Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

 

Reflexos em película: As rainhas estão nuas
 

A televisão brasileira, de modo geral, apresenta um nível baixíssimo. 

Não vou falar do que representa essa situação, e nem dos fatores históricos envolvidos, ou mesmo de eventuais maneiras de mudar esse quadro. O que acontece é que a televisão brasileira não só é consumida por gente, digamos, “simplória” das ideias como também é feita por gente assim. 

É fácil em qualquer site ou revista “de fofoca” encontrar uma entrevista com alguma atriz em evidência na telinha, e a pergunta virtualmente mais recorrente é a sobre nudez. “Você teria problemas em filmar cenas nua? Toparia aparecer nua numa novela?” etc. 

A resposta mais recorrente é: “se a personagem exigir”. E suas variações: “depende do contexto”, “se for importante para a história”, “se não for uma cena gratuita”. 

Contrariamente a isso tudo, temos o cinema brasileiro sendo conhecido como um antro de “putaria”, de esbórnia, de mulher pelada. O que é essa discrepância e o que ela significa? 

A meu ver, essa questão da nudez é muito mal entendida. Essas atrizinhas televisivas gostam de aparentar classe, refinação e pudor, mas, quando muito, soam apenas ridículas: o que seria nudez “gratuita” ou “fora de contexto”? Havendo a personagem, toda cena com ela é “importante” para sua história. 

Carlos Reichenbach é um dos que zombam desse moralismo de fachada. Não com agressão gratuita (agora sim a palavra é adequada), mas com inteligência. A primeira cena de Garotas do ABC, por exemplo, traz a bela atriz Michelle Valle (Aurélia Schwarzenega) completamente nua em seu quarto, dançando e simultaneamente colocando suas roupas; primeiro a calcinha, depois a calça, em seguida a blusa. Então arruma os cabelos, e pronto. O que há de “apelativo” (outro termo impróprio usado à exaustão) nisso? O que pode ser mais natural que uma garota nua em seu quarto, ouvindo música enquanto se troca? É um naturalismo incrível e ainda assim cotidiano, esse que Reichenbach apresenta. É nudez, nudez sincera e nudez exposta, nudez da verdade da personagem, porque assim ela é. Também o seria caso o filme mostrasse a garota no banho, ou masturbando-se no banheiro, ou o que quer que fosse. Por que exigir uma hipócrita camada de respeitabilidade no que é, em essência, tão comum e habitual? Que dogmatismo é esse que as intérpretes televisivas evocam em suas entrevistas quando falam de cenas “importantes”, “não gratuitas” e “contextualizadas”? O que não seria assim? O que elas pretendem com essas declarações esdrúxulas? 

Porque aí chegamos também na estranha contradição: algumas atrizes protegem-se virginais contra a exposição de seus corpos na televisão e não fazem esse charminho no cinema, onde revelam intrépidas o esplendor de sua nudez. Exemplos não faltam: a desinibida Paola Oliveira de Entre lençóis, a outrora recatada Carolina Dieckmann mostrando os seios em Onde andará Dulce Veiga? e agora, parece, Camila Pitanga em Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios — filme que já vem sendo muito comentado justamente pelas cenas com a moça despida. 

Talvez Pedro Cardoso, em seu controverso “manifesto” contra a exploração da nudez em fitas nacionais, não estivesse tão errado assim. É que há um certo jogo de interesses na valorização ou depreciação de nudez (sobretudo feminina, a que discuti) nas artes brasileiras. Ou então talvez haja uma tremenda cultura de subserviência cega ao estrangeiro e depreciação pura e simples do nacional, para tantas críticas infundadas e incoerentes. Ou, o mais provável, há ignorância e gente ignorante sempre se intrometendo. 

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Musas Eternas

Brigitte Bardot

Por Filipe Chamy
           

Brigitte Bardot não faz um filme há quase quarenta anos. 

No entanto, segue firme como um ícone, uma lenda, um arquétipo. 

Na verdade, ela é talvez a maior prova do que o cinema pode eternizar enquanto arte. A Brigitte Bardot lembrada, reverenciada e (ainda) amada é a jovenzinha de ar petulante misturado a uma sórdida candura, os dentes separados dando o tom de um sorriso franco, intenso, marcante. 

Todos sabemos que hoje Brigitte Bardot é uma reclusa senhora que beira os oitenta anos e que vive para proteger animais – por meio, aliás, de sua fundação, em atividade há já vários anos. Também são notórios os processos em que se envolve por, alegadamente, fomentar preconceitos raciais e étnicos. E o que dizer de seu suposto reacionarismo político, sua aproximação com a direita extrema francesa e seu desprezo aparente pela maior parte das pessoas? 

Nada disso importa muito. Brigitte Bardot foi um cometa que riscou o céu do cinema, não adianta mais apontar telescópios para cima: o astro já passou. 

Fenômenos como essa francesa, nascida em 1934 numa família tradicional da classe média burguesa, não são fáceis de explicar. Até hoje há quem não a ache uma grande beleza – na década de 1950, um jornalista descreveu sua figura como detentora de um “físico de empregadinha”-, pouco ou nada talentosa, uma farsa inventada pela mídia e superestimada pela imprensa. Ou apenas “um rostinho bonito”. Ou uma vulgar prostituta, vendendo seu corpo a cada filme. 

Brigitte Bardot sempre uma estrela ao contrário: não gostava de enfeitar-se com joias e roupas caras e pomposas, odiava holofotes e câmeras apontados para ela e preferia ficar em sua casa com seus amigos e bichos do que num set de filmagem, ou numa coletiva ou evento social qualquer. Isso lhe valeu a fama de esnobe e caprichosa que, de certo modo, mantém até hoje. 

Mas é digna de admiração a forma como chegou ao estrelato. Ao contrário de tantas estrelas forjadas, Brigitte começou timidamente, como discreta protagonista de filmes de qualidade duvidosa ou, mais ativamente, como coadjuvante (às vezes, quase figurante) em produções de nomes respeitáveis como Sacha Guitry, René Clair e Anatole Litvak. Aos poucos foi, com seu carisma insuperável, galgando degraus na escada da fama – também por algumas pequenas incursões em publicidade; o que, aliás, a levou ao cinema – e despontando finalmente com o hit mundial E Deus criou a mulher, dirigido por seu então marido Roger Vadim. A sensualidade espontânea da jovem garota de pouco mais de vinte anos conquistou o mundo, e filmes como Desfolhando a margarida, em que faz uma encantadora menina “maluquinha” (um de seus papéis recorrentes nessa fase), confirmam que a aposta do planeta não estava errada: Brigitte Bardot era um achado. 

Com a hipocrisia reinante no mundo pré-feminismo “institucionalizado”, Brigitte era execrada pela Igreja, pelos “cidadãos de bem”, pelas mães zelosas, pelas esposas fiéis, enfim, por toda a moralidade vigente. É difícil hoje mensurar o impacto que BB (suas famosas iniciais) causou na sociedade de então, com a exibição de sua nudez em filmes, suas fotos e ensaios sensuais, seus hábitos progressistas de usar biquínis diminutos, fazer topless e ter vários maridos e amantes. Não que sua vida seja um exemplo de consciente liberação feminina; muitas de suas opções foram casuais, ou mesmo equivocadas, mas seu desejo de ser honesta a si mesma criou, como esperado, muitas inimizades para a controversa jovem vedete do cinema francês e mundial. Suas fitas eram tidas por “luxuriosas”, muitas agressões foram sofridas em diversas localidades por ela estar sempre associada ao “mal” e ao “pecado”, e muitos homens a usaram, muitos diretores a exploraram, muitos repórteres a importunaram. Sua vida pessoal era devassada, sua privacidade, destruída. Seus momentos de intimidade eram fotografados, vendidos a mil jornais e revistas, deturpados e “sensacionalizados” pelo jornalismo marrom. Não é muito diferente do que se vê hoje, com facilidade, nas perseguições dos paparazzi e público descontrolado a gente como Justin Bieber, Miley Cyrus, Taylor Lautner. Os astros da moda, que o pessoal segue por imposição midiática e falta de referência, sem hesitar, sem dar trégua. 

Mas BB não era farinha desse saco. Não tinha a vaidade ridícula desses artistas improvisados, e essa violência a agredia, a constrangia, a deixava desgostosa e contrariada. Foi esse o germe para sua decisão de se aposentar do cinema, precocemente, aos trinta e oito anos. 

