Na Garganta do Diabo

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

 

Na Garganta do Diabo
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1959. 

Por Alfredo Sternheim 

A minha aproximação com Na Garganta do Diabo deu-se primeiro em 1959, assistindo a algumas horas de filmagem nos estúdios da Vera Cruz. Tinha 17 anos e ver como eram feitos cada trecho, consolidou de vez a minha vontade de fazer cinema. No ano seguinte, ao ver o filme, fiquei maravilhado com a direção de Khouri. Já o admirava pelos seus dois longas anteriores, Estranho Encontro e Fronteiras do Inferno. E nesta história ambientada durante a guerra do Paraguai, quando quatro desertores se escondem na casa de um idoso e suas duas filhas, ele confirmou-se como mestre do intimismo. O cineasta não se preocupou em fazer algo com muita ação ou com o viés nacionalista sobre o histórico conflito. Em vez disso, influenciado pela literatura de D. H. Lawrence, empenhou-se em enfatizar os sentimentos interiores e represados da alma e do corpo. Principalmente da mais velha das moças (Odete Lara, fantástica) que até então, vivia confinada, sem oportunidades eróticas. 

Como sempre, Khouri usou a câmera de maneira inteligente, em função do que movia os perturbados personagens. Ele sabia adequar os ângulos às situações e aos intérpretes. E estes, bem conduzidos, se integravam às intenções do realizador, sempre coerente com a sua visão de mundo, não obstante as pressões da esquerda festiva na crítica da época que desqualificava o seu trabalho por não oferecer aquele quadro regional exacerbado e quase sempre falso de muitas criações do Cinema Novo. Voltado para frustrações e condutas algo alienadas do ser humano, o diretor não caiu na tentação de explorar em demasia e de forma turística, as cataratas do Iguaçu. Estas são usadas com parcimônia, como o contraponto da força da natureza atuando sobre os personagens.   

Com brilhante fotografia em preto e branco de mestre Rudolph Icsey, funcional cenografia de Pierino Massenzi e uma inspirada música de Gabriel Migliori, Na Garganta do Diabo é o meu filme preferido de Khouri. E motivou a convencê-lo me aceitar como segundo assistente e continuista em A Ilha, após convite feito durante uma palestra no cine clube do centro  Dom Vital. 

Na Garganta do Diabo tem a ausência da influência e do cerebralismo vindos da obra de Antonioni que se manifestaria a partir de Noite Vazia, onde também fui seu assistente. Por causa desse meu envolvimento, não tenho o distanciamento emocional que me faça apreciar entusiasticamente esse filme que muitos incluem entre os melhores de todos os tempos no cinema brasileiro. Mas fica aqui a minha admiração pela obra de Khouri e minha gratidão pelo aprendizado que tive nos dois longas. 

Alfredo Sternheim é cineasta e jornalista. Paixão na Praia, Anjo Loiro, Pureza Proibida, Mulher Desejada, Corpo Devasso, Violência na Carne e Brisas do Amor são alguns de seus filmes.

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Depoimento: Eduardo Aguilar

Dossiê Gilberto Wagner

Por Eduardo Aguilar

Eu conheci o Gilberto na Boca e acabamos trabalhando juntos naquele filme do Conrado. Lembro que a edição foi feita em algum lugar longe da Triunfo. Trabalhamos juntos durante muito pouco tempo e talvez por isso não tenhamos estabelecido uma amizade.

Durante todo o nosso trabalho, o Gilberto sempre foi um cara bastante animado e a gente se divertiu fazendo a edição do A Menina. Ele tinha uma coisa que é uma característica de todo grande montador, que é ser bastante inquieto. A ideia de chamar ele pra editar o filme veio do produtor Antonio Polo Galante.

O pessoal da Boca sempre destacava que uma das principais características do trabalho do Gilbertinho era a agilidade dele. Ele era muito ligeiro e isso eu pude comprovar vendo ele editar na moviola. Nós fizemos A Menina e o Estuprador em 1982. Desde então, nunca mais vi o Gilberto Wagner.

Outro filme que eu trabalhei naquele ano foi Tensão e Desejo, do Alfredinho Sternheim. Esse filme também foi editado pelo Gilberto. Mas esse eu não acompanhei a parte da edição. Na Boca, isso não era algo obrigatório para o assistente. Acabei fazendo isso somente no filme do Conrado.

Eduardo Aguilar é cineasta e assistente de direção. Trabalhou com Gilberto Wagner em A Menina e o Estuprador (1982).

Depoimento: Alfredo Sternheim

Dossië Gilberto Wagner

Por Alfredo Sternheim

Quando soube que teria Gilberto Wagner como montador de Mulher Desejada, fiquei um pouco assustado. Eu o conhecia pessoalmente e ele era bem simpático. Mas me deixei levar por preconceitos: Gilberto era jovem e não parecia ter formação cinéfila. E Mulher Desejada era um projeto bem ambicioso. Eu achava que precisava de um montador mais experiente e com mais conhecimento cultural. Bobagem minha, engano meu.

Além de alegre e amável, mostrou ter uma rápida compreensão do que se fazia necessário ao filme e uma forma terna de trabalhar que não dispensava o ritmo ágil. Foi uma ótima convivência, que se repetiu depois em As Prostitutas do Doutor Alberto, Herança dos Devassos (os problemas criados pelo supervisor argentino não atingiram nossas relações) e especialmente em Tensão e Desejo. Sua colaboração nesses filmes e no derradeiro foi muito marcante. Em Tensão e Desejo, ele mostrou grande desenvoltura na montagem da seqüência do sonho-balé com a personagem interpretada pela atriz Sandra Graffi.

Escrevo estas linhas com muita saudade desse tempo fraterno do Gilberto. Um grande montador e uma grande pessoa.

Alfredo Sternheim é cineasta. Trabalhou com Gilberto Wagner em Mulher Desejada (1978), Herança dos Devassos (1979), As Prostitutas do Doutor Alberto (1981) e Tensão e Desejo (1983).

Gilberto Wagner fala sobre Ary Fernandes

Dossiê Gilberto Wagner

Gilberto Wagner fala sobre Ary Fernandes
Por Antônio Leão da Silva Neto

Seleção e transcrição: Matheus Trunk

Sou sobrinho de Ary Fernandes. Quando vim ao mundo meu tio já fazia cinema. Em 1958, com sete anos de idade fiz uma pequena ponta no filme O Grande Momento, de Roberto Santos. Eu era muito criança e meus pais não gostavam muito da ideia de eu seguir a carreira artística, ficavam preocupados por causa da escola, etc., mas meu tio sempre me levava, acabei fazendo alguns comerciais de televisão e participei de um capítulo do Vigilante Rodoviário chamado O Suspeito, junto com aquela garotada famosa, Tuca, Fominha, Gasolina, etc. Lembro de uma passagem curiosa, quando fiz esse episódio, um dia Carlinhos foi me buscar com a Simca e o Lobo na porta da minha escola, foi uma loucura, parou o colégio, e eu fiquei todo orgulhoso, era paparicado pelas meninas.

Mas minha carreira cinematográfica era inevitável, com 17 anos fui ser assistente de montagem de Luiz Elias, na série Águias de Fogo e com ele aprendi todos os segredos da profissão, depois fui para Lynx Films dirigir documentários e principalmente comerciais, o forte deles. Trabalhei também na Marca Filmes, que era de propriedade do Sílvio Santos. A empresa ficava dentro dos estúdios da Vila Guilherme. A maioria dos comerciais era do próprio grupo, mas tinha de fora também, como da caneta Papermate. Várias vezes, montei programas do Sílvio e ele ficava junto na moviola, com o Luciano Calegari.

Nos anos 70, abracei a profissão de vez e montei dezenas de filmes na Boca do Lixo, para diretores importantes como Carlos Reichenbach, Walter Hugo Khouri, Alfredo Sternheim, José Miziara, Antonio Meliande e o próprio Ary, para quem montei 11 filmes, entre eles, o piloto da nova série do Vigilante Rodoviário, com Antônio Fonzar no papel principal.

Sempre gostei de fazer sonoplastia também, tinha um arquivo grande de sons, ruídos e efeitos. No episódio que montei do Vigilante, eu fiz boa parte da sonoplastia. Levei um capô de carro para dentro do estúdio para fazer o barulho de carros se chocando. Eu aprendi com Luizinho a montar rápido e isso fazia com que muitos produtores me procurassem, pois o serviço rendia na minha mão.

