A Noiva da Noite – Desejo de 7 Homens

Dossiê Toni Cardi
Noivada_Noite

A Noiva da Noite – Desejo de 7 Homens
Direção: Lenita Perroy
Brasil, 1974.

Por Gabriel Carneiro

A Noiva da Noite tinha tudo para ser um grande filme. Lenita Perroy constrói uma trama de ação e aventura sobre a extração de pedras preciosas de uma região de grutas, repleta de traições e vinganças. O melhor disso tudo é trazer personagens tão ambivalentes e dotados de uma malevolência, fazendo com que se fuja de estereótipos maniqueístas, afinal, são pessoas que dificilmente podem ser enquadradas como heróis. De um lado, há um grupo de capangas que dominam a região, com chefia de um velho senhor, que não tem pudores para tirar quem quer que seja do caminho. De outro, há Danilo, um minerador, que encontrou muitas pedras, e fica no caminho do velho. Acusado de muito, é espancado e torturado pelo covarde e provocador Galante, interpretado por Toni Cardi, e preso. Dez anos depois, é solto e resolve se vingar, seqüestrando a filha do velho, que vai se casar com o capanga-mor.

Perroy se sai muito bem na criação desse mundo tão tomado por gananciosos inescrupulosos, justamente por ter várias camadas, várias intenções por trás de seus atos, não simplesmente jogando-os em situações que poderiam ser descabidas e absurdas. A única inocente na história é a filha e noiva, interpretada por uma belíssima Rossana Ghessa, de feição angelical. Sequestrada, o único mal realizado é ser filha e noiva de assassinos. Vestida de noiva, ela é levada por Danilo através do matagal.

Nisso, Perroy consegue ótimos resultados. Com a perseguição, vamos conhecendo cada vez mais os intrigantes personagens, com boas doses de diversão – tanto do alívio cômico que é o personagem de Toni Cardi, quanto das boas cenas de tiroteio – e encantamento – por conta de Ghessa.

Só que, a partir de certa altura do filme, as coisas se invertem e a necessidade de um herói faz-se presente, na cabeça dos roteiristas – além de Perroy, o diretor de fotografia Oswaldo de Oliveira e o montador Sylvio Renoldi. Do nada, numa virada machista e certamente explicada por Freud, a jovem noiva começa a sentir desejos sexuais por seu seqüestrador, Danilo. É então eleito herói: sua vingança é a lei de Talião – só o faz porque foi escorraçado no passado – e sua redenção vem por parte de sua vítima, já que agora ela o quer. Essa lógica invertida em transformar um mau caráter em herói seria muito bem vinda com um viés crítico. Mas A Noiva da Noite não se interessa por isso, quer apenas um final feliz para satisfazer o público, nem que isso signifique transformar um sujeito apático e pouco carismático no príncipe encantado. A Noiva da Noite tinha tudo para ser um grande filme. Infelizmente, não é.

O Jeca e a Freira

Dossiê Toni Cardi

O Jeca e a Freira
Direção: Amácio Mazzaropi
Brasil, 1968.

Por Edu Jancz

O Jeca criado por Mazzaropi é um personagem multifacetado. Características básicas como honestidade, bondade, laços familiares honrados, coragem para enfrentar as agruras da vida e os poderosos – normalmente vistos como gananciosos sem limites e pouco ou nenhum respeito pela condição dos menos  favorecidos – praticamente estão sempre presentes.

Muda o clima, muda a trama, muda a época, mas aquele homem de jeito muito simples – porém nada ingênuo – está sempre cercados de “tombos”  que a vida ou pessoas de má índole lhe reservam.  O que eles não sabem e nem esperam é a reação desse “caipira” , que acuado,  demonstra ter sangue nas veias e força para lutar sozinho, com a ajuda da família ou amigos de sua comunidade.

O Jeca e a Freira acontece no século XIX.   Nosso herói mora numa fazenda com sua família e sobrevive com dificuldade – visto o parco salário pago  pelo proprietário – o Coronel Pedro. O Jeca, aqui de nome Sigismundo, vive outro drama que corrói seu coração. Sua filha – Celeste – foi lhe tirada a força pelo Coronel Pedro, que a criou como filha e prometeu um dia devolvê-la. Trato que nunca pretendeu cumprir. Também  nunca revelou a verdade  para a menina, que  pensa ser ele o verdadeiro pai.

