Viagem ao Céu da Boca

Especial Boca Pornô – 30 anos

Viagem ao Céu da Boca
Direção: Roberto Mauro
Brasil, 1981.

Por Adilson Marcelino

Dirigido por Roberto Mauro, Viagem ao Céu da Boca é filme brasileiro explícito pioneiro da mesma época de Coisas Eróticas (1981), de Rafffaele Rossi, e que contém alguns nomes notáveis na ficha técnica, como Clóvis Bueno no cenário e figurinos – além de ser adaptação livre de conto de José Loureiro.

Como o filme de Rossi estreou antes, acabou passando à história como o primeiro título brasileiro de sexo explícito, Viagem ao Céu da Boca amealhou outros méritos, ainda que involuntários. Se Coisas Eróticas lotou as salas, e realmente era uma novidade desconcertante e altamente erótica na época ver, já na primeira cena, um cara se masturbando no banheiro e falando português que nem a gente, público na platéia, coube a esse Viagem a pecha instantânea de maldito, carimbo que resiste até os dias de hoje.

Realmente, mesmo 30 anos depois não se deglute facilmente o mostrado. Imaginem então naqueles tempos onde apenas o tatibitate já ouriçava os pelos de ponta a ponta? O foco de Viagem ao Céu da Boca não é mesmo brinquedo não, pois reúne toda uma fauna marginal por demais para a platéia ávida do nascente cinema pornô. Nesta fauna, que reúne bandido, uma dondoca ninfomaníaca, uma travesti e uma menina, o sexo e a violência imperam

A travesti Paula – Ângela Lecrely – é o grande destaque do filme e também a vítima maior de Nilo Barrão das Quebradas – Eduardo Black – um assaltante que invade a casa onde ela divide o espaço e também o marido de Mara – Bianca Blond. Entediado, Barrão circula para lá e para cá com seu jeans apertado revelando o documento volumoso entre as pernas. Depois de cismar pela cidade, passar os olhos nas manchetes dos jornais pregados nas bancas, ele inicia sua jornada de crimes: rouba um carro da companhia telefônica, exige que o dono do veículo se atire dele em movimento, e por fim bate à porta da casa de Mara para uma estadia de práticas violentas e sádicas.

Surpreendente e safadamente, a dondoca não aceita apenas ser assaltada, quer também ser currada pelo negão. Já ele, parece mais interessado é nos badulaques da casa kitch e modernosa, com janelas redondas, luminárias de todos os tipos e elementos fálicos presentes na decoração. Mas quando passa o deslumbre inicial, ele resolve mesmo é barbarizar, estendendo suas garras e intenções para a outra moradora do pedaço, a travesti Paula. É ela que será transformada no principal objeto do garanhão, sobretudo para humilhá-la, já que o desejo indesviável não pode ser assumido tão facilmente. Daí toma penetração com cano de revólver, alfinetada na bunda e roça a roça com Mara para deleite do voyeur sádico.

O circo já está mais que armado, mas aí novas surpresas surgem, como a aparição de uma menina de patins e em uniforme de escola, que será mais uma presa para satisfação sexual banhada em sangue de Barrão – como se vê, qualquer idéia de estatuto de criança e adolescente pareceria idéia de lunático sem o que fazer. Há ainda uma pomba-gira e por fim o algoz se transformando em vítima, inclusive de tortura oficial.

O cenário kitsch de Bueno é palco perfeito para as atrocidades do assaltante, que quase sempre escambam para o mau-gosto. Mas ainda assim tem algum humor involuntário, sobretudo na compulsão boqueteira de Mara e nas falas espirituosas de Paula – “No Brasil até bandido é moralista”.

Há também uma certa inquietação: se gays e lésbicas queremos ser vistos fazendo sexo com naturalidade, e é assim mesmo que tem que ser, com que direito nos empunhamos de certo asco quando essas cenas de sexo envolvem travestis? E mais, é assombrosa a construção fílmica em cima de um personagem que, torturado diariamente, também sonha com garbo com a tortura, não?

Viagem ao Céu da Boca é contra-indicado para a forma como se vê normalmente filme pornô, avançando as sequências. Isso porque em cada avanço, podemos esbarrar com paus em sangue sendo lambidos ou cano de revólver tomando o lugar do cujo, e aí se enfastiar de cara. Desconcertante até a medula, Viagem ao Céu da Boca precisa ser visto em seu tempo real, com começo, meio e fim, pois daí pode sair leituras possíveis – e a tortura particular e do Estado é uma delas – que sobrevivam em meio a esse desconforto.

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Juventude em Busca de Sexo

Especial Boca Pornô – 30 anos

Juventude em Busca de Sexo
Direção: Juan Bajon
Brasil, 1983.

Por William Alves

Juan Bajon, como quase todos os chineses, é um camarada esperto. Logo no início do filme, os pais dos protagonistas se tornam vítimas fatais de um acidente de carro. Os filhos, acostumados à vida mansa, são obrigados a aceitar empregos de peão. Depois, a filha – interpretada pela voluptuosa Shirley Benny – é engravidada pelo filho do dono do supermercado onde trabalha, enquanto o irmão se apaixona por uma meretriz chave de cadeia. Sensibilizados os espectadores, Bajon tem, pois, seu pretexto perfeito para ancorar o resto da película em uma putaria sem arreios.

Embora não seja tão estarrecedor quanto alguns dos trabalhos subseqüentes do diretor (Seduzida por um Cavalo, Meu Marido Meu Cavalo, Duas Mulheres e um Pônei, títulos auto-explicativos), a cópula desenfreada é a única razão de ser desse Juventude em Busca de Sexo. A necessidade de mostrar todas as formas possíveis de fornicação, envolvendo tudo quanto é tipo de gente, anula qualquer tentativa de enredo verossímil.

O ano de produção denuncia muita coisa – 1983. É a derrocada dos roteiros e o triunfo da suruba na Boca do Lixo paulistana. Embora tenha estreado com um thriller policial (O Estripador de Mulheres, 1978), Bajon foi um dos mais prolíficos produtores de sexo explícito de todo o mundo.

Uma aflição específica caracteriza as mulheres de Juventude em Busca de Sexo. Tudo é pretexto para abrir as pernas. Nem mesmo uma praia pública em horário de pico é suficiente para intimidar as meninas, que parecem determinadas em satisfazer todos os homens do país no menor tempo possível. Seria essa uma homenagem de Bajon ao Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley?

O Analista de Taras Deliciosas

Especial Boca Pornô – 30 anos

O analista de taras deliciosas
Direção: Izuaf Rusnam (Fauzi Mansur)
Brasil, 1984.

Por Filipe Chamy

O analista de taras deliciosas não é um bom filme. Mas aparentemente poderia ser bem pior. Fauzi Mansur (ou Izuaf Rusnam, seu nome ao contrário, que adota como pseudônimo aqui) ao menos não tentou dar uma roupagem “sensual” ou “excitante” a algo que em essência é pastelão vagabundo com sexo explícito.

A coisa toda é uma paródia do célebre seriado Ilha da fantasia, com um homem vestido de branco e seu parceiro anão (o mítico Chumbinho) satisfazendo os desejos dos visitantes de seu refúgio. Não é difícil imaginar que tipos de desejos são esses, sendo o filme uma produção XXX realizada no ocaso da Boca do Lixo.

Na verdade, o filme é uma colagem de referências: de vampiros a faroeste spaghetti (Sartana “participa” de uma passagem, junto a Billy the Kid), de Elizabeth Taylor a nunexploitations, O analista de taras deliciosas é um amontoado de citações bizarras e realmente não muito engraçadas. O tratamento como sátira é interessante, mas o roteiro pedestre e a direção mambembe fazem a graça de tudo se esvair em seu conceito. Então é divertido e curioso saber essas “homenagens”, mas vê-las sendo desenvolvidas é um exercício desabonador e até meio agoniante.

E dá-lhe a “facilidade” de empregar músicas de 8 ½ e My fair lady, ou brincar de iconoclastia, deboche, sátira ou o que seja, quando o fato é que todo esse esqueleto só serve ao propósito de, mais uma vez, mostrar mil esquematizações sexuais e empobrecer qualquer tentativa de narrativa com “forçadas” tão absurdas e ridículas que é constrangedor presenciá-las. Um exemplo: uma das fantasias de um certo indivíduo era fazer sexo com Elizabeth Taylor. O homem diz que viu todos os seus filmes, a adora e venera; mas aparentemente isso não bastou para ele identificar uma sósia tão falsa quanto nota de meio dólar. Não se aplica aqui a lógica “irreal” da fábula ou da comédia, é nítido que isso é feito num espírito “vale tudo”, assumindo que o público do filme irá engolir qualquer coisa (e vejam a ironia da expressão), o que talvez seja verdade mas não dignifica os esforços de tosquice de Fauzi Mansur e toda sua equipe. E aí poder-se-ia acreditar que isso é uma crítica justamente ao falho caráter humano, pois todos acabam se contentando com mentiras, engodos, representações, apontando talvez para o interessante ponto de vista que escancara a futilidade das metas pessoais: no final das contas as pessoas se contentam com suas próprias fantasias, por mais risíveis e, não é tão redundante dizer, fantasiosas. Mas acreditar que esse comentário é mérito do filme é ter as coisas numa boa vontade assombrosa: é claro que qualquer achado nesse sentido é acaso da interpretação — O analista das taras deliciosas não tem qualquer pretensão em ser levado a sério e não gasta energias em transparecer um trabalho nesse sentido.

O que dizer de um filme que tem em seu elenco o Anão Chumbinho sendo “agraciado” com os favores de uma alegada enfermeira enquanto o “respeitável” médico elenca o rol de pacientes recém-chegados? Se é difícil encontrar forças para sorrir ante esse lamentável feito, dá para imaginar que o restante da obra não é muito melhor. E todas essas encenações, brincadeiras e farsas não são cômicas e nem criativas, pelo contrário, tomam carona em mil sucessos anteriores acreditando na certeza infelizmente quase sempre comprovada que um filme que zomba e referencia coisas famosas ou na moda deva merecer só por isso atenção e uma certa condescendência. Como se se acovardassem ante a própria fraqueza do trabalho e dissessem: “só damos o que o povo quer, o que o povo conhece”. É muito fácil se esconder por trás de desculpas que dizem respeito a uma situação social ou à estrutura do cinema no país. Difícil é fazer mesmo um bom filme. Só um bom filme.

Oh! Rebuceteio.

Especial Boca Pornô – 30 anos

OhRebuceteio

Oh! Rebuceteio.
Direção: Cláudio Cunha
Brasil, 1984.

Por Gabriel Carneiro

Corro o risco de ser injusto e leviano, mas, me parece, que há sempre, dentro de um gênero, um grande filme entre grandes e pequenos. Ainda que discorde, parece ter se assumido o filme de sexo explícito como gênero. Dito isso, Oh! Rebuceteio. me parece ser o grande filme de sexo explícito feito no Brasil, ao menos entre os que vi dos anos 80. Realizado em 1984, logo no começo da febre pelo cinema pornô, e único do diretor Cláudio Cunha (de outros filmaços como Amada Amante), Oh! Rebuceteio. está muito a frente de seus congêneres justamente por saber explorar as características marcantes do gênero a seu favor, e não apenas porque faz parte de um conjunto de filmes.

A particularidade do filme de sexo explícito é, obviamente, o uso de cenas de sexo explícito ao longo do filme. Pois bem: é nisso que Oh! Rebuceteio. se sobressai. O sexo explícito está tão arraigado no cerne do filme quanto qualquer outro elemento, diferentemente do que era feito na época, quando as cenas de sexo eram apenas intervalos comerciais para a história, geralmente muito parecida às das pornochanchadas. Nisso, Cunha fez um metafilme, em que jamais poderia existir enquanto cinema sem as cenas. No longa, um diretor teatral busca fazer a peça mais solta e instintiva possível, fugindo de amarras morais. O improviso surge então em cenas belíssimas de um sexo gráfico pueril, que está além da sacanagem, ainda que seja esta o principal objetivo.

A cada ensaio, a cada exercício, mais os atores se soltam, e mais prazer tomam disso. A bem da verdade, pouco importa as bobagens que o diretor, interpretado pelo próprio Cunha, diz: as explicações de teatro terapêutico, psicológico e afins, são apenas subterfúgios para uma ilustração do pretendido, uma mentira branca, feita sem a menor noção do que está sendo falado. É a explicação para o público embarcar na história, mas que, convenhamos, não faz a menor diferença.

Se o filme narra a trajetória de um diretor para fazer a peça mais libertária de seus dias, do teste de elenco à apresentação, são as belamente fotografadas e montadas cenas de descobrimento do prazer luxurioso que ganham contorno de maestria. Acho que o sexo explícito nunca foi tão bem filmado quanto no filme de Cunha, todo requintado em termos de luz e quadro, sem cair na frenética dos filmes contemporâneos, e sem a vantagem de duas câmeras – lembremos, era tempo de película ainda, de 35mm, e não das facilidades do digital.

Rabo I

Especial Boca Pornô – 30 anos

Rabo I
Direção: José Miziara
Brasil, 1985.

Por Daniel Salomão Roque

Na mesa de um restaurante em São Paulo, quatro mulheres conversam animadamente acerca das suas aventuras sexuais. Os flashbacks, então, nos dão conta de parafilias, fetiches, adultérios e trepadas coletivas que se sucedem num crescente tom de bizarrice. Rabo I, uma das tantas investidas de José Miziara no cinema de sexo explícito, é um filme grotesco que se assume como tal. O verdadeiro protagonista da fita não é o falo de um ator ou a genitália peluda de uma moça qualquer, mas o garçom interpretado por Rony Cócegas, que se excita com as histórias narradas e ao fim das quais sempre tenta – sem sucesso – se masturbar no banheiro do estabelecimento.  

Isso, no final das contas, explica muita coisa. A presença constante de um ícone do humor popular brasileiro não é fruto do acaso, tampouco decorre apenas das necessidades mercadológicas vigentes: ela expressa, sobretudo, uma certa concepção da pornografia e da comédia, marcada pelo entrelaçamento de ambos os gêneros com vistas a atingir os extremos do pastelão e do duplo sentido.

O sexo, em muitos pornôs da Boca, é uma ode ao nonsense, e Rabo I não constitui exceção. Aqui, as transas são sempre anedóticas, de uma vulgaridade berrante e não raras vezes monstruosa – ao mesmo tempo, parece inexistir qualquer intenção de excitar o espectador. Seu elenco canastrão de mulheres flácidas e homens desdentados é pavoroso, e somos levados a nos interessar mais pelo absurdo das situações que pelo ato sexual em si.

Se fazer do sexo um mero pretexto para tiradas grosseiras esvazia o filme de qualquer potencial erótico, por outro lado confere a ele alguns outros matizes que sem dúvida o tornam menos repulsivo. Miziara, dentre outras coisas, nos mostra com todos os detalhes uma sessão de swing na qual um dos casais é composto por um travesti e um cachorro, mas não induz nenhum vínculo de cumplicidade entre a platéia e os personagens. As pessoas simplesmente trepam: a mulher se decepciona com as reduzidas proporções penianas do travesti e este, por sua vez, lhe adverte que o dito cujo “só subirá quando o Brasil pagar a dívida externa”, recomendando em seguida que a moça passe um tempo com seu amante de quatro patas.

