Perfil – Khouri e Lemmertz

Dossiê de Aniversário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

Por Adilson Marcelino

 

2011 – 82 anos de nascimento de Walter Hugo Khouri e 25 anos de morte de Lilian Lemmertz

Walter Hugo Khouri nasceu em 21 de outubro de 1929, em São Paulo, e faleceu em 27 de junho de 2003, na mesma cidade. É autor de uma das obras mais importantes e coerentes do cinema brasileiro, formada por 26 filmes – 23 longas, dois episódios e uma direção de cenas ao vivo de uma animação. A estreia como cineasta se deu em 1954 com O Gigante de Pedra, e já no segundo filme, Estranho Encontro (1958), já demonstrava perfeito domínio da direção de cena e de atores. A consagração se deu com seu sexto filme, Noite Vazia (1964).

Dono de um olhar originalíssimo, sua obra é marcada por personagens urbanos mergulhados em angústias, sendo o principal deles o rico e egocêntrico empresário Marcelo, que procura na obsessão pelo sexo a saída para seu vazio existencial. Perfeito cronista da burguesia, outra marca de seu cinema é a presença de um elenco feminino formado por ótimas e belas atrizes, em que se destacam Lilian Lemmertz, sua musa maior, e outras como Selma Egrei, Monique Lafond, Nicole Puzzi, Kate Hansen, Sandra Bréa e Vera Fischer. O Corpo Ardente (1966), As Amorosas (1968), O Palácio dos Anjos (1970), As Deusas (1972), O Anjo da Noite (1974), O Desejo (1975), Paixão e Sombras (1977), Eros, O Deus do Amor (1981),  Amor Estranho Amor (1982) e Eu (1987) são os seus filmes mais famosos, além, claro, de Noite Vazia.

Lilian Lemmertz nasceu em 15 de junho de 1937, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e faleceu em 5 de junho de 1986, no Rio de Janeiro. Começou a carreira artística na terra natal, onde fez sucesso como manequim e atriz de teatro – a estreia se dá em 1956 com o espetáculo amador À Margem da Vida, dirigida por Antonio Abujamra. A consagração nacional veio com a mudança para São Paulo, em 1963, já casada com o ator Linneu Dias e com a filha, também futura atriz, Julia Lemmertz. A estreia profissional nos palcos se dá logo na chegada com o espetáculo Onde Canta o Sabiá, direção de Hermilo Borba, a convite de Walmor Chagas e Cacilda Becker. Daí para frente foram vários espetáculos de sucesso – e também prêmios -, como Quem Tem Medo de Virgínia Wolf, Dois na Gangorra, Roda Cor de Roda, Esperando Godot.

A estreia no cinema foi pelas mãos de Walter Hugo Khouri, que ficou fascinado com a atriz e a queria para estrelar, ao lado de Norma Bengell, sua obra-prima Noite Vazia (1964). Porém, sentindo-se pouco preparada, Lilian recusou, sendo substituída por Odete Lara. Só que Khouri não desistiu de tê-la em seu elenco, escalando-a para O Corpo Ardente (1966), iniciando aí uma longa parceria e fazendo dela sua principal musa. Os dois filmariam juntos oito vezes, além de uma dublagem, em filmes importantes e em atuações magistrais: As Amorosas (1968), As Deusas (1972), O Último Êxtase (1973), O Anjo da Noite (1974), O Desejo (1975), Paixão e Sombras (1977), Eros, O Deus do Amor (1981) – em O Palácio dos Anjos, dubla a protagonista francesa Geneviéve Grad. Lilian Lemmertz participou de 22 filmes em sua carreira, em dois fazendo dublagem, sendo os principais, além dos de Khouri: Cordélia, Cordélia… (1971), de Rodolfo Nanni; Aleluia Gretchen (1976), de Sylvio Back; e Lição de Amor (1978), de Eduardo Escorel.

 

Anúncios

Um Certo Capitão Rodrigo

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

Um Certo Capitão Rodrigo
Direção: Anselmo Duarte
Brasil, 1971. 

