Já não se faz amor como antigamente – episódio O Noivo

Especial John Herbert

Já não se faz amor como antigamente – episódio O Noivo
Direção: John Herbert
Brasil, 1976.

Por Adilson Marcelino

Antes de chegar aos longas, o delicioso Ariella e o comentado, mas um tanto inacessível, Tessa, a Gata, John Herbert se aventurou nos filmes em episódios.  Ele dirigiu dois seguimentos: Cartão de Crédito, em Cada um dá o que tem; e esse O Noivo, em Já não se faz amor como antigamente.

Aliás, foi mais que uma aventura, já que voltou a dirigir mais um episódio na sua despedida das telas como cineasta em Os Bons tempos voltaram: vamos gozar outra vez!, dirigindo o seguimento Primeiro de Abril.

Um primeiro olhar na ficha técnica de O Noivo causa estranheza: Lygia Fagundes Telles foi parar na Boca do Lixo? Pois é, é porque o episódio é baseado no conto homônimo escrito pela refinada e elegante escritora, dona de um universo personalíssimo e marcado por tramas em que o onírico e o fantástico habitam o cotidiano urbano de forma natural, mas sempre intrincada.

Porém, para quem conhece a pena de Lygia, e mesmo o conto adaptado por Cassiano Gabus Mendes, verá que o que sobreviveu no filme foi mais o argumento do que a ambiência arquitetada pela escritora. Não que essa ambiência não esteja presente no desespero de Macedinho (John Herbert), um homem que acorda no que para ele seria uma manhã qualquer, mas descobre que, na verdade, aquele é o dia de seu casamento. Aflito, ele se lembra de tudo e de todos, portanto não sofreu amnésia, mas não consegue se lembrar do casamento e, pior ainda, com quem irá se casar.

Só que o roteiro de Cassiano e a direção de John tomam caminhos outros, dando corpo em cena às possíveis noivas de Macedo, insistindo sempre na busca de uma graça que inexiste no conto de Lygia – afinal, Já não se faz amor como antigamente é uma comédia. Herbert conta, inclusive, que procurou a autora e ela lhe deu carta branca para adaptar do jeito que quisesse.

É caminho inútil e um tanto obtuso ficar analisando cinema versus literatura, pois são linguagens diferentes, mas essas linhas gastas aqui são creditadas mesmo devido aquele susto inicial narrado antes.

Pelo filme em si, pode se notar um avanço no caminhar do ofício da direção de John Herbert, que ainda que se utilize de recursos gratuitos e clichês – como o grito do Tarzan, o carro sacolejando e de farol aceso – mantém o fluxo da narrativa.

Como é uma produção da Boca do Lixo – Aníbal Massaini Neto e o próprio diretor -, as famosas deusas não poderiam faltar. E aqui há lugar para a eterna ninfeta Nádia Lippi, a sapeca Djenane Machado, e a exuberante Vera Gimenez – que protagoniza a melhor cena. Há espaço ainda para Laura Cardoso e uma presença inesperada.

O Noivo valeu a John Herbert o APCA de Melhor Diretor.

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