Achamos tudo muito engraçado. Ou não. Mas certamente passamos longe da idéia de experimentar qualquer coisa parecida, pois as aventuras narradas em Rabo I estão muito mais próximas da piada suja que do conto erótico, e seu efeito físico mais imediato é o riso – não a ereção.

Banho de Língua

Especial Boca Pornô – 30 anos

Banho de Língua
Direção: Maury Queiróz (Tony Vieira)
Brasil, 1985.

Por Leo Pyrata

Banho de Língua é um filme de sexo explícito dirigido por Mauri Queiroz em 1985. O filme começa com uma entrevista de emprego em que o patrão ardiloso e populista no seu trato tenta resolver a entrevista no tato e é repelido pela mocinha . Ela conhece outras garotas desempregadas procurando oportunidades de trabalho que também só encontram segundas intenções da parte dos patrões. Depois ficamos conhecendo os personagens que completam a história. O Playboy e seus companheiros curtindo uma tarde de lancha com uma garota dopada pronta pro sexo selvagem com o vencedor do par ou impar, produzindo a foda abre-alas do filme bucólica e quase romântica. Conhecemos também uma mãe preocupada com a filha menor tentando arrumar trabalho. Não demora e a mocinha do filme vai procurar emprego justamente na casa do playboy. Em pouco tempo ela está dopada, é currada e abandonada inconsciente na beira de um lago pelo playboy e um companheiro Depois acaba caindo na vida com as amigas.

Surgem os clientes, o vizinho rico, a boate e tem até desfile de escola de samba. Elas se estabelecem e rolam orgias com velas acesas e espanadores no rabo de outros rapazes de forma performática. Ai a mocinha que foi currada no começo resolve ir disfarçada novamente atrás de emprego na casa do playboy. Só que dessa vez ela não toma o copo de boa noite cinderela e ainda sim entra novamente no sanduíche do playboy e seu companheiro no final do filme.

Banho de Língua é um explicito sobre relação de classes. São impagáveis as cenas do vizinho recebendo seu show ali de camarote do seu zigurate, depois de presentear as moças e se divertindo à distancia, dando ordens pra elas pelo telefone enquanto testemunha pela fresta de sua janela o banho de língua das meninas. Não ocorre a vingança da moça contra o playboy e como estão as coisas ficam.

O que falta em Banho de Língua é justamente um banho de sangue. O final conciliador aborrece o espectador que tenha depositado suas fichas numa possível vendetta. Confesso que entendo que uma puta matadora de sacanas filhos da mãe daquele não seria uma mensagem muito bem digerida pra quem fosse assistir o banho de língua na época. Acaba que o filme promete mais do que entrega mesmo, provavelmente porque o explicito como novo momento do cinema da Boca era uma realidade que não entusiasmava as pessoas envolvidas nas produções por verem aquele momento com muitas ressalvas. Faziam as concessões que o mercado exibidor exigia para continuarem trabalhando com o cinema, porém sem o esmero para satisfazer uma minoria de publico que ainda se importasse com o filme em si naquele momento. O que não impede de ressaltar as qualidades da trilha sonora e apontar outros bons momentos do filme como a cena em que as garotas fazem um showzinho na piscina pro vizinho. E o momento que a atriz vira parara câmera e reclama da vida de artista é impagável. Vale também por ser um dos poucos filmes do Tony Viera que temos acesso pela internet

24 Horas de Sexo Explícito / 48 Horas de Sexo Alucinante

Especial Boca Pornô – 30 anos

24 Horas de Sexo Explícito
Direção: José Mojica Marins
Brasil, 1985.

48 Horas de Sexo Alucinante
Direção: José Mojica Marins
Brasil, 1987.

Por Vlademir Lazo

A visão de um público numeroso que torce o nariz diante dos filmes realizados pela antiga Boca do Lixo, desprezando-os como fitas artisticamente pobres e recheadas de sexo, só seria verídica se considerássemos apenas o ciclo final da produtora paulista, o de sexo explícito no decorrer da década de oitenta. Seguir em frente com essa opinião é desconsiderar um outro período bem mais rico e proveitoso que foi o dos anos 60 até mais ou menos 1982 – quando o sexo explicito tomava conta do mercado e filmes com apenas sequências eróticas (chamarizes de bilheteria, mas que não raro permitiam certos diretores de rodarem filmes por vezes notáveis), em tempos de pós-Abertura, já não eram mais suficiente para atender a vontade irrefreável de um público que, à época, finalmente se via em liberdade para consumir o erotismo no grau que desejasse. O que gerou não apenas uma corrida ao pote de ouro como uma necessidade de sobrevivência dos profissionais de cinema na época, desde produtores e roteiristas até os técnicos e atores/atrizes (estes, em sua maioria, acabaram na miséria ou morrendo de doenças venéreas), o que inclui os cineastas que tiveram de aderir ao pornô, muitos contra a própria vontade. Com José Mojica Marins não foi diferente.