De qualquer modo, a moça segue fazendo muitos filmes durante todos os anos cinquenta, e sua década seguinte veria uma filmografia mais ambiciosa, em que diretores legendários se acotovelam para tê-la em suas produções. 

O primeiro filme dessa fase mais determinada, na qual se mostra mais madura como intérprete, é o clássico instantâneo A verdade, do “mão de ferro” Henri-Georges Clouzot, filme que arrebatou público e crítica logo em sua estreia em 1960 – época em que Brigitte se via às voltas com o nascimento do primeiro e único filho, Nicolas, cujo pai foi seu segundo marido, o hoje não muito lembrado ator Jacques Charrier. 

Seguem seus encontros com Louis Malle, em três fitas: Vida privada, em que dividia a cena com ninguém menos que Marcello Mastroianni, obra melancólica sobre os tormentos da celebridade; Viva Maria!, farsa western com Jeanne Moreau, em que se diverte, canta e sensualiza; e William Wilson, um dos segmentos de Histórias extraordinárias, filme baseado em textos de Edgar Allen Poe que contava ainda com episódios de Federico Fellini e de seu ex-marido Roger Vadim (agora dirigindo sua atual companheira, Jane Fonda).

 Enquanto isso, em 1963, ocorre a parceria mais inusitada do cinema francês de então: Brigitte Bardot e Jean-Luc Godard! A estrela clássica e o diretor iconoclasta, juntos em um filme que contaria ainda com Michel Piccoli, Jack Palance e Fritz Lang (!). Tratava-se, claro, de O desprezo. BB adorava o romance de Alberto Moravia, mas hesitava em filmar com Godard — que queria tratar a história a sua maneira, realizando tantas modificações que no final das contas dava a impressão de ter utilizado outra fonte. O filme é hoje muito justamente um clássico, tido entre os melhores filmes de Godard, ou talvez o melhor isolado. Em O desprezo há crítica social, referências cinéfilas, brincadeiras metalinguísticas e toda a irreverência que marcou a fase mais aceita de Godard. 

Apesar de ainda fazer comédias “inconsequentes”, romances formulaicos e filmes “leves”, alguns filmes que Brigitte faz nessa época vão mais a fundo em sua vida e, por vezes, parecem relatos autobiográficos: por exemplo, a amante acusada e julgada por todos em seu comportamento “imoral” em A verdade não era senão ela, com tentativas de suicídio semelhantes às que praticava na vida fora das telas, com a mesma incompreensão generalizada e a mesma zombaria de quem a taxava de rapariga e, no entanto, não conseguia olhar para ela sem imaginar e desejá-la nua; do mesmo modo, a celebridade perseguida e acossada pela fama em Vida privada também era a jovem BB, eterna caça alvo dos olhares atentos de todo o planeta. 

Brigitte sempre gostou de cantar e também lançou álbuns de música em seus anos de maior popularidade. Durante esses anos sessentistas, firmou uma grande dupla com o mitológico Serge Gainsbourg, e juntos fizeram História com obras como Comic strip, Bonnie and Clyde e Harley Davidson; além, é claro, de Je t’aime moi non plus, talvez a canção mais famosa de Gainsbourg, que ficou engavetada por anos e anos — para não comprometer seu terceiro casamento, com o playboy Gunther Sachs —, até ser lançada na voz da nova companheira do compositor, Jane Birkin. 

Bem no final da década, BB faz um dos filmes que mais lhe encheram de orgulho: O urso e a boneca, do grande e subestimado Michel Deville. Temperamental, ela se orgulha em dizer que foi uma das filmagens mais tranquilas por que passou, e que fez grandes amigos na produção — entre eles o também grande e subestimado Jean-Pierre Cassel, seu co-star. Brigitte Bardot entrava na década de 1970, e poucos anos e filmes a separam de seu voluntário ocaso cinematográfico. 

Menos de meia dúzia de trabalhos após O urso e a boneca e BB encerraria definitivamente sua participação na indústria cinematográfica. Seus últimos filmes não foram felizes: quase todos fracassos na concepção e na bilheteria, ela teria entre seus últimos momentos de atriz encontros com Annie Girardot (As noviças), Claudia Cardinale (Les petroleuses) e Jane Birkin (Se Don Juan fosse mulher, de seu ex-marido e eterno amigo Vadim). 

Incomodada com sua carreira, com o ofício que exercia e com a constante monitoração da imprensa sobre sua vida pessoal, Brigitte Bardot dá um adeus definitivo à vida pública em 1973. De lá para cá só apareceu em eventos sociais específicos, programas televisivos esporádicos e mobilizações determinadas, quase sempre motivada pelo seu desejo de conscientizar as pessoas sobre a terrível sorte dos animais, os inúteis sacrifícios de que são vítimas constantemente e a necessidade de tratá-los de maneira mais digna e sustentável. Nessas ocasiões, acompanha-se do quarto marido, com quem divide a vida há quase vinte anos. 

BB ainda é um enigma. O que se sabe dela são seus rumorosos (e numerosos) casos românticos, com Jean-Louis Trintigant, Sacha Distel, Gilbert Bécaud e muitos outros famosos ou anônimos, suas casas e chalés que ficaram conhecidos mundialmente, seu firme e polêmico posicionamento nas causas em que se envolve e sua extrema popularidade durante certos anos no cinema francês e mundial. Porém, o que se sabe da mulher? Os recentes livros que escreveu aos poucos vão ligando os pontos. E deixando claro que se nunca foi uma santa, também é inadequadamente trajada de demônio, devoradora de homens, mulher de vida fácil. 

É fácil apontar o dedo para os outros. Brigitte Bardot é a prova viva de que às vezes a pior hipocrisia é condenar quem leva a vida que você inveja. 

Nossa Canção

Por Edu Jancz

Ponteio, Domingo no Parque, Alegria Alegria, Roda Viva – músicas que marcaram uma geração – em Uma Noite em 67
 

Vi e vivi os Festivais da Record. Costumo dizer que eles têm, que eles devem ter o status de um “movimento” da MPB – Música Popular Brasileira.

O documentário Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, registra não apenas os últimos momentos do Terceiro Festival de Música da Record. Ele testemunha  uma história de qualidade, realidade, alegria, participação popular e magia centrada num país a caminho de uma Ditadura violenta, estúpida e ultrajante – que se diplomou com a assinatura do Ato Institucional número 5, pelo general Arthur da Costa e Silva, em 13 de dezembro de 1968.

Embasado pelas imagens da TV Record – deliciosos documentos –  Uma Noite em 67, começa com  Edu Lobo e Marília Medalha cantando a música vencedora desse Festival: Ponteio, de Edu Lobo e Capinan:

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse o amor ou dinheiro… 

Era um, era dois, era cem
Vieram pra me perguntar:
“Ô você, de onde vai
de onde vem?
Diga logo o que tem
Pra contar”… 

Não era somente Edu Lobo que tinha algo para contar. Gilberto Gil, com Domingo no Parque, segundo lugar do Festival, provou que uma letra social podia ser simples e ter, ao mesmo tempo, um arranjo sofisticado: 

O rei da brincadeira
Ê, José!
O rei da confusão
Ê, João!
Um trabalhava na feira
Ê, José!
Outro na construção
Ê, João!… 

A semana passada
No fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde
Saiu apressado
E não foi prá Ribeira jogar
Capoeira!
Não foi prá lá
Pra Ribeira, foi namorar… 

O jovem Chico Buarque, num ato que parecia premonitório,  não foi namorar e cantou os tempos difíceis e de resistência que o povo brasileiro precisaria viver para manter sua dignidadade. A música, Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu… 

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá … 

Caetano Veloso, desenhando os primeiros passos da Tropicália,  retoma a bandeira da esperança  e exalta seu mais límpido desejo de Alegria, Alegria

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou… 

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou… 

Uma Noite em 67 é um documento exemplar. Nas imagens gravadas pela TV Record, você vai curtir o clima emocionado e participativo nesses Festivais. Como tempos difíceis se aproximavam, boa parte do público encontrou naquele auditório a sua tribuna livre. Torciam fervorosamente pelas músicas prediletas. Vaiavam músicas que “pareciam não pertinentes ao momento político-social”. Como a música Beto Bom de Bola, de Sérgio Ricardo, incidente que culminou com Sérgio “perdendo a cabeça”, aos gritos acusando o público: “Vocês venceram”, quebrando e arremessando o violão na platéia. 