A filha, linda adolescente,  volta do colégio católico acompanhada pela freira Isabel. O coronel Pedro deixa claro a Sigismundo e sua mulher que a moça nunca mais vai voltar para a casa dos verdadeiros pais. O coronel tem verdadeiro ciúme da moça e a mantém como prisioneira – sempre ao lado da freira. E o pior, em meio a beijos e abraços “paternais”, ele  demonstra suas más intenções com Celeste.

Sigismundo vai lutar com bravura e principalmente esperteza – ajudado pela freira – para restabelecer a verdade e reaver sua filha. Não sem antes enfrentar a fúria do coronel e seus capangas.

Melodrama e humor bem maroto, simples, fazem a marca de O Jeca e a Freira. A relação poder, poderosos e povo, é colocada como uma equação simples e fácil de ser observada.  Mas  o filme não  é maniqueísta ao apresentar a família de Cláudio, de posses, como justa e contrária as falcatruas e crimes  cometidos pelo coronel Pedro.

No elenco, Maurício do Valle interpreta com correção o coronel Pedro. O então muito jovem Ewerton de Castro dá corpo ao jovem Cláudio. E Toni Cardi, com aquele seu aspecto de mau, faz um dos capangas do Coronel.  Cardi convence bem como um aliado incondicional do coronel, a quem respeita e cumpre suas ordens sem pestanejar.

 

Carta ao Leitor

 

A Zingu! 50 destaca dois grandes atores do cinema popular brasileiro: Toni Cardi e Wilza Carla.

Ele foi o galã do cinema rural, dos faroestes, de filmes como Pedro Canhoto, o Vingador Erótico e Noiva da Noite – Desejo de 7 Homens.

Atuou em duas dezenas de filmes e foi dirigido por nomes como Amácio Mazzaropi, Ary Fernandes, Ozualdo Candeias, José Mojica Marins e Raffaele Rossi.

Ela é ícone inconteste do imaginário popular brasileiro por suas atuações em filmes, novelas, programas de auditório, humorísticos e desfiles de fantasia de carnaval.

Foi requisitada por diretores de diferentes escolas, como Carlos Hugo Christensen, Luiz de Barros, Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues, Elyseu Visconti, J.B.Tanko,  Pedro Carlos Róvai e Fauzi Mansur.

Toni Cardi é o grande dossiê do mês. Entrevistado por Matheus Trunk, Cardi fala sobre sua vida e repassa toda a sua trajetória cinematográfica.

O dossiê apresenta ainda entrevistas com os parceiros de cena Carlos Miranda e José Lopes, mais depoimentos de Castor Guerra e Virgílio Roveda. Integram ainda o dossiê um papo furado com o homenageado,  críticas de 12 filmes e filmografia.

Já Wilza Carla, falecida em junho deste ano, ganha um especial que procura fazer um recorte que apresente a diversidade da carreira cinematográfica da atriz, formada por comédias, dramas, filmes engajados e filmes experimentais.

No especial Wilza Carla, texto perfil, crítica de 10 filmes, mais filmografia.

E, claro, tem também as colunas tradicionais: a nudez de nossas atrizes, o reinado dos festivais de música, a juventude dos anos 80, e as musas Brigitte Bardot e Fátima Antunes.

 

Tenham todos uma ótima leitura!

 

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

Inventário Grandes Musas da Boca

Fátima Antunes

Por Adilson Marcelino

Saudada por Carlos Reichenbach como uma das belezas do cinema paulista, Fátima Antunes saiu de Pernambuco para ser uma das musas da Boca do Lixo.

Nascida em Pernambuco, onde se tornou miss de seu estado, Fátima Antunes foi descoberta por David Cardoso, ao lado de quem atuaria em filmes protagonizados e/ou produzidos por ele.

A estreia no cinema se dá em dois filmes protagonizados por David Cardoso: Trindad… É Meu Nome, de Edward Freund, e Caingangue – A Pontaria do Diabo, de Carlos Hugo Christensen.

Em Trindad… É Meu Nome (1973),  David Cardoso é o Trindad do título, um garanhão que é confundido com um famoso pistoleiro. Já em Caingangue – A Pontaria do Diabo ele é um mestiço envolvido em uma vingança. Em ambos, Fátima Antunes enche a tela com sua beleza morena.

A parceria com David Cardoso continua e a atuação em filmes de grandes cineastas também, pois além de Freund e Christensen, a atriz seria ainda dirigida por mais dois mestres: Ozualdo Candeias e Jean Garrett.

Com Candeias, Fátima Antunes atua em um dos sempre grandes filmes do diretor: Caçada Sangrenta (1974). Produzido pela Dacar de David Cardoso, o filme tem a cara do cineasta, que aposta em uma realidade crua e desejo idem, em filmes que não abrem concessão nenhuma para o público da época – mesmo o merchandising para o governo de Mato Grosso do Sul é muito particular.

Aqui, David Cardoso é um ex-presidiário que se envolve com uma milionária, a maravilhosa Marlene França – falecida recentemente -, e que depois da morte dela foge para o interior do país. E é nessas andanças que vai se encontrar, e se encantar, com a personagem de Fátima Antunes.

O outro filme produzido pela Dacar se tornou um grande sucesso nos cinemas paulistanos, dirigido por aquele que se tornaria um dos mais talentosos cineastas do pedaço, e um elenco que reuniu verdadeiras deusas.

Estamos falando de A Ilha do Desejo (1975), filme de estreia de Jean Garrett e que marcou a pareceria entre o cineasta e David Cardoso na atuação e produção – os outros rebentos da dupla são os ótimos Amadas e Violentadas (1975) e Possuídas pelo Pecado (1976).

Já o elenco de deusas, veja só: Helena Ramos, Zaira Bueno, Sonia Garcia, Frances Mary, Carmen Angélica, Marizeth Baumgartein. E, claro, Fátima Antunes, como Sandra. Todas elas, jovens que são recrutadas em boates para encontros eróticos em uma ilha.  O que poderia render dias e noites de desejos acaba resultando em mortes misteriosas das moças.

Infelizmente, depois desses quatro filmes, Fátima Antunes abandona o cinema sem deixar muitos vestígios.

No entanto, bastou esses encontros com David Cardoso e os talentosos cineastas para fazer dela uma das amadas musas da Boca.

 

Filmografia

Trindad… É Meu Nome, 1973, Edward Freund
Caingangue – A Pontaria do Diabo, 1973, Carlos Hugo Christensen
Caçada Sangrenta, 1974, Ozualdo Candeias
A Ilha do Desejo, 1975, Jean Garrett

Filme-Farol

Por Adilson Marcelino

 

Baixo Gávea
Direção: Haroldo Marinho Barbosa
Brasil, 1986.

Filmes-referência é fácil de apontar nos dedos, pois, geralmente, existe toda uma fortuna crítica sobre eles e que não nos deixam, mesmo que quiséssemos, passar ao largo deles.

Agora, e aqueles que são referência exclusivamente para nós, individualmente? Aqueles do coração? O tal filme-farol? Não para a história do cinema, mas para a nossa vida?

Bom, pode ser o tema, pode ser a história, pode ser a direção, pode ser a presença de um ator ou atriz. E pode ser também por causa da linguagem, da fotografia, da montagem, da trilha sonora.

É fato que a trilogia de Ana Carolina – Mar de Rosas (1977), Das Tripas, Coração (1982) e Sonho de Valsa (1987) – sobre os mecanismos de opressão sobre a mulher foi decisiva para toda a minha pesquisa sobre as mulheres do cinema brasileiro. E, claro, ela é do coração.

É fato também que Eros, O Deus do Amor (1981), do amado Walter Hugo Khouri, também fincou estaca fundamental para essa pesquisa, mesmo antes de sequer imaginá-la – e é do fundo do coração também.

Mas quando penso sobre o tema da coluna, o filme que brota na memória e na epiderme de imediato é com certeza Baixo Gávea, de Haroldo Marinho Barbosa.