Por Adilson Marcelino

Caudaloso e fundamental retrato da história do Rio Grande do Sul, a trilogia O Tempo e o Vento (1949-1951-1962), de Érico Veríssimo, é uma das obras-primas da literatura brasileira. Em perfeita conjugação de realidade e ficção, o escritor imortalizou personagens memoráveis, como Ana terra, Bibiana, Pedro Terra, Capitão Rodrigo Cambará, Coronel Ricardo Amaral, Bento Amaral. Licurgo, Ismália, Maria valéria. Muitos deles ganharam vida além das páginas dos livros e foram parar no cinema e na televisão. Um dos mais populares é o Capitão Rodrigo Cambará, que acabou tendo publicação separada posteriormente, além de ganhar versão na telinha e na telona.

Em 1971, Anselmo Duarte levou a história do Capitão Rodrigo para o cinema e contou como protagonista com o grande ator Francisco Di Franco, completamente adequado para a composição do personagem. Mulherengo, indomável, aventureiro e libertário, Rodrigo se define bem em um ótimo diálogo com o padre (Alvaro Alves Pereira – ótimo) de Santa Fé, onde finca pouso. Depois do padre falar na bíblia, em Deus, e tudo o mais, ele completa “muitos só se lembram da virgem na hora do trovejo”; no que Rodrigo responde gaiato “padre, tenho que confessar que nas virgens eu penso todos os dias”.

Um Certo Capitão Rodrigo focaliza o personagem chegando a Santa Fé depois de inúmeras batalhas e resolvendo ficar por lá depois que bota os olhos em Bibiana, interpretada pela bela Elza de Castro. Seu comportamento expansivo choca o vilarejo e para permanecer no lugar ele terá que enfrentar a família do Coronel Amaral, manda-chuva do pedaço. Santa Fé será para Rodrigo como o repouso do guerreiro, ainda que o herói não esteja convencido a depor as armas.

Um Certo Capitão Rodrigo não passa perto do vigor dos ótimos O Pagador de Promessas (1962) e Vereda da Salvação (1964), mas é filme que se assiste com interesse. Produzido por William Khouri, na segunda fase da Vera Cruz, o filme conta com a presença de Lilian Lemmertz, musa de Walter Hugo Khouri, irmão de William, que dublou Elza de Castro como Bibiana.

Lilian Lemmertz empresta sua voz inconfundível para essa importante personagem da saga de Érico Veríssimo, acentuando o porte altivo de Elza de Castro. Curiosamente, Lilian voltaria a se encontrar com Bibiana mais uma vez, mas aí interpretando a personagem na minissérie antológica O Tempo e o Vento, de Doc Comparato, produzida pela Rede Globo em 1985, com direção de Paulo José.

Filmografia – Lilian Lemmertz

Filmografia

O Corpo Ardente, 1966, Walter Hugo Khouri
As Cariocas (primeiro episódio), 1966, Fernando de Barros
As Amorosas, 1968, Walter Hugo Khouri
O Palácio dos Anjos, 1970, Walter Hugo Khouri – dublagem
Copacabana Mon Amour, 1970, Rogério Sganzerla
Barão Olavo, O Horrível, 1970, Julio Bressane
Elas (segmento O Artesanato de ser Mulher), 1970, José Roberto Noronha
Um Certo Capitão Rodrigo, 1971, Anselmo Duarte – dublagem
Cordélia, Cordélia…, 1971, Rodolfo Nanni
As Deusas, 1972, Walter Hugo Khouri
Um Intruso no Paraíso, 1973, de Heron D´Ávila
O Último Êxtase, 1973, Walter Hugo Khouri
O Anjo da Noite, 1974, Walter Hugo Khouri
O Desejo, 1975, Walter Hugo Khouri
Aleluia Gretchen, 1976, Sylvio Back
Paixão e Sombras, 1977, Walter Hugo Khouri
Lição de Amor, 1978, Eduardo Escorel
Os Amantes da Chuva, 1979, Roberto Santos
Eros, O Deus do Amor, 1981, Walter Hugo Khouri
Tensão no Rio, 1982, Gustavo Dahl
Janete, 1983, Chico Botelho
Patriamada, 1984, Tizuka Yamasaki

