Na Garganta do Diabo

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

 

Na Garganta do Diabo
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1959. 

Por Alfredo Sternheim 

A minha aproximação com Na Garganta do Diabo deu-se primeiro em 1959, assistindo a algumas horas de filmagem nos estúdios da Vera Cruz. Tinha 17 anos e ver como eram feitos cada trecho, consolidou de vez a minha vontade de fazer cinema. No ano seguinte, ao ver o filme, fiquei maravilhado com a direção de Khouri. Já o admirava pelos seus dois longas anteriores, Estranho Encontro e Fronteiras do Inferno. E nesta história ambientada durante a guerra do Paraguai, quando quatro desertores se escondem na casa de um idoso e suas duas filhas, ele confirmou-se como mestre do intimismo. O cineasta não se preocupou em fazer algo com muita ação ou com o viés nacionalista sobre o histórico conflito. Em vez disso, influenciado pela literatura de D. H. Lawrence, empenhou-se em enfatizar os sentimentos interiores e represados da alma e do corpo. Principalmente da mais velha das moças (Odete Lara, fantástica) que até então, vivia confinada, sem oportunidades eróticas. 

Como sempre, Khouri usou a câmera de maneira inteligente, em função do que movia os perturbados personagens. Ele sabia adequar os ângulos às situações e aos intérpretes. E estes, bem conduzidos, se integravam às intenções do realizador, sempre coerente com a sua visão de mundo, não obstante as pressões da esquerda festiva na crítica da época que desqualificava o seu trabalho por não oferecer aquele quadro regional exacerbado e quase sempre falso de muitas criações do Cinema Novo. Voltado para frustrações e condutas algo alienadas do ser humano, o diretor não caiu na tentação de explorar em demasia e de forma turística, as cataratas do Iguaçu. Estas são usadas com parcimônia, como o contraponto da força da natureza atuando sobre os personagens.   

Com brilhante fotografia em preto e branco de mestre Rudolph Icsey, funcional cenografia de Pierino Massenzi e uma inspirada música de Gabriel Migliori, Na Garganta do Diabo é o meu filme preferido de Khouri. E motivou a convencê-lo me aceitar como segundo assistente e continuista em A Ilha, após convite feito durante uma palestra no cine clube do centro  Dom Vital. 

Na Garganta do Diabo tem a ausência da influência e do cerebralismo vindos da obra de Antonioni que se manifestaria a partir de Noite Vazia, onde também fui seu assistente. Por causa desse meu envolvimento, não tenho o distanciamento emocional que me faça apreciar entusiasticamente esse filme que muitos incluem entre os melhores de todos os tempos no cinema brasileiro. Mas fica aqui a minha admiração pela obra de Khouri e minha gratidão pelo aprendizado que tive nos dois longas. 

Alfredo Sternheim é cineasta e jornalista. Paixão na Praia, Anjo Loiro, Pureza Proibida, Mulher Desejada, Corpo Devasso, Violência na Carne e Brisas do Amor são alguns de seus filmes.

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O Que É Cinema Brasileiro?

Por Ataídes Braga

Poderia responder de várias formas: Primeiro como pergunta: Se o cinema é a identidade de um país, qual seria a nossa?

Cinema brasileiro é todo aquele que não nos é estranho, pois todo o mais o é.

Somos muito grande, diverso, complexo, por mais que queiram nos simplificar.

O cinema brasileiro tem fraqueza estrutural: Se produz, não distribui e exibi pouco.

O país carece de fisionomia, é anêmico, e sofre enormes pressões de produções estrangeiras, que sufocam nosso mercado.

O cinema é o retrato de um povo, sua língua, suas ambições, suas inquietações, etc.

A crítica severa e, às vezes, injusta, por parte da intelectualidade, do público, e a luta constante pelo mercado contra o predomínio estrangeiro, existem das primeiras filmagens e perpassam os anos até os dias atuais. O cinema está ausente nas telas, nos vídeos e nas televisões do país no dia a dia, sofrendo do mal crônico da incompreensão e do desprestígio.

Dizem que o público não gosta do Cinema Brasileiro – como gostar de um cinema que ele pouco conhece? Quantas pessoas viram os clássicos do nosso cinema? Quantas pessoas conhecem a história do cinema brasileiro, as lutas e as conquistas?

Sem pretensão de respostas, convido a todos a pensarem e repensarem o cinema brasileiro, e através do conhecimento de suas obras e autores, conhecer o nosso país com todas as suas agruras. O Cinema Brasileiro é Crime e Castigo

Ataídes Braga é poeta, professor de cinema, roteirista, diretor de produção; crítico e comentarista de cinema em jornais, rádios e tvs; ministra aulas em faculdades, cursos e oficinas; participou de vários filmes realizados nos últimos anos em BH; Pesquisador do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro; Autor dos livros – O Fim das Coisas – Salas de Cinemas de Belo Horizonte, CRAV/Secretária Municipal; Fragmentos de Versos, Plurartes, 2010; Cachoeira de filmes, Allgas, 2011.Integrante da Rede Kino.

Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

A “indústria” dos filmes brasileiros

Em meados do ano passado eu comecei a escrever um pequeno romance, que terminei lá pelo finzinho de dezembro. Então começou a fase de releitura, revisão e “acabamento”. Após um tempo comecei a mandá-lo a editoras, sendo que até o momento desta coluna não havia recebido nenhum sinal verde.

Eis que cerca de um mês atrás uma conhecida me envia um edital para a publicação de obras inéditas em São Paulo. Não, não estou tergiversando. Essa introdução serve bem ao que vou falar.

O edital é muito complicado. Impõe várias condições e deixa o proponente ao deus-dará, só se preocupando em “ressarci-lo” das despesas, se elas estiverem devidamente orçamentadas dentro de normas específicas. Eu, sem contatos e experiência, estou passando maus momentos. E numa de minhas queixas, uma amiga me disse: “e você já viu como são os editais de cinema? Esses sim, infernais”. E ela tem toda a razão.

Arte no Brasil é um assunto de levantar os cabelos. Mercados fechados, falta de investimento, dificuldades várias no lidar com o público e com o retorno dos projetos financiados com dinheiro público, por exemplo. Os editais de cinema são misteriosíssimos, repletos de critérios inconvenientes e desabonadores.

Mas a bem da verdade, não é o único problema que se enfrenta no Brasil. Se você não tem um nome, a coisa é ciclicamente desesperadora. Não é incomum ver num filme brasileiro uma tela repleta de brasões e logomarcas com os patrocínios que fizeram o filme vir à luz. Mas já se parou para pensar no caminho até ali? Em quanto tempo e esforço foram gastos até essa fase? E a demora do processo?

Recentemente, os cinemas brasileiros exibiram Natimorto, filme baseado em livro de Lourenço Mutarelli, e, aliás, protagonizado por esse autor. Além do público errante e irrisório (e não que Natimorto seja um ótimo filme, não é o que discuto), a falta de apoios materiais para estabilizar o projeto fez com que o filme só fosse veiculado dois anos após sua feitura. Sim! Dois anos. Dois longos anos! E é um filme com o respeitado Mutarelli, a conhecida Simone Spoladore. E também já está saindo de cartaz.

Quantos mil projetos cinematográficos não são engavetados todos os dias? Quantos realizadores independentes ou neófitos têm sua chance negada pela obscuridade de sua recepção? Quantos filmes o Brasil não deixou de realizar por causa dessa estúpida máquina burocrática que condena um filme a ser exibido dois anos depois de sua produção?

O caso de Natimorto não é incomum. É corriqueiro filmes brasileiros chegarem ao mercado anos após sua finalização ou exibição em mostras e festivais. Não há apoio para o cinema brasileiro, a não ser que ele venha com o auxílio da Rede Globo e suas virulentas estratégias de marketing e divulgação. Ou há dúvidas do dedo dessa senhora por trás de sucessos “midiáticos” como Chico Xavier, Bruna Surfistinha e De pernas pro ar?

Reclamo muito, em várias críticas, de certas tendências do cinema brasileiro, em especial das pornochanchadas, que considero pavorosas em muitos aspectos. Mas será que o caminho não é esse? Filmes artesanais, de custo minúsculo, para muitos espectadores, sem dinheiro público, sem depender de editais ou da boa vontade das instituições que de nada servem ao cinema? Porque que país é este em que a arte já chega ao público com defasagem de anos?

Não é possível ou moral concordar com essa situação. Um cinema capengando na mão de burocratas, bancos e órgãos de cinema que não representam qualquer arte ou artista. É preciso que o Brasil acorde e vá fazer cinema. A sério. E pra valer.

Filme-Farol

 Por William Alves 

Cidade Baixa
Direção: Sérgio Machado
Brasil, 2005.

Nunca entendi muito bem esse negócio de “retomada”. Afinal, como é que uma bomba gigante como Carlota Joaquina pode ser incluído no mesmo balaio que o estupendo Lavoura Arcaica? No entanto, no esteio da tal retomada, voluntariamente ou não, veio o cearense Karim Aïnouz. Gostei de Madame Satã, apreciei ainda mais O Céu de Suely, o que viabilizou uma curiosidade crescente sobre o que mais o sujeito tinha produzido. E foi assim que cheguei em Cidade Baixa, com roteiro de Aïnouz e direção de Sérgio Machado – e nem saber que era uma produção de Walter Salles me desencorajou, devo afirmar.

Em 2005, Lázaro Ramos e Wagner Moura não eram as unanimidades e exemplos de astros infalíveis que são hoje. Eram atores promissores, mas ainda figuravam longe do status messiânico de um Selton Mello. Alice Braga, então, era só mais um ponto genealógico em comum com a tia Sônia, dama do lotação. Talvez essa mesma ausência de desgaste tenha contribuído para tornar Cidade Baixa naquilo que Machado e Aïnouz planejaram para Cidade Baixa: uma disputa suja e sem glamour, protagonizada por dois sujeitos frustrados e combalidos.