Os filmes dessa fase, quando muito, valem como curiosidade histórica em se tratando de um período difícil para o cinema brasileiro, ou no caso dos que Mojica realizou, interessam unicamente aos completistas e pesquisadores da obra do criador de Zé do Caixão. Vale dizer que estes de sexo explicito foram praticamente os únicos longas de ficção que Mojica pôde fazer nos trinta anos que separam a sua produção setentista até o lançamento de Encarnação do Demônio, em 2008. Na verdade, eles dão seguimento às (fracas) comédias eróticas que o cineasta filmara na década anterior (assinando-as com o pseudônimo de J. Avelar) – inclusive o primeiro trabalho de Mojica nos anos 80 era um filme erótico comum, A 5ª Dimensão do Sexo (1984), o qual os exibidores exigiram o posterior acréscimo de cenas de sexo explicito para passar nas telas. Mojica conta que o filme (um dos raros na época a tratar de homossexualidade) só não fez sucesso porque teve o azar de estrear simultaneamente com o hoje clássico nacional Oh! Rebuceteio (de Cláudio Cunha), que com um título desses roubou todos os espectadores, mas o produtor do seu filme, Mario Lima (seu parceiro antigo), propôs que entrasse na onda do pornô com a promessa de em seguida produzir o seu sonhado projeto de Encarnação do Demônio. Daí nasceu o 24 Horas de Sexo Explícito.

Pensar em pornô daquela época é completamente diferente do que o que viria a ser mais tarde (com mais sofisticação em cena, padronização do gênero e beleza dos integrantes do elenco, etc.). Os nacionais dessa fase foram em sua maioria uma diluição bem pobre dos aspectos mais superficiais dos filmes eróticos que os precederam, agora como pretexto para as cenas explicitas. Ciente disso, Mojica declarou que encheu 24 Horas de Sexo Explícito de mulheres feias e inseriu cenas de zoofilia para que o público não quisesse mais pensar em sexo, o que alguns podem até achar se tratar de um golpe publicitário por parte do diretor. Mas vendo o filme, realmente ele é muito pouco erótico, não apenas pelo contexto de produção da época, mas pela realização em si. Não há construções de um clima erótico ou de uma atmosfera de sedução (o mais próximo disso é uma cena lésbica perto do final). Os filmes de Mojica Marins jamais prezaram pela singeleza, e nesse o que vemos, cruamente, são apenas uma sucessão de cenas bizarras (e um tanto sem graça) e orgíacas de corpos nus, órgãos genitais masculinos e femininos, felações e carne batendo contra carne. Logo no começo do filme, Silvio Jr., Walter Laurentis e Antônio Rody (três atores conhecidos dos filmes pornográficos na época, interpretando a si mesmos) lêem numa mesa de bar uma noticia de jornal que os chamam de Os Campeões do Sexo Explícito no Brasil. E após uns vinte minutos de alguns encontros e muito falatório, os três iniciam uma competição: gozar mais vezes num período de vinte e quatro horas, em transas ininterruptas com um grupo de garotas na casa de praia do amigo de um deles.

É o sexo vivenciado até a exaustão e esgotamento físico completo dos personagens masculinos, alem de um clima de confronto deles com as mulheres, que os provocam e irritam (um deles reclama do excesso de feiúra delas, fazendo uma piada com o elenco dos filmes de Zé do Caixão), coisas que normalmente não seriam vistas em nenhum filme pornô antigo ou novo. As intervenções do juiz homossexual e até de um papagaio falante que aparece em cena só acentuam a esquisitice e os aspectos esdrúxulos do filme – isso para não dizer do pênis e da xoxota maquiados “conversando” ou da transa do cão pastor alemão com uma das garotas. Talvez Mojica quisesse mesmo sabotar o gênero com a pretensão de destruí-lo, filmando tanto bestialismo em cena. Mas se a sua intenção foi essa, o tiro saiu pela culatra: Mojica quase sempre foi subestimado como diretor pelos grandes filmes que realizou, mas independente desse 24 Horas de Sexo Explícito, na melhor das hipóteses (e quando muito), ser ou não uma pérola pela sua ruindade absoluta, o filme foi um êxito estrondoso de público (ainda que só tenha piorado a reputação artística tão injustiça do diretor). Sim, o que provavelmente é o pior filme da carreira do diretor também foi seu maior sucesso de bilheteria. As razões, entretanto, não são difíceis de apontar: por mais “exótico” que fosse o filme, suas bizarrices divertiam um público que, em sua maioria em 1985, ainda não possuíam nem vídeo-cassete em casa (e internet era uma realidade distante), e que se reuniam para sessões em cinemas pornôs que eram quase como grindhouses, onde o que menos importava era a qualidade do filme e mais o divertimento erótico que pudesse provocar dentro e fora da tela.

O produtor havia prometido financiar Encarnação do Demônio caso 24 Horas de Sexo Explicito fosse um sucesso. Foi, mas daí ele e Mojica foram fazer um outro pornô na linha do anterior, 48 Horas de Sexo Alucinante, aproveitando o êxito do outro filme. Mas dessa vez com maiores ambições,  com um roteiro mais elaborado e pretensioso, a começar por um ponto de partida bastante interessante: uma sexóloga de meia-idade (Andrea Pucci) contrata os produtores (Mojica e Mario Lima, interpretando a si mesmos) do filme anterior para rodar outra fita, dessa vez dobrando a dose para dois dias ininterruptos de uma maratona sexual em que novamente vencerá o mais resistente e o que gozar mais vezes. Os vinte primeiros minutos são o melhor do filme, nos proporcionando ver Mojica e seu produtor interagindo com a sexóloga (interessada em pesquisas para fins “científicos” e querendo estudar o comportamento erótico de homens e animais), num curioso processo de metalinguagem que resulta num filme dentro de um filme, e já o suficiente para torná-lo superior ao 24 Horas. O elenco da continuação também é muito melhor do que o filme predecessor, agora com bem mais gente e o melhor do que havia da produção hardcore de São Paulo. Retornam também o juiz gay (agora vestido como imperador romano e com o sugestivo e infame nome de “Calíngua”) e seu assistente, o Papagaio engraçadinho, ambos proporcionando momentos surreais ao filme. Mas quando a maratona começa, 48 Horas de Sexo Alucinante vai ficando enfadonho na sua sucessão de penetrações e muita gente enroscada uma na outra num verdadeiro bacanal, quase um circo romano controlado pelos olhares dos fiscais e  pelo computador que contabiliza tudo. O próprio filme em determinado momento se transforma em um espetáculo deprimente ainda que sempre na intenção de divertir e ser engraçado, o que talvez faça parte da proposta de Mojica de criticar e ironizar a obsessão do homem pelo sexo, pela resistência, e números.

O filme ganha novo fôlego depois de uma hora (ao término da maratona de dois dias), ao se concentrar na frigidez e perversão da sexóloga e suas fantasias, que resulta num dos mais puros momentos do cinema de absurdo vistos num filme nacional, o da mulher dentro da vaca mecânica sendo penetrada por um homem vestido de bumba-meu-boi. Em entrevistas, Mojica até hoje lamenta o que a cena tem de falso, o que por outro lado reforça ainda mais o que ela tem de bizarra (críticos na época descreveram essa sequência como “felliniana”, o que não deixa de fazer sentido). Tivesse terminado logo em seguida, 48 Horas de Sexo Alucinante seria um pouco melhor, pena que depois ele se alongue demais na relação mal-resolvida da sexóloga com seu ex-noivo, tornando-o mais longo que o necessário nos seus quase 100 minutos de duração (o filme anterior, ainda que pior, era bem mais enxuto), com uma salada de canções internacionais de sucesso na trilha instrumental, e uma tentativa de criação de cenas de sexo explicito com certo romantismo (além da apresentação musical completa de cantor interpretando El Dia Que Me Quieras num restaurante onde o filme se encerra).

O excesso de tentativas de sofisticação ajudam e ao mesmo tempo atrapalham o filme de Mojica. O público reagiu negativamente, e 48 Horas de Sexo Alucinante fracassou nas bilheterias, em parte porque os espectadores não se interessaram em compreender as qualidades e defeitos conseqüentes das pretensões do filme, o que inclui todo o seu processo metalingüístico e a participação do próprio Mojica em cena. O gênero também naquela altura já se transformava com a popularização do vídeo-cassete entre a classe média no país, quando então qualquer tentativa dos diretores em contar uma história mais elaborada num filme pornô eram frustradas pelo far forward no controle remoto (além da invasão de uma enxurrada de fitas norte-americanas que determinaram um novo estilo pro gênero). Na época, Mojica ainda se comprometeu em dirigir dois filmes em Brasília, ambos produzidos por Ary Santiago: um de sexo explicito, Dr. Frank na clínica das taras (1987), que praticamente ninguém viu e até hoje permanece inacessível (e o qual o cineasta renega a montagem); e um outro que não foi finalizado por desentendimentos entre os sócios.

A Máfia Sexual

Especial Boca Pornô – 30 anos

A Máfia Sexual
Direção: Sady Baby e Renato Alves
Brasil, 1986.

Por Leo Pyrata

Existem planos que passam por nossa vida e ficam marcados pra sempre como tatuagem em nossas retinas fustigadas e cansadas de tantas imagens esquecíveis. Ás vezes a coisa vem como que pelo acaso, numa feliz combinação quase astral de signos que se alinham dando mais profundidade para aquilo que é projetado na tela. O ato do público participar e completar um olhar do filme também permite alguns exageros e é a partir desse fato que eu me vejo no direito de cometer meus excessos para compartilhar um pouco sobre as minhas impressões sobre A Máfia Sexual . Filme de Sady Baby e Renalto Alves , em que Galego (Sady Baby) é um diretor de cinema que é preso pela policia federal por uma série de mutretas e na cadeia entra para a Máfia Sexual.

Junto com Pastor Crocodilo(Bim Bim) e um casal de detentos, ele foge para se vingar dos federais. Assim que consegue escapar, Galego obriga um casal de irmãos a consumar o incesto. Vê-se a seguir algumas seqüência de sexo feio harmonizadas com as pepitas da trilha sonora. Depois, o casal de presos deambula em abraços e beijos pelo centro de são Paulo em 86. De um lugar alto e distante, a câmera acompanha o trajeto até o casal ser escorraçado próximo de uma banca por um rapaz indignado armado com o jornal do dia. Impossível não pensar no Terayama jogando os livros e saindo por ai. Em Sady Baby, a transgressão é o próprio oxigênio do filme. A pulsão que pretende captar está sempre submetida aos gestos. Quebrar um ovo na glande de um ator quase é um ritual pra mostrar o sexo caseiro na cozinha.

A representação nesses filmes sempre tem em seu enquadramento o principio informativo. O registro que Sady e Renato fazem sobrevive muito dessa tensão entre o que é posto em cena e como isso é filmado. Quando a personagem de Leik-Du obriga seu amante a satisfazê-la o que existe é a assimilação do ator do que tipos de energia o filme precisa, pois a máfia está em dominar. E como a lógica das coisas nunca persiste por muito tempo nos filmes de Sady, é hora de interromper uma suruba com um revolver e depois com uma tocha e botar fogo no puteiro. Incendiada a cabaninha, é hora do cinema se tornar cachoeira. É nessa locação e com essa citação picareta de Humberto Mauro, que eu finalmente chego na cena que me levou a escrever sobre esse filme agora. Quem não tem Fuller tem Galego, de charuto no beiço e de revolver em punho está no habitat ideal para dar continuidade ao seu plano de vingança. Coloca suas putinhas para fazerem uma busca no local e logo encontra a amante de seu antagonista Tocha (Renalto Alves) que se torna alvo de uma tortura. Galego pega a moça e no meio da cachoeira ameaça matar e queimar o rosto da moça com seu charuto. Num dado momento, ele parece confuso entre queimar ou afogar a moça; depois surge outra seqüência, agora com Galego totalmente seco torturando outra moça e dessa vez ameaçando jogá-la num formigueiro.

Continuidade temporal é coisa para fracos. Por falar nisso, depois tem o caixão vermelho. Sim, um caixão vermelho é outro elemento bacana do filme. Ele surge pela primeira vez nos créditos inicias e volta à cena quando Tocha surge comentando que aquele é um lugar cruel. Tudo culpa da máfia sexual. .Enquanto isso, Galego segue traçando suas mafiosas na cachoeira até elas começarem a brigar por ele. Então é hora do confronto entre Galego e Tocha. Depois de um tiroteio, eles partem pra pancada, Galego leva a pior e é rendido por Tocha. Mas como os filmes precisam de finais felizes, surge alguém e mata o Federal.

Rola um misto de batismo-tortura com mais uma voluntária num tonel de óleo, que também merece nota. Ali tem toda essa força estranha, força-ação de barreiras própria do cinema de Sady Baby. Esse pajé intuitivo de um caos apocalíptico filmado como se Bosch fizesse um institucional do inferno da terra nos anos oitenta. A presença do Pastor Crocodilo pregando e a saturação de falas na banda sonora deixa a cena ainda mais extraordinária, mas o melhor mesmo é que a atriz torturada custa a sacar quando é sua deixa para morrer, o que deixa a cena ainda mais divertida. E a diversão não acaba. Um pouco depois, o pastor dá em cima de uma das mulheres do Galego e como vingança tem o sangue sugado por nosso vampiro Galego. Esse anjo caído de carne e osso sugando cinema de qualquer jugular, esgoto ou lote vago. Príncipe Valente da picaretice genial dos trópicos.

Comando Explícito

Especial Boca Pornô – 30 anos

Comando explícito
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1986.

Por Filipe Chamy

Discordando do colega Matheus Trunk, que há poucos meses comentou este filme na Zingu!, preciso afirmar: Comando explícito é uma horrível experiência.

Seguindo a linha do também tosco Orgia familiar — inclusive com algumas repetições de “técnicos”, “atores” e “locações” —, é um filme reacionário e misógino travestido de livre e sensual: a marca de todos os filmes de sexo explícito de baixa categoria.

A hipocrisia da moral de Comando explícito não é necessariamente um problema. Mas percebendo todos os seus inúmeros outros defeitos, pode-se muito bem adicionar mais essa chaga à pele doentia que reveste o filme.

Como era de se esperar, o sexo vendido aqui é o mais próximo ao desejo bestial. Trata-se de copular, possuir, maltratar o corpo. Não concordo com o amigo Trunk quando diz que este filme tem marcas autorais: filmar closes em vulvas, falos, penetrações, felações e ejaculações não é nada particular de alguém se expressando. Pelo contrário, até: limitar-se a filmar relações sexuais não encenadas com atores não profissionais é um flerte inequívoco com certa tendência que impera hoje em boa parte da mídia do sexo industrializado. Ou seja, nem esse duvidoso mérito pode ser imputado ao filme; ele é igual em infâmia e amadorismo a mil outras produções ruins.

Desde o cartaz, que vende animadamente estupros e assaltos como excitantes, o filme encontra em cada segundo de sua metragem um motivo para ser execrado. Atores tão pavorosamente fracos que chegam a ser risíveis seus lamentáveis esforços em falarem os (ridículos) diálogos de seus personagens; trama esquemática que une rascunhos de crítica social vagabunda (assédio sexual no trabalho, por exemplo) à denúncia estupidificada da segurança deficitária dos centros urbanos.

Porque o mote de tudo são bandidos “marca barbante” que resolvem barbarizar uma casa, seus habitantes e empregados, e para isso servem-se das duas coisas por que aparentemente vivem: violência e sexo. Em doses cavalares (são bestiais até literalmente, portanto). Forçam todas as pessoas da casa a serem violadas ou torturadas, sob ameaça de tiros. Fazem o chefe de família ver o estupro da esposa, defloram a jovem filha adolescente, obrigam mulheres a se masturbarem, o cardápio é vasto. Infelizmente, o cozinheiro (Sternheim) não tem o dom de fazer o prato apetitoso, e o que resta ao espectador são cenas maçantes, mal filmadas, com a sempre patética insistência em colocar música erudita como trilha para as cenas, reiterando o descompasso entre a intenção e o resultado — isso torna o filme mais formulaico e sem graça ainda.

Com o pretexto de “celebrar a diversidade”, vemos um festival de abominações de toda sorte: se os homossexuais não devem ser menosprezados, por que não colocar um estereótipo bem grosseiro de um rapaz gay louco para ser seviciado pela gangue de estupradores? Se as mulheres merecem também receber o orgasmo, por que não colocá-las seguindo à risca a máxima que diz que “se o estupro é inevitável, relaxe e goze”? Se ninguém pensa em se rebelar contra os vilões do filme, que passam mais tempo copulando que ameaçando, por que não simplesmente deixar todo mundo com um boçal marasmo que supostamente significa medo, mas que em realidade significa apenas um mau desenvolvimento da história, do filme e dos personagens?

É difícil reunir nisso tudo a força para resistir, como os “heróis” apresentados (que ao final sagrar-se-ão vencedores em uma apoteose paródica); mas seria preciso ser realmente um herói para fingir ter prazer com algo tão infeliz quanto este filme.

Fuk Fuk à Brasileira

Especial Boca Pornô – 30 anos

Fuk Fuk à Brasileira
Direção: J. A. Nunes (Jean Garrett)
Brasil, 1986.

Por Sérgio Andrade

Siri é anão, negro, órfão, pobre, mas fala com o espectador por telepatia com a voz de um galã de telenovela (adeptos do politicamente correto devem passar longe). Ele nos conta sua história, desde quando foi adotado por um casal que o transformou em escravo sexual e recebia como prêmio, toda semana, um pinto de borracha que guardava com carinho.

Uma noite o casal traz uma amiga para participar das brincadeiras e, no auge da animação, o marido resolve dar uma de Marlon Brando em O Último Tango em Paris: pede para Siri trazer a manteiga, mesmo a moça não sendo nenhuma Maria Schneider. Ela recusa a oferta e cabe à mulher ser devidamente besuntada, mas como ao invés de manteiga eles só tinham margarina (“afinal não estamos em Paris, mas no Brasil”) essa também desiste da brincadeira. O cara, então, decide se satisfazer com Siri mesmo, que foge entrando pela privada. Ele ainda consegue voltar escondido para a casa afim de pegar sua valiosa coleção e cair no mundo.

Em sua jornada será acolhido por um casal de portugueses (quando poderá usar de toda a criatividade no uso da coleção com a portuguesa), passará pela casa de um gay cujo pai sofreu derrame cerebral (Oasis Minniti, desta vez sem fazer sexo), vai trabalhar na casa de massagem Suga Suga e finalmente receberá a visita de uma nave espacial, no formato de um pinto gigante, vinda do planeta Conas que o escolheu para aprender tudo sobre sacanagem (com direito à tiração de sarro sobre a pobreza dos efeitos especiais no cinema brasileiro).

Dirigido por Jean Garrett, um dos melhores (o melhor?) diretor da Boca, aqui assinando como J.A. Nunes (de seu verdadeiro nome, José Antônio Nunes Gomes e Silva), o filme tem mesmo alguns momentos bem engraçados, a começar pelos letreiros de abertura que trás créditos como roteiro de J. A. Improviso, música do Maestro Agulha e produtores um sinal de interrogação. As mulheres são menos feias do que de costume. Mas quem garante a diversão e o anão Chumbinho, figura freqüente nos pornôs da Boca e que hoje em dia possui uma legião de admiradores.

No gênero, porém, Garrett se sairia melhor em O Beijo da Mulher Piranha que, apesar do título, é um drama policial no qual ele pôde dar vazão aos seus enquadramentos sofisticados e o gosto pelo insólito (Amadas e Violentadas, Excitação, A Força dos Sentidos, A Mulher que Inventou o Amor, O Fotógrafo) na trama da garota que transa com sua piranha (o peixe mesmo!) de estimação e ela própria devora seus amantes.

Claro que sempre haverá quem goste de filmes como Fuk Fuk à Brasileira. Outros, no entanto, acharão que é mais um desperdício de um talento do nosso cinema.

Garrett dirigiu seu último filme em 1986 e morreria dez anos depois, em 21 de abril, cinco dias depois de ter completado 50 anos.