Entrevista: Gilberto Wagner – Parte 2

Dossiê Gilberto Wagner
Parte 2- Os trabalhos na Boca do Lixo

 

Gilberto Wagner montou diversos filmes de José Miziara

 

Por Matheus Trunk

Z- Como foi o seu início da Boca? 

GW- A maior parte do tempo eu ficava no escritório do meu tio. Ele tinha um escritório no sétimo andar no mesmo edifício onde o Aníbal tem a produtora dele. Eu ficava com o meu tio lá e quando aparecia algum longa-metragem eu montava. Mas sempre tinha alguma produção pra montar. Algum comercial de televisão, documentário, filme institucional. Eu pegava também desenho animado com o Daniel Messias. Esse estúdio ficava no Pacaembu, nem sei se ainda está no mesmo lugar. Tenho saudades desse pessoal todo. Qualquer hora eu preciso passar lá. Todos me ajudaram muito. Desenho animado é editado pelo som, você marca, faz toda a marcação e o desenho era feito em cima do som.

Z- O senhor começou a mexer mais com longa-metragem em que ano? 

GW- Ih rapaz, isso foi em 67, 68. 

Z- O senhor freqüentou muito o bar Soberano? E o Ferreira? 

GW- Nossa, vixi Maria. Quanto eu fiquei lá…bar Soberano, bar do Ferreira.  O Serafim (dono do Soberano) era um português muito bacana. Muito tempo nós ficamos ali. 

Z- Existia uma concorrência entre o senhor e os outros montadores? 

GW- Não. Uma vez foi feita uma reunião pra estipular um preço de longa-metragem. Eu não estive nessa reunião. Mas ninguém fugia do padrão, era aquilo ali. O pessoal gostava de mim porque eu herdei o dinamismo do Luizinho. Eu era muito rápido. Tinham muitos montadores talentosos, mas muito lentos. A gente cortava, montava, definia a seqüência e o próprio filme. Vamos supor: de repente o Galante chegava e me chamava: “Gordo, a gente mixa semana quem vem?”. Mixar era reunir todas as bandas. Eu respondia: “Semana que vem nada. Sexta-feira tudo já vai estar pronto”. Ele achava que era brincadeira. Era o dinamismo e isso era importante porque na época da pornochanchada era um filme atrás do outro. O pessoal sempre lotava os filmes. O pessoal da Boca sempre me chamava pra montar. A maior parte dos longas do Miziara fui eu que montei. Ele sempre queria trabalhar comigo. 

Z- Do Miziara o senhor montou cinco longas. Do Osvaldo “Carcaça” o senhor montou quatro filmes. Como era trabalhar com ele? 

GW- O “Carcaça” só queria montar comigo também (rindo). Ele era extraordinário. Ele tinha sido câmera do Vigilante do meu tio e depois começou a dirigir e fazer câmera ao mesmo tempo. Ele fazia os filmes com o Galante e sempre dizia: “Só monto com esse”. Muitas vezes eu estava terminando um filme do Miziara e ele fazia os produtores esperar. Ele fazia assim: esperava eu terminar pra montar comigo. 

Z- O “Carcaça” era tranqüilo de se trabalhar? 

GW- Putz. O “Carcaça” chegava e falava: “Essa sequencia você destrincha”. Ele descia, saia, ia tomar o conhaque dele e me falava: “Ficou melhor do que se eu tivesse feito”. Entendeu? Ás vezes, eu dirigia o filme na moviola, mudava tudo. Mexia nas coisas. 

Z- Ele não ficava bravo? 

GW- De jeito nenhum. Ao contrário rapaz: ele só queria montar comigo. Comigo ele nunca ficou bravo. Ele me adorava desde a época do Vigilante. Ele me conheceu criança. 

Z- Dizem que ele morreu sem grana. 

GW- Sem grana e sem saúde. Ele tomava muita cachaça e fumava pra caramba. 