Filmografia – Walter Hugo Khouri

Filmografia

O Gigante de Pedra, 1954
Estranho Encontro, 1958
Fronteiras do Inferno, 1959
Na Garganta do Diabo, 1960
A Ilha, 1963
Noite Vazia, 1964
As Cariocas (segundo episódio), 1966
O Corpo Ardente, 1966
As Amorosas, 1968
O Palácio dos Anjos, 1970
As Deusas, 1972
O Último Êxtase, 1973
O Anjo da Noite, 1974
O Desejo, 1975
Paixão e Sombras, 1977
As Filhas do Fogo, 1978
O Prisioneiro do Sexo, 1979
Convite a Prazer, 1980
Eros, O Deus do Amor, 1981
Amor Estranho Amor , 1982
Amor Voraz, 1984
Eu, 1987
Mônica e a Sereia do Rio, 1987 (direção de cenas ao vivo)
Forever, 1991
As Feras, 1996
Paixão Perdida, 1999

A Ilha

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

AIlha

A Ilha
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1963.

Por Gabriel Carneiro

Quinto longa daquele que se tornaria um dos maiores cineastas brasileiros da história, A Ilha é o último filme da primeira fase de Walter Hugo Khouri. Nele, ainda estão estampados uma maior aproximação com o cinema americano de gênero – no caso, uma mistura de aventura com filme de pirata -, o flerte com um ambiente não urbano – aqui, o litorâneo; em outros, o rural – e uma menor preocupação com o existencial, ainda que o aspecto psicológico seja soberano. Isso, aos poucos, em sua carreira, iria se transformando e chegaria ao Khouri que se tornou mais conhecido: ambientes urbanos, personagens de almas esvaziadas e motivados pelo desejo, fortes confrontos existenciais, erotismo latente, etc, características que seriam mais fortes a partir de Noite Vazia (1964), possivelmente sua maior obra-prima.

AIlha1-300x201Mas, apesar dos apesares, A Ilha, este filme quase esquecido, não está tão distante do que Khouri fez de mais famoso. O longa, que teve grande e cara produção, contando com recriação de uma praia nos estúdios da Vera Cruz para cenas noturnas, narra a história de um grupo de ricaços que viaja para uma ilha semi-deserta onde acreditam estar enterrado o tesouro de um pirata do século XVIII. O que inicialmente era um jogo fútil se transforma numa caçada sem escrúpulos. O que poderia ser um simples filme de trapaças é, para Khouri, um objeto de observação quase antropológica, dando aos personagens uma incrível liberdade de movimentação. As derivações de análise psicológica vêm de maneira quase natural frente aos personagens tão bem delineados. Em determinados momentos, quando presos na ilha, lembra inclusive alguns recortes de O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel.

Khouri também ficou famoso pelo retrato da classe média, fazendo afronta ao Cinema Novo da época, pelo qual foi considerado alienado. Em A Ilha, talvez um de seus longas mais críticos, fundamenta-se numa classe mais abastada – que também estaria presente na maioria de seus filmes. Para Khouri, o que interessa é mostrar o quão podre e degenerada são essas pessoas, não pela condição social, mas pela forma como se vangloriam de uma condição que lhes é inerente, subjugando a todos ao seu redor. Os ricos do filme são, em sua maioria, herdeiros, sem propósito na vida, desprovidos de sentimentos, cuja vivência é um jogo de superioridade. Achar primeiro o tesouro menos dizia sobre o valor financeiro e mais em relação a uma necessidade de se expor, de sentir-se superior – e, aí, suprindo uma necessidade do ego. O próprio erotismo latente de toda sua obra – fator muito forte, mas nunca vulgar, que lhe deu a pecha de ‘cineasta pornô’ indevidamente – é uma condição existencial, é a forma de igualar o ser humano ao seu básico instintivo.

Os trabalhos de Khouri sempre tiveram diversas camadas. Para apreciá-los, parece-me, não se pode ficar apenas na superfície, na primeira camada, pois são muito banais. É diferente do típico cinemão, em que isso pode bastar ao espectador. Khouri é um cineasta a ser perseguido, adentrado, revisto. Somado tudo isso à sua perfeição formal – A Ilha conta com Rudolf Icsey na fotografia, Pierino Massenzi na direção de arte, Máximo Barro na edição e Rogério Duprat na trilha musical –, só pode se confirmar uma coisa: poucos filmaram como Walter Hugo Khouri.

