos e palavras, era obra que, aglutinada, compunha um todo que berrava, como de nenhuma outra parte se notara antes, contra as normalidades e as acomodações.

Cid Nader é jornalista, editor , redator, crítico do site Cinequanon.

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