Tem outros? É claro que sim. Tem Os Imorais (1979), de Geraldo Vietri, tem Império do Desejo (1980) e A Ilha dos Prazeres Proibidos (1978), de Carlos Reichenbach, tem Romance da Empregada (1988), do Bruno Barreto, tem Engraçadinha (1981), do mesmo Haroldo Marinho Barbosa, e têm aqueles adoráveis filmes de Antônio Calmon.

Ainda assim, Baixo Gávea se impõe com tamanha força, que é ele o escolhido para figurar aqui nesta coluna da Zingu!

Por quê? Porque afora ter um roteiro que adoro, direção idem e ter interpretações luminosas de Lucélia Santos e Louise Cardoso, o que mais me nocauteia, e encanta, é o que é para mim um dos mais brilhantes finais de filme da história do cinema.

Peraí peraí… Não pensem que vou contar final de filme, pois o que mais gosto é de entrar no cinema ou colocar um DVD ou VHS sem sequer imaginar do que aquele filme se trata. Há anos que só leio críticas e informações mais detalhadas sobre um filme apenas depois de assisti-lo.

Mas como é de praxe falar um pouco da sinopse por aqui, permito-me dizer apenas que Baixo Gávea conta a história de duas amigas, uma diretora de teatro e uma atriz, que estão montando um espetáculo sobre vida e obra de Fernando Pessoa. E que enquanto isso, cada uma procura pelo amor nas noites do baixo Gávea, enquanto tomam chopes e riem e choram com seus encontros, desencontros e abandonos.

Haroldo Marinho Barbosa é um daqueles GRANDES cineastas brasileiros que, injustamente, não gozam do grande prestígio da crítica, o que poderia colocá-los em um patamar acima. Azar, burrice dessa crítica tacanha.

Esse carioca tem uma filmografia sensacional, com filmes sempre interessantes, como Vida de Artista (1972), Ovelha Negra, Uma Despedida de Solteiro (1974), Engraçadinha (1981), e esse melancólico e estupendo Baixo Gávea.

Louise Cardoso e Carlos Gregório receberam os prêmios de Melhor Atriz e de Melhor Ator no Festival de Brasília de 1986 por Baixo Gávea, e eu fiquei felicíssimo na época. Ainda que Lucélia Santos deveria ter sido igualmente premiada como Louise. Lembro-me que fiquei injuriado por não ter sido uma premiação dupla de Melhor Atriz.

É uma dupla inesquecível. Como Susan Sarandon e Geena Davis em Thelma e Louise (1991), de Ridley Scott; Renata Sorrah e Márcia Rodrigues em Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), de Júlio Bressane, e Helena Ignez e Maria Gladys nos filmes do Cinema Marginal.

As duas estão perfeitas – em elenco ótimo com Carlos Gregório, Dirce Migliaccio, Analu Prestes, José Wilker, Wilson Grey – neste que é um dos mais pungentes retratos da juventude desnorteada dos anos 80.

 

 

 

Seu Florindo e Suas Duas Mulheres

Especial Wilza Carla

Seu Florindo e Suas Duas Mulheres
Direção: Mozael Silveira
Brasil, 1978. 

Por Adilson Marcelino  

 

 

Paródia do sucesso arrasa-quateirão Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto – até há pouco tempo a maior bilheteria da história do cinema brasileiro, posto que perdeu para Tropa de Elite 2, de José Padilha – Seu Florindo e Suas Duas Mulheres é dirigido e protagonizado por Mozael Silveira.

Aqui, a Flor de Sônia Braga vira o Florindo de Mozael Siveira. Já o Vadinho de José Wilker vira a Vadia de Wilza Carla, e o Teodoro de Mauro Mendonça vira a Dora de Lameri Faria.

Como lá e no romance de Jorge Amado – origem da história -, Vadia tem morte fulminante em pleno carnaval. Daí, o professor Florindo, que é assediado pelas alunas, acaba se casando com Dora, a virgem do pau oco. Só que lá pelas tantas, o fantasma de Vadia volta para a vida e para a cama de Florindo, e, sobretudo, para a mesa de jogos, já que era viciada no carteado.

