Entrevista: Ewerton de Castro – Parte 3

Dossiê Ewerton de Castro
Parte 3: Anos 80 – cinema cada vez menos

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Por Gabriel Carneiro
Fotos: Adriana Câmara e Pedro Ribaneto

Zingu! – Nos anos 80, teve a explosão do cinema de sexo explícito no Brasil inteiro e o seu número de papéis no cinema diminuiu, quase se extinguiu. Como foi para você? Você encarou bem? 

EC – Dei adeus à coisa justamente em Os Rapazes da Difícil Vida Fácil, em que havia dito que não faria mais cena nenhuma e no final tive de fazer, o que me deixou bem chateado. Fiz mesmo porque o cara falou: “Pelo amor de Deus, pelas minhas filhas”. Daí fiz. Mas é chato, né? Porque já tinha me programado para isso. Já tinha dito: “Não, não e acabou”. Mas é que sempre a gente pensa que o cara vai ficar mal. Enfim. Mas a partir daí não fiz mais nenhuma pornochanchada.

Z – Foi prejudicial para você em termos de trabalho?

EC – É. Faz-se menos cinema, mas pelo menos não se cai nessas armadilhas, o que é bom.

DSC046341-225x300Z – Nos anos 80, vocês fez alguns filmes, sendo os de maior repercussão Patriamada, da Tizuka Yamazaki, que tem toda uma questão política, das Diretas Já, e o Kuarup, uma megaprodução do Ruy Guerra, que você fala que teve muitos problemas na filmagem. Você pode falar um pouco dessas duas produções?

EC – Me queixo muito no Patriamada de não ter tido um aprofundamento de pesquisa em relação aos personagens. Foi tudo muito sem ensaio. Tá ok, tá bom, a gente está acostumado com isso. Mas tratava-se de um filme político, que falava de coisas importantes. Ninguém nunca sentou para dizer: “Olha, estou querendo isso, eu estou querendo aquilo”. Essa é uma coisa de que me queixo muito no cinema nacional: a improvisação. Nesse filme me senti muito perdido.

Z – Isso porque a Tizuka não te dava direcionamento ou era algo que já vinha do roteiro?

EC – A Tizuka não dava direcionamento nenhum. A gente foi rodando. É claro que para Débora [Bloch], pro Walmor [Chagas], deve ter havido um direcionamento. Fazia o filho do Walmor. Acho que foi tudo muito jogado. Quanto ao Kuarup, ficamos uma semana fazendo laboratórios no Xingu por conta de uma grua alemã que não chegava. Aproveitamos o tempo para discutir o roteiro inteiro, chegamos a conclusões fantásticas, foi realmente muito proveitoso. Quando começou a filmagem, o Ruy esqueceu essa semana, como se não tivesse havido. Só que, na discussão, os atores chegaram a conclusões também e, na hora de filmar, essa conclusão não era levada em conta. Estranhei muito também o fato de o Ruy ser mais de estética do que de conteúdo. Ele montava os planos-seqüências esteticamente: o que seria bonito em termos de movimentação dos atores, etc., e depois ele ia ver o que os atores tinham para falar, o que a cena tinha em termos de conteúdo. Acho isso um erro fundamental. Porque você tem que sempre partir do conteúdo, não da estética. Ele começou um filme com mais de 3 horas. Quando estávamos no meio da filmagem, chegou a ele a ordem de que queriam o filme com no máximo 2h30. Mas tirar de onde, se era tudo plano sequência? E mais: chegou lá a Cláudia Raia e ele enlouqueceu, com razão. A Cláudia é maravilhosa. Colocou a Cláudia nua naquele rio e enlouqueceu. Filmou ela de todos os ângulos, até do ponto de vista do peixe. Foram muito problemas, a partir da concepção. Imagina, se meu filmezinho já estava todo planejado, o dele já deveria estar milimetricamente planejado, mas as coisas foram tirando ele do caminho.

Z – Você fez mais alguns poucos filmes depois, com mais destaque para O Príncipe, do Ugo Giorgetti.

EC – Adorei trabalhar com o Ugo, super tranqüilo. O mundo estava caindo e ele estava zen. Passa uma paz, uma segurança, muito bom trabalhar comDSC04618-225x300 ele. Infelizmente, meu grande momento do filme não foi possível de fazer. Eu descia, falando, de uma escada, e a câmera me acompanhava. Mas teve que dividir a cena em vários planos. O personagem é uma crápula. Maravilhoso. O esquema de produção era o mesmo do passado, mas o Ugo tem uma presença incrível e se impõe no set. O roteiro de O Príncipe é fantástico: o olhar estrangeiro sobre nossa cidade hoje. Esse espanto é impressionante. Lendo o roteiro já sei como é a personagem. Ele não precisou dizer muito mais. É claro que conversamos, mas mais para saber se estávamos afinados.

