Patriamada

Dossiê Ewerton de Castro



Patriamada
Direção: Tizuka Yamasaki
Brasil, 1985.

Por Cid Nader

Patriamada, de Tizuka Yamazaki, poderia ser definido como um compilado que carrega em si muito do que é o cinema na concepção – e no modo de concretizá-lo – da diretora. Filme que investiga um momento de forma quase jornalística (coisa que a motiva desde Gaijin, quando retratou de forma quase investigativa os primórdios de seus ancestrais em terras brasileiras), e que tenta manter seus elos de ligação com a fluidez possível de ser obtida na execução ficcional/dramática. Nessa representação de seu cinema recriada em métodos repetidos, aqui também reside um mal que faz com que  suas obras acabem por residir em locais não muito nobres quando se pensa nelas de modo mais crítico: apesar de ser sempre interessante quando executa o lado documental de seus trabalhos, realmente não é muito feliz na maneira que conduz suas tramas na questão das artes encenadas e  interpretadas, já costuradas na edição. Seus filmes sofrem demais por equívocos de montagem e liberdade exagerada aos modelos de interpretação de seus atores: há desníveis interpretativos estonteantes que acabam comprometendo os que fazem bem sua parte, sendo que isso seria ao menos  contornável com uma mão mais rigorosa ou consciência do que deveria ser utilizado, e em quais instantes.

Especificamente em Patriamada. Se tivesse de resumir a importância e fulgurância (sim!) que o filme entrega por um trecho somente de seu todo, não teria como não citar o grande instante em que os eventos ocorrem na Candelária lotada por um milhão de pessoas pedindo as “Diretas Já”, sob o impacto emotivo da canção de Milton Nascimento preenchendo os espaços sonoros: encenado, em momentos pelas presenças de Buza Ferraz (Goiás) ou Débora Bloch (Lina) registrando tudo nas funções de cineasta e repórter (respectivamente); em outro, com Walmor Chagas (o empresário de mente aberta, Rocha Queirós) soberano e dominador da cena, caminhando na direção do prédio de sua empresa; além dos registros factuais de um trecho de discurso do então sindicalista e presidente do PT, Lula, ou um depoimento de Leonel Brizolla (mais vários artistas e alguns outros políticos). Vale dizer que a música de Milton (Canção da América) representou uma espécie de hino daqueles momentos de mudanças, que foi estendido durante ao processo de convalescência e morte de Tancredo Neves (presidente escolhido, pelo colégio eleitoral, como o primeiro civil após o término consensual da ditadura militar).

Há evidente caráter sociológico/político dominando as ações da direção, e um “sensível olhar forte” antropológico, também, sobre as pessoas que vagavam por aqueles momentos tão nacionais. Ao optar pelo metacinema para executar esses procedimentos, que são a linha forte da costura, Tizuka merece seu quinhão de reconhecimento: pois adorna com mais signos da arte esse seu pendor forte observacional – são bonitas as cenas reais daqueles momentos, captadas pelas lentes da diretora, mas tendo no meio do caminho de seus focos a câmera e os mecanismos “manuseados” por Goiás e sua equipe. E resulta muito interessante a obtenção de depoimentos dos envolvidos, in loco, pelo microfone da jornalista Lina. A diretora real imprime ritmo e cinema nos momentos em que não se esperaria necessariamente tal atenção.

Porém, a ficção do trabalho é ruim, recheada dos conhecidos problemas que costumam infestar a sua obra: apesar de tecnicamente se dar bem com a boa utilização da câmera na mão, a montagem (como até citado antes) é precária e faz parecer que algumas partes não pertencem ao mesmo corpo. Apesar de Ewerton de Castro (Antônio Queirós, direitista, filho e assessor do empresário esquerdista) criar bem seu personagem, o destino maniqueísta imaginado para ele ressuscita a má percepção de Tizuka quanto à utilização de meios tons (ou tons de passagem), criando abismos dramáticos imperdoáveis. E várias situações na parcela ficcional também acabam por sofrer da falta dessas nuances na mistura. Esses pulos de beira de abismo para outra beira abismo, constantes, emperram o filme e impedem a cooptação ideal. Pior: voltam a impor aquele conhecido ar de artificialidade que faz desconfiar da capacidade dela. Isso tudo, aliado a um sensível “datamento” (coisa só perceptível pela distância temporal do nascimento da obra), talvez represente o modo de pensamento estético da diretora.

Duvidosas também são algumas maneiras pensadas para homenagear ou elevar nosso cinema: um discurso um tanto inocente já no momento de uma discussão inicial entre Goiás e sua ex-mulher, que retoma abruptamente de suas mãos um livro de Glauber Rocha; ou quando o mesmo, já próximo do final, vocifera um “merda”, questionando quem iria patrocinar seu filme – o “Patriamada” – se o país está invadido por seriados enlatados e cinema estrangeiro.

De todo modo há a volta a 1984 (com todos os personagens de então: Fernando Henrique, Montoro, Ulysses Guimarães, Dante de Oliveira, Tancredo Neves, Paulo Maluf, Milton Nascimento… – além dos dois citados no início) e o clima raro de então.

Cid Nader, editor do site Cinequanon (www.cinequanon.art.br).

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