As Amorosas

Dossiê de Aniversário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

 

As Amorosas
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1968.

Por Daniel Salomão Roque
 

A cacofonia das interações no espaço público e o silêncio constrangedor do cotidiano privado; a imensidão da metrópole, de suas avenidas pontuadas por semáforos que regulam o tráfego de um enorme contingente humano, e a confortável claustrofobia dos apartamentos de classe média; o laconismo e as digressões. As Amorosas é uma obra pautada por extremos, que transportam para o plano da narrativa todas as instabilidades do protagonista Marcelo – o célebre alterego de Walter Hugo Khouri, que tem nesse filme sua primeira aparição – e estabelecem uma rara (e incômoda) relação de intimidade com o espectador. A posição que nos cabe, aqui, é um tanto quanto mórbida: a contemplação, nos mínimos detalhes, de uma rotina fútil e de agonias vazias. 

Para tanto, Khouri nos desarma daqueles confortáveis nexos de causalidade, tão comuns na dramaturgia como um todo. Inexistem os flashbacks; os diálogos não se prestam a explicar as motivações ocultas por trás de cada atitude. O passado é omitido, o futuro não nos reserva nada: apenas o presente, cheio de dor, importa (mas não muito, que fique bem claro). Boa pinta, Marcelo (Paulo José) é o típico universitário abastado. Não obstante, mora de favor na casa de um amigo e é sustentado por sua irmã (Lílian Lemmertz), que divide uma cobertura no centro de São Paulo com uma bela dançarina de TV (Jacqueline Myrna); em suas andanças pelos corredores da faculdade, conhece uma militante do movimento estudantil (Anecy Rocha) empenhada na produção de um documentário sobre os anseios da juventude contemporânea. A teia de estímulos que as tais “amorosas” estabelecem em torno de Marcelo é também a base sobre a qual o filme se constrói. 

O título do filme se refere a essas três mulheres, completamente diferentes entre si, mas elas nada mais são que extensões da personalidade de Marcelo, suportes sobre os quais ele projeta seu derrotismo niilista, suas inseguranças, misérias e picuínhas pequeno-burguesas. Egoísta e auto-piedoso, Marcelo vê a si mesmo como um elemento distinto dentro de um corpo social amorfo, e seu sofrimento reside na percepção ilusória da sua pessoa como polarizadora de todas as relações afetivas e amorosas, nas quais ele, invariavelmente, se enxerga como vítima – do viés incestuoso e possessivo que marca sua convivência com a irmã; dos desenfreados impulsos sexuais que a vedete televisiva lhe desperta, sucedidos pela raiva de ter se deixado atrair por ela; das estocadas ideológicas que toma da colega universitária, ou do quer que seja. 

A câmera, ao contrário das demais personagens e parte da platéia, não toma por megalômanos os lamentos de Marcelo, cuja angústia é a força motriz de cada uma das cenas que constituem o filme. Potencializadas de forma gritante pelo aparato técnico cinematográfico, as pequenas idiossincrasias do protagonista, tão enfatizadas na narrativa, acabam por inseri-lo num contexto específico, definindo-o, em parte, pelo meio e época em que vive. A repulsa pelo status quo televisivo, pelo mundo das telenovelas e programas de auditório representado pela amiga de sua irmã, não torna menor seu estranhamento em relação ao engajamento político da colega universitária, com quem assiste, a contragosto, a um show dos Mutantes. Quando ambos se deitam, a câmera não desnuda apenas os corpos do casal, mas também o quarto de Marcelo, deslizando pela sua superfície, aproximando-se de suas paredes, enquadrando posters, pichações e objetos: discos de John Coltrane e Ornette Coleman; livros de Camus, Borges, Spinoza, Henry Miller, Clarice Lispector, Céline e Alain Robbe-Grillet; um número da revista Mad (!). E, no ato sexual, a repetição de pequenos gestos é evidenciada por uma série de planos curtos e quase idênticos que se sucedem ao som de um violoncelo fúnebre: o beijo que Marcelo dá nas costas da colega, bem como o momento em que seus lábios encostam nos da garota, repetem-se em três planos cada; o mesmo ocorre com o close no rosto de Anecy Rocha, a leve mordida que sua personagem dá na orelha de Marcelo e seus afagos desesperados nas costas e cabelos do companheiro. 