Z – Em 2003, além de O Príncipe, você fez Maria, a Mãe do filho de Deus.

EC – Que é outro esquema. Parece televisão, é gozado (risos). Planos-sequências, vídeo, cenário. Mas gostei, achei bem feito. A fotografia é linda, e é vídeo. A celulóide está com seus dias contados.

Z – Você tem algum outro projeto pra cinema? Tem vontade de fazer mais coisas na área?

EC – Não, por enquanto. Mas, sabe, estou quase pendurando as chuteiras. Tô meio desgostoso, meio desesperançado. Essa coisa de ficar sem trabalhar… sou contratado da Record, mas não é sempre que atuo. Teatro está cada vez mais difícil de fazer. As pessoas fazem uma peça pra poder jantar no fim do espetáculo, é triste. Teatro sem grande produção está fadado a público reduzidíssimo. Estou tentando construir um futuro na Flórida, onde minha filha e netas moram. Vamos ver.

Parte 2 / Início

Maria 38

Especial John Herbert

Maria 38
Direção: Watson Macedo
Brasil, 1959.

Por Adilson Marcelino

 

Nome de ouro das chanchadas da Atlântida, Watson Macedo é sinônimo também de alta estirpe na história do cinema brasileiro. Seja nas comédias que dirigiu para o estúdio carioca ou em suas produções independentes, seu nome na ficha técnica sempre foi garantia de grande cinema.

Em Maria 38 ele coloca no centro da cena mais uma vez sua estrela predileta, Eliana Macedo – sua sobrinha revelada nas telas por ele e que se tornaria uma das maiores atrizes do cinema nacional.

Só que aqui sua personagem é bem diferente das mocinhas da Atlântida, pois sua Maria 38 é uma vigarista que apronta todas na Lapa e leva a alcunha porque reza a lenda de que anda com um trezoitão escondido no vestido.

A presença de Maria 38 é sempre sinal de confusão. Só que ela tem ao seu lado seu amigo de infância, o eternamente apaixonado John Herbert, agora o guarda do pedaço.

Tudo o que ele mais quer é que Maria se endireita para que eles possam se casar, já que ainda acredita no bom coração da moça. E quando ela aceita um emprego como babá, ele pensa que finalmente ela mudou, mas mal sabe ele que os planos da moça são outros.

Maria 38 troca as boates da Atlântida por uma agitada gafieira, com direito a número inesquecível de Moreira da Silva interpretando Na Subida do Morro com sua verve inconfundível. E no elenco conta com os talentos de Zilka Salaberry, Afonso Stuart e Augusto César Vanucci.

Destacam-se a belíssima fotografia de Amleto Daissé e a química perfeita entre Eliana e John Herbert, casal que já dera liga em outro ótimo filme de Macedo, Alegria de Viver (1958).

As Armas

Dossiê Ewerton de Castro

 

As Armas
Direção: Astolfo Araujo
Brasil, 1969.

Por Adilson Marcelino

 

As Armas é produção corajosa, pois levada a cabo em plena ditadura militar e tendo como foco um grupo revolucionário.

No filme, o grande Mário Benvenutti integra o tal grupo como chofer do líder, o  Professor (Cavagnole Neto). Ainda que desempenhe função importante, levando os integrantes para lá e para cá e transportando documentos sigilosos e perigosos, sente-se pouco aproveitado, já que não participa das grandes decisões e é tratado com um simples empregado.

“já tenho 35 anos”, reclama ao Professor, e indaga quando seu papel naquilo tudo vai melhorar, já que está preocupado com o futuro, pois nem tem casa para morar. Na verdade, ele está mais interessado em concretizar seus desejos burgueses do que em qualquer luta por mudanças políticas no país.

E são esses desejos individuais que vão entrar em choque com as ideias do coletivo – cujos desejos também são ambíguos –  resultando em caminhos inesperados para todos.

Produzido pela dupla de ouro da Boca, Alfredo Palácios e Antonio Polo Galante, com participação da Data filmes de  Astolfo Araujo e Rubem Biáfora, As Armas é o longa de estreia de Araujo.

Já aqui, Astolfo Araujo imprime a assinatura particularíssima que seria identificada sobretudo no seu terceiro e último longa, Fora das Grades (1971), com seus viés altamente político.

Com argumento assinado pelo cineasta e por Rubem Biáfora – o roteiro é totalmente do diretor – o personagem de Mário Benvenutti remete um pouco ao protagonista interpretado por Sergio Hingst no belo O Quarto (1967), dirigido por Biáfora.

