Entrevista: Gilberto Wagner – Parte 1

Dossiê Gilberto Wagner
Parte 1- O início no cinema e os trabalhos em publicidade

 Giba iniciou sua carreira com seu tio, o cineasta e produtor Ary Fernandes

 

Por Matheus Trunk

Zingu!- Seu Gilberto, pra gente começar: fala onde o senhor nasceu, a profissão dos seus pais, essas coisas. 

Gilberto Wagner- Bem, eu nasci em São Paulo. O meu pai era comprador de uma empresa de ônibus, vivia de comercializar peças, essas coisas. A minha mãe trabalhava com prendas domésticas. Depois de fazer os meus estudos, eu acabei indo trabalhar como assistente de montagem do Luizinho (Luiz Elias). Isso foi no (seriado) Águias de Fogo. Depois, quando a série acabou eu entrei na Lynx Filmes, que era uma produtora do Chick Fowle. Tinham mais dois outros sócios nessa empresa. Eu fiquei cinco anos lá e depois fui trabalhar na Marca Filmes. Nessa companhia eu entrei como montador.                                                    

Z- Mas o senhor começou no cinema como ator? 

GW- Sim. Eu comecei no cinema como ator num longa-metragem do Roberto Santos chamado O Grande Momento. Eu tinha seis anos. Depois, eu fiz uns comerciais de televisão com o Manuel de Nóbrega e mesmo com o (Ronald) Golias. Fiz uns capítulos do Vigilante e uns comerciais na Lynx. Mas era tudo ponta e eu era bem garoto na época. 

Z- Então, você começou bem novo. Os seus pais tinham algum receio em você seguir a carreira artística?  

GW- Os meus pais não queriam. O meu tio (Ary Fernandes) sempre dizia: “Ele tem jeito. A gente vai lapidando”. Os meus pais não queriam, porque achavam que eu não conseguiria seguir carreira no cinema. Nessa época, eu tinha um problema de saúde, a dislexia. Naquele período, não se conhecia muito sobre isso. Tanto que a minha filha nasceu e tinha essa enfermidade. Eu e a mãe dela colocamos a menina numa escola especializada. Hoje a menina domina computador, lê, fala. Só que naquela época a dislexia era algo desconhecido. Então, eu tive muitos problemas mesmo dentro do cinema por causa disso. Mas eu fui vencendo. 

Z- Com quantos anos o senhor começou a ter esse problema? 

GW- Desde que eu entrei na escola. Então a minha mãe falava: “Poxa seu irmão estuda e consegue ser um bom aluno. Por que você não consegue?”. Só que a dislexia é um bloqueio e eu tinha isso. Mas isso era algo desconhecido há 45 anos. 

Z- Era outro mundo, certo? 

GW- Outro mundo. Bem melhor que hoje inclusive (risos). Não tenha a menor dúvida. Mas eu tinha esse problema e precisava de uma ajuda especializada. Eu apanhava na classe, a professora me colocava atrás da porta. Era uma cultura bem diferente… 

Z- Bem mais repressivo. 

GW- Exatamente. Então eu sofri com isso daí. Posso confessar pra você isso. Muito tempo depois algumas pessoas falavam pra mim: “Volta a estudar”. Mas eu tinha raiva da escola, eu entrava de costas pra ter impressão que estava indo embora. 

Z- O senhor estudou até qual idade? 

GW- Eu estudei até o ginásio. Mesmo assim foi tudo aos trancos e barrancos. Nisso, eu tomei uma raiva de escola… eu aprendi a ler sem estar na escola. Muitas vezes eu apanhava em casa, minha mãe me dava uns coques na cabeça (risos). Coitada, não estou culpando ela. Eu tinha uma prima que era professora, mas mesmo assim todo mundo desconhecia o problema. Com o tempo, a gente vai superando as dificuldades da vida e eu consegui muita coisa. Consegui ser editor, consegui montar muito longa-metragem. Tinham muitos diretores que diziam: “Eu só monto com o Gilberto”. Depois, eu me afastei do cinema. Eu conheço muita gente, tenho muitos amigos, mas não adianta. 

Z- Só voltando um pouco seu Gilberto, fala um pouco do seu tio. Qual a importância que ele teve no início da sua carreira? 

GW- (emocionado) Ah, o meu tio foi muita coisa pra mim. Ele me deu uma profissão, me colocou no cinema. Ele queria que eu fosse ator, falava isso com os meus pais inclusive. A ideia dele era me colocar nos filmes primeiro fazendo ponta. Só que os meus pais não queriam isso: “Ele já tem problema na escola. Se ele largar os estudos como vai ser depois? Ele não vai decorar texto”. Eu não decorava texto. Eles falavam pra mim: “Você vai chegar ali, fazer isso”. Lógico que bem antes da metade de uma carreira eu ia ter algum problema por causa disso. 

Z- O senhor chegou a fazer algum curso de interpretação? 