Ou talvez seja Deco, personagem de Ramos, pilotando o barco de pesca e informando a Naldinho (Moura), que o jogo “ta 1 a 0 pro Vitória, gol do Obina”. Tudo em Cidade Baixa remete ao homem convencional brasileiro, que não dispensa uma cerveja barata e não dá a mínima para o aumento da taxa Selic. Esse fator “igualitário”, essa destreza em antagonizar dois indivíduos sem vantagens – materiais ou emocionais – sobre o outro, foi a força motriz do grande fascínio que o filme exerceu sobre mim, ampliado pela recente revisão do longa.

A trama é minimalista: Karinna, uma prostituta em início de carreira, pega uma carona no barco dos rapazes, em troca de uma transa com ambos. Deco e Naldinho, que são mais carentes do que admitem ser, se afeiçoam instantaneamente à moça. Rusgas mínimas, que foram sendo absorvidas pela fortificação da amizade, emergem em Salvador.

As cenas mais intensas são a meia-luz. Uma boate modesta ou um quarto de hotel sujo são os principais cenários para a hostilidade mortífera que se desenvolve. Durante o dia, Deco e Naldinho sorriem amarelo e falam de negócios. À noite, os becos enegrecidos do cais sediam a disputa, que ameaça estourar a muralha de boa vontade.

Com Cidade Baixa, me tornei mais receptivo a tudo que vinha carimbado com o selo “retomada”. Descobri algumas jóias tardias, como os filmes de Beto Brant, e retomadas de coisa nenhuma, como A Concepção. E o mais importante: retomei o anseio pelo cinema nativo.

Nossa Canção

Orfeu da Conceição: no rastro da MPB de outrora, na trilha da MPBossa que viria
 
   


Por Nísio Teixeira

Pensei em várias ideias para esta seção, mas quando o Adilson falou que antecipou o deadline para 10 de junho, aniversário de Bibi Ferreira, mas também de João Gilberto, eu fiquei pensando como para mim o início da Bossa Nova está muito atrelado ao filme Orfeu Negro/Orfeu do Carnaval, já comentado aqui por ocasião do especial de Carnaval.

A trilha, produzida originalmente para a peça Orfeu da Conceição, foi a primeira parceria entre Tom Jobim e Vincius de Moraes, em 1956. No filme, está lá o violão de Luiz Bonfá e nos vocais, destaca-se Agostinho dos Santos. Bem diferente da voz original de Roberto Paiva que marca a trilha da peça. Como se sabe, o sucesso da peça levou ao filme de Camus, que acabou premiado em Cannes em 1959, mesmo ano em que um consagrado João Gilberto grava Chega de Saudade e, três anos depois, também grava algumas das músicas no disco EP João Gilberto Cantando as Músicas do Filme Orfeu do Carnaval.

Partindo da trilha do filme, queria voltar a esse início, em 1956, quando Jobim e Vinicius produzem a trilha da peça. Vadico, célebre parceiro de Noel Rosa (que seria um bom nome para esta seção, mas deixemos para próximas oportunidades), havia recusado o convite para musicá-la, e o feito coube a Jobim. O que é interessante, nesse momento, é não só perceber o prenúncio da Bossa Nova naquela reunião na peculiar Rua Nascimento Silva, 107, mas também uma espécie de coda de uma outra música popular brasileira: a da era de ouro do rádio no Brasil. A trilha da peça Orfeu da Conceição funciona, assim, como uma interseção de gerações, a de Vadico e Roberto Paiva, e os emergentes da Bossa Nova, que, como visto, obteria consagração internacional fulminante em menos de cinco anos no cinema, com a premiação de Camus, e na música, com os próprios Tom, Vinicius e João – este, como visto, recantando as músicas do filme no Tom da Bossa Nova seis anos depois de Paiva, que, creio, precisa ser mais ouvido e comentado. Façamos aqui, portanto, uma ressalva e um rápido parêntesis biográfico. A ressalva fica com o próprio Vinicius de Moraes como elo forte dessa interseção geracional da música popular brasileira: afinal, o Poetinha já tinha canções interpretadas pelos nomes mais e menos conhecidos da era do rádio, como Carlos Galhardo, Irmãos Tapajós e João Petra de Barros. O parênteses pra que a gente conheça um pouco mais o Roberto Paiva.

Roberto Paiva é o nome artístico de Helim Silveira Neves, nascido no Rio de Janeiro a 8 de fevereiro de 1921. Cresceu na Vila Isabel, na rua Santa Luiza, onde, durante o Carnaval, recorda-se das batalhas de confetes existentes ali e na rua adjacente, Dona Zulmira, a dois quarteirões de onde, em 1950, seria construído o estádio do Maracanã.