Com direção elegante e sem firulas e marcado por estrutura seca, econômica e sem psicologismos, As Armas se vale também do ótimo elenco muito bem dirigido: Benvenutti, Irene Stefânia, Pedro Stepanenko, Francisco Cúrcio, Cavagnole Neto.

Ewerton de Castro, em um de seus primeiros filmes, faz pequena mas marcante participação como filho de um dono de uma oficina/ferro velho que fora preso pela repressão. É um papelico, mas o ator já demonstra ali a que veio.

Com bela fotografia p&b de Waldemar Lima, As Armas valeu a Menção Honrosa para o cineasta Astolfo Araújo no Prêmio Governador do Estado de São Paulo 1969.

A Noite das Fêmeas – Ensaio Geral

Dossiê Ewerton de Castro

A Noite das Fêmeas – Ensaio Geral
Direção: Fauzi Mansur
Brasil, 1976.

Por Adilson Marcelino

Fauzi Mansur é um nome controverso. Alguns falam mal, outros falam bem. Mas no terreno de grande talento da Boca Lixo povoado por Ozualdo Candeias, José Mojica Marins, Carlos Reichenbach, Jean Garrett, Cláudio Cunha e Ody Fraga, haverá sempre um lugar para Fauzi Mansur.

Com carreira extensa – ainda há pouco dirigiu mais um longa, Casamento Brasileiro -, Fauzi Mansur é cineasta de estirpe. E se tivesse dirigido apenas A Noite do Desejo (1973) – o que não foi o caso -, já teria seu nome garantido na história da Boca.

A Noite das Fêmeas – Ensaio Geral é filme corajoso, pois aposta na inventividade e não faz muitas concessões para o público médio. É claro que estão lá as belas mulheres. E que mulheres! – Marlene França, Kate Hansen, Nádia Lippi, Maria Isabel de Lizandra, Elizabeth Hartmann. Mas o jogo lançado em cena não fica restrito apenas à belas moças e peitinhos e pernocas de fora. Muito pelo contrário.

Com argumento e roteiro de Mansur e Marcos Rey, baseado na peça Ensaio Geral, de Rey, o filme faz intrincado tabuleiro em que as peças se embaralham misturando teatro, cinema, realidade e ficção.

O ponto de partida é o tal ensaio geral de uma peça prestes a estrear e que é acompanhado pelo diretor, autor, críticos, censor, parentes e amigos do elenco. Em cena, quatro prostitutas assassinam seu gigolô à facadas e depois se regalam com vinho para comemorar o feito. O que não sabiam é que a garrafa estava cheia de arsênico diluído na bebida, e com isso cada uma sucumbe após a primeira golada. E, mais que isso, o que a plateia não sabe é que realmente havia veneno na garrafa e que elas realmente se estatelaram no chão de verdade.

Começa aí um labirinto entre cenas da peça, dos bastidores e dos dois juntos, para confusão total do atrapalhado detetive que viera investigar quem cometeu o crime.

Noite das Fêmeas – Ensaio Geral enche a tela com a direção elegante de Mansur, a câmera sinuosa e os belos enquadramentos de Cláudio Portioli. Infelizmente, os diálogos não são tão inspirados – ainda que o próprio Marcos Rey, um bam bam bam, esteja presente no roteiro. A necessidade de tirar graça subterrânea de algumas situações ou mesmo um certo nonsense delas não acompanha a bela estética do filme. Inácio Araújo, que assina a montagem de cena – Eder Mazini está nos ruídos – contou no dossiê da Zingu! de abril deste ano  que abandonou o trabalho por não aguentar a aporrinhação do diretor na mesa de montagem.

Noite das Fêmeas – Ensaio Geral já começa sedutor, com a tal cena do assassinato, quando apresenta suas beldades em vestidos coloridos e clima noturno de cabaré. Pena que essa sedução fique atravancada pelo caminho.

O elenco é estelar, prova do prestígio de Mansur: além das atrizes citadas ainda tem Antônio Fagundes, Hélio Souto, Sérgio Hingst, Dionísio Azevedo, Roberto Bolant, Francisco Cúrcio, Flora Geny, Cavagnole Neto, Walter Portela.

Ewerton de Castro marca presença como o irmão perturbado de Kate Hansen, um homem obcecado com o pedigree dos seus cães e com olhares nada inocentes para a voluptosa irmã.

Cada um dá o que tem – Episódio Uma Grande Vocação

Dossiê Ewerton de Castro


Cada um dá o que tem – episódio Uma Grande Vocação
Direção: Silvio de Abreu
Brasil, 1975.