Z- O senhor vai muito na Boca hoje? 

GW- Não. Nem tem por quê. O que eu vou fazer lá? É muito desagradável. Eu tenho um cliente na Bela Vista e outro dia eu tinha que esperar ele pra discutir os preços de umas coisas.  Ele não tinha chegado e então eu dei uma caminhada em frente onde era a antiga sede da Lynx na rua Fortaleza. Fiquei um tempão olhando o prédio. Nisso, eu fiquei lembrando que eu entrei ali com 18 anos. Puxa vida, agora eu completei 60 anos. Faz tempo né? 

Z- Faz tempo ou passou muito rápido? (risos) 

GW- Faz muito tempo. 

Z- O pessoal de publicidade tinha um preconceito muito grande com os filmes da Boca? 

GW- Tinha. Isso existia, mas era só aquilo. Não tinha nada haver, nós montávamos comercial, longa-metragem. O Luizinho montava tudo, tudo…documentário. E eu a mesma coisa. O que vinha eu editava. A gente tinha dinamismo. O montador daquela época tinha a obrigação de resolver o trabalho rápido. Era tudo feito em série. Você terminava um e já começava outro. 

Z- O senhor também fazia captação de som? 

GW- Tudo. Eu cheguei a ter repertório de som extraordinário. Na época, eu peguei emprestado um gravador Nagra de precisão e gravei ruído de automóvel, tudo. Tudo o que você possa imaginar que pudesse aparecer num filme de fundo. Eu tinha tudo. 

Z- O senhor se lembra algum filme em que foi difícil de fazer essa parte do som? 

GW- No Vigilante Rodoviário. A batida dos carros. Eu levei partes de carro pra dentro do estúdio. Desde pára-lamas, retrovisor, porta, essas coisas. Lá eu fiz alguns efeitos de batida e depois teve um longa-metragem chamado As Intimidades de Analu e Fernanda

Z- Sim. O Miziara que dirigiu. 

GW- Sim. Tinha uma parte que eu inclusive dirigi no filme dos carros batendo um no outro. Eu gravei tudo pra poder aproveitar. Foi uma sonorização bacana, ficou perfeito. Isso deu muito trabalho, carro saindo, parando, passando. Eu tinha mania de gravar o mais perfeito possível. Por exemplo, se precisasse do ronco de um carro, eu buscava um modelo bem semelhante. Nunca colocava o ronco de um caminhão quando precisasse de um fusca, por exemplo. Não é a mesma coisa. Eu tinha um perfeccionismo muito grande nessa área. Sempre gostei de automóvel, então, eu tinha sons dos mais variados tipos de carros. Sempre tive esse costume e ficava perfeito. Apesar do som naquela época não ter todos os recursos de hoje. 

Z- Era mais difícil editar naquela época? 

GW- Eu acredito que sim. Nunca cheguei a editar no computador. Hoje você faz as fusões rapidamente. Eu comecei a trabalhar com o Luizinho quando eu tinha 17 anos e eu estou com 60 anos. Toda quinta-feira eu vou na chácara dele, a gente fica, toma uns negócios, dá risada e assisti filme velho. O Mazza (o eletricista Osvaldo Leonel) era o nosso pivô, porque ele era um cara muito engraçado.  

Z- O tio do senhor foi o seu segundo pai?