O sexo, então, se transforma num microcosmo da vida do protagonista: um ciclo vicioso permeado pela brevidade, insignificância e total ausência de significados, onde a única saída possível é o mergulho num hedonismo cheio de remorsos. No meio desse caminho, Khouri transforma corpos em paisagens e estabelece seu estilo.

Amor Voraz

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri 

 

Amor Voraz
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1984.

Por Ailton Monteiro

Quem está acostumado com as obras de Walter Hugo Khouri vistas pela ótica masculina, especialmente os filmes mais eróticos protagonizados pelo personagem Marcelo, deve estranhar um pouco esta obra que a princípio lembra bastante Persona, de Ingmar Bergman. Temos uma personagem com problemas de depressão (Vera Fischer) e uma psicóloga pronta para auxiliá-la com métodos alternativos (Lucinha Lins), aproveitando o lugar onde ela passa os dias, com muito verde, rios e cachoeiras.

Depois da saída de cena de Lucinha Lins, o filme passa a ganhar outros contornos. Vemos, então, que Amor Voraz (1984) é uma obra de caráter fantástico, como outros dois filmes do diretor, O Anjo da Noite (1975) e As Filhas do Fogo (1978). Acentuando o clima de mistério está o habitual colaborador de Khouri, o músico Rogério Duprat.

A história gira em torno do aparecimento de um homem nu (Marcelo Picchi), que não fala uma palavra, mas que se comunica por telepatia com Ana, a mulher que o acolhe na casa. As outras mulheres, que já tratavam Ana com remédios prescritos, acham que ela está cada vez mais louca quando ela começa a dizer que o sujeito veio de outro planeta e conta detalhes de sua viagem a Terra.

Amor Voraz envolve o espectador com sua atmosfera de mistério e com seu andamento lento, mas hipnotizante, dom que poucos cineastas brasileiros tiveram ou têm. O erotismo é deixado um pouco de lado em prol de algo transcendental. Não que o sexo esteja ausente do filme. Khouri parece nos dizer que há algo mais importante do que o sexo, mas que nós, humanos, ainda não estamos preparados para nos desapegar dos prazeres carnais.

A própria personagem de Vera Fischer, quando começa a se tornar possessiva em relação ao estranho, perde o dom de entender a sua mente. Bianca Byington, com seus belos e expressivos olhos, confere com perfeição à personagem Júlia um ar de sensualidade e até de maldade.

Curiosamente, este é o filme de Khouri em que homem não tem voz. O único homem que aparece em Amor Voraz é o alienígena misterioso, mas este não fala uma palavra. Há outros homens em papéis muito pequenos, mas eles são rapidamente esquecidos. Enquanto isso, há uma casa povoada por três mulheres diferentes, que pensam no homem como um objeto para realizar seus prazeres ou descarregar suas frustrações e carências afetivas. Juntam-se às três a personagem de Lucinha Lins e a de Cornélia Herr.

Talvez a falha do filme esteja apenas em seu final, quando tenta se aproximar da narrativa de obras de ficção científica americanas ou inglesas. Ainda assim, difícil imaginar outro desfecho para o enredo, podendo-se dizer que Amor Voraz é um filme especial de Khouri. Em muitos sentidos.

 

Amor Estranho Amor

Dossiê de Aniversário: O Autor  – Walter Hugo Khouri 

Amor Estranho Amor
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1982.

Viagem ao princípio de um mundo pessoal

Por Marcelo Miranda

Se você apenas conhece Amor Estranho Amor como “aquele em que a Xuxa aparece pelada”, já passou da hora de se desinfetar dessa verdadeira praga que assola este filme tão especial e de maturidade na carreira de Walter Hugo Khouri. Da tela emana uma força magnética, um estado de transe, um mergulho intimista na mente de um personagem que tateia em busca não apenas de suas memórias, mas de si mesmo enquanto representação imagética, sonora e sensorial. Da ambientação vem algo fantasmagórico, naquele casarão de escadas gigantes, longos corredores e quartos cujas paredes quase literalmente têm ouvidos.