Por Adilson Marcelino

Cada um dá o que tem é filme em três episódios dirigidos por Adriano Stuart – O Despejo, John Herbert – Cartão de Crédito, e Silvio de Abreu – Uma Grande Vocação.

Com resultado desigual, característica comum desse formato, pois quase sempre os diferentes episódios se diferenciam em termos de qualidade entre um e outro, coube a Silvio de Abreu assinar o melhor deles – não à toa seu seguimento encerra o filme.

Em Uma Grande Vocação está nítida toda a verve que o cineasta desenvolveria em sua curta, mas expressiva carreira cinematográfica. Estão lá o humor físico e um tanto pastelão, a constante movimentação, a crítica aos bons costumes, as belas mulheres, e grandes atores.

Aqui, reina Ewerton de Castro como o candidato a padre Agostinho, que desde a primeira cena demonstra que a vocação parece ser mais exigência familiar que desejo interno, já que não pode ver um rabo de saia que espreme os olhinhos por trás dos óculos fundo de garrafa, e, sofregamente, a bíblia entre as mãos.

Mas sua vocação será desafiada se é grande mesmo ao passar alguns dias em casa de tios salpicada de belas e apetitosas priminhas, inclusive a que brincava de médico quando criança, agora na pele estonteante de Nydia de Paula.

Bastava a dita para balançar o coreto de qualquer seminarista, mas ainda tem no seu caminho Suzana Gonçalves, Matilde Mastrangi, Marizeth Baumgarten, Tânia Caldas e Meyre Vieira.

E tem ainda os impagáveis Adriano Stuart e Luiz Carlos Miéle – esse último na mais sensacional de suas aparições no cinema como um monsenhor de cinta-liga a fim de traçar um Ewerton com sua apetitosa cara de bebê anos-luz de qualquer Estatuto da Criança e do Adolescente a lhe proteger.

Uma Grande Vocação encontra em Ewerton de Castro o intérprete perfeito, o que faz o filme, ainda que mal finalizado, saltar em qualidade e se despedir da tela com graça.

Cada um dá o que tem – Episódio Cartão de Crédito

Especial John Herbert

 

Cada um dá o que tem – episódio Cartão de Crédito
Direção: John Herbert
Brasil, 1975.

Por Adilson Marcelino

 

Prática comum nos anos 1960 e 70, o filme em episódios rendeu vários títulos na filmografia brasileira. As Cariocas, Trilogia do Terror, Ninguém Seguras Essas Mulheres, Já Não se Faz Amor como Antigamente, Contos Eróticos e Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez são alguns exemplos.

O filme em episódios, geralmente, tem cada seguimento dirigido por um cineasta diferente. Daí, quase sempre, o resultado difere em muito de um episódio para o outro.

Neste Cada um dá o que tem não foi diferente. O filme reúne os talentos de Adriano Stuart, John Herbert e Silvio de Abreu atrás das câmeras, mas é o último que se sai melhor em seu intento.

Cartão de Crédito, dirigido por John Herbert, é o episódio do meio. Nele, além de dirigir, Herbert também dá vida ao protagonista Otávio. Depois de passar seis meses no meio do mato em plena Amazônia, ele desembarca em São Paulo com intenção de se esbaldar na noite. Seu plano? traçar uma gostosa que resolva sua seca de meses – “lá não tinha índia?”, questiona a prostituta; no que ele responde prontamente: “mas a índia tinha índio”.

Só que consumar o fato vai ser mais difícil do que Otávio possa imaginar, pois primeiro cruza com uma travesti e depois com uma prostituta mercenária pronta para enfiar a faca em seu cartão de crédito.

Primeira incursão de John Herbert como cineasta, em Cada um dá o que tem o principal destaque foi reunir na tela o Casal Doçura dos anos 50/60, John Herbert e Eva Wilma, época em protagonizavam pioneira sitcom de sucesso na telinha, Alô Doçura.

Casados na vida real, o filme se situa exatamente em época de transição do famoso par, pois pouco depois Eva Wilma se separaria de Herbert para viver com Carlos Zara, seu amor até o fim da vida.

Vale ressaltar que a nudez de Eva no filme, algo inesperado em sua filmografia, é fake, já que foi dublada – a tal prática do dublê de corpo que originaria o filmaço de Brian de Palma. 

Cartão de Crédito é episódio irregular de um cineasta ainda em formação.

 

Expediente

EDITOR-CHEFE: Adilson Marcelino

CONSELHO EDITORIAL: Adilson Marcelino, Andrea Ormond, Gabriel Carneiro, Matheus Trunk e Vlademir Lazo Correa

REDATORES: Adilson Marcelino, Ailton Monteiro, Andrea Ormond, Daniel Salomão Roque, Diniz Gonçalves Júnior, Edu Jancz, Filipe Chamy, Gabriel Carneiro, Marcelo Carrard, Matheus Trunk, Sergio Andrade e Vlademir Lazo Correa.

