Um Certo Capitão Rodrigo

Especial Francisco di Franco


Um Certo Capitão Rodrigo
Direção: Anselmo Duarte
Brasil, 1971.

Por Vlademir Lazo

Um dos mais lidos autores brasileiros, com suas obras sempre reimpressas e em voga, Erico Veríssimo nunca deu muita sorte com o cinema. Seu principal trunfo como escritor era a capacidade de contador de histórias, de tecer habilmente tecidos novelescos, e a prosa límpida, simples e sem metáforas ou maiores complexidades, mas eficiente em ir direto ao ponto em suas narrativas sem dispensar uma ou outra digressão inteligente. Essas virtudes se perdem um pouco na transposição para a tela grande, onde o espaço de uma hora e meia ou duas não parecem o suficiente para fazer justiça ao escritor gaúcho. Não admira que as melhores adaptações de sua obra tenham sido em forma de minisséries de TV, que com suas extensões aproveitam melhor o caráter novelesco de suas tramas, o desenvolvimento de seus personagens, ficando mais próximas de condensar as narrativas de Erico sem diluí-las tanto como ocorreram nos filmes baseados em seus romances.

No cinema, ocorreram adaptações de Olhai os Lírios do Campo na Argentina nos anos 40 (!) e de Noite, em 1985, que resultaram em produções muito pouco relevantes. Quanto a O Tempo e o Vento, planejava-se transportá-lo para a tela grande desde o começo dos anos 50 (logo depois que o primeiro volume, O Continente, foi lançado), em projeto da primeira fase da Vera Cruz pensado com Tônia Carrero e Alberto Ruschel (O Cangaceiro), mas que não saiu do papel tendo sido cancelado com a falência da produtora. Pouco depois o estúdio ressurgiu com outro nome, Brasil Filme, sob a direção de Abílio Pereira de Almeida, que levou adiante o projeto de O Tempo e o Vento optando em adaptar o segmento mais simples, O Sobrado (1956), com direção e elenco de nomes que trabalhavam nos teleteatros da TV Tupi, e que com essa experiência toda puderam realizar uma fita com resultados competentes e satisfatórios. Curiosamente, O Sobrado é a parte menos interessante do livro original (servindo mais como ligação entre as diversas tramas e gerações), mas que provavelmente pela unidade de tempo (se desenvolve em um curto espaço de dias) e de lugar serviu bem como uma história de cerco e de tensão. O sucesso rendeu um outro filme, Paixão de Gaúcho (1956), aproveitando parte da equipe, elenco e diretor, uma espécie de faroeste gaúcho supostamente inspirado em romance regionalista de José de Alencar, realizado na linha de O Cangaceiro (inclusive com Ruschel, na época um astro).

No terceiro e último ciclo de filmes da Vera Cruz, no começo dos anos setenta (impulsionado por uma série de fitas de sucesso assinados por Walter Hugo Khoury), foram finalmente retomados o projeto de O Tempo e o Vento, dividindo em dois filmes outros segmentos importantes de O Continente: Ana Terra (1971), sob a direção de Durval Garcia, e Um Certo Capitão Rodrigo (1971), realizado por Anselmo Duarte. Não possuem ligações entre si e nem chegam a ser seqüência um do outro, mas ambos deixam muito a desejar. Um Certo Capitão Rodrigo começa com um prólogo com o personagem-título (interpretado por Francisco Di Franco) na guerra e letreiros que contextualizam a condição histórica do Rio Grande do Sul na época, em meio aos conflitos pela posse de território e de fronteira, ainda depois da independência. Os fatos que seguem são razoavelmente fiéis ao livro de Erico Veríssimo, com o Capitão Rodrigo Cambará chegando ao povoado de Santa Fé, como um elemento intrusivo e indesejado, e querendo se estabelecer no lugar para disputar a jovem Bibiana Terra (Elza de Castro) com o filho do coronel manda-chuva.

