Uma Aula de Sanfona

Dossiê Inácio Araujo

AsSafadas_Cartaz

Uma Aula de Sanfona
(Ep. de As Safadas)
Direção, Argumento, Roteiro, Montagem: Inácio Araújo
Brasil, 1982.

Por Gabriel Carneiro

Único filme dirigido por Inácio Araujo, já no início da decadência da Boca do Lixo enquanto pólo produtor, Uma Aula de Sanfona, segundo episódio do longa As Safadas – que ainda conta com episódios de Carlos Reichenbach e Antonio Meliande -, é um ótimo exemplo da produção barata de qualidade da Boca. Nele, Sandra Graffi é uma moça que se subjuga às vontades de um mulherengo e se irrita profundamente com um gordo que toca sanfona (literalmente), vivido por um excelente Cláudio Mamberti. Porém, buscando provocar ciúmes, ela acaba se envolvendo até demais com o gordo.

aula_de_sanfonaSó a premissa já vale o interesse nesse média. Aliás, nessa época de abertura da censura – o filme de sexo explícito já dava as caras por aqui -, para manter o interesse do público (mas não só), surgiram muitos filmes interessantes a lidar com fetiches e afins. Caso desse Uma Aula de Sanfona, que não é bem um fetiche dentro do filme, mas pode muito bem ser fora; caso de, por exemplo, O Uso Prático dos Pés, episódio de As Taras de Todos Nós, de Guilherme de Almeida Prado, que trata do fetiche por pés.

A força do filme está justamente na construção e caracterização dos personagens: Graffi como uma exibida mesquinha, sem respeito pelos outros, e Mamberti como o gordo acanhado, que não sabe se portar frente às mulheres. A operação de inversão nessa história que dá o apelo cômico, mas apenas graças às situações banais a que os personagens são submetidos, em especial Mamberti. Em determinada cena, o gordo é chamado para consertar o chuveiro da moça, sendo apresentada pela amiga. O desconforto dele é tão grande, que só reforça o espectro vitimizado de seu personagem, meramente por ser gordo.

A dualidade entre o sexualmente aceitável é a tônica da graça do filme: o gordo e a gostosa. Dela, surge toda a graça do filme, ainda mais com a subsequente virada. Porém, o final talvez se exceda, numa vontade muito grande de radicalizar a conclusão da história. Ao término, a sensação que fica é que o filme foi feito por uma feminista de carteirinha, já que a ideia é que um homem é pior que o outro – há sempre um monstro por baixo da ternura, ou algo assim. Não que fosse a ideia de Inácio, claro, mas o que fica é que a personagem feminina é uma eterna vítima do comportamento masculino – ainda que ela contribua em parte para essa característica.

Noves fora, Uma Aula de Sanfona adentra com sutileza no rol das grandes comédias eróticas feitas na Boca do Lixo, em muito pela conjunção do ousado (tematicamente) com o gênero.

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