REDATORES CONVIDADOS: Cid Nader, Heitor Augusto,  Leopoldo Tauffenbach, Marcelo Miranda, Ronald Perrone.

CONTATO: revistazingu@gmail.com

Adilson Marcelino tem paixão pelo cinema nacional em geral e acredita piamente na máxima atribuída a Paulo Emílio Salles Gomes, de que o pior filme brasileiro nos diz mais que o melhor estrangeiro. Chamado por um grupo de jornalistas como o Super Adilson do Cinema Brasileiro, é graduado em Letras e em Jornalismo. Trabalha com cinema desde 1991: foi bilheteiro, gerente, assessor de imprensa, programador, redator e apresentador de programa de rádio. É pesquisador, editor do site Mulheres do Cinema Brasileiro – premiado com o troféu Quepe do Comodoro, outorgado pelo Carlão Reichenbach -, e do blog Insensatez. É o atual Editor-Chefe da Zingu!

Ailton Monteiro é mestrando em Letras-Literatura pela Universidade Federal do Ceará. Mantém desde 2002 o blog Diário de um Cinéfilo, um espaço muito querido (pelo menos por parte de seu realizador) e agraciado com o Quepe do Comodoro. Tem um gosto tão diversificado por cinema que quer ver a maior quantidade possível de filmes que o seu tempo de vida puder lhe proporcionar. Contribui eventualmente para os sites Scoretrack e Pipoca Moderna. Também tem forte interesse por literatura, religião (em seu sentido mais amplo) e rock’n’roll.

Andrea Ormond, pesquisadora e crítica de cinema, mantém desde 2005 o blog Estranho Encontro  (http://estranhoencontro.blogspot.com), inteiramente dedicado à revisão crítica do cinema brasileiro. Escreve na revista Cinética, além de integrar o conselho editorial da revista Zingu!. Colaborações publicadas nas revistas Filme Cultura e Rolling Stone, dentre outros veículos.

Daniel Salomão Roque possui um gosto cinematográfico bipolar, oscilante entre Jacques Tati e Jörg Buttgereit. Afeito a filmes dos mais diversos tempos, recantos e tendências, ele tem, contudo, um carinho especial pelo film noir e suas derivações, pelas fitas B estadunidenses dos anos 50/60 e pelo cinematografia popular latino-americana. Adepto de Samuel Fuller, acredita que o cinema é um campo de batalha e também uma área de garimpo: o prazer da descoberta anda lado a lado com os extremos da emoção. Ele já fez curadoria de cineclubes em parceria com a Prefeitura de Osasco, colaborou com a finada Revista Zero, manteve uma coluna sobre quadrinhos nos primórdios da Zingu! e hoje estuda História na Universidade de São Paulo.

Diniz Gonçalves Júnior é paulistano e poeta. Tem trabalhos publicados na Cult, no Suplemento Literário de Minas Gerais, naArtéria, na Nóisgrande, na Sígnica, em O Casulo, na Zunái, na Germina, na Paradoxo, no Mnemocine, no Jornal de Poesia, na Freakpedia, e no Weblivros. Autor do livro Decalques (2008).

Edu Jancz (pseudônimo de José Edward Janczukowicz) é jornalista diplomado, formado em Cinema pela FAAP e pelas críticas de Rubem Biáfora, Carlos M. Motta e Alfredo Sternheim (no Estadão). Gosta de cinema. Sem nenhum preconceito. Nenhum pré-conceito. Vê todos os filmes – dos faroestes italianos (dos quais é grande fã) aos clássicos mais e menos conceituados. Sua lista dos 100 melhores filmes do mundo nunca empata com a crítica “acadêmica”. Cobriu para a revista Big Man Internacional o período explícito da Boca do Lixo: desde Coisas Eróticas até o fim de sua atividade. Acredita que a Boca do Lixo – com sua vasta produção  de cinema brasileiro (sem dinheiro da Embrafilme) –  merece um resgate digno, sempre relegado pela “grande e preconceituosa imprensa”.

Filipe Chamy é geralmente descrito pelas pessoas que convivem com ele como sendo um idiota; mas é muito mais do que simplesmente isso. Fundamentalmente, é um apreciador de coisas belas, mesmo quando elas são feias. Groucho-marxista convicto, nunca fala sério — mesmo que pensem o contrário —, e tem ojeriza a autoridades (e alergia a poderosos). Tenta viver a filosofia “Hakuna Matata”, mas acaba se preocupando mais do que deveria. É escritor frustrado, músico falido e apaixonado consumidor de arte.