Seu Florindo e Suas Duas Mulheres aposta na estética de Mozael Silveira, um tanto tosca e recheada de humor físico e pastelão. O resultado quase nunca atrai, ainda que pareça que Mozael realmente confie na graça pretendida.

Vadia é mesmo um achado e cai como uma luva para Wilza Carla, que defende sua personagem com unhas e dentes, apesar  do roteiro não contribuir em nada. Há as quase inevitáveis cenas de gula associadas à obesidade da atriz como piada pretendida, como também os amassos de cama explorando a mesma obesidade. Tem também os figurinos exóticos, uma das marcas da atriz.

Como pesadelo involuntário, há o uso insuportável da trilha sonora, que quase não nos dá descanso em seus acordes pontuando as cenas de cabo a rabo.

São de Wilza Carla os únicos bons momentos desse Seu Florindo e Suas Duas Mulheres, que tem ótima abertura – o cordão de carnaval -, mas que não se sustenta em seus 96 minutos.

Ícone Popular

Especial Wilza Carla

 

Por Adilson Marcelino

Com lugar de honra no imaginário popular brasileiro, Wilza Carla brilhou em diferentes palcos: teatro, desfiles de fantasia de carnaval, cinema, novelas, programas de auditório e humorísticos.

Carioca nascida em Niterói em 29 de outubro – em algumas fontes, 1938, noutras 1935 – , Wilza Carla construiu sua carreira valendo-se de inegável carisma, tipo físico singular e talento.

Se o tipo físico muitas vezes imperou em papéis que ressaltavam esse predicado, seja em filmes ou novelas, é fato que quando se desvencilhou desse fator imediato pode mostrar também todo seu talento de atriz.

E não que as formas avantajadas lhe causassem problemas, longe disso. Wilza Carla, inclusive, orgulhava-se delas. É nossa eterna Dona Redonda, personagem imortalizada na novela de vanguarda Saramandaia (1976), escrita por Dias Gomes e dirigida por Walter Avancini.

Nos palcos, começou a carreira como vedete no Teatro de Revista – engordou depois. Já na televisão, marcou presença em humorísticos e alegrou os programas de auditório como jurada de Sílvio Santos e de Raul Gil. E na passarela, fez muito sucesso nos competitivos desfiles de fantasia de carnaval.

A estreia no cinema se dá em 1955, em filmes de Román Viñoly Barreto – Chico Viola Não Morreu; Carlos Hugo Christensen – Leonora dos Sete Mares; Luiz de Barros – Trabalhou Bem Genival.

Começava aí uma carreira cinematográfica de mais de 40 filmes. E o melhor, dirigida por cineastas de diferentes escolas dentro do cinema brasileiro: Cinema Popular, Pornochanchada, Cinema Novo, Cinema Marginal, produções da Embrafilme – além de co-produções internacionais.

Wilza Carla tem um currículo cinematográfico de fazer inveja em muita gente, pois foi dirigida por cineastas da maior importância: Carlos Hugo Christensen, Luiz de Barros, Anselmo Duarte, Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues, Elyseu Visconti, Reginaldo Faria, J.B.Tanko,  Pedro Carlos Róvai, Carlos Alberto de Souza Barros, Xavier de Oliveira, Fauzi Mansur, Clery Cunha, Carlos Coimbra e Francisco Cavalcanti são alguns desses nomes.

Wilza Carla era capaz de encarnar tipos engraçados com uma assinatura muito própria, como nos filmes com Carlo Mossy – Com as Calças na Mão (1975) e As Massagistas Profissionais (1976) – as mordidas de beicinho são impagáveis; até aparições dramáticas inesquecíveis como a madame de Os Monstros de Babaloo (1971), uma das protagonistas do grande filme de Elyseu Visconti, e uma ponta sensacional e inesquecível como  uma cafetina em O Rei da Boca (1982), de Clery Cunha.

Wilza Carla faleceu no dia 18 de junho deste ano (2011), não sem antes se eternizar como uma das personalidades mais amadas pelo seu público popular.