Helim tornou-se Roberto Paiva num dia de gazeta escolar em 1937. Contrariando o que cantava em Feitio de Oração o ídolo Noel Rosa, que viu algumas vezes na mesma Vila Isabel, Helim e seus amigos aprendiam, sim, um pouco de samba no colégio – no caso, o Pedro II. Sempre que alguém queria lembrar algum samba, Helim era solicitado pelos colegas para cantar os novos sucessos do rádio, do qual era ouvinte assíduo. Mas, naquele ano, o Rio se mobilizava para receber a visita do galã hollywoodiano Robert Taylor, que chegava de navio. As colegas de Helim propuseram matar aula para ver o astro do cinema. Já o cantor e seus amigos não estavam interessados em ver galã algum, mas sim em gazetear jogando futebol. Como a vaquinha feita entre eles não foi suficiente para comprar uma bola, decidiram pegar um ônibus e passear em Niterói.

No meio do caminho, Helim passa pela Rádio Sociedade Fluminense (PRA-6), uma das mais ouvidas em sua casa. Decide, então, conhecer a rádio com os amigos. Ao chegarem na emissora, justamente naquele dia a rádio selecionava, ao vivo, cantores para o seu próximo programa de calouros. Conhecedores da fama do colega no colégio e meio que por molecagem, os amigos resolvem inscrever Helim no programa. E foi assim que, sem ter realmente a menor intenção de cantar, Helim tem sua primeira experiência no rádio. Ao ser perguntado pelo locutor, ele titubeia um pouco, pois, afinal, os pais poderiam estar ouvindo a rádio e descobrir a gazeta do filho. Imediatamente ele se lembra do nome do astro que o fez estar ali naquele dia e responde, de pronto, “Roberto”, ao que acrescenta o “Paiva” em referência a uns parentes paternos de terceiro grau que tinham esse sobrenome.

O novo cantor agendou sua apresentação e, em seguida, olhou para a turma e disse: “agora vocês terão de voltar comigo”. Mas, no dia da estreia, os amigos – entre eles um bom tocador de chorinho, Nilton Fiúza – arrebentam as cordas durante o ensaio. E assim Helim acaba por cantar acompanhado pelo violão do cego Chiquitinho a valsa A Você, de Ataulfo Alves e Aldo Cabral, famosa à época na voz de Carlos Galhardo.

Ao terminar a canção, finalmente Roberto Paiva fizera sua estreia e, ali mesmo, recebera o elogio daquele que seria o seu grande padrinho no mundo do rádio: Cyro Monteiro, que o incentivou a terminar os estudos. Seis meses depois, durante outra gazeta, Paiva tenta a sorte na rádio Mayrink Veiga, uma das mais importantes do Rio, e a primeira pessoa que vê é Cyro Monteiro, que o apresenta a um dos primeiros nomes da emissora, Barbosa Júnior. Ali ele cantou a valsa Caprichos do Destino, de Claudionor Cruz e Pedro Caetano, que sabia ser uma das prediletas de Barbosa. Em seguida obteve um contrato para o programa Picolino, levado ao ar às terças e quintas, de 11h às 12h30, no qual ganhava 20 mil réis para cantar. No programa, participavam o pianista Nonô (Romualdo Peixoto, tio de Cyro e do também cantor Cauby Peixoto) e o violonista Laurindo de Almeida.

Foi Laurindo quem levou Paiva para tentar gravar um disco pela Odeon. O amigo o apresentou ao chefão, Sr. Strauss e chegando lá, Francisco Alves gravava o fox Ainda uma vez (de Francisco Matoso e José Maria de Abreu), acompanhado pela Orquestra Copacabana. Naquele ano de 1938, os estúdios tinham que abrigar no mesmo espaço cerca de 20 músicos, entre violinistas, violas, além do cantor, todos eles sendo assistidos por apenas um microfone, mas também por técnicos com “T” maiúsculo, como Airton Pisco, recentemente falecido, que permitem até hoje ouvir essas músicas com a qualidade e a nitidez, por exemplo, do belíssimo piano de um Francisco Scarambone.

Fechado o parênteses, voltemos a Orfeu da Conceição. Em 1954, Paiva sai da gravadora Sinter e retorna, após quase 15 anos, à sua primeira casa, a Odeon. Depois de já garantir pelo menos um sucesso à gravadora com Menino de Braçanã, de Paquito, em 1956, o diretor artístico da Odeon, Aloysio de Oliveira pede que Paiva vá até um endereço de Ipanema: precisamente à Rua Nascimento Silva, 107. Oliveira havia integrado o famoso Bando da Lua, grupo que acompanhara Carmen Miranda no exterior, e também havia registrado presença no cinema como a voz que interpreta Aquarela do Brasil no famoso desenho Alô Amigos feito por Walt Disney e que apresenta Donald a Zé Carioca e Aurora Miranda. Agora diretor da Odeon, pediu que Paiva fosse àquele endereço em Ipanema pois ali estava morando um pianista e arranjador, parceiro de Newton Mendonça e Billy Blanco em alguns trabalhos, um certo Antônio Carlos Jobim. Ele estava terminando uma série de “sambinhas” que fizera com um novo parceiro, Vinicius de Moraes – já famoso na roda da poesia, da música e do cinema – para o espetáculo Orfeu da Conceição. Era uma adaptação aos morros cariocas do célebre mito grego de Orfeu, que estrearia a 25 de setembro de 1956, com cenários de Oscar Niemeyer, cartazes de Djanira e Carlos Scliar, além de Luís Ventura e Raimundo Nogueira, que também assina a capa do disco. No elenco, Cyro Monteiro, Abdias do Nascimento, Haroldo Costa, Léa Garcia, Dirce Paiva, Ademar Ferreira da Silva, Waldir Maia, Pérola Negra, sob direção de Leo Jusi e orquestra de Leo Peracchi.