Com uma produção caprichada (em cores e em locações no interior do Rio Grande do Sul), funciona como uma aventura razoável que se aproveita do bom ritmo e trabalho de câmera que Anselmo Duarte conferiu ao filme, além de se sustentar pela história sempre sedutora concebida nas páginas de Erico Veríssimo. Nota-se, entretanto, uma excessiva presença de elementos do folclore gaúcho que acentuados na tela pesam em demasia na narrativa. Pode parecer que eles são partes intrínsecas da história rio-grandense e da própria estrutura de O Tempo e o Vento, mas em verdade esse regionalismo tão habilmente evitado (ou amenizado) nos livros de Erico foi difundido mesmo com os CTGs (Centro de Tradições Gaúchas) que surgidos após o centenário da Revolução Farroupilha difundiram esse nativismo desenfreado por todo estado. E que permeia em parte este Um Certo Capitão Rodrigo, inclusive pela colaboração do folclorista Paixão Cortês (um dos papas e fundadores dos CTGs), que além de ajudar nas pesquisas de reconstituição histórica e de hábitos culturais do estado na produção do filme (impregnando-o com o folclore que tanto difundiu) integra o elenco no papel de Pedro Terra (pai de Bibiana). Na tela, esse folclore todo ressoa como um elemento exotizante demais.

Há também a contemplação mitológica da figura do gaúcho. Erico afirmava que criou O Tempo e o Vento como uma maneira de desmistificar alguns exageros em torno do estereótipo do gaúcho, uma afirmação um tanto ambivalente visto que o próprio segmento do Capitão Rodrigo tem um bocado de louvor a essa figura. Compreendendo a trilogia na integra, entretanto, é possível enxergar o que há de lenda e fantasia nisso tudo, e na posição importante das mulheres como verdadeiras protagonistas de todo um ciclo que vai desde as origens do Rio Grande do Sul até meados do século XX. Anselmo Duarte em Um Certo Capitão Rodrigo, porém, prefere evidenciar a lenda (sem intenções de desvendar o que há de mito por trás dela), acentuando o lado bonachão, destemperado, afetado e valente do personagem-título, pouco matizado na tela. Pode-se discutir também a atuação de Di Franco, além do pouco aproveitamento dramático da personagem de Bibiana (tanto Di Franco como Elza de Castro tiveram que ser dublados, por Henrique Martins e Lílian Lemmetz, respectivamente). No geral, o elenco parece funcionar mesmo como decoração para contextualizar o período e a mitologia de O Tempo e o Vento, dando a impressão de que a preocupação maior era mesmo com os 1.100 trajes de época confeccionados especialmente para a produção.

Entre as alterações umas mais e outras menos relevantes que Anselmo fez no roteiro em relação ao livro original, há uma mudança significativa no desfecho. No romance de Erico, o Capitão Rodrigo precisa morrer, para que a História (tanto a com H maiúsculo quanto a das páginas da trilogia) avance. Adaptando somente o segmento em questão, Anselmo não sentiu essa necessidade, e prefere terminar seu filme de maneira triunfal, com o Capitão sobrevivendo e solto pelos campos a cavalo como um verdadeiro herói pampeano.

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Os Devassos

Especial Francisco di Franco


Os Devassos
Direção: Carlos Alberto de Souza Barros
Brasil, 1971.

Por Edu Jancz

Nenhum diálogo de Os Devassos é explicito por citar o clima em que foi concebido.

Realizado em 1971, Os Devassos nasce num Brasil acinzentado pelo AI-5, tendo no comando político o general Emílio Garrastazu Médice.  Muitos brasileiros ainda comemoravam a vitória no México, que deu o tricampeonato mundial ao futebol brasileiro. Nem sempre os gritos de vitória calavam os gemidos dos torturados que tinham seus direitos estuprados nos porões da ditadura.

Os personagens de Os Devassos – quem seriam realmente Os Devassos?  – dão indícios de que o país atravessa um momento de crise.