Gabriel Carneiro é um pretenso jornalista e crítico de cinema, mais pretenso ainda pesquisador. Formado em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, o que gosta mesmo é de assistir filmes e ponderar sobre eles. Como iniciação científica, pesquisou a filmografia de Guilherme de Almeida Prado. Já escreveu no portal Cinema com Rapadura, e manteve por três anos e meio o blog Os Intocáveis. Rascunhou em alguns outros lugares. Atualmente, também escreve no Cinequanon e na Revista de CINEMA. Adora resmungar, e adora as feminices das mulheres que o rodeiam – é fato, a falta da simples presença feminina o deixa deprimido. A cada dia sua admiração por filmes de baixo orçamento aumenta – tanto que fez um TCC sobre a ficção científica de 1950-64 e planeja fazer um filme de terror. Foi editor-chefe da Zingu! entre maio de 2009 e dezembro de 2010. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial da revista.

Marcelo Carrard é jornalista e crítico de cinema. Autor da tese de mestrado: O Cozinheiro, O Ladrão, Sua mulher e o Amante – Peter Greenaway e Os Caminhos da Fábula Neobarroca, colaborou no livro O Cinema da Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90, organizado pela pesquisadora Lúcia Nagib. Nesse livro, foi o responsável pelas entrevistas com os diretores José Joffily, Silvio Back e Neville de Almeida. Doutorado em cinema pela Unicamp. Grande conhecedor de cinema oriental, europeu e mesmo brasileiro, ministra cursos e workshops. Manteve o blog Mondo Paura, premiado no troféu Quepe do Comodoro. Carrard é também crítico do site Boca do Inferno, o maior em português dedicado ao Cinema Fantástico. Muito sincero e honesto, o que lhe causa grandes problemas frente os pseudointelectuais de esquerda que pensam que escrevem na “Cahiers du Cinema”. Assina a coluna Cinema Extremo, dedicado a filmes feitos fora da linguagem comum.

Matheus Trunk é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi editor-chefe da Zingu! entre outubro de 2006 e abril de 2009. Trabalhou na revista Transporte Mundial, no jornal Nippo-Brasil e no jornal Metro ABC. Atualmente é assessor de imprensa. Fanático por cinema brasileiro, música popular e pela Sociedade Esportiva Palmeiras, é editor do blog Violão, Sardinha e Pão.

Sergio Andrade é bibliotecário e cinéfilo dos mais atuantes. É fã de cinema extremo, mas também de grandes diretores. Em matéria de cinema brasileiro também é grande entendido, sendo fã de carteirinha do saudoso crítico Rubem Biáfora. Mantém uma relação de amor com a Cinemateca Brasileira, por ter trabalhado lá nos arquivos da entidade. Mantém os blogs Kinocrazy e Indicação do Biáfora.

Vlademir Lazo Correa é gaúcho de nascimento e tem como única qualidade inquestionável nessa vida o fato de ser torcedor fanático do Sport Club Internacional, de Porto Alegre. Escritor sem obra e atleta cujo único esporte é o jogo de xadrez, é apaixonado por antiguidades das mais diversas, dedicando-se a colecionar discos de vinil que ninguém mais quer e livros velhos de sebos empoeirados que quase ninguém lê. Desde que se conhece por gente aprecia o cinema em suas mais diferentes formas, vertentes e direções ao ponto de estar se convertendo em um museu de imagens e só prestar nesse mundo para assistir filmes e, ocasionalmente, escrever sobre eles. Foi colunista do site Armadilha Poética e mantém (só não sabe até quando) o blog O Olhar Implícito.

Já não se faz amor como antigamente – episódio O Noivo

Especial John Herbert

Já não se faz amor como antigamente – episódio O Noivo
Direção: John Herbert
Brasil, 1976.

Por Adilson Marcelino

Antes de chegar aos longas, o delicioso Ariella e o comentado, mas um tanto inacessível, Tessa, a Gata, John Herbert se aventurou nos filmes em episódios.  Ele dirigiu dois seguimentos: Cartão de Crédito, em Cada um dá o que tem; e esse O Noivo, em Já não se faz amor como antigamente.

Aliás, foi mais que uma aventura, já que voltou a dirigir mais um episódio na sua despedida das telas como cineasta em Os Bons tempos voltaram: vamos gozar outra vez!, dirigindo o seguimento Primeiro de Abril.

Um primeiro olhar na ficha técnica de O Noivo causa estranheza: Lygia Fagundes Telles foi parar na Boca do Lixo? Pois é, é porque o episódio é baseado no conto homônimo escrito pela refinada e elegante escritora, dona de um universo personalíssimo e marcado por tramas em que o onírico e o fantástico habitam o cotidiano urbano de forma natural, mas sempre intrincada.

Porém, para quem conhece a pena de Lygia, e mesmo o conto adaptado por Cassiano Gabus Mendes, verá que o que sobreviveu no filme foi mais o argumento do que a ambiência arquitetada pela escritora. Não que essa ambiência não esteja presente no desespero de Macedinho (John Herbert), um homem que acorda no que para ele seria uma manhã qualquer, mas descobre que, na verdade, aquele é o dia de seu casamento. Aflito, ele se lembra de tudo e de todos, portanto não sofreu amnésia, mas não consegue se lembrar do casamento e, pior ainda, com quem irá se casar.

Só que o roteiro de Cassiano e a direção de John tomam caminhos outros, dando corpo em cena às possíveis noivas de Macedo, insistindo sempre na busca de uma graça que inexiste no conto de Lygia – afinal, Já não se faz amor como antigamente é uma comédia. Herbert conta, inclusive, que procurou a autora e ela lhe deu carta branca para adaptar do jeito que quisesse.

É caminho inútil e um tanto obtuso ficar analisando cinema versus literatura, pois são linguagens diferentes, mas essas linhas gastas aqui são creditadas mesmo devido aquele susto inicial narrado antes.

Pelo filme em si, pode se notar um avanço no caminhar do ofício da direção de John Herbert, que ainda que se utilize de recursos gratuitos e clichês – como o grito do Tarzan, o carro sacolejando e de farol aceso – mantém o fluxo da narrativa.

Como é uma produção da Boca do Lixo – Aníbal Massaini Neto e o próprio diretor -, as famosas deusas não poderiam faltar. E aqui há lugar para a eterna ninfeta Nádia Lippi, a sapeca Djenane Machado, e a exuberante Vera Gimenez – que protagoniza a melhor cena. Há espaço ainda para Laura Cardoso e uma presença inesperada.

O Noivo valeu a John Herbert o APCA de Melhor Diretor.

Rádio Pirata

Dossiê Ewerton de  Castro

Rádio Pirata
Direção Lael Rodrigues
Brasil, 1987.

Por Adilson Marcelino

Lael Rodrigues é nome de expressão no cinema brasileiro com seus filmes de rock para jovens. Nessa praia dirigiu três: Bete Balanço (1984) – o mais bem sucedido de todos; Rock Estrela (1985); e esse Rádio Pirata.

A bem da verdade, ainda que Brasil de Cazuza abra os créditos, Lobão esteja na trilha, e Marina Lima esteja de carne e osso cantando Pseudo Blues, Rádio Pirata tem trama mais adulta, já que trata de corrupção no país– o tal Brasil cantado por Cazuza.

O filme fala sobre espionagem industrial envolvendo o ramo de computação e interesses e jogatinas escusos entre uma empresa brasileira de informática e uma multinacional. Quando Carlos (Ewerton de Castro) descobre o rolo e decide se denuncia ou não, sua vida passa a correr perigo.  Mas quando seu destino se torna carta marcada, somente Bravo (Jayme Periard), seu subordinado que descobrira a falcatrua junto com ele, é que poderá fazer alguma coisa. Bravo usará então uma rádio pirata para fazer as denúncias, contando com a ajuda de Alice (Lidia Brondi), uma paixão fulminante que conhece em uma noite chuvosa.

Rádio Pirata é um equívoco. Falar de corrupção em meio à asa delta e romance desandou de vez nas mãos de Rodrigues, que co-assina o roteiro com Yoya Wurch. Uma pena, pois Lael domina bem a cena de Bete Balanço, mas aqui nem parece ser o mesmo diretor – e o péssimo roteiro faz o filme afundar ainda mais. Provavelmente, pela ambição do tema espinhoso e nada juvenil como nos seus filmes anteriores.

O único destaque do filme é presença ensolarada de Lidia Brondi, que ainda que defenda personagem inverossímil – como, aliás, é também o de Periard e de toda a forma como a trama é conduzida -, mata nossa saudade de ver nas telas uma das ninfetas mais desejadas do país e que abandonou a carreira cedo demais em 1990, com apenas 30 anos.

Patriamada

Dossiê Ewerton de Castro



Patriamada
Direção: Tizuka Yamasaki
Brasil, 1985.