Nessa época casei-me com a filha de um empresário português que tinha uma rede de postos de gasolina e eles insistiram para que eu fosse trabalhar com eles, então larguei o cinema, o que me arrependo muito. Depois me separei e quando quis retornar já era tarde.

Recentemente auxiliei Luiz Elias na montagem do filme Pelé Eterno, mas também ajudei na produção, inclusive fiquei sete meses na TV Record procurando gols de Pelé em seus arquivos.

Nesses arquivos encontrei um dos primeiros gols do Pelé, e fui elogiado pelo próprio Pelé pelo feito.

Ary Fernandes é meu segundo pai, ajudou a me educar, me deu uma profissão, tenho muito orgulho dele, principalmente pela série Vigilante rodoviário, um tremendo sucesso na época.

Retirado do livro Ary Fernandes: Sua Fascinante História, de Antônio Leão da Silva Neto, publicado originalmente pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo em 2006.

Entrevista com José Miziara

Dossië Gilberto Wagner

Entrevista com José Miziara
Por Matheus Trunk

Dentro do cinema paulista, José Miziara é um realizador de destaque. Dirigiu mais de 15 longas-metragens, tendo feito vários com produção da empresa Cinedistri, de Aníbal Massaini Neto. Nos anos 1970, o realizador estabeleceu uma interessante parceria com o montador Gilberto Wagner.

Os dois trabalharam juntos em 7 longas-metragens (Embalos Alucinantes; Meus Homens, Meus Amores; Nos Tempos da Vaselina; As Intimidades de Analu e Fernanda; Os Rapazes da Difícil Vida Fácil; Como Faturar a Mulher do Próximo; Pecado Horizontal). Atualmente, Miziara participa como ator do programa humorístico A Praça É Nossa, exibido semanalmente às quintas-feiras no SBT. Bastante solícito e gentil, o cineasta conversou com a reportagem da Zingu! por telefone.

Zingu!- O que o senhor pode falar sobre o Gilberto Wagner?

José Miziara- Poxa, ele montou vários filmes meus. Dentro da minha trajetória no cinema, o Gilberto foi o meu montador preferido. Ele montou esse primeiro filme e depois estabelecemos uma parceria. Sempre foi um cara simpático e sempre chegava no trabalho no horário estabelecido.

Z- Dos trabalhos dele com o senhor, tem algum que o senhor tem mais carinho?

JM- Gostei muito do trabalho dele no Embalos Alucinantes. Inclusive porque o crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva, do Rio de Janeiro deu uma citação no jornal elogiando o trabalho de montagem do filme. Isso foi bastante importante porque destacou trabalho do Gilberto.

Z- Você confiava muito no trabalho do Gilberto?

JM- Bastante. Inclusive teve uma vez que eu deixei um filme na mão dele. Falei: “Monta isso que eu só venho depois de amanhã. Mas quero tudo pronto”. Ele deixou o filme pronto com uma rapidez muito grande, tudo estava direitinho. Sempre gostei muito dele. Lembro que o (produtor) Galante também gostava muito dele. Durante um tempo, ele era muito ativo e chegou a fazer coisas na Cinedistri, do Aníbal. Isso talvez pela rapidez em que ele fazia os trabalhos.

Z- O Gilberto era um cara bem-visto na Boca?

JM- Todo mundo gostava dele. Inclusive porque ele sempre foi um cara muito simpático e legal. Além disso, ele sempre foi um profissional talentoso. Infelizmente, faz muito tempo que eu não vejo ele.

Z- O que o senhor pode falar dos outros montadores que trabalharam com você?

JM- Olha, o Robertinho (Leme) trabalhou em um filme meu e nos demos muito bem. Inclusive, foi o Roberto quem indicou o Gilberto pra trabalhar comigo. O Eder Mazzini também era um grande profissional, tanto que sempre trabalhava com gente como o Toninho Meliande, Carlão Reichenbach. O Eder era considerado o papa da montagem na Boca. Mas eu me dei bem com todo mundo.
Z- O senhor acha que os técnicos são pouco lembrados no cinema brasileiro?

JM- Sim. Veja você: o diretor de fotografia, por exemplo, é uma figura endeusada no cinema americano. Aqui você fala: “Osvaldo Carcaça”, e te respondem: “Quem? Aquele pinguço”. Você pergunta de um Pio Zamuner e chamam de pinguço também. Não se lembram de gente como o falecido Claudião Portioli, do Moreiras. Grandes colegas. Só lembravam na hora de chamar para trabalhar. Nessa hora sempre se lembravam. O Miro Reis (eletricista) é outro filha da puta que uma vez me deu um baita de um susto (risos). Nós estávamos filmando num rio que dava numa cachoeira no Campestre (bairro turístico localizado em Santo André). Ele estava encaixando a câmera na parte debaixo da cachoeira. De repente, ele sumiu. Todo mundo da equipe ficou achando que ele tinha morrido afogado, alguma coisa assim. Eu era o diretor da fita e tinha total responsabilidade sobre tudo. Quando ouvi aquela voz dele foi uma alegria total (risos).

Filmografia

Dossiê Gilberto Wagner

Filmografia
Como montador:

1985- Hospital da Corrupção e Prazeres, de Rajá de Aragão
1983- Elas Só Transam no Disco, de Ary Fernandes
1983- O Círculo do Prazer, de Mário Vaz Filho
1983- Tensão e Desejo, de Alfredo Sternheim
1983- Taras Eróticas, de Ary Fernandes
1982- A Fábrica das Camisinhas, de Ary Fernandes
1982- Vadias Pelo Prazer, de Antônio Meliande
1982- As Vigaristas do Sexo, de Ary Fernandes
1982- A Primeira Noite de Um Adolescente, de Antônio Meliande
1982- As Vigaristas do Sexo, de Ary Fernandes
1982- A Menina e o Estuprador, de Conrado Sanchez
1982- Curral de Mulheres, de Antônio Meliande
1982- O Pecado Horizontal, de José Miziara
1981- O Paraíso Proibido, de Carlos Reichenbach
1981- As Prostitutas do Doutor Alberto, de Alfredo Sternheim
1981- Como Faturar a Mulher do Próximo, de José Miziara
1981- O Cassino das Bacanais, de Ary Fernandes
1980- O Império do Desejo, de Carlos Reichenbach
1980- Os Rapazes da Difícil Vida Fácil, de José Miziara
1980- As Intimidades de Analu e Fernanda, de José Miziara
1980- Orgia das Libertinas, de Ary Fernandes
1980- A Filha de Emmanuelle, de Osvaldo “Carcaça” de Oliveira
1980- O Convite Ao Prazer, de Walter Hugo Khouri
1980- A Prisão, de Osvaldo “Carcaça” de Oliveira
1979- Essas Deliciosas Mulheres, de Ary Fernandes
1979- Sexo Selvagem, de Ary Fernandes
1979- A Herança dos Devassos, de Alfredo Sternheim
1979- Eu Compro Essa Virgem, de Roberto Mauro
1979- Nos Tempos da Vaselina, de José Miziara
1978- Mulher Desejada, de Alfredo Sternheim
1978- Meus Homens, Meus Amores, de José Miziara
1978- Embalos Alucinantes, de José Miziara
1978- O Vigilante Rodoviário, de Ary Fernandes
1978- Fugitivas Insaciáveis, de Osvaldo “Carcaça” de Oliveira
1977- Escola Penal de Meninas Violentadas, de Osvaldo “Carcaça” de Oliveira
1977- Pensionato das Vigaristas, de Osvaldo “Carcaça” de Oliveira
1976- Guerra é Guerra, (episódio Núpcias com Futebol) de Ary Fernandes
1975- Quando Elas Querem…e Eles Não, de Ary Fernandes
1974- O Supermanso, de Ary Fernandes

Entrevista: Gilberto Wagner

Dossiê Gilberto Wagner

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Entrevista com Gilberto Wagner

Por Matheus Trunk

O local não poderia ser mais improvável para uma entrevista: uma oficina mecânica localizada no bairro paulistano da Bela Vista. Apaixonado por carros, Gilberto Wagner é um velho conhecido do dono e dos funcionários do estabelecimento.

Aos 60 anos, Giba (como ficou conhecido dos amigos da Rua do Triunfo) é um sujeito de baixa estatura, bastante discreto e atencioso. Logo no início do nosso papo, ele definiu sua passagem pelo cinema de uma maneira bastante madura. “A Boca foi uma fase da minha vida. Mas tive bons momentos antes, durante e mesmo depois dela”.

No final dos anos 70, o sobrinho de Ary Fernandes foi um dos montadores mais ativos do cinema brasileiro. Não se restringiu as produções do tio. Montou fitas de diretores de prestígio como Alfredo Sternheim, Carlos Reichenbach, José Miziara e até Walter Hugo Khouri. “Consegui muita coisa dentro do cinema. Isso é um grande orgulho”, reconhece.

Amigo leitor: não fique irritado pela entrevista não ter fotos do entrevistado. Tentamos conseguir algumas fotos do acervo pessoal de Giba. Infelizmente, ele não sabe onde as imagens estão. Manteve a sinceridade quando perguntado sobre o assunto. “Acontece o seguinte: eu casei duas vezes. E me separei duas vezes também. Por isso, não faço ideia onde estão as minhas fotos antigas”.

Parte 1- O início no cinema e os trabalhos em publicidade

Parte 2- Os trabalhos na Boca do Lixo

Parte 3- A decadência do cinema e o futuro

Entrevista: Gilberto Wagner – Parte 2

Dossiê Gilberto Wagner
Parte 2- Os trabalhos na Boca do Lixo

 

Gilberto Wagner montou diversos filmes de José Miziara

 

Por Matheus Trunk

Z- Como foi o seu início da Boca? 

GW- A maior parte do tempo eu ficava no escritório do meu tio. Ele tinha um escritório no sétimo andar no mesmo edifício onde o Aníbal tem a produtora dele. Eu ficava com o meu tio lá e quando aparecia algum longa-metragem eu montava. Mas sempre tinha alguma produção pra montar. Algum comercial de televisão, documentário, filme institucional. Eu pegava também desenho animado com o Daniel Messias. Esse estúdio ficava no Pacaembu, nem sei se ainda está no mesmo lugar. Tenho saudades desse pessoal todo. Qualquer hora eu preciso passar lá. Todos me ajudaram muito. Desenho animado é editado pelo som, você marca, faz toda a marcação e o desenho era feito em cima do som.

Z- O senhor começou a mexer mais com longa-metragem em que ano? 

GW- Ih rapaz, isso foi em 67, 68. 

Z- O senhor freqüentou muito o bar Soberano? E o Ferreira? 

GW- Nossa, vixi Maria. Quanto eu fiquei lá…bar Soberano, bar do Ferreira.  O Serafim (dono do Soberano) era um português muito bacana. Muito tempo nós ficamos ali. 

Z- Existia uma concorrência entre o senhor e os outros montadores? 

GW- Não. Uma vez foi feita uma reunião pra estipular um preço de longa-metragem. Eu não estive nessa reunião. Mas ninguém fugia do padrão, era aquilo ali. O pessoal gostava de mim porque eu herdei o dinamismo do Luizinho. Eu era muito rápido. Tinham muitos montadores talentosos, mas muito lentos. A gente cortava, montava, definia a seqüência e o próprio filme. Vamos supor: de repente o Galante chegava e me chamava: “Gordo, a gente mixa semana quem vem?”. Mixar era reunir todas as bandas. Eu respondia: “Semana que vem nada. Sexta-feira tudo já vai estar pronto”. Ele achava que era brincadeira. Era o dinamismo e isso era importante porque na época da pornochanchada era um filme atrás do outro. O pessoal sempre lotava os filmes. O pessoal da Boca sempre me chamava pra montar. A maior parte dos longas do Miziara fui eu que montei. Ele sempre queria trabalhar comigo. 

Z- Do Miziara o senhor montou cinco longas. Do Osvaldo “Carcaça” o senhor montou quatro filmes. Como era trabalhar com ele? 

GW- O “Carcaça” só queria montar comigo também (rindo). Ele era extraordinário. Ele tinha sido câmera do Vigilante do meu tio e depois começou a dirigir e fazer câmera ao mesmo tempo. Ele fazia os filmes com o Galante e sempre dizia: “Só monto com esse”. Muitas vezes eu estava terminando um filme do Miziara e ele fazia os produtores esperar. Ele fazia assim: esperava eu terminar pra montar comigo. 

Z- O “Carcaça” era tranqüilo de se trabalhar? 

GW- Putz. O “Carcaça” chegava e falava: “Essa sequencia você destrincha”. Ele descia, saia, ia tomar o conhaque dele e me falava: “Ficou melhor do que se eu tivesse feito”. Entendeu? Ás vezes, eu dirigia o filme na moviola, mudava tudo. Mexia nas coisas. 

Z- Ele não ficava bravo? 

GW- De jeito nenhum. Ao contrário rapaz: ele só queria montar comigo. Comigo ele nunca ficou bravo. Ele me adorava desde a época do Vigilante. Ele me conheceu criança. 

Z- Dizem que ele morreu sem grana. 

GW- Sem grana e sem saúde. Ele tomava muita cachaça e fumava pra caramba. 

Z- O senhor vai muito na Boca hoje? 

GW- Não. Nem tem por quê. O que eu vou fazer lá? É muito desagradável. Eu tenho um cliente na Bela Vista e outro dia eu tinha que esperar ele pra discutir os preços de umas coisas.  Ele não tinha chegado e então eu dei uma caminhada em frente onde era a antiga sede da Lynx na rua Fortaleza. Fiquei um tempão olhando o prédio. Nisso, eu fiquei lembrando que eu entrei ali com 18 anos. Puxa vida, agora eu completei 60 anos. Faz tempo né? 

Z- Faz tempo ou passou muito rápido? (risos) 

GW- Faz muito tempo. 

Z- O pessoal de publicidade tinha um preconceito muito grande com os filmes da Boca? 

GW- Tinha. Isso existia, mas era só aquilo. Não tinha nada haver, nós montávamos comercial, longa-metragem. O Luizinho montava tudo, tudo…documentário. E eu a mesma coisa. O que vinha eu editava. A gente tinha dinamismo. O montador daquela época tinha a obrigação de resolver o trabalho rápido. Era tudo feito em série. Você terminava um e já começava outro. 

Z- O senhor também fazia captação de som? 

GW- Tudo. Eu cheguei a ter repertório de som extraordinário. Na época, eu peguei emprestado um gravador Nagra de precisão e gravei ruído de automóvel, tudo. Tudo o que você possa imaginar que pudesse aparecer num filme de fundo. Eu tinha tudo. 

Z- O senhor se lembra algum filme em que foi difícil de fazer essa parte do som? 

GW- No Vigilante Rodoviário. A batida dos carros. Eu levei partes de carro pra dentro do estúdio. Desde pára-lamas, retrovisor, porta, essas coisas. Lá eu fiz alguns efeitos de batida e depois teve um longa-metragem chamado As Intimidades de Analu e Fernanda

Z- Sim. O Miziara que dirigiu. 

GW- Sim. Tinha uma parte que eu inclusive dirigi no filme dos carros batendo um no outro. Eu gravei tudo pra poder aproveitar. Foi uma sonorização bacana, ficou perfeito. Isso deu muito trabalho, carro saindo, parando, passando. Eu tinha mania de gravar o mais perfeito possível. Por exemplo, se precisasse do ronco de um carro, eu buscava um modelo bem semelhante. Nunca colocava o ronco de um caminhão quando precisasse de um fusca, por exemplo. Não é a mesma coisa. Eu tinha um perfeccionismo muito grande nessa área. Sempre gostei de automóvel, então, eu tinha sons dos mais variados tipos de carros. Sempre tive esse costume e ficava perfeito. Apesar do som naquela época não ter todos os recursos de hoje. 

Z- Era mais difícil editar naquela época? 

GW- Eu acredito que sim. Nunca cheguei a editar no computador. Hoje você faz as fusões rapidamente. Eu comecei a trabalhar com o Luizinho quando eu tinha 17 anos e eu estou com 60 anos. Toda quinta-feira eu vou na chácara dele, a gente fica, toma uns negócios, dá risada e assisti filme velho. O Mazza (o eletricista Osvaldo Leonel) era o nosso pivô, porque ele era um cara muito engraçado.  