O que me emociona em Uma Noite em 67 é perceber o grau de intensidade com que o público ali presente queria se manifestar. Participar! Havia uma disputa mesclada de sinceridade e paixão – com todos os excessos da paixão. Uma efervescência no palco, entre os jurados, no auditório que tinha um grau de festa popular e  liberdade de expressão. Que há muito não vejo. 

Depoimentos atuais dos principais participantes desta Uma Noite em 67, Solano Ribeiro, Sergio Cabral (o pai), Zuza Homem de Mello, Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Caetano Veloso,  ampliam a nossa compreensão do que foi aquele momento e de como esses artistas entendem o legado para o século 21. 

 

 

 

 

 

 

Inventário Grandes Musas da Boca

Fátima Antunes

Por Adilson Marcelino

Saudada por Carlos Reichenbach como uma das belezas do cinema paulista, Fátima Antunes saiu de Pernambuco para ser uma das musas da Boca do Lixo.

Nascida em Pernambuco, onde se tornou miss de seu estado, Fátima Antunes foi descoberta por David Cardoso, ao lado de quem atuaria em filmes protagonizados e/ou produzidos por ele.

A estreia no cinema se dá em dois filmes protagonizados por David Cardoso: Trindad… É Meu Nome, de Edward Freund, e Caingangue – A Pontaria do Diabo, de Carlos Hugo Christensen.

Em Trindad… É Meu Nome (1973),  David Cardoso é o Trindad do título, um garanhão que é confundido com um famoso pistoleiro. Já em Caingangue – A Pontaria do Diabo ele é um mestiço envolvido em uma vingança. Em ambos, Fátima Antunes enche a tela com sua beleza morena.

A parceria com David Cardoso continua e a atuação em filmes de grandes cineastas também, pois além de Freund e Christensen, a atriz seria ainda dirigida por mais dois mestres: Ozualdo Candeias e Jean Garrett.

Com Candeias, Fátima Antunes atua em um dos sempre grandes filmes do diretor: Caçada Sangrenta (1974). Produzido pela Dacar de David Cardoso, o filme tem a cara do cineasta, que aposta em uma realidade crua e desejo idem, em filmes que não abrem concessão nenhuma para o público da época – mesmo o merchandising para o governo de Mato Grosso do Sul é muito particular.

Aqui, David Cardoso é um ex-presidiário que se envolve com uma milionária, a maravilhosa Marlene França – falecida recentemente -, e que depois da morte dela foge para o interior do país. E é nessas andanças que vai se encontrar, e se encantar, com a personagem de Fátima Antunes.

O outro filme produzido pela Dacar se tornou um grande sucesso nos cinemas paulistanos, dirigido por aquele que se tornaria um dos mais talentosos cineastas do pedaço, e um elenco que reuniu verdadeiras deusas.

Estamos falando de A Ilha do Desejo (1975), filme de estreia de Jean Garrett e que marcou a pareceria entre o cineasta e David Cardoso na atuação e produção – os outros rebentos da dupla são os ótimos Amadas e Violentadas (1975) e Possuídas pelo Pecado (1976).

Já o elenco de deusas, veja só: Helena Ramos, Zaira Bueno, Sonia Garcia, Frances Mary, Carmen Angélica, Marizeth Baumgartein. E, claro, Fátima Antunes, como Sandra. Todas elas, jovens que são recrutadas em boates para encontros eróticos em uma ilha.  O que poderia render dias e noites de desejos acaba resultando em mortes misteriosas das moças.

Infelizmente, depois desses quatro filmes, Fátima Antunes abandona o cinema sem deixar muitos vestígios.

No entanto, bastou esses encontros com David Cardoso e os talentosos cineastas para fazer dela uma das amadas musas da Boca.

 

Filmografia

Trindad… É Meu Nome, 1973, Edward Freund
Caingangue – A Pontaria do Diabo, 1973, Carlos Hugo Christensen
Caçada Sangrenta, 1974, Ozualdo Candeias
A Ilha do Desejo, 1975, Jean Garrett

Filme-Farol

Por Adilson Marcelino

 

Baixo Gávea
Direção: Haroldo Marinho Barbosa
Brasil, 1986.

Filmes-referência é fácil de apontar nos dedos, pois, geralmente, existe toda uma fortuna crítica sobre eles e que não nos deixam, mesmo que quiséssemos, passar ao largo deles.

Agora, e aqueles que são referência exclusivamente para nós, individualmente? Aqueles do coração? O tal filme-farol? Não para a história do cinema, mas para a nossa vida?

Bom, pode ser o tema, pode ser a história, pode ser a direção, pode ser a presença de um ator ou atriz. E pode ser também por causa da linguagem, da fotografia, da montagem, da trilha sonora.

É fato que a trilogia de Ana Carolina – Mar de Rosas (1977), Das Tripas, Coração (1982) e Sonho de Valsa (1987) – sobre os mecanismos de opressão sobre a mulher foi decisiva para toda a minha pesquisa sobre as mulheres do cinema brasileiro. E, claro, ela é do coração.

É fato também que Eros, O Deus do Amor (1981), do amado Walter Hugo Khouri, também fincou estaca fundamental para essa pesquisa, mesmo antes de sequer imaginá-la – e é do fundo do coração também.

Mas quando penso sobre o tema da coluna, o filme que brota na memória e na epiderme de imediato é com certeza Baixo Gávea, de Haroldo Marinho Barbosa.

Tem outros? É claro que sim. Tem Os Imorais (1979), de Geraldo Vietri, tem Império do Desejo (1980) e A Ilha dos Prazeres Proibidos (1978), de Carlos Reichenbach, tem Romance da Empregada (1988), do Bruno Barreto, tem Engraçadinha (1981), do mesmo Haroldo Marinho Barbosa, e têm aqueles adoráveis filmes de Antônio Calmon.

Ainda assim, Baixo Gávea se impõe com tamanha força, que é ele o escolhido para figurar aqui nesta coluna da Zingu!

Por quê? Porque afora ter um roteiro que adoro, direção idem e ter interpretações luminosas de Lucélia Santos e Louise Cardoso, o que mais me nocauteia, e encanta, é o que é para mim um dos mais brilhantes finais de filme da história do cinema.

Peraí peraí… Não pensem que vou contar final de filme, pois o que mais gosto é de entrar no cinema ou colocar um DVD ou VHS sem sequer imaginar do que aquele filme se trata. Há anos que só leio críticas e informações mais detalhadas sobre um filme apenas depois de assisti-lo.

Mas como é de praxe falar um pouco da sinopse por aqui, permito-me dizer apenas que Baixo Gávea conta a história de duas amigas, uma diretora de teatro e uma atriz, que estão montando um espetáculo sobre vida e obra de Fernando Pessoa. E que enquanto isso, cada uma procura pelo amor nas noites do baixo Gávea, enquanto tomam chopes e riem e choram com seus encontros, desencontros e abandonos.

Haroldo Marinho Barbosa é um daqueles GRANDES cineastas brasileiros que, injustamente, não gozam do grande prestígio da crítica, o que poderia colocá-los em um patamar acima. Azar, burrice dessa crítica tacanha.

Esse carioca tem uma filmografia sensacional, com filmes sempre interessantes, como Vida de Artista (1972), Ovelha Negra, Uma Despedida de Solteiro (1974), Engraçadinha (1981), e esse melancólico e estupendo Baixo Gávea.

Louise Cardoso e Carlos Gregório receberam os prêmios de Melhor Atriz e de Melhor Ator no Festival de Brasília de 1986 por Baixo Gávea, e eu fiquei felicíssimo na época. Ainda que Lucélia Santos deveria ter sido igualmente premiada como Louise. Lembro-me que fiquei injuriado por não ter sido uma premiação dupla de Melhor Atriz.

É uma dupla inesquecível. Como Susan Sarandon e Geena Davis em Thelma e Louise (1991), de Ridley Scott; Renata Sorrah e Márcia Rodrigues em Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), de Júlio Bressane, e Helena Ignez e Maria Gladys nos filmes do Cinema Marginal.

As duas estão perfeitas – em elenco ótimo com Carlos Gregório, Dirce Migliaccio, Analu Prestes, José Wilker, Wilson Grey – neste que é um dos mais pungentes retratos da juventude desnorteada dos anos 80.