Era para aquele endereço, para aquele espetáculo e para aquela nova dupla de compositores que Oliveira havia mandado Paiva para ver “os sambinhas”, porque o intérprete estava sendo cotado para cantá-los junto com a orquestra da gravadora e o violão de Luís Bonfá. Pra variar, Paiva exerce sua verve crítica e recusa em um primeiro momento. Afinal, imagina ouvir os sambas de um compositor em sua própria casa? E se ele não gostasse? Ficaria aquele clima cerimonioso, o Jobim poderia ficar chateado… em todo caso – ufa! – aceitou. Ao chegar na casa do maestro, Jobim, muito à vontade, chama Paiva ao piano e começa a cantar o primeiro dos “sambinhas”: Se todos fossem iguais a você. Os olhos de Paiva brilham e, em seguida, vêm os demais, como Um nome de mulher, Mulher, sempre mulher, Eu e o meu amor e Lamento no morro. As únicas faixas do álbum que não trazem a voz de Paiva são o Monólogo de Orfeu, declamado pelo próprio Vinícius e a abertura. Gravada no sistema Hi-fi, em LP, a solução técnica desagradou Paiva, que gostaria de ter lançado logo, no formato mais conhecido e popular de 78 RPM, Se todos fossem iguais a você. Não deu outra: em pouco tempo, a música já estava entre as mais gravadas nesse formato por outros intérpretes. De viagem a São Paulo, Paiva fica tão desgostoso com o ocorrido quando volta ao Rio que chega a pedir a rescisão do contrato com a Odeon. Ele acaba gravando em 78 RPM, outra música de Tom, não presente em Orfeu, Maria da Graça, que não terá o mesmo alcance das do álbum.

Em todo caso, “Roberto Paiva, escolhido em comum acordo pela Odeon e por nós para cantar neste LP os sambas de Orfeu da Conceição, em nada desmereceu essa confiança. A sua voz de timbre tão agradável dá em todos os números justamente a interpretação que eles pediam: uma interpretação sóbria e direta, apoiada sobre a melodia e em justa composição com os ricos elementos harmônicos que Antônio Carlos Jobim soube criar tão bem em seus arranjos”, escreve Vinicius de Moraes, na contracapa do LP Orfeu da Conceição.

Dali, Paiva rumaria para reunir, naquele mesmo ano, novamente em LP e pela primeira vez, a polêmica musical entre Wilson Batista e Noel Rosa – uma perfeita jogada de recuperação do passado glorioso da MPB. Vinicius e Tom, como visto, com Orfeu rumaram para a Bossa Nova, levando consigo João Gilberto – uma perfeita jogada de projeção do futuro glorioso da MPB. Assim, Orfeu pode até ter descido aos infernos, mas deixou duplos passaportes para o paraíso…

FIM 

 Nísio Teixeira é jornalista, professor da UFMG e intregante da revista Filmes Polvo

Inventário Grandes Musas da Boca

Angelina Muniz

Por Adilson Marcelino

 

A Boca do Lixo, vez ou outra, buscava sua desejáveis atrizes também na cidade maravilhosa. Algumas fizeram poucos filmes no pedaço, mas são experiências tão marcantes e inesquecíveis que lhe reservaram um espaço especial na memória como verdadeiras Musas da Boca. E aí é impossível não falar da carioca Angelina Muniz.

Angelina Muniz é uma das belas atrizes que surgiram nos anos 1970. A atriz tem uma trajetória curta mas intensa nas telas, em período de cerca de cinco anos que vai de 1978 a 82. E deixou sua marca principalmente no encontro com o genial Jean Garret.

Angelina Muniz nasceu no Rio de Janeiro em 25 de março de 1955. Começou sua carreira como modelo fotográfico – passando também pela escola de teatro.

A estréia em novelas é em Sinal de Alerta, de Dias Gomes, em 1979, e tem papel de destaque em Pé de Vento, em 1980, de Benedito Ruy Barbosa, exibida na Bandeirantes. Sua atuação carimba o passaporte para a Globo, onde marca presença em várias novelas como Plumas & Paetês (1980), de Cassiano Gabus Mendes, e Vereda Tropical (1984), de Sílvio de Abreu. Depois de passar pelo SBT, atualmente é uma das estrelas da Record.

