A Noiva da Noite – Desejo de 7 Homens

Dossiê Toni Cardi
Noivada_Noite

A Noiva da Noite – Desejo de 7 Homens
Direção: Lenita Perroy
Brasil, 1974.

Por Gabriel Carneiro

A Noiva da Noite tinha tudo para ser um grande filme. Lenita Perroy constrói uma trama de ação e aventura sobre a extração de pedras preciosas de uma região de grutas, repleta de traições e vinganças. O melhor disso tudo é trazer personagens tão ambivalentes e dotados de uma malevolência, fazendo com que se fuja de estereótipos maniqueístas, afinal, são pessoas que dificilmente podem ser enquadradas como heróis. De um lado, há um grupo de capangas que dominam a região, com chefia de um velho senhor, que não tem pudores para tirar quem quer que seja do caminho. De outro, há Danilo, um minerador, que encontrou muitas pedras, e fica no caminho do velho. Acusado de muito, é espancado e torturado pelo covarde e provocador Galante, interpretado por Toni Cardi, e preso. Dez anos depois, é solto e resolve se vingar, seqüestrando a filha do velho, que vai se casar com o capanga-mor.

Perroy se sai muito bem na criação desse mundo tão tomado por gananciosos inescrupulosos, justamente por ter várias camadas, várias intenções por trás de seus atos, não simplesmente jogando-os em situações que poderiam ser descabidas e absurdas. A única inocente na história é a filha e noiva, interpretada por uma belíssima Rossana Ghessa, de feição angelical. Sequestrada, o único mal realizado é ser filha e noiva de assassinos. Vestida de noiva, ela é levada por Danilo através do matagal.

Nisso, Perroy consegue ótimos resultados. Com a perseguição, vamos conhecendo cada vez mais os intrigantes personagens, com boas doses de diversão – tanto do alívio cômico que é o personagem de Toni Cardi, quanto das boas cenas de tiroteio – e encantamento – por conta de Ghessa.

Só que, a partir de certa altura do filme, as coisas se invertem e a necessidade de um herói faz-se presente, na cabeça dos roteiristas – além de Perroy, o diretor de fotografia Oswaldo de Oliveira e o montador Sylvio Renoldi. Do nada, numa virada machista e certamente explicada por Freud, a jovem noiva começa a sentir desejos sexuais por seu seqüestrador, Danilo. É então eleito herói: sua vingança é a lei de Talião – só o faz porque foi escorraçado no passado – e sua redenção vem por parte de sua vítima, já que agora ela o quer. Essa lógica invertida em transformar um mau caráter em herói seria muito bem vinda com um viés crítico. Mas A Noiva da Noite não se interessa por isso, quer apenas um final feliz para satisfazer o público, nem que isso signifique transformar um sujeito apático e pouco carismático no príncipe encantado. A Noiva da Noite tinha tudo para ser um grande filme. Infelizmente, não é.

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