 GW- Ah, com certeza. Eu cheguei a morar com o meu tio junto com os meus primos. Com certeza ele foi o meu segundo pai. Ele foi um pai pra mim em todos os aspectos. Tudo que você gravou aqui agora que eu contei, eu devo ao meu tio. Tudo que eu ganhei e tudo que eu fui no cinema eu devo a ele. Ele vivia falando: “Se a gente voltar a produzir o Vigilante você que vai editar”. Tanto que a gente tinha um piloto e eu editei. Hoje, eu converso com o meu primo e segundo ele tem um foco de voltar a produzir o Vigilante. Tem uma luzinha no fundo do túnel. Eu falei pra ele: “O editor disso tem que ser o Luizinho”. Primeiro pelo conhecimento que ele tinha da época. Segundo que eu não vou editar, porque mudou todos os equipamentos. Então, se acontecer é o Luizinho que tem que editar esse trabalho. O meu primo não é diretor, mas ele tem vontade de voltar. Eu não sei porque eu cismei: eu gostaria muito de conversar com o Sílvio (Santos). Mesmo se fosse pra ele falar: “Não tem como fazer isso”. Quem sabe com o conhecimento que ele tem. Teria também que juntar a Polícia Militar. Eles ajudaram muito o meu tio. Nós temos muitos amigos lá.  

Z- O senhor acompanhava as filmagens de algum filme que o senhor fosse editar? 

GW- Algumas vezes. Eu acompanhava do meu tio né? Do Miziara, do próprio “Carcaça”. Muitas vezes eu já tinha alguma parte que eles tinham filmado. Então, eu ficava no laboratório e organizava todo material. Depois, eu saia com a minha esposa e começava a dar os problemas. Porque eu chegava no campo de filmagem e as atrizes me abraçavam: “Oi Gil, como vai?”. A minha mulher ficava azeda que Deus me livre (risos). Uma vez na Revela tinha uma moviola e eu estava montando. Eu ficava com a continuísta porque tinha dado problema numa sequencia. Ela estava de saia e ficava com os pés em cima da moviola num canto. Só que não dava pra ver nada. Mas quem entrava na sala via né? (risos). Ela ficou toda a vontade. Não é que a minha mulher não chega com o meu avô? Ela queria dar um recado e o meu avô sabia onde era a Revela. Ele coitado, inocentemente trouxe ela. Quando ela viu a continuísta com as pernas cruzadas ali…Deus me livre (risos). 

Z- Ela era filha de português né? 

GW- Era (risos). Com a Lurdinha entre namoro e casamento ficamos juntos cinco anos. 

Z- O senhor tem uma filha? 

GW- Do segundo casamento. Ela está com catorze anos e é uma moçona. Mas eu sou separado do segundo casamento também. Eu não sirvo pra ser casado (risos). Tenho que ficar solteiro mesmo. 

Z- Outro diretor que o senhor trabalhou bastante foi com o Alfredinho. Como era trabalhar com ele? 

GW- Oh, Alfredinho. Eu nem lembrava disso. Gostava muito dele, do Reichenbach também. Do Carlão eu montei uns três ou quatro né? 

Z- Eu tenho a informação que o senhor montou dois filmes dele: Império do Desejo e Paraíso Proibido. 

GW- Foi esses mesmos. O Carlão era um cara maravilhoso, muito bacana. Outro dia eu vi uma entrevista dele na Cultura. Fiquei vendo a entrevista inteira. Ele é um cara inteligentíssimo, muito bacana. Montar com ele nossa…é como montar com o Alfredinho. 

Z- O senhor lembra como era o Carlão na sala de montagem? 

GW- Ele era um cara tranqüilo. Descontraído, a gente montava, conversava. Depois almoçava junto. Voltava pra montar. Foi uma relação normal porque ele é uma pessoa muito legal e muito inteligente. Esse sem dúvida é um apaixonado por cinema. Eu sinto saudades dele. Foi muito gostoso montar esses dois filmes com ele.

 Z- O senhor montou uns quatro filmes do Alfredinho. Foi uma parceria? 

GW- O Alfredinho também só montava comigo. Ele é uma pessoa maravilhosa. Na entrega do livro do meu tio eu encontrei com ele. Está do mesmo jeitinho, uma pessoa muito boa. 

Z- Ele acompanhava a montagem? 