GW- Não. Nem tinha isso (rindo). Naquela época, eles te chamavam: “Você vai fazer um tipo assim, assim”. Nisso, eles viam se você tinha talento ou não. Como eu sempre fui descontraído, o meu tio ia na Vera Cruz e eu ia junto. De repente, eu ficava mexendo no bonde, no cenário e todo mundo dava risada. Então, ele teve a ideia de me colocar como ator no Grande Momento. Eu me lembro que eu contracenei em uma cena com o Turíbio Ruiz. 

Z- Como o senhor decidiu ser técnico? 

GW- Eu queria trabalhar e o meu tio ia fazer o seriado Águias de Fogo. Ele falou: “Vamos colocar ele como assistente do rapaz que vai montar o seriado. Quem sabe ele não se adapta?”. Porque eu ia nos estúdios com o meu tio desde a época do Vigilante… ás vezes eu ficava com o cachorro. Tinham aquelas coisas, né? Ele me apresentou pro Luizinho. Na época, ele trabalhava numa produtora chamada Documental Filmes e eu comecei a trabalhar com ele, do lado dele. “Pega aquela lata, desenrola o filme”, ele me ensinou a desenrolar o filme. 

Z- Ensinou você a mexer na moviola? 

GW- Na moviola, tudo. Era umas máquinas antigas que muitas vezes faziam a gente machucar o dedo (risos). Nisso, eu fui montando, gostando e sempre prestando atenção. Eu aprendia vendo o Luizinho fazer o trabalho. Como eu tinha dificuldade pra entender na leitura, eu ia vendo. Depois, eu via o filme inteiro e até lia o roteiro. Mas eu fazia sozinho tudo isso, lia devagar e via a sequencia. 

Z- Como o senhor percebeu que você gostava da edição? 

GW- Começou a dar certo. Eu estava gostando de fazer aquilo e eu gostava de cinema. Fui me inspirando no meu tio. A nossa família era toda junta, numa casa do lado da outra. Então, eu ficava muito tempo com o meu tio. 

Z- Só por curiosidade: ele era o padrinho do senhor? 

GW- Sim. Ele ia pro estúdio e se saísse num domingo de manhã, eu ia junto. Num sábado. Nas férias escolares eu ia junto. Quando eu entrava numa sala de montagem, eu ficava brincando com tudo. Era criança, tinha seis, sete anos. Depois ele via que eu queria ir com ele, então fomos experimentando. Na montagem eu ficava montando na moviola, no projetor. Depois com o Luizinho eu acabei seguindo e fui montador de vários longas-metragens.

 Z- Acho que mais de 40 longas-metragens? 

GW- Por aí. Você sabe mais que eu mesmo (risos). 

Z- Depois o senhor foi ator no Vigilante 

GW- Eu fiz um episódio só. Era pra eu ter feito uns três. Muitas vezes eu não podia ir porque senão teria faltado na escola. 

Z- Como era a relação do seu tio com o Carlos Miranda? 

GW- Eles eram amigos. Sempre foram. Depois se desentenderam por coisa boba. 

Z- O Palácios também? 

GW- Com todos. Eu pelo menos não sei de nada. Sempre foram amigos. 

Z- O Luizinho me contou que eles comiam em lata de filme, o Mazza (apelido de Osvaldo Leonel, eletricista) inclusive dormia dentro do estúdio. A equipe era muito dedicada? 

GW- O negócio era tudo espremido. Tinha patrocínio da Nestlé, mas tinha muita despesa também. A Polícia Rodoviária Militar ajudou muito o meu tio. Ainda hoje se você estiver na estrada e falar do Carlinhos eles respeitam muito. Era assim mesmo, todo mundo comia em marmita. Eu mesmo numa filmagem comi uma maçã. Ficou a comida pra todo mundo e o meu tio perguntou: “Você não quer comer? Então, come uma fruta”. Então, era muito espremido pra você conseguir terminar a filmagem de um longa-metragem. 

Z- O Luiz Elias foi uma espécie de mestre do senhor na profissão? 

GW- Não tenha dúvida. O Luizinho é o melhor montador que teve no Brasil. 

Z- Melhor que o Sylvio Renoldi? 

GW- Muito mais. Não é que eu acho. Eu tenho certeza. O Luizinho foi o melhor editor na época. Hoje a edição é feita de uma maneira muito diferente. Veja você: o filho dele está na Record e é editor da emissora. Mas o Luizinho sem sombra de dúvida era o melhor editor que tinha no Brasil. Ele tinha um dinamismo e conhecia. Isso ele passou pra mim e outro dia nós estávamos na chácara dele rindo. Depois, eu passei a corrigir o meu tio, ás vezes numa sequencia um cara sai da direita e entra para a esquerda. Eu falava pra ele: “Tio tem que fazer essa cena de novo”. O Luizinho tinha esse dinamismo e conhecia bastante. Ele começou na Maristela que ficava no bairro do Jaçanã. O Luiz Elias e o Sylvio Renoldi começaram ali brincando juntos. Uma das características que sempre falam do Luizinho é a rapidez dele. 

Z- O senhor chegou a trabalhar como assistente de outros montadores? 