Z- O tio do senhor foi o seu segundo pai?

 GW- Ah, com certeza. Eu cheguei a morar com o meu tio junto com os meus primos. Com certeza ele foi o meu segundo pai. Ele foi um pai pra mim em todos os aspectos. Tudo que você gravou aqui agora que eu contei, eu devo ao meu tio. Tudo que eu ganhei e tudo que eu fui no cinema eu devo a ele. Ele vivia falando: “Se a gente voltar a produzir o Vigilante você que vai editar”. Tanto que a gente tinha um piloto e eu editei. Hoje, eu converso com o meu primo e segundo ele tem um foco de voltar a produzir o Vigilante. Tem uma luzinha no fundo do túnel. Eu falei pra ele: “O editor disso tem que ser o Luizinho”. Primeiro pelo conhecimento que ele tinha da época. Segundo que eu não vou editar, porque mudou todos os equipamentos. Então, se acontecer é o Luizinho que tem que editar esse trabalho. O meu primo não é diretor, mas ele tem vontade de voltar. Eu não sei porque eu cismei: eu gostaria muito de conversar com o Sílvio (Santos). Mesmo se fosse pra ele falar: “Não tem como fazer isso”. Quem sabe com o conhecimento que ele tem. Teria também que juntar a Polícia Militar. Eles ajudaram muito o meu tio. Nós temos muitos amigos lá.  

Z- O senhor acompanhava as filmagens de algum filme que o senhor fosse editar? 

GW- Algumas vezes. Eu acompanhava do meu tio né? Do Miziara, do próprio “Carcaça”. Muitas vezes eu já tinha alguma parte que eles tinham filmado. Então, eu ficava no laboratório e organizava todo material. Depois, eu saia com a minha esposa e começava a dar os problemas. Porque eu chegava no campo de filmagem e as atrizes me abraçavam: “Oi Gil, como vai?”. A minha mulher ficava azeda que Deus me livre (risos). Uma vez na Revela tinha uma moviola e eu estava montando. Eu ficava com a continuísta porque tinha dado problema numa sequencia. Ela estava de saia e ficava com os pés em cima da moviola num canto. Só que não dava pra ver nada. Mas quem entrava na sala via né? (risos). Ela ficou toda a vontade. Não é que a minha mulher não chega com o meu avô? Ela queria dar um recado e o meu avô sabia onde era a Revela. Ele coitado, inocentemente trouxe ela. Quando ela viu a continuísta com as pernas cruzadas ali…Deus me livre (risos). 

Z- Ela era filha de português né? 

GW- Era (risos). Com a Lurdinha entre namoro e casamento ficamos juntos cinco anos. 

Z- O senhor tem uma filha? 

GW- Do segundo casamento. Ela está com catorze anos e é uma moçona. Mas eu sou separado do segundo casamento também. Eu não sirvo pra ser casado (risos). Tenho que ficar solteiro mesmo. 

Z- Outro diretor que o senhor trabalhou bastante foi com o Alfredinho. Como era trabalhar com ele? 

GW- Oh, Alfredinho. Eu nem lembrava disso. Gostava muito dele, do Reichenbach também. Do Carlão eu montei uns três ou quatro né? 

Z- Eu tenho a informação que o senhor montou dois filmes dele: Império do Desejo e Paraíso Proibido. 

GW- Foi esses mesmos. O Carlão era um cara maravilhoso, muito bacana. Outro dia eu vi uma entrevista dele na Cultura. Fiquei vendo a entrevista inteira. Ele é um cara inteligentíssimo, muito bacana. Montar com ele nossa…é como montar com o Alfredinho. 

Z- O senhor lembra como era o Carlão na sala de montagem? 

GW- Ele era um cara tranqüilo. Descontraído, a gente montava, conversava. Depois almoçava junto. Voltava pra montar. Foi uma relação normal porque ele é uma pessoa muito legal e muito inteligente. Esse sem dúvida é um apaixonado por cinema. Eu sinto saudades dele. Foi muito gostoso montar esses dois filmes com ele.

 Z- O senhor montou uns quatro filmes do Alfredinho. Foi uma parceria? 

GW- O Alfredinho também só montava comigo. Ele é uma pessoa maravilhosa. Na entrega do livro do meu tio eu encontrei com ele. Está do mesmo jeitinho, uma pessoa muito boa. 

Z- Ele acompanhava a montagem? 

GW- Ficava comigo. Porque muitos filmes eram feitos da mesma maneira. Eles começavam a filmar, o material vinha pro laboratório, revelava e eu começava a colocar na ordem. Uma coisa eu já ia tirando. A gente sempre se comunicando: “Quer que eu vá escolhendo uma cena? Vai deixando de stand by as outras”. Mas eu ia escolhendo a cena em que o ator estivesse melhor. Isso eu aprendi na Lynx. Então, eu escolhia pra adiantar. Quando o diretor terminava a filmagem, o filme já estava todo na ordem. Era só sentar e montar. Muitas vezes eles perguntavam pra mim: “Que hora você vai estar na Revela?”. Eu respondia: “Umas nove horas com certeza”. Normalmente, o diretor chegava meio-dia e eu já tinha adiantado alguma coisa. Se o realizador não gostasse de alguma coisa, eu voltava e era só colar de novo. 

Z- O senhor montou a maioria dos filmes na Revela?

 GW- A maior parte foi na Revela. Tinha um estúdio que tinha moviola que era do Palácios e ficava na Bela Vista. Também montei muita coisa na própria Rua do Triunfo. Na própria Cinedistri, no escritório do Aníbal tinha uma moviola muito boa. Eu montei em vários lugares. Mas a maioria foi na Revela. 

Z- Normalmente, vocês alugavam o local? 

GW- Sim. O produtor alugava e era bem mais fácil. O material vinha pra revelar, eu ia pra moviola e depois ia pro laboratório. Era tudo perto da Boca. 

Z- O senhor montou um filme do Khouri chamado Convite Ao Prazer. Como era trabalhar com ele? 

GW- Foi numa produção do Galante. O Khouri era um cara muito inteligente, uma pessoa maravilhosa. Um cara muito culto. 

Z- Ele mimava muito os montadores? 

GW- É…(rindo). Ele mimava os atores. O Khouri como diretor tinha um ritmo meio lento. Acabou não dando muito certo entre a gente porque eu era mais dinâmico. Ele falava muito: “Passa. Volta a cena”. Depois, ele ficava vendo e pedia pra eu colocar a música. Ele sempre levava uma vitrola e colocava uma música. Depois, ele ficava vendo a cena de novo, ele era um cara lento. Eu e o Galante queríamos montar logo, pro filme ir logo pro cinema. Ele escolhia a cena e perguntava pra mim: “O que você achou? Essa daqui não está melhor”. Mas fora isso, era um cara maravilhoso e muito bem querido no cinema. Talentoso demais. Ele era um dos melhores que tinha né? Pra falar a verdade. Tinham outros muito bons, mas ele era muito talentoso. Os filmes dele eram muito caprichosos, os cenários, a colocação das coisas. Ele exigia muito na interpretação do elenco. Realmente, ele era um cara fantástico. Tanto que o filme dele que eu montei tinha outro requinte. Mas foi muito bacana. 

Z- Ele era um diretor muito exigente? 

GW- Não. Ele era um cara tranqüilo. O Khouri somente era exigente no que ele tinha razão. 

Z- Como se estabeleceu essa parceria do senhor com o Miziara? 

GW- O Miziara era mais como eu. A gente se combinava muito nas decisões, entende? Ás vezes um diretor filmava e algo mudava. Nós dois chegamos inclusive a inverter alguma sequencia. Sempre nos combinamos muito e posso te dizer que trabalhar com o Miziara foi algo fantástico. Eu não tenho nada contra nenhum dos diretores que eu montei. Porque todos gostaram de montar comigo. Mas o Miziara era mais parecido comigo. 

Z- O senhor montou muitas produções do Toninho Meliande. 

GW- Toninho Meliande! Diretor e câmera. Ele dirigiu muita coisa pro Galante. Nossa, foi tranquilíssimo trabalhar com ele. 

Z- Muita gente dizia que ele era mais fotógrafo que diretor. 