GW- Ficava comigo. Porque muitos filmes eram feitos da mesma maneira. Eles começavam a filmar, o material vinha pro laboratório, revelava e eu começava a colocar na ordem. Uma coisa eu já ia tirando. A gente sempre se comunicando: “Quer que eu vá escolhendo uma cena? Vai deixando de stand by as outras”. Mas eu ia escolhendo a cena em que o ator estivesse melhor. Isso eu aprendi na Lynx. Então, eu escolhia pra adiantar. Quando o diretor terminava a filmagem, o filme já estava todo na ordem. Era só sentar e montar. Muitas vezes eles perguntavam pra mim: “Que hora você vai estar na Revela?”. Eu respondia: “Umas nove horas com certeza”. Normalmente, o diretor chegava meio-dia e eu já tinha adiantado alguma coisa. Se o realizador não gostasse de alguma coisa, eu voltava e era só colar de novo. 

Z- O senhor montou a maioria dos filmes na Revela?

 GW- A maior parte foi na Revela. Tinha um estúdio que tinha moviola que era do Palácios e ficava na Bela Vista. Também montei muita coisa na própria Rua do Triunfo. Na própria Cinedistri, no escritório do Aníbal tinha uma moviola muito boa. Eu montei em vários lugares. Mas a maioria foi na Revela. 

Z- Normalmente, vocês alugavam o local? 

GW- Sim. O produtor alugava e era bem mais fácil. O material vinha pra revelar, eu ia pra moviola e depois ia pro laboratório. Era tudo perto da Boca. 

Z- O senhor montou um filme do Khouri chamado Convite Ao Prazer. Como era trabalhar com ele? 

GW- Foi numa produção do Galante. O Khouri era um cara muito inteligente, uma pessoa maravilhosa. Um cara muito culto. 

Z- Ele mimava muito os montadores? 

GW- É…(rindo). Ele mimava os atores. O Khouri como diretor tinha um ritmo meio lento. Acabou não dando muito certo entre a gente porque eu era mais dinâmico. Ele falava muito: “Passa. Volta a cena”. Depois, ele ficava vendo e pedia pra eu colocar a música. Ele sempre levava uma vitrola e colocava uma música. Depois, ele ficava vendo a cena de novo, ele era um cara lento. Eu e o Galante queríamos montar logo, pro filme ir logo pro cinema. Ele escolhia a cena e perguntava pra mim: “O que você achou? Essa daqui não está melhor”. Mas fora isso, era um cara maravilhoso e muito bem querido no cinema. Talentoso demais. Ele era um dos melhores que tinha né? Pra falar a verdade. Tinham outros muito bons, mas ele era muito talentoso. Os filmes dele eram muito caprichosos, os cenários, a colocação das coisas. Ele exigia muito na interpretação do elenco. Realmente, ele era um cara fantástico. Tanto que o filme dele que eu montei tinha outro requinte. Mas foi muito bacana. 

Z- Ele era um diretor muito exigente? 

GW- Não. Ele era um cara tranqüilo. O Khouri somente era exigente no que ele tinha razão. 

Z- Como se estabeleceu essa parceria do senhor com o Miziara? 

GW- O Miziara era mais como eu. A gente se combinava muito nas decisões, entende? Ás vezes um diretor filmava e algo mudava. Nós dois chegamos inclusive a inverter alguma sequencia. Sempre nos combinamos muito e posso te dizer que trabalhar com o Miziara foi algo fantástico. Eu não tenho nada contra nenhum dos diretores que eu montei. Porque todos gostaram de montar comigo. Mas o Miziara era mais parecido comigo. 

Z- O senhor montou muitas produções do Toninho Meliande. 

GW- Toninho Meliande! Diretor e câmera. Ele dirigiu muita coisa pro Galante. Nossa, foi tranquilíssimo trabalhar com ele. 

Z- Muita gente dizia que ele era mais fotógrafo que diretor. 

GW- Mas ele dirigiu direitinho. Os filmes que fizemos juntos ficaram muito bons. 

Z- O tio do senhor tinha receio de fazer pornochanchada? 

