O Fotógrafo

Dossiê Inácio Araújo

O Fotógrafo
Direção: Jean Garret
Co-argumento, Co-roteiro: Inácio Araújo
Brasil, 1981

Por Leo Cunha

Jean Garrett terminou sua carreira cinematográfica em meados da década de 80, dirigindo filmes assumidamente pornôs, como Entra e sai e Fuk Fuk à Brasileira, mas preferiu assiná-los como J.A. Nunes (seu sobrenome verdadeiro, por sinal). Poucos anos antes, porém, em filmes como O fotógrafo, seu cinema estava mais para Walter Hugo Khouri do que para Tony Mel (pseudônimo assumido por Antonio Meliande para assinar seus filmes de sexo explícito).

O fotógrafo é um filme com ambições psicológicas e sociais, direção elegante, fotografia de cuidado artesanal. No que diz respeito ao apuro dos enquadramentos e da mise-en-scène em geral, os méritos cabem ao próprio Garrett, que, aliás, começou sua carreira como fotógrafo. No que se refere à trama, porém, o crédito deve ser compartilhado com Inácio Araújo, com quem assinou o roteiro.

O fotógrafo do título é Dênis, um sujeito com grande talento para editoriais de moda e ensaios sensuais. Ele vive praticamente fechado em sua casa/estúdio, clicando (e muitas vezes seduzindo) beldades nuas, mas sonha sair deste enclausuramento (físico, profissional e moral) fotografando o que está do lado de fora da janela. Principalmente uma linda vizinha (interpretada por Aldine Muller), por quem se encanta.

Porém, quando finalmente se aproxima da vizinha, Dênis vê ameaçada sua autoconfiança, tanto de conquistador quanto de grande profissional. A moça, que estuda sociologia da USP, despeja sobre ele um punhado de conceitos e categorias marxistas, decretando que ele é um escravo da burguesia e que seu trabalho é algo banal e alienado. “Essas fotos capciosas têm um valor sociologicamente nulo. Além do mais, a mulher é coisificada e o corpo transformado em mercadoria (…) Você é explorado duas vezes: o patrão que tira a mais valia e as mulheres que te usam de escada para atingir um falso estrelato.” A estudante garante (e Dênis acredita) que quer aprender fotografia com intuitos muito mais “nobres”: registrar a miséria e a injustiça que estão ao seu redor: “No caminho entre a faculdade e a minha casa, a gente vê tanta miséria, que é impossível ficar indiferente. Isso deve ser documentado.”

É difícil não enxergar um aspecto metalinguístico nesta trama, se a cotejamos com a trajetória do próprio Garrett (e alguns colegas da Boca do Lixo), sujeitos ao dilema entre fazer arte “culta”, ou “respeitável” e obras de apelo sensual, popular, comercial, etc. Por outro lado, o filme deixa transparecer uma ironia com relação ao discurso pronto e amarrado da estudante. Assim, O fotógrafo mantém uma ambiguidade, sem jamais cair no tom “demonstrativo” (para usar um termo recorrente nas críticas cinematográficas de Inácio) ou no “mensageirismo” – para tomar emprestado o termo usado pelo crítico (do veículo) rival, Luiz Carlos Merten.

O fotógrafo sai-se muito melhor do que seu protagonista, que vê sua frustração se materializar numa grande brochada em sua primeira (e única) oportunidade diante da musa nua, e em seguida, para completar, vê-se descartado como um homem-objeto, por Patrícia, a assistente a quem considerava uma tola eternamente apaixonada e submissa. Apesar da voz monocórdica (ou talvez por causa dela), Roberto Miranda consegue criar um protagonista fascinante, com um lado cafajeste e um lado artista sonhador, um lado arrogante e um lado inseguro.

Como bem argumentou Andrea Ormond, em seu blog Estranho Encontro, este filme (e outros de Garrett) se distanciam da visão pretensamente machista que se costuma atribuir, de forma generalizada, ao cinema da Boca do Lixo. Segundo Ormond, Garrett “demonstrava perspectiva bastante original a respeito do batido tema da tensão entre os sexos”. Na mesma linha de argumentação, Alessandro Gamo, em sua tese de doutorado, Vozes da boca (Unicamp, 2006), salienta que Garrett “tenta mudar a abordagem moral da Boca, com dois filmes que representam a sexualidade por um viés feminino, em Mulher, mulher e A mulher que inventou o amor, além do intimista O fotógrafo.”

Vale ressaltar, enfim, alguns achados narrativos do filme. Em várias cenas, Dênis, sozinho, narra suas conversas com a estudante, dizendo tanto suas falas quanto as dela, enquanto a imagem mostra apenas fotografias que ele tirou da musa. O recurso é intrigante, gerando no espectador a dúvida: será que estamos testemunhando um diálogo que se passa na imaginação de Dênis, em seu desejo? Será uma conversa futura, a lembrança de uma conversa já ocorrida, ou um pouco de cada?

A destacar também as diversas metáforas fálicas, tanto visuais quanto verbais, que se espalham pelo filme. Uma das mais divertidas aparece na cena em que Dênis está fotografando um casal de modelos, ela novata e ele gay. Percebendo que o rapaz não demonstra suficiente tesão em cena, Dênis fustiga: “Vamos, Marcos, enlace ela com mais vigor, com mais vontade”. Depois, quando percebe que o rapaz não se empolga mesmo, o fotógrafo apela para a ironia e, fingindo que está apenas dirigindo a foto, dispara: “levanta o cachimbo, Marcos!” Apenas um detalhe, é claro, mas bem adequado a um filme que não se leva tão a sério e que, no fundo, desconfia de quem o faz.

Leo Cunha é professor de cinema, escritor e integrante da revista Filmes Polvo.

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