Os Devassos

Especial Francisco di Franco


Os Devassos
Direção: Carlos Alberto de Souza Barros
Brasil, 1971.

Por Edu Jancz

Nenhum diálogo de Os Devassos é explicito por citar o clima em que foi concebido.

Realizado em 1971, Os Devassos nasce num Brasil acinzentado pelo AI-5, tendo no comando político o general Emílio Garrastazu Médice.  Muitos brasileiros ainda comemoravam a vitória no México, que deu o tricampeonato mundial ao futebol brasileiro. Nem sempre os gritos de vitória calavam os gemidos dos torturados que tinham seus direitos estuprados nos porões da ditadura.

Os personagens de Os Devassos – quem seriam realmente Os Devassos?  – dão indícios de que o país atravessa um momento de crise.

Francisco di Franco é um professor em fuga – tem que ficar um tempo “fora de alcance”. Os amigos sugerem que ele fale pouco e não revele sua condição, se identificando apenas como “professor do primário”.

Levado para um pequeno hotel, entre Paraty e Angra dos Reis, o professor é recebido pelo dono, Jorjão. Pouco ou nada pergunta do novo hóspede. Pede que sua esposa, Rosenda lhe prepare um quarto. Em poucos minutos, o professor percebe que adentrou no mundo particular de Jorjão, e aqui novas regras de sobrevivência tem que aprender e praticar.

Jorjão é um tipo que mescla o rústico na aparência com o filho de família de posse, mesmo que desleixado e beberão. Amigo de todos no bairro, é o elo que une aquela “sua comunidade”. Rosenda não esconde seu comportamento liberal. No primeiro encontro com o professor deixa a sua camisa solta para que ele veja os seus seios.  Se, a princípio, o professor pensa que esse oferecimento é só por ele ser um homem bonito e bem vestido, logo percebe o engano: Rosenda é assim com toda a comunidade.

Os Devassos vive do constante duelo entre o mundo “livre” de Jorjão – que abandonou os prazeres da civilização para se enclausurar na sua “ilha particular, em contrapartida à prática “racional” de vida do professor, que mantém vivas suas ligações com o resto do país.

Pouco a pouco, o professor é seduzido pelo modo de vida comandado por Jorjão. Aceita experimentar álcool e fica fã de uma caipirinha – ele que nada bebia. Percebe com menos preconceito que Jorjão e Rosenda mantêm um relacionamento sexual livre e nada pecaminoso. Onde as regras – ainda que intuitivamente – são compreendidas pela comunidade. O único a princípio chocado é o professor. Mais chocado ficaria se percebesse que o “Trair” e “pedir perdão” é um dos aditivos que “esquenta” e melhora muito o sexo entre Jorjão e Rosenda!

Com o passar do conviver, o professor vai “amolecendo” a “dureza” dos seus conceitos e assumindo o “mando” dos seus instintos. Quando voltar para o Brasil real, certamente a luta por seus ideais terá um caráter mais humano!

Francisco di Franco dá corpo, voz e gestos ao seu personagem com uma caracterização na medida exata. Ele contrasta com o doce, alegre, violento, beberão, dono da verdade, deprimido, Jorjão – na pele de um Jardel Filho Impecável. E Darlene Glória, como Rosenda, explora sua sensualidade em grau intenso, não deixando dúvidas, em nenhum momento, quais são as suas intenções.

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