Farra e ressaca explícitas

Especial Boca Pornô – 30 Anos


Por Adilson Marcelino 

Tudo começou com um sucesso de escândalo, que depois se eternizou como grande filme, dirigido por um cineasta nascido no do outro lado do planeta. O título? O Império dos Sentidos; o nome do moço? Nagisa Oshima.

Considerado diretor dos então chamados Filmes de Arte, o japonês Nagisa Oshima balançou o coreto no mundo inteiro com seu O Império dos Sentidos, de 1976, que falava do encontro seminal entre um casal de amantes, tendo como pano de fundo os horrores da guerra.

E o que Kichizo (Tatsuya Fugi) e Sada (EikoMatsuda) fazem o tempo todo? Trepam desesperadamente e explicitamente. Ele como objeto passivo e obediente da sofreguidão insaciável dela. Era o sexo explícito invadindo a cena do cinema autoral em grande estilo, em cenas que ficaram no imaginário mundial, como Sada botando ovo e temperando a comida na vagina antes do guapo digeri-la.

Pronto! O filme foi proibidíssimo!

Mas aqui no Brasil, em plena ditadura, deu-se o famoso jeitinho. O filme foi liberado via mandado de segurança, garantido por brechas na legislação. E aí não teve jeito, fez um publicão. Esta foi a porta semiaberta para um novo filão que se abriu para produtores ávidos e advogados espertos, sobretudo na Boca do Lixo, em São Paulo, que cresceram o olhão.

Via garantia de exibição por mandados de segurança, produções explícitas começaram a pipocar, tendo em Raffaele Rossi e Laerte Calicchio com Coisas Eróticas, e Roberto Mauro com Viagem ao Céu da Boca, ambos de 1981, a primazia. Coisas foi lançado antes, passando à história como o primeiro filme brasileiro de sexo explícito lançado comercialmente nas telas. E, claro, arrebentou a boca do balão. Já Viagem, pela fauna desconcertante em foco – bandido, travesti, ninfomaníaca, criança, tortura -, levou pecha imediata de maldito, carimbo que resiste ainda hoje, mesmo que seja infinitamente superior ao arrasa-quarteirão de Rossi e Calicchio.

A bilheteria tilintando freneticamente mudaria por completo a bem-sucedida experiência de produção da Boca do Lixo, verdadeira geografia para filmes de gêneros diversos, desde que com a presença de vestais desnudas em situações eroticamente simuladas.

Lambendo os beiços diante da oferta, produtores e diretores da Boca do Lixo, mais os exibidores, refastelaram-se na onda do sexo explícito, já que também o público tinha mais possibilidades de escolha com o advento do vídeo cassete e parecia interessado em um tantão mais de pimenta, além do sexo simulado das velhas e boas pornochanchadas.

Filmes com sexo explícito foram sendo cada vez mais produzidos na Boca, não restando muita opção para quem reinava antes na agora chamada Velha Ordem. Com isso, as grandes musas debandaram e também grande parte do elenco de sustentação. Já boa parte dos cineastas migrou para o novo estado de coisas, ainda que sob pseudônimos; exceção para poucos, como Alfredo Sternheim, que assumiu sua assinatura em vários filmes do gênero, e Cláudio Cunha que dirigiu apenas um, o cult Oh! Rebuceteio.

Assistir paus e bocetas em plena atividade na telona com o atrativo irresistível de ouvir tudo na língua pátria pareceu mesmo ser o Ovo de Colombo, e nos primeiros anos o público compareceu em massa às salas. Daí, a Boca foi produzindo e produzindo rebentos.

O ritmo valia tanto para filmes dirigidos por veteranos como Jean Garret (J.A. Nunes), Fauzi Mansur (Rusnam Izuaf) , Tony Vieira (Mauri Queiróz); para cineastas que mudaram logo de lado, como Juan Bajon e Mário Vaz Filho; ou ainda para aqueles que já chegaram na nova onda, como Sady Baby e Renato Alves.

Claro, essa fase também revelou uma nova galeria de astros, com nomes revelados aí ou que atingiram o estrelato nesse momento: Débora Muniz, Sandra Midori, Sandra Morelli, Márcia Ferro, Aryadne de Lima, Shirley Benny, Oásis Minitti, Chumbinho.

Bom, como se diz, tudo que é bom acaba. E não foi diferente para esse modelo de produção. Aos poucos os filmes foram perdendo público, a produção foi se restringindo a guetos – Carlão Reinchebach acusa o fato dessa primeira fornada ter sido exibida nos grandes cinemas populares como uma das causas da aniquilação da produção da Boca – e os títulos produzidos foram minguando.

Foi o tiro de misericórdia na Boca do Lixo, que jamais voltou a se erguer, sepultando um passado de glória, quando era responsável pela produção e lançamento de grande parte dos filmes brasileiros. Essa derrocada, aposentou, precocemente, cineastas, técnicos e atores de talento e que regeram importante fase da história do cinema brasileiro.

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