GW- Eu acho que não era o estilo dele. O meu tio gostava mais de comédia e fita policial. Ele gostava mais de ação, essas coisas. Mas na época você tinha que seguir o ritmo. Todo mundo ia no cinema pra ver pornochanchada, pra ver perna de mulher, bunda de mulher. E você vai fazer um filme policial?  A produção afundava. 

Z- Ele produziu um filme policial inclusive. 

GW- Isso. Mas ele fez pornochanchada também. Por exemplo, O Supermanso fui eu que montei. Fez um sucesso muito grande e é muito engraçado esse filme. Ele inclusive atua, faz um bocó que fica na praia. 

Z- Aconteceu alguma vez do senhor montar um filme com um nome e ele ser lançado com outro? 

GW- Olha, aconteceu isso em dois ou três longas do Galante. O título era um e depois se tornou outro. Mas isso não era algo importante pro montador. Pra mim, o mais importante era fazer um bom trabalho e entregar o filme no dia estabelecido pelo produtor. 

Z- O senhor trabalhou bastante com o Galante. 

GW- Sim. Com o Adone Fragano também, com ele fiz uns dois filmes com o Miziara. Acho que fiz uns quatro trabalhos pra ele. 

Z- O senhor teve problema com algum produtor na Boca? 

GW- Não, nunca tive problema nenhum dentro do segmento de cinema. Nunca.  

Z- Pelo que vi o senhor só trabalhava com produtor grande: Ary, Galante. O Galante era um produtor grande da Boca. 

GW- Era um produtor forte na época. Depois, o filho dele passou a produzir também. O John Herbert que dirigiu um filme do Roberto e era pra eu editar. Mas eu estava fazendo outro trabalho e ele quis montar com outra pessoa. Mas pra eu montar e não deu. Montei alguma coisa que o Roberto produziu e outra pessoa dirigiu. 

Z- Alfredinho? 

GW- Acho que foi o Alfredinho. 

Z- Como era trabalhar com ele? 

GW- Nossa, ele era maravilhoso. O Alfredinho era bacana pra caramba. Todos eles, eu não tenho reclamação de nenhum. 

Z- O senhor fez um filme do Rajá também, do Hospital 

GW- Vixi, rapaz. Tem filme aí que eu nem lembro. Puxa, com o Rajá…nossa senhora. Eu ia montar também um do Teobaldo que tinha direção do Dolabella. Só que o filme estava muito confuso e eu caí fora. Não tinha continuidade e eu pulei fora. Tanto que a pessoa que montou depois não teve êxito nenhum. O filme se não me engane não foi exibido, a história era sem graça. 

Z- Esse filme foi feito (chama-se Dani- Um Cachorro Muito Vivo) e foi lançado em VHS inclusive. 

GW- Foi feito…mas eu pulei fora. O filme estava muito complicado pra montar na minha opinião. Mas foi feito sim, eu não lembro da repercussão. Tem em VHS? 

Z- Tem. 

GW- Esses filmes que eu montei tem VHS?

 Z- Muitos tem. Esses do Ary quase todos. 

GW- Em VHS? 

Z- Sim. 

GW- Caramba…não sabia. 

Z- O senhor montou também um filme do Mário Vaz Filho. 

GW- Quem? Não lembro que era. Produção de quem? 

Z- Chama-se O Círculo do Prazer 

GW- Círculo do Prazer fui eu que montei. É tanto tempo cara que agora me foge da memória. 

Z- O senhor se lembra do Marinho? 

GW- Nem estou lembrando dele rapaz. Produção de quem? 

Z- Acho que do Adone. Montar filmes que tinham rótulo de pornochanchada incomodava o senhor? 

GW- Não, magina. Eu tinha que trabalhar, tinha que montar. Você acha que eu ia recusar? O que vinha eu montava. Tem alguns filmes que eram meio ruins, mas muitos eram bem-feitos. Alguns eram feitos muito rapidamente pra se colocar no cinema no mesmo momento. Isso prejudicava o resultado final. 