Francisco di Franco é um professor em fuga – tem que ficar um tempo “fora de alcance”. Os amigos sugerem que ele fale pouco e não revele sua condição, se identificando apenas como “professor do primário”.

Levado para um pequeno hotel, entre Paraty e Angra dos Reis, o professor é recebido pelo dono, Jorjão. Pouco ou nada pergunta do novo hóspede. Pede que sua esposa, Rosenda lhe prepare um quarto. Em poucos minutos, o professor percebe que adentrou no mundo particular de Jorjão, e aqui novas regras de sobrevivência tem que aprender e praticar.

Jorjão é um tipo que mescla o rústico na aparência com o filho de família de posse, mesmo que desleixado e beberão. Amigo de todos no bairro, é o elo que une aquela “sua comunidade”. Rosenda não esconde seu comportamento liberal. No primeiro encontro com o professor deixa a sua camisa solta para que ele veja os seus seios.  Se, a princípio, o professor pensa que esse oferecimento é só por ele ser um homem bonito e bem vestido, logo percebe o engano: Rosenda é assim com toda a comunidade.

Os Devassos vive do constante duelo entre o mundo “livre” de Jorjão – que abandonou os prazeres da civilização para se enclausurar na sua “ilha particular, em contrapartida à prática “racional” de vida do professor, que mantém vivas suas ligações com o resto do país.

Pouco a pouco, o professor é seduzido pelo modo de vida comandado por Jorjão. Aceita experimentar álcool e fica fã de uma caipirinha – ele que nada bebia. Percebe com menos preconceito que Jorjão e Rosenda mantêm um relacionamento sexual livre e nada pecaminoso. Onde as regras – ainda que intuitivamente – são compreendidas pela comunidade. O único a princípio chocado é o professor. Mais chocado ficaria se percebesse que o “Trair” e “pedir perdão” é um dos aditivos que “esquenta” e melhora muito o sexo entre Jorjão e Rosenda!

Com o passar do conviver, o professor vai “amolecendo” a “dureza” dos seus conceitos e assumindo o “mando” dos seus instintos. Quando voltar para o Brasil real, certamente a luta por seus ideais terá um caráter mais humano!

Francisco di Franco dá corpo, voz e gestos ao seu personagem com uma caracterização na medida exata. Ele contrasta com o doce, alegre, violento, beberão, dono da verdade, deprimido, Jorjão – na pele de um Jardel Filho Impecável. E Darlene Glória, como Rosenda, explora sua sensualidade em grau intenso, não deixando dúvidas, em nenhum momento, quais são as suas intenções.

Um Anjo Mau

Especial Francisco di Franco


Um Anjo Mau
Direção: Roberto Santos
Brasil, 1971.

Por Edu Jancz

O homenageado dessa edição, Francisco di Franco, é dono de extensa filmografia a favor do cinema brasileiro.

Francisco di Franco nos deixou em 10 de abril de 2001, e, certamente, plantou muita saudade e admiração pela dezena de trabalhos a quem emprestou sua fina e bela estampa, o seu talento como ator.

Em Os Devassos, ao lado do poderoso Jardel Filho, e nesse Um Anjo Mau, dirigido pelo mestre Roberto Santos, pude perceber o bom ator com cara de galã que foi Francisco di Franco. O rosto bonito e o porte atlético não disfarçam um ator de múltiplas facetas que defende seus personagens com unhas e dentes.

É o que acontece em Um Anjo Mau.

Lucas (Francisco di Franco) é um tropeiro solitário que cruza com Açucena (Adriana Prieto). Ela tem um passado trágico. Foi vendida pela mãe ao comerciante Mario Afonso (Jonas Mello) no início da adolescência.  Virou mulher, loirinha e bonita como um anjo, atraente e sensual – o seu lado mau. Mario Afonso é atraído e possuído. Bem jovem, Açucena descobriu uma forma de sobreviver naquele mundo predominantemente masculino.