GW- Mas ele dirigiu direitinho. Os filmes que fizemos juntos ficaram muito bons. 

Z- O tio do senhor tinha receio de fazer pornochanchada? 

GW- Eu acho que não era o estilo dele. O meu tio gostava mais de comédia e fita policial. Ele gostava mais de ação, essas coisas. Mas na época você tinha que seguir o ritmo. Todo mundo ia no cinema pra ver pornochanchada, pra ver perna de mulher, bunda de mulher. E você vai fazer um filme policial?  A produção afundava. 

Z- Ele produziu um filme policial inclusive. 

GW- Isso. Mas ele fez pornochanchada também. Por exemplo, O Supermanso fui eu que montei. Fez um sucesso muito grande e é muito engraçado esse filme. Ele inclusive atua, faz um bocó que fica na praia. 

Z- Aconteceu alguma vez do senhor montar um filme com um nome e ele ser lançado com outro? 

GW- Olha, aconteceu isso em dois ou três longas do Galante. O título era um e depois se tornou outro. Mas isso não era algo importante pro montador. Pra mim, o mais importante era fazer um bom trabalho e entregar o filme no dia estabelecido pelo produtor. 

Z- O senhor trabalhou bastante com o Galante. 

GW- Sim. Com o Adone Fragano também, com ele fiz uns dois filmes com o Miziara. Acho que fiz uns quatro trabalhos pra ele. 

Z- O senhor teve problema com algum produtor na Boca? 

GW- Não, nunca tive problema nenhum dentro do segmento de cinema. Nunca.  

Z- Pelo que vi o senhor só trabalhava com produtor grande: Ary, Galante. O Galante era um produtor grande da Boca. 

GW- Era um produtor forte na época. Depois, o filho dele passou a produzir também. O John Herbert que dirigiu um filme do Roberto e era pra eu editar. Mas eu estava fazendo outro trabalho e ele quis montar com outra pessoa. Mas pra eu montar e não deu. Montei alguma coisa que o Roberto produziu e outra pessoa dirigiu. 

Z- Alfredinho? 

GW- Acho que foi o Alfredinho. 

Z- Como era trabalhar com ele? 

GW- Nossa, ele era maravilhoso. O Alfredinho era bacana pra caramba. Todos eles, eu não tenho reclamação de nenhum. 

Z- O senhor fez um filme do Rajá também, do Hospital 

GW- Vixi, rapaz. Tem filme aí que eu nem lembro. Puxa, com o Rajá…nossa senhora. Eu ia montar também um do Teobaldo que tinha direção do Dolabella. Só que o filme estava muito confuso e eu caí fora. Não tinha continuidade e eu pulei fora. Tanto que a pessoa que montou depois não teve êxito nenhum. O filme se não me engane não foi exibido, a história era sem graça. 

Z- Esse filme foi feito (chama-se Dani- Um Cachorro Muito Vivo) e foi lançado em VHS inclusive. 

GW- Foi feito…mas eu pulei fora. O filme estava muito complicado pra montar na minha opinião. Mas foi feito sim, eu não lembro da repercussão. Tem em VHS? 

Z- Tem. 

GW- Esses filmes que eu montei tem VHS?

 Z- Muitos tem. Esses do Ary quase todos. 

GW- Em VHS? 

Z- Sim. 

GW- Caramba…não sabia. 

Z- O senhor montou também um filme do Mário Vaz Filho. 

GW- Quem? Não lembro que era. Produção de quem? 

Z- Chama-se O Círculo do Prazer 

GW- Círculo do Prazer fui eu que montei. É tanto tempo cara que agora me foge da memória. 

Z- O senhor se lembra do Marinho? 

GW- Nem estou lembrando dele rapaz. Produção de quem? 

Z- Acho que do Adone. Montar filmes que tinham rótulo de pornochanchada incomodava o senhor? 

GW- Não, magina. Eu tinha que trabalhar, tinha que montar. Você acha que eu ia recusar? O que vinha eu montava. Tem alguns filmes que eram meio ruins, mas muitos eram bem-feitos. Alguns eram feitos muito rapidamente pra se colocar no cinema no mesmo momento. Isso prejudicava o resultado final. 

Z- Existia muitas divisões na Boca? 

GW- Não. O Khouri era o mais privilegiado e tinha mais nome. Mas ele quase nunca ficava lá. Ele ficava mais na Bela Vista, nos teatros que tinham lá e era muito amigo da Sandra Brea que veio a falecer. Inclusive, ela estava no filme que eu montei. Algumas vezes eu ficava puto com ele porque ele ficava no telefone com ela duas, três horas. Nisso, eu ficava parado na moviola. Ficava puto com isso (risos). 

Z- Ele tinha uma voz mansa né? 

GW- Mansa. Falava: “Desculpa Gilbertinho, desculpa. Ela me incomoda porque ela precisa disso, precisa daquilo. A empregada dela foi embora”. Ela era uma atriz cheia de frescuras. Uma vez eu dei um esporro nela dentro de um estúdio. Eu estava dirigindo a dublagem e tive que fazer ela voltar a gravação. Estava fora de sintonia: “Sandra, vamos repetir de novo”. Ela reagiu: “Quem está falando? Quem é você pra dizer se está errado ou certo?”. Eu falei: “Sandra eu sou o responsável pela dublagem e o editor do filme. A fita estás fora de sintonia e eu quero que você faça de novo. Por favor”. Ela falou: “Não vou fazer”, ela tinha invocado comigo. Então eu respondi: “Então, eu vou substituir você. Vou colocar outra pessoa pra dublar você”. Aí depois ficou minha amiga, disse que estava estressada, cansada. Eu respondi: “Eu tenho responsabilidade. Você estava fora de sincronização. Você é uma excelente atriz. Mas todos nós erramos”. Ela respondeu: “Não, você tem razão. É que eu ando estressada. Eu faço quantas vezes você precisar”. Aí mudou tudo. Coitada…que Deus a tenha. 

Z- O senhor se lembra de algum crítico falando bem de alguma montagem sua? 

GW- Teve. Eu nunca soube de uma crítica falando o contrário. Também se eu ouvisse qualquer coisa no gênero, eu com certeza iria pra cima pra saber o motivo. Mas eu nunca soube de crítica nenhuma falando mal de algum longa que eu montei. 

Z- Tem algum diretor da Boca que o senhor acabou não trabalhou e lamenta isso? 

GW- É aquilo que acontece: todo diretor tem o montador dele. É como uma equipe. O meu tio por exemplo. Na equipe dele, sempre tinha o Osvaldo Leonel. Sempre ele estava nas filmagens. Tem aquela turma que você se adapta, sabe como falar. Entendeu? Vai trocar de montador por quê se ele sempre monta com você? Todos tinham o seu câmera, o seu montador. O Miziara e o “Carcaça” tinham o montador deles que era eu. 

Z- O senhor chegou a montar um filme do Roberto Mauro. 

GW- Roberto Mauro? 

Z- Isso, Eu Compro Essa Virgem. 

GW- Poxa, nem me lembro. Eu Compro Essa Virgem…eu acho que sim (risos). 

Z- Dos filmes que o senhor trabalhou, tem algum preferido? 

GW- Olha, quase todos eu gostei. Era um trabalho que eu gostava muito, então todos os filmes que eu montei eu gostei. Todos tiveram êxito, foram vistos por muitas pessoas. 

Z- O senhor ia nos lançamentos dos filmes? 

GW- Ia, com certeza. O avant premiere era feito em diversos cinemas. Muitos no Marabá, inclusive. 

Z- Quais outros montadores da época eram bons? 

GW- Tinham vários editores. Aquilo que eu falei pra você: alguns eram mais lentos pra fazer. Todos eram talentosos. Agora a preferência era Luizinho. Com certeza, o melhor era o Luizinho e depois eu que os caras sempre queriam montar comigo. Por causa do dinamismo que eu herdei do Luizinho. Eu aprendi com ele. Era tão engraçado…outro dia a gente estava no sítio e lembrando alguns causos (rindo). Me veio até lágrimas nos olhos. Pra me apreçar algumas vezes que eu estava com sono, ele jogava as latas no chão e me acordava. Ficava gritando: “Vamos rapaz, pega a lata” (rindo). 

Z- Teve algum assistente do senhor que chegou a virar montador? 