Por Cid Nader

Patriamada, de Tizuka Yamazaki, poderia ser definido como um compilado que carrega em si muito do que é o cinema na concepção – e no modo de concretizá-lo – da diretora. Filme que investiga um momento de forma quase jornalística (coisa que a motiva desde Gaijin, quando retratou de forma quase investigativa os primórdios de seus ancestrais em terras brasileiras), e que tenta manter seus elos de ligação com a fluidez possível de ser obtida na execução ficcional/dramática. Nessa representação de seu cinema recriada em métodos repetidos, aqui também reside um mal que faz com que  suas obras acabem por residir em locais não muito nobres quando se pensa nelas de modo mais crítico: apesar de ser sempre interessante quando executa o lado documental de seus trabalhos, realmente não é muito feliz na maneira que conduz suas tramas na questão das artes encenadas e  interpretadas, já costuradas na edição. Seus filmes sofrem demais por equívocos de montagem e liberdade exagerada aos modelos de interpretação de seus atores: há desníveis interpretativos estonteantes que acabam comprometendo os que fazem bem sua parte, sendo que isso seria ao menos  contornável com uma mão mais rigorosa ou consciência do que deveria ser utilizado, e em quais instantes.

Especificamente em Patriamada. Se tivesse de resumir a importância e fulgurância (sim!) que o filme entrega por um trecho somente de seu todo, não teria como não citar o grande instante em que os eventos ocorrem na Candelária lotada por um milhão de pessoas pedindo as “Diretas Já”, sob o impacto emotivo da canção de Milton Nascimento preenchendo os espaços sonoros: encenado, em momentos pelas presenças de Buza Ferraz (Goiás) ou Débora Bloch (Lina) registrando tudo nas funções de cineasta e repórter (respectivamente); em outro, com Walmor Chagas (o empresário de mente aberta, Rocha Queirós) soberano e dominador da cena, caminhando na direção do prédio de sua empresa; além dos registros factuais de um trecho de discurso do então sindicalista e presidente do PT, Lula, ou um depoimento de Leonel Brizolla (mais vários artistas e alguns outros políticos). Vale dizer que a música de Milton (Canção da América) representou uma espécie de hino daqueles momentos de mudanças, que foi estendido durante ao processo de convalescência e morte de Tancredo Neves (presidente escolhido, pelo colégio eleitoral, como o primeiro civil após o término consensual da ditadura militar).

Há evidente caráter sociológico/político dominando as ações da direção, e um “sensível olhar forte” antropológico, também, sobre as pessoas que vagavam por aqueles momentos tão nacionais. Ao optar pelo metacinema para executar esses procedimentos, que são a linha forte da costura, Tizuka merece seu quinhão de reconhecimento: pois adorna com mais signos da arte esse seu pendor forte observacional – são bonitas as cenas reais daqueles momentos, captadas pelas lentes da diretora, mas tendo no meio do caminho de seus focos a câmera e os mecanismos “manuseados” por Goiás e sua equipe. E resulta muito interessante a obtenção de depoimentos dos envolvidos, in loco, pelo microfone da jornalista Lina. A diretora real imprime ritmo e cinema nos momentos em que não se esperaria necessariamente tal atenção.

Porém, a ficção do trabalho é ruim, recheada dos conhecidos problemas que costumam infestar a sua obra: apesar de tecnicamente se dar bem com a boa utilização da câmera na mão, a montagem (como até citado antes) é precária e faz parecer que algumas partes não pertencem ao mesmo corpo. Apesar de Ewerton de Castro (Antônio Queirós, direitista, filho e assessor do empresário esquerdista) criar bem seu personagem, o destino maniqueísta imaginado para ele ressuscita a má percepção de Tizuka quanto à utilização de meios tons (ou tons de passagem), criando abismos dramáticos imperdoáveis. E várias situações na parcela ficcional também acabam por sofrer da falta dessas nuances na mistura. Esses pulos de beira de abismo para outra beira abismo, constantes, emperram o filme e impedem a cooptação ideal. Pior: voltam a impor aquele conhecido ar de artificialidade que faz desconfiar da capacidade dela. Isso tudo, aliado a um sensível “datamento” (coisa só perceptível pela distância temporal do nascimento da obra), talvez represente o modo de pensamento estético da diretora.

Duvidosas também são algumas maneiras pensadas para homenagear ou elevar nosso cinema: um discurso um tanto inocente já no momento de uma discussão inicial entre Goiás e sua ex-mulher, que retoma abruptamente de suas mãos um livro de Glauber Rocha; ou quando o mesmo, já próximo do final, vocifera um “merda”, questionando quem iria patrocinar seu filme – o “Patriamada” – se o país está invadido por seriados enlatados e cinema estrangeiro.

De todo modo há a volta a 1984 (com todos os personagens de então: Fernando Henrique, Montoro, Ulysses Guimarães, Dante de Oliveira, Tancredo Neves, Paulo Maluf, Milton Nascimento… – além dos dois citados no início) e o clima raro de então.

Cid Nader, editor do site Cinequanon (www.cinequanon.art.br).