E é nessa primeira fase de sua carreira que a atriz vai atuar em quase uma dezena de filmes, popularizando seu talento e sua beleza. Em solo carioca, ela é dirigida por Antonio Calmon, Paulo Porto, J.B. Tanko e Pedro Carlos Róvai- dentre eles, é protagonista de As Borboletas Também Amam (1979), de Tanko, e atua em Amante Latino, de Pedro Carlos Róvai, veículo para o cantor e ator Sidney Magal, que marcava as paradas de sucesso da época.

Angelina Muniz é um dos símbolos sexuais daquela época, chegando a posar três vezes para a Revista Playboy.

A atriz ficou associada ao cinema popular, às vezes com forte dose de erotismo e sempre explorando sua beleza morena e estonteante. Mas o filme preferido de Angelina é o juvenil O Grande Palhaço (1980), dirigido por William Cobbett.

O lugar de honra como musa da Boca do Lixo está sustentado, principalmente, no seu encontro com o cinema de alto quilate de Jean Garrett.

Mas antes disso, estreia na Boca em O Inseto do Amor, comédia picante dirigida por Fauzi Mansur.

Neste filme, Angelina está ao lado de muitas das mais desejadas musas da Boca, pois o elenco feminino é estelar: Helena Ramos, Ana Maria Kresleir, Zélia Diniz, Claudette Joubert, Alvamar Taddei, Nádia Destro, Aryadne de Lima, Rossana Ghessa, Misaki Tanaka, Liza Viera.

O primeiro encontro com Jean Garrett é o libertário Karina, Objeto do Prazer. Aqui ela é personagem título, que depois de ser vendida pelos pais roda de mão em mão, passando por canalhas de diferentes tipos – Luigi Picchi, Cláudio Cunha.

E é ao dar um basta nesse destino de objeto, que ela conhece uma advogada – Rosina Malbouisson, e encontra, finalmente, seu repouso do guerreiro, em entrecho homossexual surpreendente, foco que faz jus ao teor libertário citado.

Esse encontro com Garret é tão espetacular que atriz e cineasta repetem a dobradinha no filme seguinte de ambos, o sombrio e maravilhoso Tchau Amor.

Com roteiro assinado por Inácio Araújo, Tchau Amor é protagonizado por Antonio Fagundes e Angelina Muniz, tendo ainda no elenco Walter Forster, como pai dela, e Selma Egrei como mulher dele.

Angelina Muniz tem aqui personagem completamente diverso de Karina, Objeto do Prazer. Na trama, ela é a mimada Rejane, filhinha de papai voluntariosa que faz gato e sapato de Fagundes, radialista em caminho indesviável da depressão.

É claro que filhinha de papai de Angelina nesse Tchau Amor não é construída de forma alguma pelas tintas da superficialidade. Ainda mais pelos talentos envolvidos na direção, roteiro e atuação. Além do que, Angelina e Fagundes demonstram ótima química, nesse triste e angustiado grande momento do cinema dos anos 80.

Da década de 80 para a frente, Angelina Muniz vai intensificar sua carreira na televisão, voltando ao cinema somente em 2008, em Olho de Boi, de Hermanno Penna.

Filmografia

Nos Embalos de Ipanema, 1978, de Antonio Calmon
Fim de Festa, 1978, de Paulo Porto
As Borboletas Também Amam, 1979, de J. B. Tanko
O Sol dos Amantes, 1979, de Geraldo dos Santos Pereira
Amante Latino, 1979, de Pedro Carlos Róvai
O Inseto do Amor, 1980, de Fauzi Mansur
O Grande Palhaço, 1980, de William Cobbett
Karina, Objeto do Prazer, 1981, de Jean Garret
Tchau, Amor, 1982, de Jean Garret
Olho de Boi, 2008, de Hermanno Penna

Fonte:

Site Mulheres do Cinema Brasileiro
Site IMDB

Carta ao Leitor

É com muita felicidade que trazemos à cena mais uma edição da Zingu!, agora a de número 46.

E com ela, fazemos um mergulho profundo, sobretudo na produção da Boca do Lixo.

No dossiê do mês, a segunda parte da série de montadores idealizada e editada por Matheus Trunk. Se na edição anterior, o focalizado foi Luiz Elias, agora chegou a vez de Gilberto Wagner.

Com cerca de quarenta filmes no currículo, Gilberto Wagner foi um dos montadores mais atuantes da fase áurea da Boca do Lixo. Gilberto começou a carreira ao lado do tio, o grande cineasta Ary Fernandes, como assistente de Luiz Elias na série Águias de Fogo. Depois, editando comerciais e documentários, e, claro, muitos filmes para os mais diversos cineastas da Boca.

Nomes fundamentais como Ary Fernandes, Osvaldo de Oliveira, José Miziara, Alfredo Sternheim, Roberto Mauro, Walter Hugo Khouri e Antonio Meliande são alguns dos cineastas que tiveram seus filmes montados por Gilberto Wagner.

Para o dossiê, Matheus Trunk fez longa entrevista com Gilberto Wagner, que repassa sua trajetória, além de ouvir parceiros como José Miziara, Alfredo Sternheim e Eduardo Aguilar.