E há os olhares. Amor Estranho Amor é, acima de qualquer outro aspecto, um filme sobre o olhar – o olhar perscrutador, o olhar desconfiado, sedutor, provocador, angustiado, curioso. Os olhos azuis de um jovem Hugo (interpretado pelo garoto Marcelo Ribeiro) exploram cada linha geométrica da casa e do corpo das mulheres com quem se encontra e se esfrega. Num misto de desbravamento e descoberta, o menino não sabe até onde poderá ir nem faz ideia do que o espreita – quando, na verdade, é ele quem espreita, ainda que pareça não ter consciência de sua própria capacidade e poder de vislumbrar os acontecimentos da casa e atrair para si as principais atenções.

Sempre alguém olha em Amor Estranho Amor. Na sua obviedade, essa afirmação ganha contornos estéticos na elaborada encenação de Khouri, na dança de olhos que ele perpetra, na montagem cuidadosamente planejada para provocar no espectador o desconcerto de quem não sabe exatamente o que deveria ou não ser visto. É um filme também de ações incompletas, de faltas, de lacunas, de gestos interrompidos. Ninguém consegue efetivamente “estar por inteiro” no filme, ora porque outros interrompem os movimentos (sejam as primeiras e frustradas seduções de Hugo pelas personagens de Matilde Mastrangi e Xuxa, seja a ação política evidenciada na subtrama de Tarcísio Meira e que envolve o golpe de Estado de Getúlio Vargas em 1937), ora porque há impossibilidades menos plausíveis e concretas a sondarem as ações em cena.

Como o professor Isak Borg do Morangos Silvestres de Bergman, o velho Hugo (vivido por um sóbrio Walter Forster) visualiza e divide espaço (inclusive num mesmo plano) com suas memórias e seu passado. Vemos o que sua mente projeta a nós, algo que nos incapacita de acreditar plenamente na concretude da narrativa. Apesar de não se moldar como fragmentário, o filme parece estar o tempo todo em suspenso, levitando pelo espaço e pelo cenário, inserindo os corpos dos atores no quadro como se eles fossem elementos pictóricos de uma obra em movimento que vai sendo contornada a cada novo minuto. A imagem quase sempre é enquadrada de um ponto específico e frontal da situação apresentada para depois ser reenquadrada sob a visão limitada de Hugo, dependente das brechas e frestas que a casa lhe permite espiar à medida que ele vai explorando as aparentes e infinitas possibilidades das entranhas locais. Esses constantes reenquadramentos permitem que a imagem, antes objetiva e de viés mais psicanalítico (portanto, mais gélida e fria), seja reconfigurada e tornada mais poética e menos dependente de um entendimento pleno dos fatos – e justamente neste ponto estará o limite entre a memória de Hugo e os acontecimentos em si.

Amor Estranho Amor foi uma espécie de súmula edipiana da trajetória de Khouri – ou, mais especialmente, da persona cinematográfica que ele criou ao longo de 30 anos de carreira. Seja ou não autobiográfico (o nome do protagonista ser Hugo definitivamente não é mera coincidência, assim como o fato de que o próprio cineasta tinha 8 anos de idade na época em que o filme se ambienta – quase exatamente como o personagem), este trabalho tem a relevância de nos carregar numa viagem intimista e excitante como se fôssemos nós mesmos os pilotos, como se aquelas pseudo-memórias fossem as nossas, como se Hugo contivesse uma parte do espectador. Encontrar a si mesmo, para Khouri, era o motivo maior de um sincero sorriso.

*Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo (Belo Horizonte – MG) e da revista eletrônicas Filmes Polvo (www.filmespolvo.com.br)

As Cariocas – segundo episódio

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri 

 
As Cariocas (segundo episódio)
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1966. 

Por Daniel Salomão Roque

Um escritor, uma cidade e as mulheres que nela vivem. Estes são os eixos a ligar três cineastas absolutamente díspares em torno de uma mesma produção – As Cariocas, um dos muitos filmes episódicos a serem produzidos na década de 60, época em que os realizadores, sobretudo os europeus, se encantaram com este formato que, de certa forma, parecia traduzir para o cinema a lógica das antologias literárias: um tema e pequenos enredos autônomos que se desenvolvem como contos ou crônicas em película.

