Jeca Tatu

Especial Francisco di Franco


Jeca Tatu
Direção: Milton Amaral
Brasil, 1959.

Por Filipe Chamy

Apesar de ser oficialmente “uma homenagem ao saudoso Monteiro Lobato”, fica bastante claro que Jeca Tatu não se presta a ser uma adaptação; trata-se antes de um veículo para a imensa popularidade e apelo de Amácio Mazzaropi, fazendo mais uma vez o caipira humilde, sarcástico, honesto e muito, muito mal humorado.

Não que isso seja ruim — o homem era mesmo muito engraçado, e é ainda um prazer conferir essas pequenas pérolas da cinematografia humorística brasileira. É impressionante a vitalidade que um filme tão nitidamente datado (no sentido não pejorativo de ser próprio de uma época específica, que hoje só se encontra mesmo em relatos do passado). A despeito de certos rudimentos da arte técnica, Jeca Tatu poderia muito bem servir aos propósitos de comentários sociais atuais: no fundo, a coisa não mudou muito radicalmente nos dias de hoje.

Lobato advertia que “Jeca não é assim; está assim”, e portanto parece sintomático que o personagem-título deste filme apareça ao público, em sua primeira cena, demonstrando como ele está… dormindo! É uma composição segura e que garantirá risos a todo aquele que perceber o contraste entre o preguiçoso refestelado na cama e o clima modesto (mas válido) de drama popular sério, denunciador de mazelas sociais, populismo e outras chagas de nossas comunidades.

Na verdade, tem-se um subliminar confronto entre a brasilidade (Mazzaropi) e a exploração europeia, nas figuras do dono de botequim (lusitano e explorador) e do italiano (o vizinho odiado, originando quase uma versão matuta de Romeu e Julieta). Trata-se do embate entre colonizador e colono, colônia e reino conquistador. Hoje isso pode soar anacrônico, mas é preciso reconhecer que, em seus filmes, Mazzaropi revela um pedaço do nosso povo em uma determinada ocasião. E é justo que briguemos com quem detém um pouco da nossa identidade.

A juventude do filme é representada pelo nosso homenageado Francisco di Franco, em sua estreia no cinema, ainda com outro nome artístico. Di Franco representa o “esqueleto” de trama que era meio obrigatório entregar junto aos filmes de comédia centrados em um ou mais personagens fora do “tom” habitual das pessoas; e se Irving Thalberg colocou os geniais irmãos Marx ajudando casaizinhos sem graça a conquistarem seu espaço nos filmes, aqui Jeca Tatu está às voltas com os pretendentes da filha mais velha, ao mesmo tempo que lida com velhas rixas de família. Além disso, o filme apresenta certos números musicais (com gente como Aguinaldo Rayol, Celly Campelo e o próprio Mazzaropi), provavelmente para aguçar o público e conseguir mais divulgação no boca-a-boca. Uma estratégia de divulgação algo agressiva, quiçá, mas que hoje nos soa uma simpática e charmosa ingenuidade. Como de resto talvez o próprio retrato deste Jeca Tatu.

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