Expulsa pela ciumenta irmã do comerciante, Açucena encontra em seu caminho o tropeiro Lucas.  Cruzam as vidas, tem um filho, até que o destino volte a impor novas regras. Numa viagem de Lucas, o capataz da fazenda em que ele mora invade sua casa e tenta violentá-la.

Ao saber da violência praticada contra Açucena, Lucas, de arma em punho, vai em busca de vingança. Aleija o capataz, que nunca mais poderá tocar e ter prazer com uma mulher.

Em represália, o dono da fazenda (Sérgio Hingst) manda matar Lucas. Uma bala perdida mata o filho dele e de Açucena. Ela é expulsa do local e dá início à nova jornada, sempre tendo em mente vingar Lucas.

Vivendo de fugas e percebendo o momento certo para se prostituir, Açucena sobrevive. Em seu caminho encontra Martinho (Flávio Porto), um homem que vive para lutar. Ele será o mentor de sua vingança.

Além da boa presença de Francisco di Franco no elenco, destaque para a interpretação marcante de Adriana Prieto.  Argentina de nascimento (naturalizada brasileira aos 21 anos), Adriana nos deixou com apenas 24 anos e legou belíssima filmografia. Na pele de Açucena, ela mostra toda a força de uma personagem que ousou descobrir o sobreviver – num universo árido, violento, masculino e onde a mulher tem pouca ou apenas uma serventia.

O trabalho do veterano cineasta Roberto Santos é preciso e econômico como o drama que ele narra. A direção de atores é função que cultiva com esmero. E sua câmera – o olho que vê/conta a cena para nós – na mão do brilhante Hélio Silva – registra o ambiente, a trama e seus artífices com carinho e precisão, visto que a vida tem que viver.

Termino, citando comentário do grande crítico Ely Azeredo: “Roberto Santos admite que seu Um Anjo Mau não escapa da influência de Matraga. Este, até certo ponto, é seu lado fértil: uma consciência trágica dos caminhos do instinto e rebeldia (…)”

Jeca Tatu

Especial Francisco di Franco


Jeca Tatu
Direção: Milton Amaral
Brasil, 1959.

Por Filipe Chamy

Apesar de ser oficialmente “uma homenagem ao saudoso Monteiro Lobato”, fica bastante claro que Jeca Tatu não se presta a ser uma adaptação; trata-se antes de um veículo para a imensa popularidade e apelo de Amácio Mazzaropi, fazendo mais uma vez o caipira humilde, sarcástico, honesto e muito, muito mal humorado.

Não que isso seja ruim — o homem era mesmo muito engraçado, e é ainda um prazer conferir essas pequenas pérolas da cinematografia humorística brasileira. É impressionante a vitalidade que um filme tão nitidamente datado (no sentido não pejorativo de ser próprio de uma época específica, que hoje só se encontra mesmo em relatos do passado). A despeito de certos rudimentos da arte técnica, Jeca Tatu poderia muito bem servir aos propósitos de comentários sociais atuais: no fundo, a coisa não mudou muito radicalmente nos dias de hoje.

Lobato advertia que “Jeca não é assim; está assim”, e portanto parece sintomático que o personagem-título deste filme apareça ao público, em sua primeira cena, demonstrando como ele está… dormindo! É uma composição segura e que garantirá risos a todo aquele que perceber o contraste entre o preguiçoso refestelado na cama e o clima modesto (mas válido) de drama popular sério, denunciador de mazelas sociais, populismo e outras chagas de nossas comunidades.

Na verdade, tem-se um subliminar confronto entre a brasilidade (Mazzaropi) e a exploração europeia, nas figuras do dono de botequim (lusitano e explorador) e do italiano (o vizinho odiado, originando quase uma versão matuta de Romeu e Julieta). Trata-se do embate entre colonizador e colono, colônia e reino conquistador. Hoje isso pode soar anacrônico, mas é preciso reconhecer que, em seus filmes, Mazzaropi revela um pedaço do nosso povo em uma determinada ocasião. E é justo que briguemos com quem detém um pouco da nossa identidade.

A juventude do filme é representada pelo nosso homenageado Francisco di Franco, em sua estreia no cinema, ainda com outro nome artístico. Di Franco representa o “esqueleto” de trama que era meio obrigatório entregar junto aos filmes de comédia centrados em um ou mais personagens fora do “tom” habitual das pessoas; e se Irving Thalberg colocou os geniais irmãos Marx ajudando casaizinhos sem graça a conquistarem seu espaço nos filmes, aqui Jeca Tatu está às voltas com os pretendentes da filha mais velha, ao mesmo tempo que lida com velhas rixas de família. Além disso, o filme apresenta certos números musicais (com gente como Aguinaldo Rayol, Celly Campelo e o próprio Mazzaropi), provavelmente para aguçar o público e conseguir mais divulgação no boca-a-boca. Uma estratégia de divulgação algo agressiva, quiçá, mas que hoje nos soa uma simpática e charmosa ingenuidade. Como de resto talvez o próprio retrato deste Jeca Tatu.

Cordélia, Cordélia

Especial Francisco di Franco


Cordélia, Cordélia
Direção: Rodolfo Nanni
Brasil, 1971.

Por Sérgio Andrade

O primeiro plano é inusitado: um relógio dentro de uma gaiola. A câmera se movimenta até enquadrar o casal na cama. Ficamos conhecendo Cordélia (Lilian Lemmertz, maravilhosa como sempre) no auge de uma crise conjugal.

Ex-modelo fotográfica, abandonou a profissão para casar, embora pose ocasionalmente para Otto (o artista plástico Wesley Duke Lee). Agora ela trabalha como secretária de uma empresa do setor de transportes.

O problema é que o marido não quer ouvir falar em trabalhar. Com a maior cara de pau ele afirma que sempre foi um aposentado nato, o trabalho e ele não foram feitos um para o outro, para desespero de Cordélia. Acompanhamos então a troca de acusações entre os dois, as ofensas mútuas, os insultos, as trocas de farpas. Ao mesmo tempo vemos suas fantasias, sonhos e lembranças de infância (quando é interpretada por Julia Lemmertz).

Mas ainda resta um pouco de carinho, como fica explicitado nos acordes da música de Rogério Duprat.

O marido, Leônidas, guarda um segredo: faz parte de um grupo de esquerda clandestino, e numa cena vemos eles prepararem uma ação. Já Cordélia vai levando sua vidinha do jeito que dá: presta pequenos favores sexuais, bem remunerados, aos clientes mais poderosos da empresa ou flerta com o patrão (Pedro Paulo Hathayer) durante uma visita à capitania dos portos, tudo sem demonstrar muito entusiasmo. Ao arrumar um amante, um vendedor de carros, alimenta por um momento a ilusão de que poderá iniciar uma nova vida, ilusão logo desfeita pela reação do moço à simples menção de morarem juntos. O que mais ela queria mesmo era poder se matar.

A peça de Antonio Bivar, Cordélia Brasil, foi bastante modificada pelo diretor Rodolfo Nanni em sua transposição para o cinema. Na interpretação da grande Lilian, Cordélia é uma dessas pessoas que desejam mais da vida, mas percebem que serão sempre insatisfeitas, à medida que a idade avança. Não por acaso abundam as referências ao tempo (o relógio na gaiola, a ampulheta que ela compra num antiquário, as lembranças da infância, a própria bomba relógio que Leônidas constrói no final). O tema de Cordélia, Cordélia é mesmo o tempo, a inexorável passagem do tempo que leva embora sonhos de felicidade e prosperidade.

Francisco di Franco, nosso homenageado, dá o contraponto exato para Lilian, revelando uma excelente química entre os dois. Como o folgado Leônidas, que passa a maior parte do tempo deitado na cama, fica pelado naturalmente diante da empregada doméstica ou lê a Bíblia para a esposa após ouvir o sermão de uma pregadora (Celia Helena), ele demonstra que era muito mais do que apenas um rosto bonito num corpo sarado. Foi realmente um ótimo ator. Não se fazem mais galãs como ele.

As Cariocas

Especial Francisco Di Franco


As Cariocas
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1966.

Por Ailton Monteiro

Dos três segmentos de As Cariocas, o de Walter Hugo Khouri é o que menos parece se importar com uma narrativa convencional. Seu curta tem um brilho diferente e lembra os trabalhos que fizeram a fama de Michelangelo Antonioni, como A Noite, por exemplo. Isso porque o cineasta preferiu adotar um andamento mais lento e um final que tem algo de sereno, sem cara de final até, mas por isso mesmo poético, bonito, distinto da comicidade dos episódios de Fernando de Barros e Roberto Santos. Quem quiser conferir uma versão com humor dessa história de Sérgio Porto pode conferir “A Noiva do Catete”, dirigida por Daniel Filho para a série As Cariocas (2010), da Rede Globo.

Na versão de Khouri, a protagonista, vivida pela bela Jacqueline Myrna, vai se mostrando aos poucos para o espectador. Primeiro a vemos abrir os olhos, acordando para um novo dia, preparando o café e o banho, para então receber um homem.  Depois, vemos que ela tem mais dois homens em sua vida. E que é noiva de um deles, que está doente. E de quem trata com todo o carinho. O interessante é que é difícil julgar a personagem, de tão amorosa que é. Khouri nem mesmo a vê como uma mulher interesseira, que quer se aproveitar do homem mais velho, que a sustenta. Na rua, durante o dia, ela parece flanar, lânguida e bela, mas também carregada de uma melancolia já característica dos filmes de Khouri, o que a torna ainda mais interessante.

Francisco Di Franco aparece no segmento em pequeno papel e ainda utilizando o nome Francisco de Souza.

Cio – Uma Verdadeira História de Amor

Especial Francisco di Franco


Cio, Uma Verdadeira História de Amor
Direção: Fauzi Mansur
Brasil, 1971.

Por Sérgio Andrade

A primeira vez que Paulo viu Darci foi num posto de gasolina na estrada, onde ele parou para abastecer. Ao tirar fotos de migrantes nordestinos num caminhão, ele percebe a figura daquele garoto de ar triste, mas determinado.

Paulo é um homem bem sucedido, projetista de automóveis, noivo de uma moça milionária e amante de uma bela mulher.

Darci, um garoto dos seus 14 anos, saiu de uma pequena fazenda do interior da Paraíba onde os pais trabalhavam na extração do sisal. Após a desestruturação da família (o irmão mais novo morreu, a mãe foi expulsa de casa por adultério e o pai faleceu devido às péssimas condições de trabalho e um ferimento não curado na perna), ele se mudou para São Paulo para trabalhar como engraxate. Extremamente tímido, tem vergonha de se trocar na frente dos outros e recusa aproximações sexuais de mulheres e de gays.

O destino volta a reuni-los quando Darci, após ser expulso da Praça da Sé, vai engraxar sapatos na empresa automobilística em que Paulo trabalha. O que começou como amizade vai se encaminhando para outra coisa, na medida em que Paulo passa a ter cada vez mais necessidade da presença de Darci, a ponto de se tornar seu tutor, dar-lhe um emprego na empresa e levá-lo para morar em seu apartamento. O jovem lhe desperta um sentimento que até então ele desconhecia. Logo começam os comentários dos amigos, da noiva, da amante. O filme trata de duplo preconceito: do homossexualismo e da pedofilia.