O escritor é Sergio Porto, ou melhor, Stanislaw Ponte Preta; a cidade, como o próprio título indica, o Rio de Janeiro. Como muitos filmes do tipo, As Cariocas sofre de uma irregularidade que é, ao mesmo tempo, sua força e fraqueza. Cada um de seus três episódios constitui um prisma por onde o legado do autor sofre determinado tipo de refração, de acordo com o cineasta que o dirige: o de Walter Hugo Khouri talvez seja o mais característico deles, e o impacto que provoca é ainda maior quando levamos em conta sua inserção entre a engessada comédia de erros de Fernando de Barros e a sátira metalingüística de Roberto Santos – que, separados por um enorme abismo estético e qualitativo, estão ainda assim unidos pelo viés cômico, coisa que está longe de constar entre as preocupações de Khouri. Para ele, só o que importa é seguir Jacqueline Myrna, por onde quer que ela esteja – se espreguiçando na cama, tomando o café da manhã, se bronzeando na praia, visitando a pensão do noivo, deitando-se com o amante, observando as vitrines de um antiquário, zanzando a esmo pela rua – e fazer de sua rotina a nossa melancolia. 

As Deusas

Dossiê de Aniverário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

As Deusas
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1972.

Por Celso Sabadin

Muitos dos elementos típicos da obra de Walter Hugo Khouri podem ser encontrados em seu filme As Deusas, de 1972. Entre eles, sedução, culpa, a liberação através da exploração dos limites da sexualidade, elegância narrativa. Apenas três atores e uma locação são suficientes para envolver o espectador numa trama de mistério, suspense e erotismo.

Ângela (Lilian Lemmertz) é uma mulher atormentada por sérios problemas psicológicos. Não importa, para o filme, quais sejam eles. Importa, sim, que sua perturbação mental afeta diretamente seu marido Paulo (Mário Benvenutti), que não sabe como proceder diante das crises de angústia da esposa. Ao mesmo tempo, ele se sente culpado por não ter a capacidade de, na qualidade de homem-provedor, fazer com que o casamento seja forte o suficiente para superar a suposta esquizofrenia de Ângela. Paradoxalmente, porém, a loucura da esposa fascina o marido.

O terceiro vértice do triângulo será completado por Ana (Kate Hansen), a psiquiatra de Ângela, que se julga igualmente incompetente em curar sua paciente. Destes medos e inseguranças nascerá uma crescente relação de desejos que envolverá os protagonistas numa rede de sedução. 

Como sempre, são marcantes a elegância e o refinamento da direção de Khouri, em todos os sentidos. Desde o mais simples adereço de decoração, até a precisão dos enquadramentos, passando pela fluidez dos movimentos de câmera. Logo nos primeiros instantes, Khouri nos brinda com raros planos de uma São Paulo absolutamente vazia, rasgada por um carro que corre em busca da solidão. Solidão que pontuará todo o filme, belamente fotografado por Rudolf Icsey, aqui auxiliado por um jovem Antonio Meliande em início de carreira.

Explorando as dicotomias morena/loura, claro/escuro, realidade/desejo, Khouri filma suas atrizes no esplendor de suas belezas, e banqueteia a plateia com closes generosos de Lilian (então aos 35 anos) e a jovem Kate, aos 20 anos, aqui em seu segundo papel no cinema, logo após sua breve participação em Maridos em Férias.

Rogério Duprat compõe uma trilha sonora tensa, densa e enigmática – por vezes melancólica – que acaba se tornando elemento de fundamental importância no próprio desenvolvimento narrativo do filme. E conduz com temas clássicos e jazzísticos o lento balé da sedução que envolverá os personagens. São pedaços filosóficos de cinema, tão tipicamente “khourianos”, aqui unidos pelo eficiente ritmo da montagem de Silvio Renoldi, premiado pela APCA como melhor montador por este filme. 

É um filme de olhares, de silêncios e longos planos, onde a evocação de libertários tempos passados ganha espaço através de músicas e fotos antigas. 

Não por acaso, a luxuosa mansão onde tudo acontece se chama “Anima” (alma) e acaba funcionando praticamente como um quarto personagem dentro de As Deusas, 11º longa metragem de Walter Hugo Khouri.

Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema.