História: Senhora em Close-Up

Dossiê Geraldo Vietri

 
Por Adilson Marcelino
 

Editada pelo notável Minami Keizi, a Cinema em Close-Up, que circulou em meados dos anos 1970 (75/77), foi, e é, verdadeira bíblia do cinema popular, sobretudo da Boca do Lixo. Atualmente disputadíssima por pesquisadores, a publicação faz radiografia generosa do cinema brasileiro feito na época, abrindo espaço para todo tipo de produção, seja dos nomes ligados ao Cinema Novo e ao Cinema Marginal, mas reservando lugar especial para os personagens do cinema popular em matérias, reportagens, perfis, fotos e coberturas de filmagens.

Abaixo, uma matéria sobre Senhora, oitavo filme dirigido por Geraldo Vietri. Superprodução para a época bancada por Cassiano Esteves – veterano e importante produtor de filmes fundamentais como A Mulher que Inventou o Amor (1980), de Jean Garret, e parceiro de Vietri em vários filmes – e pelo próprio cineasta, Senhora tem no elenco Elaine Cistina, Paulo Figueiredo, Annamaria Dias, Flávio Galvão, Elisabeth Hartmann, Etty Fraser, e grande elenco – o filme está resenhado nesta edição.

Por erro de diagramação da revista, a segunda parte da matéria tem como pano de fundo bela foto de cena do filme com os protagonistas Elaine Cristina e Paulo Figueiredo, mas que impossibilita a leitura – veja foto que ilustra esta página. Mas dá para ver pela brechas que, na matéria, seria citado Shakespeare e seu Othelo, e outras questões sobre a realização da produção.

Com vocês então parte dessa matéria histórica:

SENHORA

José de Alencar

Filmou-se Senhora, de José de Alencar. Filmou-se porque é preciso fixar no cinema (a exemplo da televisão) uma tradição da Literatura Brasileira. E nada melhor do que José de Alencar, um grande poeta da língua pátria, para termos um ponto de partida na escalada às grandes realizações. A História da Ficção em nossa terra muito deve ao romancista cearense, não só pelo retrato que nos apresenta de tantos ângulos do chão nacional, de seu povo, suas idéias, mas também pela imposição de uma língua brasileira, de um estilo brasileiro, intransferível, personalizado.

Tratou-se o empreendimento (Senhora no Cinema) de arrojo muito grande, considerando a super-produção que o romance exigia. Desenrola-se a história numa época de muitos requintes (1870), em que tudo teve de ser reconstituído, desde cenários até pequenos objetos de cena, para se retratar fielmente aqueles dias do império brasileiro.

Para ter-se idéia do trabalho e valor desta produção, foram confeccionados especialmente para o filme cento e dois trajes femininos e oitenta e sete masculinos. No que se refere a cenografia, o trabalho foi ainda mais insano; desde a pesquisa até a reconstrução de salas, trechos de ruas, carruagens, etc., aconteceram meses e muitos milhões rodando. Orçado inicialmente em oitocentos mil cruzeiros, Cassiano Esteves e Geraldo Vietri acabaram dispendendo quase um milhão, dos novos. Mas valeu a pena, pois o resultado obtido nivela-se perfeitamente e em alguns casos supera o gabarito de um Independência ou Morte, de um São Bernardo, A Moreninha, A Mestiça, etc.

Apenas seguidores e não precursores, a intenção de Vietri e de Cassiano é a de “engrossar a corrente” de fitas com possibilidade de serem exibidas (e respeitadas quando vistas) em outros países. O Histórico é, constatado artisticamente, um dos poucos gêneros do Cinema Brasileiro com público certo lá fora. O estrangeiro sabe que o Brasil existe, quer conhecê-lo, à sua gente. Sabe também o estrangeiro que para se conhecer um núcleo social é necessário antes de tudo o conhecimento de suas raízes. Não é diferente com o brasileiro. Conhecendo-lhe o cerne, é fácil entendê-lo. E nada melhor do que José de Alencar para iniciar (ou prosseguir) tal trajetória até o auto-conhecimento. Foi quase obrigação escolhê-lo para o projeto, ele e o seu mais apaixonante trabalho: Senhora.

É a história da môça pobre que perde o namorado para outra um pouco melhor situada financeiramente. A primeira recebe uma herança e enriquece, depois comprando o homem que a abandonou. Não sabe quem é sua compradora, mas vende-se assim mesmo. Encontram-se apenas na cerimônia de casamento. Casam-se. Ela não aceita a consumação carnal, imposta pela união. Já premeditara isso também. E daí em diante vivem tempos negros, de frustrações e dissentimentos, sem que haja meios de se desligarem legalmente.

Como vêm, nada de sexo, sujo ou limpo. Apenas uma análise de um aspecto da psicologia humana, a ambição. Como Sha…

(a matéria prossegue, mas ilegível, na segunda página, que é essa que ilustra acima).

Anúncios