Z- Existia muitas divisões na Boca? 

GW- Não. O Khouri era o mais privilegiado e tinha mais nome. Mas ele quase nunca ficava lá. Ele ficava mais na Bela Vista, nos teatros que tinham lá e era muito amigo da Sandra Brea que veio a falecer. Inclusive, ela estava no filme que eu montei. Algumas vezes eu ficava puto com ele porque ele ficava no telefone com ela duas, três horas. Nisso, eu ficava parado na moviola. Ficava puto com isso (risos). 

Z- Ele tinha uma voz mansa né? 

GW- Mansa. Falava: “Desculpa Gilbertinho, desculpa. Ela me incomoda porque ela precisa disso, precisa daquilo. A empregada dela foi embora”. Ela era uma atriz cheia de frescuras. Uma vez eu dei um esporro nela dentro de um estúdio. Eu estava dirigindo a dublagem e tive que fazer ela voltar a gravação. Estava fora de sintonia: “Sandra, vamos repetir de novo”. Ela reagiu: “Quem está falando? Quem é você pra dizer se está errado ou certo?”. Eu falei: “Sandra eu sou o responsável pela dublagem e o editor do filme. A fita estás fora de sintonia e eu quero que você faça de novo. Por favor”. Ela falou: “Não vou fazer”, ela tinha invocado comigo. Então eu respondi: “Então, eu vou substituir você. Vou colocar outra pessoa pra dublar você”. Aí depois ficou minha amiga, disse que estava estressada, cansada. Eu respondi: “Eu tenho responsabilidade. Você estava fora de sincronização. Você é uma excelente atriz. Mas todos nós erramos”. Ela respondeu: “Não, você tem razão. É que eu ando estressada. Eu faço quantas vezes você precisar”. Aí mudou tudo. Coitada…que Deus a tenha. 

Z- O senhor se lembra de algum crítico falando bem de alguma montagem sua? 

GW- Teve. Eu nunca soube de uma crítica falando o contrário. Também se eu ouvisse qualquer coisa no gênero, eu com certeza iria pra cima pra saber o motivo. Mas eu nunca soube de crítica nenhuma falando mal de algum longa que eu montei. 

Z- Tem algum diretor da Boca que o senhor acabou não trabalhou e lamenta isso? 

GW- É aquilo que acontece: todo diretor tem o montador dele. É como uma equipe. O meu tio por exemplo. Na equipe dele, sempre tinha o Osvaldo Leonel. Sempre ele estava nas filmagens. Tem aquela turma que você se adapta, sabe como falar. Entendeu? Vai trocar de montador por quê se ele sempre monta com você? Todos tinham o seu câmera, o seu montador. O Miziara e o “Carcaça” tinham o montador deles que era eu. 

Z- O senhor chegou a montar um filme do Roberto Mauro. 

GW- Roberto Mauro? 

Z- Isso, Eu Compro Essa Virgem. 

GW- Poxa, nem me lembro. Eu Compro Essa Virgem…eu acho que sim (risos). 

Z- Dos filmes que o senhor trabalhou, tem algum preferido? 

GW- Olha, quase todos eu gostei. Era um trabalho que eu gostava muito, então todos os filmes que eu montei eu gostei. Todos tiveram êxito, foram vistos por muitas pessoas. 

Z- O senhor ia nos lançamentos dos filmes? 

GW- Ia, com certeza. O avant premiere era feito em diversos cinemas. Muitos no Marabá, inclusive. 

Z- Quais outros montadores da época eram bons? 

GW- Tinham vários editores. Aquilo que eu falei pra você: alguns eram mais lentos pra fazer. Todos eram talentosos. Agora a preferência era Luizinho. Com certeza, o melhor era o Luizinho e depois eu que os caras sempre queriam montar comigo. Por causa do dinamismo que eu herdei do Luizinho. Eu aprendi com ele. Era tão engraçado…outro dia a gente estava no sítio e lembrando alguns causos (rindo). Me veio até lágrimas nos olhos. Pra me apreçar algumas vezes que eu estava com sono, ele jogava as latas no chão e me acordava. Ficava gritando: “Vamos rapaz, pega a lata” (rindo). 