GW- Sim. Eu comecei como assistente dele no Águias de Fogo. Quando terminou o seriado, eu entrei na Lynx Filmes como assistente de montagem de todos os montadores da casa. Tinham dois montadores, um chamado Gilberto que já faleceu, inclusive. Depois, eu fui pra produtora do Sílvio e passei um período longo numa produtora chamada Zodíaco. Dentro dessa empresa, eu fiz um trabalho longo sobre as canetinhas Papermante. Na Lynx, eu aprendi a fazer trucagens, fusões de cenas, fixar quadros. Tudo isso aprendi com o Chick Fowle. Foi ele quem me ensinou a fazer a trucagem de um filme. Quando eu fui trabalhar na produtora do Sílvio Santos, eu já era um montador profissional com um grande conhecimento sobre o assunto. 

Z- A produtora do Sílvio se chamava Marca Filmes. Era de comercial? 

GW- A gente fazia os comerciais dele e as vinhetas. Era uma coisa paralela dentro dos estúdios. 

Z- Como era trabalhar com ele? 

GW- O Sílvio foi o melhor patrão que eu tive. Sempre respeitei todos, todos me respeitaram. Mas o Sílvio era uma coisa fora do comum. Pra ele, todos eram iguais. Isso que sempre foi bonito nele. Dizem que até hoje ele é assim. Ele sempre foi um cara honesto e sincero. Uma pessoa muito bacana. 

Z- Ele sempre pagou em dia? 

GW- Nossa! Põe em dia nisso. Você podia contar religiosamente com o salário. Ele entrava na sala de montagem como nós estamos conversando aqui e ele não era nada de especial. O braço-direito dele na empresa era o Luciano Callegari. 

Z- O senhor trabalhou bastante com o Manuel de Nóbrega? 

GW- Fiz muita coisa com ele. Ás vezes, no estúdio eu estava montando e o Golias tinha um programa que ele fazia na produtora. Então, tinha que chamar as pessoas para darem as risadas. Todo mundo me chamava: “Vamos lá pra rir”. O cara levantava a mão e nós dávamos risada. Foi bacana, um tempo bom pra caramba. Editei muitos trabalhos em que atuava aquele ator antigo, o Borges de Barros. Na Praça É Nossa, ele fazia um mendingo. Um sujeito muito bacana. 

Z- Ele já é falecido. 

GW- Que Deus o tenha num lugar maravilhoso. Porque ele era um sujeito muito bacana. 

Z- O senhor trabalhou quanto tempo com o Sílvio Santos? 

GW- Quatro anos. Depois, eu sai pra montar longas-metragens e continuava trabalhando como freelancer. Trabalhando por conta própria. Eu não queria mais trabalhar em produtora, muita cobrança, os horários eram muito ruins. Então, eu comecei a trabalhar na Boca.

 Z- Onde ficava a Marca Filmes? 

GW- Ficava na Vila Guilherme (zona norte de São Paulo). De noite, eu montava num laboratório chamado Revela, onde hoje é a TV Record (no bairro da Barra Funda). Eu editava os filmes lá de noite. Tem alguns filmes do meu tio que eu fiz lá como O Supermanso, O Jeca e o Bode. Tudo isso com edição minha. Teve um episódio do Vigilante que foi um projeto que a Embrafilme fez pra seriado de televisão. Foi uma coisa nova, mais moderna. Não era com o Carlinhos (Miranda) e sim com o (Antônio) Fonzar. Era um personagem que trabalhava com o Sílvio, mas depois sumiu. Eu nunca mais vi ele. Depois, eu fiquei noivo e a minha mulher tinha um ciúme do cão porque eu trabalhava em cinema.

 Z- Tinham muitas moças no cinema? 

GW- Bom…você sabe como é? As atrizes são um campo muito fechado de amizades. Hoje já se aceita mais. Mas naquela época era difícil. O meu sogro era dono de uma rede de postos de gasolina… 

Z- Qual rede? 

GW- Rede Ringo. Eles começaram a me perturbar: “Larga, não sei o quê”. A minha mulher queria que eu fosse trabalhar lá. Isso tudo é uma história muito longa. Mas o resultado final foi que eu fui trabalhar com o meu sogro. Larguei o cinema durante um tempo. Depois começou a complicar porque não era mais moviola, era tudo no VHS. Nisso, eu fiquei trabalhando com o meu sogro e larguei o cinema. Deu uma caída na produção, entrou muito filme pornô, aquela coisa toda. Bom, depois eu tive uns convites do Luizinho pra ajudar ele editar. Inclusive alguns como assistente de edição dele, editando algumas pistas. No Pelé Eterno eu também ajudei o Luizinho. Fiquei um bom tempo na Record resgatando os gols, aquele negócio todo. Hoje eu tenho o meu negócio próprio vendendo antepastos, palmito, champingnon, essas coisas. Tenho os meus clientes. Forneço pra pizzarias, restaurantes. Então, eu larguei o cinema. O meu tio também veio a falecer a pouco tempo. Eu tinha vontade de reproduzir o Vigilante. O meu tio ainda era vivo e eu falava com ele sobre isso: “Vamos marcar uma entrevista com o Sílvio (Santos). Vamos ver qual é o caminho mais certo para reproduzir o seriado”. Acho que daria certo a gente reproduzir a série hoje em dia.

Parte 2

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