Já no especial desta edição, um foco sobre os 30 anos da estréia de Coisas Eróticas, de Raffaele Rossi e Laerte Calicchio, portanto, 30 anos em que o sexo explícito invadiu a produção da Boca do Lixo.

O especial Boca Pornô – 30 anos apresenta artigo que situa esse acontecimento que agitou as telas e a Boca do Lixo, e, infelizmente, passo fundamental para seu ocaso.

A equipe de Zingu! – editor, redatores e colaboradores – mapeou 15 filmes dos cineastas mais significativos da época e do gênero, muitos sob pseudônimo.

Estão reunidos aqui filmes de Raffaele Rossi e Laerte Calicchio, Roberto Mauro, José Mojica Maris, Alfredo Sternheim, José Miziara, Fauzi Mansur, Ody Fraga, Cláudio Cunha, Jean Garret, Tony Vieira, Juan Bajon, Mário Vaz Filho, Sady Baby e Renato Alves.

Como não poderia deixar de ser, a Zingu! 46 apresenta também suas colunas tradicionais: os dilemas da exibição dos filmes brasileiros; a complexidade do que é cinema brasileiro; um farol contemporâneo; a mítica trilha de Orfeu do Carnaval; e as beldades Soledad Miranda, Angelina Muniz e Thais Fersoza

E por fim, uma ótima notícia: a volta de Daniel Salomão Roque à equipe fixa de redatores da Zingu!.

Ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

Farra e ressaca explícitas

Especial Boca Pornô – 30 Anos


Por Adilson Marcelino 

Tudo começou com um sucesso de escândalo, que depois se eternizou como grande filme, dirigido por um cineasta nascido no do outro lado do planeta. O título? O Império dos Sentidos; o nome do moço? Nagisa Oshima.

Considerado diretor dos então chamados Filmes de Arte, o japonês Nagisa Oshima balançou o coreto no mundo inteiro com seu O Império dos Sentidos, de 1976, que falava do encontro seminal entre um casal de amantes, tendo como pano de fundo os horrores da guerra.

E o que Kichizo (Tatsuya Fugi) e Sada (EikoMatsuda) fazem o tempo todo? Trepam desesperadamente e explicitamente. Ele como objeto passivo e obediente da sofreguidão insaciável dela. Era o sexo explícito invadindo a cena do cinema autoral em grande estilo, em cenas que ficaram no imaginário mundial, como Sada botando ovo e temperando a comida na vagina antes do guapo digeri-la.

Pronto! O filme foi proibidíssimo!

Mas aqui no Brasil, em plena ditadura, deu-se o famoso jeitinho. O filme foi liberado via mandado de segurança, garantido por brechas na legislação. E aí não teve jeito, fez um publicão. Esta foi a porta semiaberta para um novo filão que se abriu para produtores ávidos e advogados espertos, sobretudo na Boca do Lixo, em São Paulo, que cresceram o olhão.

Via garantia de exibição por mandados de segurança, produções explícitas começaram a pipocar, tendo em Raffaele Rossi e Laerte Calicchio com Coisas Eróticas, e Roberto Mauro com Viagem ao Céu da Boca, ambos de 1981, a primazia. Coisas foi lançado antes, passando à história como o primeiro filme brasileiro de sexo explícito lançado comercialmente nas telas. E, claro, arrebentou a boca do balão. Já Viagem, pela fauna desconcertante em foco – bandido, travesti, ninfomaníaca, criança, tortura -, levou pecha imediata de maldito, carimbo que resiste ainda hoje, mesmo que seja infinitamente superior ao arrasa-quarteirão de Rossi e Calicchio.

A bilheteria tilintando freneticamente mudaria por completo a bem-sucedida experiência de produção da Boca do Lixo, verdadeira geografia para filmes de gêneros diversos, desde que com a presença de vestais desnudas em situações eroticamente simuladas.

Lambendo os beiços diante da oferta, produtores e diretores da Boca do Lixo, mais os exibidores, refastelaram-se na onda do sexo explícito, já que também o público tinha mais possibilidades de escolha com o advento do vídeo cassete e parecia interessado em um tantão mais de pimenta, além do sexo simulado das velhas e boas pornochanchadas.

Filmes com sexo explícito foram sendo cada vez mais produzidos na Boca, não restando muita opção para quem reinava antes na agora chamada Velha Ordem. Com isso, as grandes musas debandaram e também grande parte do elenco de sustentação. Já boa parte dos cineastas migrou para o novo estado de coisas, ainda que sob pseudônimos; exceção para poucos, como Alfredo Sternheim, que assumiu sua assinatura em vários filmes do gênero, e Cláudio Cunha que dirigiu apenas um, o cult Oh! Rebuceteio.

Assistir paus e bocetas em plena atividade na telona com o atrativo irresistível de ouvir tudo na língua pátria pareceu mesmo ser o Ovo de Colombo, e nos primeiros anos o público compareceu em massa às salas. Daí, a Boca foi produzindo e produzindo rebentos.

O ritmo valia tanto para filmes dirigidos por veteranos como Jean Garret (J.A. Nunes), Fauzi Mansur (Rusnam Izuaf) , Tony Vieira (Mauri Queiróz); para cineastas que mudaram logo de lado, como Juan Bajon e Mário Vaz Filho; ou ainda para aqueles que já chegaram na nova onda, como Sady Baby e Renato Alves.

Claro, essa fase também revelou uma nova galeria de astros, com nomes revelados aí ou que atingiram o estrelato nesse momento: Débora Muniz, Sandra Midori, Sandra Morelli, Márcia Ferro, Aryadne de Lima, Shirley Benny, Oásis Minitti, Chumbinho.

Bom, como se diz, tudo que é bom acaba. E não foi diferente para esse modelo de produção. Aos poucos os filmes foram perdendo público, a produção foi se restringindo a guetos – Carlão Reinchebach acusa o fato dessa primeira fornada ter sido exibida nos grandes cinemas populares como uma das causas da aniquilação da produção da Boca – e os títulos produzidos foram minguando.

Foi o tiro de misericórdia na Boca do Lixo, que jamais voltou a se erguer, sepultando um passado de glória, quando era responsável pela produção e lançamento de grande parte dos filmes brasileiros. Essa derrocada, aposentou, precocemente, cineastas, técnicos e atores de talento e que regeram importante fase da história do cinema brasileiro.

Coisas Eróticas

Especial Boca Pornô – 30 anos

Coisas Eróticas
Direção: Raffaeli Rossi e Laerte Calicchio
Brasil, 1981.

Por Adilson Marcelino

Quando do seu lançamento em 1981, Coisas Eróticas causou sensação. Não era para menos, afinal era o primeiro filme brasileiro de sexo explícito lançado nos cinemas do país.

E daí toma cinemas lotados no centros das cidades, com muito marmanjo disputando à tapa uma cadeira vaga. E o pior – ou melhor para muitos – tendo que dividir espaço lado a lado no escurinho do cinema com outros barbados.

Mesmo na época, o elenco de moços e moças nas telas, com exceção de algumas beldades como Zaira Bueno, meio de paraquedas naquilo tudo, era um tanto tosqueira. Mas como não se impactar já na primeira cena, quando Oasis Minitti levanta do trono e se masturba no banheiro? Afinal, era sacanagem no estilo gente como a gente e, mais impressionante ainda, falada em português.

Como se sabe, o que abriu brecha para esse Coisas Eróticas entrar em cartaz em plena ditadura foi o uso do mesmo mecanismo de mandado de segurança que possibilitou o lançamento de O Império dos Sentidos, o filme dirigido por Nagisa Oshima que causou escândalo no mundo inteiro. Daí, foi impossível frear a onda do pornô, que a partir de novos mandados de segurança despejou inúmeros rebentos na praça, o que determinaria, principalmente, a derrocada da produção efervescente da Boca do Lixo, em São Paulo.

Coisas Eróticas foi apenas o primeiro de um filão que parecia inesgotável.

Coisas Eróticas é filme dividido em três episódios – primeiro e segundo dirigidos por Raffaele Rossi, e segundo por Laerte Calicho; com Rossi assinando também a produção.

O primeiro episódio não tem nome e começa exatamente com a cena de prazer solitário de Minutti. Bom, isso logo muda quando ele sai de carro e em um sinal conhece uma mulata voluptosa e sedutora. O começo até parece que vai dar namoro, com encontro à noite e convite para final de semana em família na chácara. Mas no final, o que vai rolar mesmo é cena de cama entre o casal de um lado, e amasso lésbico no banheiro entre a filha da dona do pedaço e a sua amiguinha. Depois de papar mãe e filha, ficamos sabendo que Minutti tinha sido apenas mais uma vítima da tara familiar.

O segundo episódio é o que dá nome ao longa e é dirigido por Caliccho. Em cena, a prática do swinger entre um casal chegado ao sexo masoquista e outro debutando na farra moderna da época. O sexo entre as moças é mostrado de forma generosa, já entre os moços só é mesmo insinuado, ainda que ouse em mostrar cena em que os varões se bolinam, com direito a mão na bunda por dentro da sunga e piadinhas sobre dedo duro.

Já o terceiro, novamente com direção de Rossi, chama-se Férias de Amor, e é o que conta com o elenco mais bonito, inclusive com presença da musa Zaira Bueno, que não entra na dança da genitália em ação e parece um tanto perdida ali naquele meio. Na trama, um bonitão que vai passar o final de semana na casa da namorada, e lá é seduzido por toda a família da moça – mãe e irmãs.

A trilha sonora desse Coisas Eróticas é um capítulo à parte, pois junta numa panela só como fundo musical para trepadas e amassos de diferentes quilates, uma inesperada Manhã de Carnaval, de Luis Bonfá; a música-tema de Emmanuelle; a francesa Je T´Aime ma non Plus; e o romantismo dos Carpenters. Inacreditável!