Z- Teve algum assistente do senhor que chegou a virar montador? 

GW- Eu sempre montei sozinho, sempre fiz meu trabalho sozinho. Algumas vezes eu pegava um garoto pra me ajudar, um parente. Sempre editei sozinho porque longa-metragem não precisa de assistente. Tinha o pessoal do estúdio que te ajudava. Eu tinha sempre algum garoto pra enrolar os filmes, colar magnético. Na Boca tinha alguns garotinhos que trabalhavam. Não sei se algum deles chegou a virar montador. Acredito que não. 

Z- O senhor chegou a conhecer na época o trabalho do Eder Mazzini? 

GW- Quem? 

Z- Eder Mazzini montador. 

GW- Não estou me lembrando dele. 

Z- Ele é de Catanduva. Não se lembra? 

GW- Não, não lembro. 

Z- O senhor chegou a montar alguns explícitos? 

GW- Fiz. Vários inclusive. 

Z- Como foi isso? Não teve problema pro senhor isso? 

GW- Não, tudo bem. Nada haver. Todos tinham uma história…o cinema pornochanchada foi indo, indo e hoje é o filme pornô. Hoje, tem os pornô da vida. Quase o que era no cinema era mais ou menos isso. Só não tinha as cenas explícitas mesmo. Era tudo subtendido. Mas o pessoal ia no cinema pra ver isso. Hoje não. Quem quer ver esse tipo de filme pode comprar o DVD. Inclusive teve uma época que me chamaram pra produzir isso. Mas eu não quis. 

Z- O tio do senhor também nunca quis fazer esse tipo de cinema? 

GW- Não. Não porque nós temos um nome no cinema. Me convidaram pra ser sócio nisso, tudo pra produzir pornô. Mas não é filme aquilo né? Não tem história, a interpretação é ridícula. Quando eles tentam fazer uma historinha para um filme pornô fica uma coisa ridícula. Não tem nada haver.   

Z- O que significou a Boca na vida do senhor? 

GW- A Boca foi o começo da minha carreira no cinema. Fez parte da minha vida no cinema. A Boca é como Hollywood…lá ficavam os atores. Muitas vezes passavam carros tentando ver se viam algum ator. Tinha esse pessoal curioso né? A gente ficava ali. John Herbert ficava ali, Francisco Cuoco que fez filme com o Galante. Muita gente começou na Boca, mesmo que fazendo ponta. Tinha muita gente que vinha do teatro também. 

Z- O Fagundes também. 

GW- Sim. O Fagundes trabalhou no Auto da Compadecida, produção do George Jonas com edição do Luizinho. Eu fui assistente dele nesse filme, nós fizemos logo que terminamos o Águias de Fogo. O Luizinho me falou: “Peguei um longa-metragem. Você vai trabalhar de assistente comigo”. Esse filme tinha a Regina Duarte mocinha ainda…eu lembro que nós fomos dublar e ela tinha voltado de lua de mel. Tinha o Armando Borges, que infelizmente já faleceu. Ele era um cara bacana pra caramba, depois tive contato com ele mais pra frente. 

Z- O senhor nunca pensou em dirigir? 

GW- Pensei em fazer isso. O meu problema era a doença que eu tive. Mas eu cheguei a dirigir sim. No Intimidades de Analu e Fernanda do Miziara tem uma sequencia de batida que eu posicionei os carros, tudo. Praticamente eu que dirigi aquela cena junto com o Miziara. Cheguei em pensar em fazer direção. Só que depois logo sai fora, fui trabalhar com o meu sogro na firma dele de postos de gasolina.

 Parte 3

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