GW- Eu sempre montei sozinho, sempre fiz meu trabalho sozinho. Algumas vezes eu pegava um garoto pra me ajudar, um parente. Sempre editei sozinho porque longa-metragem não precisa de assistente. Tinha o pessoal do estúdio que te ajudava. Eu tinha sempre algum garoto pra enrolar os filmes, colar magnético. Na Boca tinha alguns garotinhos que trabalhavam. Não sei se algum deles chegou a virar montador. Acredito que não. 

Z- O senhor chegou a conhecer na época o trabalho do Eder Mazzini? 

GW- Quem? 

Z- Eder Mazzini montador. 

GW- Não estou me lembrando dele. 

Z- Ele é de Catanduva. Não se lembra? 

GW- Não, não lembro. 

Z- O senhor chegou a montar alguns explícitos? 

GW- Fiz. Vários inclusive. 

Z- Como foi isso? Não teve problema pro senhor isso? 

GW- Não, tudo bem. Nada haver. Todos tinham uma história…o cinema pornochanchada foi indo, indo e hoje é o filme pornô. Hoje, tem os pornô da vida. Quase o que era no cinema era mais ou menos isso. Só não tinha as cenas explícitas mesmo. Era tudo subtendido. Mas o pessoal ia no cinema pra ver isso. Hoje não. Quem quer ver esse tipo de filme pode comprar o DVD. Inclusive teve uma época que me chamaram pra produzir isso. Mas eu não quis. 

Z- O tio do senhor também nunca quis fazer esse tipo de cinema? 

GW- Não. Não porque nós temos um nome no cinema. Me convidaram pra ser sócio nisso, tudo pra produzir pornô. Mas não é filme aquilo né? Não tem história, a interpretação é ridícula. Quando eles tentam fazer uma historinha para um filme pornô fica uma coisa ridícula. Não tem nada haver.   

Z- O que significou a Boca na vida do senhor? 

GW- A Boca foi o começo da minha carreira no cinema. Fez parte da minha vida no cinema. A Boca é como Hollywood…lá ficavam os atores. Muitas vezes passavam carros tentando ver se viam algum ator. Tinha esse pessoal curioso né? A gente ficava ali. John Herbert ficava ali, Francisco Cuoco que fez filme com o Galante. Muita gente começou na Boca, mesmo que fazendo ponta. Tinha muita gente que vinha do teatro também. 

Z- O Fagundes também. 

GW- Sim. O Fagundes trabalhou no Auto da Compadecida, produção do George Jonas com edição do Luizinho. Eu fui assistente dele nesse filme, nós fizemos logo que terminamos o Águias de Fogo. O Luizinho me falou: “Peguei um longa-metragem. Você vai trabalhar de assistente comigo”. Esse filme tinha a Regina Duarte mocinha ainda…eu lembro que nós fomos dublar e ela tinha voltado de lua de mel. Tinha o Armando Borges, que infelizmente já faleceu. Ele era um cara bacana pra caramba, depois tive contato com ele mais pra frente. 

Z- O senhor nunca pensou em dirigir? 

GW- Pensei em fazer isso. O meu problema era a doença que eu tive. Mas eu cheguei a dirigir sim. No Intimidades de Analu e Fernanda do Miziara tem uma sequencia de batida que eu posicionei os carros, tudo. Praticamente eu que dirigi aquela cena junto com o Miziara. Cheguei em pensar em fazer direção. Só que depois logo sai fora, fui trabalhar com o meu sogro na firma dele de postos de gasolina.

 Parte 3

Entrevista: Gilberto Wagner – Parte 1

Dossiê Gilberto Wagner
Parte 1- O início no cinema e os trabalhos em publicidade

 Giba iniciou sua carreira com seu tio, o cineasta e produtor Ary Fernandes

 

Por Matheus Trunk

Zingu!- Seu Gilberto, pra gente começar: fala onde o senhor nasceu, a profissão dos seus pais, essas coisas. 

Gilberto Wagner- Bem, eu nasci em São Paulo. O meu pai era comprador de uma empresa de ônibus, vivia de comercializar peças, essas coisas. A minha mãe trabalhava com prendas domésticas. Depois de fazer os meus estudos, eu acabei indo trabalhar como assistente de montagem do Luizinho (Luiz Elias). Isso foi no (seriado) Águias de Fogo. Depois, quando a série acabou eu entrei na Lynx Filmes, que era uma produtora do Chick Fowle. Tinham mais dois outros sócios nessa empresa. Eu fiquei cinco anos lá e depois fui trabalhar na Marca Filmes. Nessa companhia eu entrei como montador.                                                    

Z- Mas o senhor começou no cinema como ator? 

GW- Sim. Eu comecei no cinema como ator num longa-metragem do Roberto Santos chamado O Grande Momento. Eu tinha seis anos. Depois, eu fiz uns comerciais de televisão com o Manuel de Nóbrega e mesmo com o (Ronald) Golias. Fiz uns capítulos do Vigilante e uns comerciais na Lynx. Mas era tudo ponta e eu era bem garoto na época. 

Z- Então, você começou bem novo. Os seus pais tinham algum receio em você seguir a carreira artística?  

GW- Os meus pais não queriam. O meu tio (Ary Fernandes) sempre dizia: “Ele tem jeito. A gente vai lapidando”. Os meus pais não queriam, porque achavam que eu não conseguiria seguir carreira no cinema. Nessa época, eu tinha um problema de saúde, a dislexia. Naquele período, não se conhecia muito sobre isso. Tanto que a minha filha nasceu e tinha essa enfermidade. Eu e a mãe dela colocamos a menina numa escola especializada. Hoje a menina domina computador, lê, fala. Só que naquela época a dislexia era algo desconhecido. Então, eu tive muitos problemas mesmo dentro do cinema por causa disso. Mas eu fui vencendo. 

Z- Com quantos anos o senhor começou a ter esse problema? 

GW- Desde que eu entrei na escola. Então a minha mãe falava: “Poxa seu irmão estuda e consegue ser um bom aluno. Por que você não consegue?”. Só que a dislexia é um bloqueio e eu tinha isso. Mas isso era algo desconhecido há 45 anos. 

Z- Era outro mundo, certo? 

GW- Outro mundo. Bem melhor que hoje inclusive (risos). Não tenha a menor dúvida. Mas eu tinha esse problema e precisava de uma ajuda especializada. Eu apanhava na classe, a professora me colocava atrás da porta. Era uma cultura bem diferente… 

Z- Bem mais repressivo. 

GW- Exatamente. Então eu sofri com isso daí. Posso confessar pra você isso. Muito tempo depois algumas pessoas falavam pra mim: “Volta a estudar”. Mas eu tinha raiva da escola, eu entrava de costas pra ter impressão que estava indo embora. 

Z- O senhor estudou até qual idade? 

GW- Eu estudei até o ginásio. Mesmo assim foi tudo aos trancos e barrancos. Nisso, eu tomei uma raiva de escola… eu aprendi a ler sem estar na escola. Muitas vezes eu apanhava em casa, minha mãe me dava uns coques na cabeça (risos). Coitada, não estou culpando ela. Eu tinha uma prima que era professora, mas mesmo assim todo mundo desconhecia o problema. Com o tempo, a gente vai superando as dificuldades da vida e eu consegui muita coisa. Consegui ser editor, consegui montar muito longa-metragem. Tinham muitos diretores que diziam: “Eu só monto com o Gilberto”. Depois, eu me afastei do cinema. Eu conheço muita gente, tenho muitos amigos, mas não adianta. 

Z- Só voltando um pouco seu Gilberto, fala um pouco do seu tio. Qual a importância que ele teve no início da sua carreira? 

GW- (emocionado) Ah, o meu tio foi muita coisa pra mim. Ele me deu uma profissão, me colocou no cinema. Ele queria que eu fosse ator, falava isso com os meus pais inclusive. A ideia dele era me colocar nos filmes primeiro fazendo ponta. Só que os meus pais não queriam isso: “Ele já tem problema na escola. Se ele largar os estudos como vai ser depois? Ele não vai decorar texto”. Eu não decorava texto. Eles falavam pra mim: “Você vai chegar ali, fazer isso”. Lógico que bem antes da metade de uma carreira eu ia ter algum problema por causa disso. 

Z- O senhor chegou a fazer algum curso de interpretação? 

GW- Não. Nem tinha isso (rindo). Naquela época, eles te chamavam: “Você vai fazer um tipo assim, assim”. Nisso, eles viam se você tinha talento ou não. Como eu sempre fui descontraído, o meu tio ia na Vera Cruz e eu ia junto. De repente, eu ficava mexendo no bonde, no cenário e todo mundo dava risada. Então, ele teve a ideia de me colocar como ator no Grande Momento. Eu me lembro que eu contracenei em uma cena com o Turíbio Ruiz. 

Z- Como o senhor decidiu ser técnico? 

GW- Eu queria trabalhar e o meu tio ia fazer o seriado Águias de Fogo. Ele falou: “Vamos colocar ele como assistente do rapaz que vai montar o seriado. Quem sabe ele não se adapta?”. Porque eu ia nos estúdios com o meu tio desde a época do Vigilante… ás vezes eu ficava com o cachorro. Tinham aquelas coisas, né? Ele me apresentou pro Luizinho. Na época, ele trabalhava numa produtora chamada Documental Filmes e eu comecei a trabalhar com ele, do lado dele. “Pega aquela lata, desenrola o filme”, ele me ensinou a desenrolar o filme. 

Z- Ensinou você a mexer na moviola? 

GW- Na moviola, tudo. Era umas máquinas antigas que muitas vezes faziam a gente machucar o dedo (risos). Nisso, eu fui montando, gostando e sempre prestando atenção. Eu aprendia vendo o Luizinho fazer o trabalho. Como eu tinha dificuldade pra entender na leitura, eu ia vendo. Depois, eu via o filme inteiro e até lia o roteiro. Mas eu fazia sozinho tudo isso, lia devagar e via a sequencia. 

Z- Como o senhor percebeu que você gostava da edição? 

GW- Começou a dar certo. Eu estava gostando de fazer aquilo e eu gostava de cinema. Fui me inspirando no meu tio. A nossa família era toda junta, numa casa do lado da outra. Então, eu ficava muito tempo com o meu tio. 

Z- Só por curiosidade: ele era o padrinho do senhor? 

GW- Sim. Ele ia pro estúdio e se saísse num domingo de manhã, eu ia junto. Num sábado. Nas férias escolares eu ia junto. Quando eu entrava numa sala de montagem, eu ficava brincando com tudo. Era criança, tinha seis, sete anos. Depois ele via que eu queria ir com ele, então fomos experimentando. Na montagem eu ficava montando na moviola, no projetor. Depois com o Luizinho eu acabei seguindo e fui montador de vários longas-metragens.

 Z- Acho que mais de 40 longas-metragens? 

GW- Por aí. Você sabe mais que eu mesmo (risos). 

Z- Depois o senhor foi ator no Vigilante 

GW- Eu fiz um episódio só. Era pra eu ter feito uns três. Muitas vezes eu não podia ir porque senão teria faltado na escola. 

Z- Como era a relação do seu tio com o Carlos Miranda? 

GW- Eles eram amigos. Sempre foram. Depois se desentenderam por coisa boba. 

Z- O Palácios também? 

GW- Com todos. Eu pelo menos não sei de nada. Sempre foram amigos. 

Z- O Luizinho me contou que eles comiam em lata de filme, o Mazza (apelido de Osvaldo Leonel, eletricista) inclusive dormia dentro do estúdio. A equipe era muito dedicada? 

GW- O negócio era tudo espremido. Tinha patrocínio da Nestlé, mas tinha muita despesa também. A Polícia Rodoviária Militar ajudou muito o meu tio. Ainda hoje se você estiver na estrada e falar do Carlinhos eles respeitam muito. Era assim mesmo, todo mundo comia em marmita. Eu mesmo numa filmagem comi uma maçã. Ficou a comida pra todo mundo e o meu tio perguntou: “Você não quer comer? Então, come uma fruta”. Então, era muito espremido pra você conseguir terminar a filmagem de um longa-metragem. 

Z- O Luiz Elias foi uma espécie de mestre do senhor na profissão? 

GW- Não tenha dúvida. O Luizinho é o melhor montador que teve no Brasil. 

Z- Melhor que o Sylvio Renoldi? 

GW- Muito mais. Não é que eu acho. Eu tenho certeza. O Luizinho foi o melhor editor na época. Hoje a edição é feita de uma maneira muito diferente. Veja você: o filho dele está na Record e é editor da emissora. Mas o Luizinho sem sombra de dúvida era o melhor editor que tinha no Brasil. Ele tinha um dinamismo e conhecia. Isso ele passou pra mim e outro dia nós estávamos na chácara dele rindo. Depois, eu passei a corrigir o meu tio, ás vezes numa sequencia um cara sai da direita e entra para a esquerda. Eu falava pra ele: “Tio tem que fazer essa cena de novo”. O Luizinho tinha esse dinamismo e conhecia bastante. Ele começou na Maristela que ficava no bairro do Jaçanã. O Luiz Elias e o Sylvio Renoldi começaram ali brincando juntos. Uma das características que sempre falam do Luizinho é a rapidez dele. 

Z- O senhor chegou a trabalhar como assistente de outros montadores? 

GW- Sim. Eu comecei como assistente dele no Águias de Fogo. Quando terminou o seriado, eu entrei na Lynx Filmes como assistente de montagem de todos os montadores da casa. Tinham dois montadores, um chamado Gilberto que já faleceu, inclusive. Depois, eu fui pra produtora do Sílvio e passei um período longo numa produtora chamada Zodíaco. Dentro dessa empresa, eu fiz um trabalho longo sobre as canetinhas Papermante. Na Lynx, eu aprendi a fazer trucagens, fusões de cenas, fixar quadros. Tudo isso aprendi com o Chick Fowle. Foi ele quem me ensinou a fazer a trucagem de um filme. Quando eu fui trabalhar na produtora do Sílvio Santos, eu já era um montador profissional com um grande conhecimento sobre o assunto. 

Z- A produtora do Sílvio se chamava Marca Filmes. Era de comercial? 

GW- A gente fazia os comerciais dele e as vinhetas. Era uma coisa paralela dentro dos estúdios. 

Z- Como era trabalhar com ele? 

GW- O Sílvio foi o melhor patrão que eu tive. Sempre respeitei todos, todos me respeitaram. Mas o Sílvio era uma coisa fora do comum. Pra ele, todos eram iguais. Isso que sempre foi bonito nele. Dizem que até hoje ele é assim. Ele sempre foi um cara honesto e sincero. Uma pessoa muito bacana. 

Z- Ele sempre pagou em dia? 

GW- Nossa! Põe em dia nisso. Você podia contar religiosamente com o salário. Ele entrava na sala de montagem como nós estamos conversando aqui e ele não era nada de especial. O braço-direito dele na empresa era o Luciano Callegari. 

Z- O senhor trabalhou bastante com o Manuel de Nóbrega? 

GW- Fiz muita coisa com ele. Ás vezes, no estúdio eu estava montando e o Golias tinha um programa que ele fazia na produtora. Então, tinha que chamar as pessoas para darem as risadas. Todo mundo me chamava: “Vamos lá pra rir”. O cara levantava a mão e nós dávamos risada. Foi bacana, um tempo bom pra caramba. Editei muitos trabalhos em que atuava aquele ator antigo, o Borges de Barros. Na Praça É Nossa, ele fazia um mendingo. Um sujeito muito bacana. 

Z- Ele já é falecido. 

GW- Que Deus o tenha num lugar maravilhoso. Porque ele era um sujeito muito bacana. 

Z- O senhor trabalhou quanto tempo com o Sílvio Santos? 

GW- Quatro anos. Depois, eu sai pra montar longas-metragens e continuava trabalhando como freelancer. Trabalhando por conta própria. Eu não queria mais trabalhar em produtora, muita cobrança, os horários eram muito ruins. Então, eu comecei a trabalhar na Boca.

 Z- Onde ficava a Marca Filmes? 

GW- Ficava na Vila Guilherme (zona norte de São Paulo). De noite, eu montava num laboratório chamado Revela, onde hoje é a TV Record (no bairro da Barra Funda). Eu editava os filmes lá de noite. Tem alguns filmes do meu tio que eu fiz lá como O Supermanso, O Jeca e o Bode. Tudo isso com edição minha. Teve um episódio do Vigilante que foi um projeto que a Embrafilme fez pra seriado de televisão. Foi uma coisa nova, mais moderna. Não era com o Carlinhos (Miranda) e sim com o (Antônio) Fonzar. Era um personagem que trabalhava com o Sílvio, mas depois sumiu. Eu nunca mais vi ele. Depois, eu fiquei noivo e a minha mulher tinha um ciúme do cão porque eu trabalhava em cinema.

 Z- Tinham muitas moças no cinema? 

GW- Bom…você sabe como é? As atrizes são um campo muito fechado de amizades. Hoje já se aceita mais. Mas naquela época era difícil. O meu sogro era dono de uma rede de postos de gasolina… 

Z- Qual rede? 

GW- Rede Ringo. Eles começaram a me perturbar: “Larga, não sei o quê”. A minha mulher queria que eu fosse trabalhar lá. Isso tudo é uma história muito longa. Mas o resultado final foi que eu fui trabalhar com o meu sogro. Larguei o cinema durante um tempo. Depois começou a complicar porque não era mais moviola, era tudo no VHS. Nisso, eu fiquei trabalhando com o meu sogro e larguei o cinema. Deu uma caída na produção, entrou muito filme pornô, aquela coisa toda. Bom, depois eu tive uns convites do Luizinho pra ajudar ele editar. Inclusive alguns como assistente de edição dele, editando algumas pistas. No Pelé Eterno eu também ajudei o Luizinho. Fiquei um bom tempo na Record resgatando os gols, aquele negócio todo. Hoje eu tenho o meu negócio próprio vendendo antepastos, palmito, champingnon, essas coisas. Tenho os meus clientes. Forneço pra pizzarias, restaurantes. Então, eu larguei o cinema. O meu tio também veio a falecer a pouco tempo. Eu tinha vontade de reproduzir o Vigilante. O meu tio ainda era vivo e eu falava com ele sobre isso: “Vamos marcar uma entrevista com o Sílvio (Santos). Vamos ver qual é o caminho mais certo para reproduzir o seriado”. Acho que daria certo a gente reproduzir a série hoje em dia.

Parte 2

Entrevista: Gilberto Wagner – Parte 3

Dossiê Gilberto Wagner 
Parte 3- A decadência do cinema e o futuro

 

Por Matheus Trunk

Z- Depois do cinema, quais trabalhos o senhor teve? 

GW- Depois dos postos, eu comecei a trabalhar com venda de carros, comprava em leilão. Eu arrumava o veículo e revendia. Um tempo eu acabei trabalhando na transportadora de um amigo meu. Eu já trabalhei com um monte de coisa, em empresas de amigo tomando conta de departamentos. Mas cinema eu nunca voltei. 

Z- Mas tem vontade de voltar? 

GW- Não, não tenho. Depois disso, eu trabalhei mesmo com o Luizinho ajudando ele no filme da TV Colosso (Gilberto refere-se ao longa-metragem Supercolosso, o Filme dirigido por Luiz Ferré em 1994) e no Pelé Eterno. Isso foi a única coisa que eu fiz depois que eu larguei o cinema. 

Z- O senhor acha que os técnicos são pouco lembrados no cinema brasileiro? 

GW- Agora é outra época. Nem tem porque ser lembrado. Não é como um diretor. Por exemplo, um cara que faz um espetáculo e sempre vai ser lembrado. O John Herbert foi lembrado porque foi casado com a Eva Wilma, fez muitas novelas. Depois foi dirigindo, estava na Globo recentemente. Então, ele foi uma pessoa que ficou conhecida. Lógico que tem que ser lembrado, mas os demais. Técnicos…montador. Quantos filmes o Luizinho montou? Quantos prêmios ele ganhou? Quantos méritos ele teve? Alguém lembra dele? 

Z- O senhor acha que ele poderia ser mais lembrado? 

GW- Eu acredito que sim. Acho que ele deveria como os outros foram. Ele tem o mérito dele dentro do cinema. Só que o mérito fica pra quem? Pra quem dirige, pra quem está em destaque. Você não vê quantos atores estão encostados por aí? Alguém lembra deles? Ficou velho acabou. Vamos supor: se a Globo fizer o que você está fazendo e falar do Luiz Elias. Mas quem era o Luiz Elias? Ele ficava atrás da câmera, bem atrás das câmeras. Como ele, como eu e os outros montadores. Hoje, me faz lembrar o programa do Faustão. Ele brinca com o câmera e o cara acaba sendo conhecido. Mas fora isso podem falar: “Aquele cara foi câmera da Globo”. Mas o Luizinho e eu ficávamos atrás das câmeras, bem atrás inclusive. Atrás do diretor inclusive. Mas lógico: eu acho que deveria ser lembrado sim. Nós tivemos méritos. Se o filme foi pra Gramado e ganhou prêmio o mérito fica pro produtor, pro diretor. O editor não aparece. E o editor é uma peça importante num filme. 

Z- O senhor acredita que muitas vezes o montador pode ser uma espécie de co-autor? Por exemplo, o senhor falou que no Intimidades de Analu e Fernanda o seu trabalho foi importante no produto final do filme. 

GW- Olha, foi um trabalho bacana pra caramba de se fazer. Mas eu nem sei se o Miziara ganhou algum prêmio com aquele filme. 

Z- O senhor chegou a ganhar algum prêmio como montador? 

GW- Não. Nunca ganhei nada. Ganhava elogios: “Parabéns. O filme ficou bom”. Isso na Boca, no meio artístico. Sempre falavam assim: “Quem montou foi o sobrinho do Ary, o Gilberto”. O meu nome era sobrinho do Ary, Gilberto. O nome do meu tio sempre na frente porque ele foi cineasta. Quando o meu tio estava em cinema, eu não era nem nascido. 

Z- Isso incomodou alguma vez o senhor? 

GW- Magina, nunca. Em hipótese nenhuma. Nunca me perturbou isso em nada, de jeito nenhum. Muito pelo contrário, eu ficava satisfeito porque foi o filme que eu tinha editado. De repente, a gente estava numa reunião e alguém perguntava quem tinha montado. Eu respondia e sempre me elogiaram. Foi isso aí. 

Z- Seu Gilberto, pra gente encerrar: o que o senhor acha que fica do senhor pra posteridade? 

GW- A memória de quem lembrar de mim. Como o Miziara, o pessoal de cinema mesmo. Outras pessoas, você que está me conhecendo agora. Você está fazendo a entrevista e sabe o que eu fiz. Lógico se você está fazendo isso é porque você gosta de cinema. Então, vai ficar na memória dessas pessoas e do pessoal do cinema. Porque pra muita gente eu e um paralelepípedo não tem grande diferença. Isso deve acontecer com os outros montadores também que foram técnicos e não tiveram muito destaque. O meu tio, por exemplo, era conhecido. Ele foi no Faustão, tinha reconhecimento por ter sido produtor e diretor. Ao contrário de mim, eu era apenas editor, ficava atrás dele. Agora pro futuro: amanhã eu morro, venho a falecer e fica que eu fiz tudo isso que você está me entrevistando. Pra você e pro pessoal de cinema. Entendeu? Eu comecei como ator e depois virei editor. 

Z- E dos grandes… 

GW- Ah…(olhando negativamente) 

Z- Na Boca… 

GW- Na Boca sim. 

Z- Montar Walter Hugo Khouri convenhamos que não é qualquer um. 

GW- Não é qualquer um que montava. Com certeza. 

Z- Pela nossa conversa, eu percebo que o senhor gostaria de refazer o Vigilante Rodoviário. 

GW- Sim. Eu tenho certeza que esse seriado faria sucesso hoje. Porque fez muito sucesso na época. Agora lançou em DVD e eu tenho todos os capítulos. Cheguei a passar alguns pra minha filha, pra uma amiguinha da minha filha e elas dão risadas. Poxa, o seriado foi feito em 1963, 64. Tem umas horas que o cachorro faz isso, faz aquilo e dão risada. Todo mundo dá risada e nós estamos em outra época. 

Z- São mais de 40 anos. 

GW- Mais de 40 anos. Eu tenho certeza que se produzir o Vigilante de novo com certeza vai ter uma repercussão boa. Mas precisa de patrocínio…o cinema hoje é diferente de antes. Hoje não é película. 

 Parte 2