Perfil – Khouri e Lemmertz

Dossiê de Aniversário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

Por Adilson Marcelino

 

2011 – 82 anos de nascimento de Walter Hugo Khouri e 25 anos de morte de Lilian Lemmertz

Walter Hugo Khouri nasceu em 21 de outubro de 1929, em São Paulo, e faleceu em 27 de junho de 2003, na mesma cidade. É autor de uma das obras mais importantes e coerentes do cinema brasileiro, formada por 26 filmes – 23 longas, dois episódios e uma direção de cenas ao vivo de uma animação. A estreia como cineasta se deu em 1954 com O Gigante de Pedra, e já no segundo filme, Estranho Encontro (1958), já demonstrava perfeito domínio da direção de cena e de atores. A consagração se deu com seu sexto filme, Noite Vazia (1964).

Dono de um olhar originalíssimo, sua obra é marcada por personagens urbanos mergulhados em angústias, sendo o principal deles o rico e egocêntrico empresário Marcelo, que procura na obsessão pelo sexo a saída para seu vazio existencial. Perfeito cronista da burguesia, outra marca de seu cinema é a presença de um elenco feminino formado por ótimas e belas atrizes, em que se destacam Lilian Lemmertz, sua musa maior, e outras como Selma Egrei, Monique Lafond, Nicole Puzzi, Kate Hansen, Sandra Bréa e Vera Fischer. O Corpo Ardente (1966), As Amorosas (1968), O Palácio dos Anjos (1970), As Deusas (1972), O Anjo da Noite (1974), O Desejo (1975), Paixão e Sombras (1977), Eros, O Deus do Amor (1981),  Amor Estranho Amor (1982) e Eu (1987) são os seus filmes mais famosos, além, claro, de Noite Vazia.

Lilian Lemmertz nasceu em 15 de junho de 1937, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e faleceu em 5 de junho de 1986, no Rio de Janeiro. Começou a carreira artística na terra natal, onde fez sucesso como manequim e atriz de teatro – a estreia se dá em 1956 com o espetáculo amador À Margem da Vida, dirigida por Antonio Abujamra. A consagração nacional veio com a mudança para São Paulo, em 1963, já casada com o ator Linneu Dias e com a filha, também futura atriz, Julia Lemmertz. A estreia profissional nos palcos se dá logo na chegada com o espetáculo Onde Canta o Sabiá, direção de Hermilo Borba, a convite de Walmor Chagas e Cacilda Becker. Daí para frente foram vários espetáculos de sucesso – e também prêmios -, como Quem Tem Medo de Virgínia Wolf, Dois na Gangorra, Roda Cor de Roda, Esperando Godot.

A estreia no cinema foi pelas mãos de Walter Hugo Khouri, que ficou fascinado com a atriz e a queria para estrelar, ao lado de Norma Bengell, sua obra-prima Noite Vazia (1964). Porém, sentindo-se pouco preparada, Lilian recusou, sendo substituída por Odete Lara. Só que Khouri não desistiu de tê-la em seu elenco, escalando-a para O Corpo Ardente (1966), iniciando aí uma longa parceria e fazendo dela sua principal musa. Os dois filmariam juntos oito vezes, além de uma dublagem, em filmes importantes e em atuações magistrais: As Amorosas (1968), As Deusas (1972), O Último Êxtase (1973), O Anjo da Noite (1974), O Desejo (1975), Paixão e Sombras (1977), Eros, O Deus do Amor (1981) – em O Palácio dos Anjos, dubla a protagonista francesa Geneviéve Grad. Lilian Lemmertz participou de 22 filmes em sua carreira, em dois fazendo dublagem, sendo os principais, além dos de Khouri: Cordélia, Cordélia… (1971), de Rodolfo Nanni; Aleluia Gretchen (1976), de Sylvio Back; e Lição de Amor (1978), de Eduardo Escorel.

 

Um Certo Capitão Rodrigo

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

Um Certo Capitão Rodrigo
Direção: Anselmo Duarte
Brasil, 1971. 