Fauzi Mansur, vindo de veículos para o humor de Ankito, Mario Alimari, Dedé Santana e Renato Aragão, surpreendeu meio mundo ao apresentar este seu primeiro drama adulto. Um filme com essa temática conseguiria ser realizado hoje? Dificilmente.

A bela música de Dick D’Anello tornou-se clássica. A fotografia é do grande Cláudio Portioli com assistência de Antonio Meliande e a montagem orgânica, utilizando o flashback de modo bem criativo, é do próprio Fauzi, assim como o roteiro, com argumento de Luiz Castelini e Salatiel Coelho.

Francisco di Franco transmite toda a angústia e fragilidade de Paulo, um machão pego de surpresa na armadilha do desejo, vivendo uma paixão obsessiva por um garoto, assumindo essa condição e enfrentando os preconceitos.

A grande revelação (?) – como falar de revelação em um filme feito há quarenta anos? – é a atriz Vera Lúcia, que não sei se tinha feito alguma coisa antes ou fez algo depois, mas aqui teve uma atuação antológica, digna de figurar em qualquer lista das maiores interpretações femininas de nosso cinema.

A única coisa a lamentar é o final abrupto, insatisfatório, passando a sensação de piada velha, sexista e não das mais engraçadas.

Noiva da Noite – Desejo de 7 Homens

Especial Francisco di Franco


Noiva da Noite – Desejo de 7 Homens
Direção: Lenita Perroy
Brasil, 1974.

Por Adilson Marcelino

Em Noiva da Noite – Desejo de 7 Homens, Francisco di Franco é um homem em busca de vingança. Tudo porque quando descobriu diamantes em uma cidade, a cobiça de um coronel (Joffre Soares) causou a sua prisão e, pior ainda, a morte de seu irmão. Quando consegue liberdade condicional da pena de 12 anos, ele retorna ao vilarejo justamente no dia do casamento da filha de seu inimigo, a bela Rossana Ghessa. Ele a sequestra, e a partir daí é perseguido pelo noivo e pelos mesmos capangas do crime do passado.

Noiva da Noite tem direção de Lenita Perroy, uma das pioneiras do cinema brasileiro a dirigir um longa-metragem – anteriormente, em 1973, dirigiu Mestiça – A Escrava Indomável, com Sônia Braga. A produção, montagem e co-roteiro é de Sylvio Renoldi, o argumento e co-roteiro de Oswaldo Oliveira, e a direção, cenário, figurinos e co-roteiro são também assinados pela diretora.

A cineasta conduz com mão forte seu enredo, marcado pela ambiência rude e hostil, as bebedeiras, as brigas e as mortes que pontuam a trama de ponta a ponta, sem abrir mão de momentos mais sutis, como a forma como filma nudez discreta de Rossana Ghessa, os sonhos telúricos de amor entre ela e Di Franco, a concepção cênica do final do casal, e mesmo na estruturação da personagem da protagonista feminina. Mas sobretudo, Noiva da Noite é faroeste de ação e aventura que prende atenção e demonstra segurança da diretora.

Como o protagonista, Francisco di Franco encarna um típico papel para sua persona, aliando a beleza viril a momentos de ternura, registrando aqui todo o seu talento.

O Filho Adotivo

Especial Francisco Di Franco


O Filho Adotivo
Direção: Deni Cavalcanti
Brasil, 1984.

Por Adilson Marcelino

Muitos astros da música sertaneja também foram parar nas telas do cinema brasileiro: Tonico e Tinoco, Milionário e Zé Rico, Nhá Barbina e Almir Rogério são alguns exemplos. E não poderia faltar mesmo um de grande apelo popular como o cantor, compositor e ator Sérgio Reis.  Grande sucesso na primeira versão de O Menino da Porteira (1977), de Jeremias Moreira Filho, ele protagonizou mais dois filmes nos anos 1970 e 80: Mágoa de Boiadeiro (1978), também de Jeremias Moreira Filho, e esse O Filho Adotivo, de Deni Cavalcanti.

Em O Filho Adotivo ele volta a encarnar Diogo, peão que percorre o país com suas comitivas e sempre com o violão ao lado. Na trama, um jovem peão de rodeio de nome Dioguinho compra as terras vizinhas do Coronel Jatobá, e deixa o velho indignado, pois queria adquirir a fazenda. Para completar, desperta a paixão na filha do manda-chuva, a bela Marina (Tássia Camargo). E é com a ajuda de Sérgio Reis, o Diogão, que Dioguinho enfrentará a ira do coronel.

Ao contrário dos outros filmes, O Filho Adotivo foi fracasso comercial em seu lançamento. Talvez pela forma frouxa como Deni Cavalcanti regeu atrama, por si só, bastante frágil e com conflitos e resoluções simplificados. Mas há um certo charme na ingenuidade com que aquele universo nos é apresentado.

Sérgio Reis não só protagonizou o filme como também co-produziu junto com Deni Cavalcanti, e canta um de seus maiores sucesso: a maliciosa Panela Velha – acompanhado de Caçulinha. Destaques para a presença do cantor, compositor e humorista Zé Coqueiro, fiel escudeiro de Sérgio Reis no filme, uma aparição surpreendente da atriz Norma Bengell como uma mulher à beira da morte que selará o destino dos inimigos, e os atores Francisco Di Solange Teodoro. O argumento e roteiro são assinados pelo novelista Benedito Ruy Barbosa.

O Lamparina

Especial Francisco Di Franco


O Lamparina
Direção: Glauco Mirko Laurelli
Brasil, 1964.

Por Adilson Marcelino

O cinema brasileiro, em sua história, sempre promoveu encontros memoráveis: Os Trapalhões e J.B. Tanko; Walter Hugo Khouri e Rogério Duprat; David Cardoso e Jean Garrett; Carlos Reichenbach e Ênio Gonçalves; Rogério Sganzerla e Helena Ignez. São vários exemplos, mas nessa lista jamais poderia faltar o encontro dos talentos de Amácio Mazzaropi e Glauco Mirko Laurelli, que rendeu quatro filmes com o primeiro dirigindo e o segundo produzindo e protagonizando, e mais a montagem de mais cinco filmes do astro com outros diretores.

O Lamparina é um dos memoráveis frutos dessa parceria. Fotografado por Rudolph Iczey, tem história interessante e engraçada, ótimo elenco e direção. No filme, Mazzaropi e Geny Prado e mais os três filhos e um agregado estão à procura de emprego. Enganados e roubados por um falsário, eles acabam se envolvendo com cangaceiros ao vestirem, ingenuamente, as roupas deles e serem confundidos por todos como integrantes do temível bando. Tudo se complica mais ainda quando Mazzaropi resolve fingir que é cangaceiro de verdade, para depois entregar os cangaceiros reais para a volante.

Neste O Lamparina, Mazzaropi está inspirado em cena: canta, dança, ri, chora e tem diálogos engraçados, contando, mais uma vez, com a parceira perfeita em talento e estilo, Geny Prado. Como nas paródias das chanchadas aos filmes de Hollywood, aqui temos uma deliciosa visita escrachada ao gênero do cangaço. O Lamparina foi o primeiro filme rodado na sua fazenda em Taubaté e onde ele construiria seu estúdio, geografia de um dos mais iluminados capítulos do cinema popular brasileiro.

No elenco, que tem ainda Emiliano Queiróz e Zilda Cardoso, nosso homenageado Francisco Di Franco marca presença mais uma vez, nesta que é a quarta parceria com o cinema de Mazzaropi, que vai marcar suas primeiras experiências no cinema. Os outros filmes, ainda assinando como Francisco de Souza, são As Aventuras de Pedro Malazartes (1960), de Mazzaropi, Tristeza do Jeca (1961), de Mazzaropi, e O Vendedor de Linguiças (1962), de Glauco Mirko Laurelli.