Por Adilson Marcelino

Caudaloso e fundamental retrato da história do Rio Grande do Sul, a trilogia O Tempo e o Vento (1949-1951-1962), de Érico Veríssimo, é uma das obras-primas da literatura brasileira. Em perfeita conjugação de realidade e ficção, o escritor imortalizou personagens memoráveis, como Ana terra, Bibiana, Pedro Terra, Capitão Rodrigo Cambará, Coronel Ricardo Amaral, Bento Amaral. Licurgo, Ismália, Maria valéria. Muitos deles ganharam vida além das páginas dos livros e foram parar no cinema e na televisão. Um dos mais populares é o Capitão Rodrigo Cambará, que acabou tendo publicação separada posteriormente, além de ganhar versão na telinha e na telona.

Em 1971, Anselmo Duarte levou a história do Capitão Rodrigo para o cinema e contou como protagonista com o grande ator Francisco Di Franco, completamente adequado para a composição do personagem. Mulherengo, indomável, aventureiro e libertário, Rodrigo se define bem em um ótimo diálogo com o padre (Alvaro Alves Pereira – ótimo) de Santa Fé, onde finca pouso. Depois do padre falar na bíblia, em Deus, e tudo o mais, ele completa “muitos só se lembram da virgem na hora do trovejo”; no que Rodrigo responde gaiato “padre, tenho que confessar que nas virgens eu penso todos os dias”.

Um Certo Capitão Rodrigo focaliza o personagem chegando a Santa Fé depois de inúmeras batalhas e resolvendo ficar por lá depois que bota os olhos em Bibiana, interpretada pela bela Elza de Castro. Seu comportamento expansivo choca o vilarejo e para permanecer no lugar ele terá que enfrentar a família do Coronel Amaral, manda-chuva do pedaço. Santa Fé será para Rodrigo como o repouso do guerreiro, ainda que o herói não esteja convencido a depor as armas.

Um Certo Capitão Rodrigo não passa perto do vigor dos ótimos O Pagador de Promessas (1962) e Vereda da Salvação (1964), mas é filme que se assiste com interesse. Produzido por William Khouri, na segunda fase da Vera Cruz, o filme conta com a presença de Lilian Lemmertz, musa de Walter Hugo Khouri, irmão de William, que dublou Elza de Castro como Bibiana.

Lilian Lemmertz empresta sua voz inconfundível para essa importante personagem da saga de Érico Veríssimo, acentuando o porte altivo de Elza de Castro. Curiosamente, Lilian voltaria a se encontrar com Bibiana mais uma vez, mas aí interpretando a personagem na minissérie antológica O Tempo e o Vento, de Doc Comparato, produzida pela Rede Globo em 1985, com direção de Paulo José.

Filmografia – Lilian Lemmertz

Filmografia

O Corpo Ardente, 1966, Walter Hugo Khouri
As Cariocas (primeiro episódio), 1966, Fernando de Barros
As Amorosas, 1968, Walter Hugo Khouri
O Palácio dos Anjos, 1970, Walter Hugo Khouri – dublagem
Copacabana Mon Amour, 1970, Rogério Sganzerla
Barão Olavo, O Horrível, 1970, Julio Bressane
Elas (segmento O Artesanato de ser Mulher), 1970, José Roberto Noronha
Um Certo Capitão Rodrigo, 1971, Anselmo Duarte – dublagem
Cordélia, Cordélia…, 1971, Rodolfo Nanni
As Deusas, 1972, Walter Hugo Khouri
Um Intruso no Paraíso, 1973, de Heron D´Ávila
O Último Êxtase, 1973, Walter Hugo Khouri
O Anjo da Noite, 1974, Walter Hugo Khouri
O Desejo, 1975, Walter Hugo Khouri
Aleluia Gretchen, 1976, Sylvio Back
Paixão e Sombras, 1977, Walter Hugo Khouri
Lição de Amor, 1978, Eduardo Escorel
Os Amantes da Chuva, 1979, Roberto Santos
Eros, O Deus do Amor, 1981, Walter Hugo Khouri
Tensão no Rio, 1982, Gustavo Dahl
Janete, 1983, Chico Botelho
Patriamada, 1984, Tizuka Yamasaki