As Feras

Dossiê de Aniversário: O Autor  – Walter Hugo Khouri 


As Feras
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1995 (lançado em 2001).

 Por Vlademir Lazo 

É difícil permanecer indiferente diante de um filme como As Feras. Trata-se de um trabalho que sintetiza toda a obra de seu autor. Walter Hugo Khouri durante muitos anos sofreu de uma certa tendência a reiteração estética e de conteúdo que aos poucos foi retirando parte da vitalidade de seus últimos filmes (mesmo admiradores reconhecem que sua carreira poderia ter ganho um pouco mais se de vez em quando tivesse aceitado algumas encomendas). Pois bem, As Feras é um projeto que se desenvolveu em dois momentos distintos na trajetória de Khouri e do cinema brasileiro em geral. O filme nasceu como um curta rodado no mesmo ano e cenário das filmagens de Amor, Estranho Amor, em 1981, em torno de um garoto (Paulo) perturbado e voyeur diante das relações de sua prima Sônia (Lúcia Veríssimo) com Sylvie (Monique Lafond) num período de férias no palacete em que vive o casal de meninas. Algumas das melhores seqüências filmadas por Khouri estão nesses fragmentos, que só foram retomados em 1995, quando o cineasta concebeu um novo projeto com o personagem do menino já adulto, utilizando as cenas antigas arquivadas como flashbacks do protagonista masculino. 

Problemas causados por brigas do diretor com o produtor Aníbal Massaini fizeram com que o filme apenas fosse lançado em 2001. Nesse meio tempo Khouri dirigiu Paixão Perdida, o último que ele filmou, porém As Feras foi o seu filme derradeiro a ser lançado nos cinemas, saindo-se melhor como um filme crepuscular e terminando por se converter no seu testamento cinematográfico. Paixão Perdida (um de seus trabalhos mais fracos) dava por encerrada a trajetória de seu alter-ego Marcelo e as obsessões com conflitos edipianos recorrentes na carreira do cineasta. As Feras (o melhor de seus últimos filmes) desenvolvia-se num universo mais amplo e instigante em torno das relações afetivas e físicas entre homens e mulheres. 

Não se trata, que fique bem claro, de um filme de todo bem resolvido. Há muitos problemas, a começar por Cláudia Liz, que nem sempre corresponde em cena nos momentos em que mais se exige dela. Os diálogos são bons, mas as vezes resvalam em jargões psicanalíticos ou empolados que tanto aborrecem os que não possuem paciência com o estilo do diretor. Embora não seja uma obra-prima, As Feras existe num contexto à parte de qualquer corrente ou tendência que tenha se tentado formar no cinema brasileiro das últimas duas décadas, como o do caduco e famigerado conceito de “retomada”. Um filme de mestre que não faz feio diante de outros grandes filmes de veteranos como O Viajante, de Paulo César Saraceni, Serras da Desordem, de Andréa Tonacci, Encarnação do Demônio, de José Mojica Morins, ou dos mais recentes trabalhos de Carlos Reichenbach e Julio Bressane. 

Só consigo lembrar de um outro diretor que superasse Khouri no talento de transcender e extrair densidade dramática ao filmar belos corpos femininos nus se digladiando com outros corpos de homens ou de mulheres numa cama ou fora dela: o francês Jean-Claude Brisseau. Não é difícil se enxergar nos personagens de As Feras. O protagonista masculino, quarentão, pode não convencer como professor de psicologia na pele de Nuno Leal Maia, só que este deixa de ser um problema a partir do momento em que a sua profissão já não é do interesse do filme, com somente o personagem perdendo-se em meio a um covil de feras e perplexo com sua corrente posição. 

Poucos filmes brasileiros contemporâneos traduzem uma igual sensação de deslocamento. É um percurso de cerca de quinze anos que leva os fragmentos de um trabalho antigo para dentro de um filme posterior do seu autor, mas nessa curta passagem de tempo muita coisa no mundo se expandiu e se transformou, é o que o cineasta nos parece dizer. Khouri faz milagre num filme que transcorre quase todo o tempo durante o dia e noite de ensaio de uma peça teatral. As Feras é um filme que descreve um estágio em que as mulheres já não são mais dependentes dos homens, privilegiadas, saciam-se entre elas próprias com grande liberdade. Impossíveis de serem controladas, não escondem, pelo contrário, fazem questão de mostrar sua condição livre. Questionam, teorizam, filosofam. Escrevem artigos, fazem filmes, peças de teatro ou televisão. Khouri, que antes já filmara deusas, agora filma esfinges que devoram e não se deixam decifrar. Feras que se libertam de suas jaulas e passam a deter o controle do universo. Não deixa de ser um passo natural e um ponto de chegada na obra de Khouri, desde os seus primeiros filmes profundamente interessado em questões femininas. As Feras por sua vez acaba se mostrando um filme de um artista afogado. 

Nesse processo, Khouri incorre no risco de ou fetichizar as suas figuras ou condená-las de imediato. O cineasta não se permite cometer quaisquer desses erros. O filme parece tratar de uma completa queda da civilização masculina, ou ao menos de alguém que se sente dispensável, com um sereno e calmo desespero cuja tensão só explode no final. Há o discurso com certo rancor e ressentido de Wilson (Luiz Maçãs, prematuramente falecido) – o outro único personagem masculino do filme em um duelo massacrante contra uma maioria esmagadora de mulheres –, abandonado e dividido entre o prazer e a frustração de compartilhar da intimidade das mulheres mais eróticas que conheceu na vida (sutis, ambíguas, suaves), com quem disputa (e perde) a atenção e interesse das outras. Um personagem que vai crescendo ao longo da projeção até incorporar o papel da peça dentro do filme no final. Ou então o femismo da personagem de Monique Lafond, que atinge o auge nas cenas em que o primo de sua amante é submetido a humilhações e flagelações. Mas é preciso dizer que Khouri em momento algum compactua com essas atitudes radicais dos personagens, tanto vítimas como pequenos monstros isolados dentro de uma conjuntura bem mais ampla. 

As Feras é um trabalho em que o cineasta se encontra mais do que nunca exposto. É um filme de crise, feito no meio da crise – inclusive do colapso da produção cinematografia brasileira da primeira metade dos anos noventa –, que leva esta crise ao limite do seu impasse. A própria misoginia aqui é colocada em crise, com a patetice do personagem de Luiz Maçãs, ou os medos e inseguranças de Paulo, a inveja masculina diante do gozo feminino que pode se prolongar por horas em contraponto a ejaculação do homem normalmente tão fugaz. Um trabalho sufocante, amargo e bastante negativo. A sexualidade feminina em Khouri pode ser tanto uma questão em aberto quanto um segredo escancarado. No jogo de espelhos que o diretor lentamente vai armando, ele pode até se compadecer da “tragédia inexorável do macho”, porém ele também ama as suas fêmeas que decidem quando querem se entregar umas às outras. Uma bela despedida e retirada de cena do grande cineasta.

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Convite ao Prazer

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

 

O Convite Ao Prazer
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1980. 

Por Matheus Trunk 

Autor na acepção da palavra, o realizador paulistano Walter Hugo Khouri (1929-2003) construiu um universo único ao longo de seus 25 longas-metragens. Isso pode ser verificado na temática existencialista, na trilha sonora do jazz e nas lindas mulheres presentes em todos os seus filmes. Dentro da obra deste verdadeiro esteta, Convite Ao Prazer é tido erroneamente como uma fita menor.

Mas esta película guarda diversos elementos centrais da obra do diretor. A trama gira em torno de dois personagens masculinos: Luciano (Serafim Gonzalez) e Marcelo (Roberto Maya). Amigos na mocidade, cada um tomou um caminho diferente na vida adulta. Luciano tornou-se um dentista de classe média. Marcelo é um mega empresário de sucesso que praticamente ignora a esposa Ana (Sandra Bréa). Já a esposa do dentista, a dona de casa Anita (Helena Ramos) possui uma personalidade forte, não tolera as traições do esposo e sai atrás dele.

Como todos os personagens khourianos, Marcelo não está interessado em política, economia, negócios. Sua obsessão é ele mesmo e as mulheres. Parece que o mundo gira em torno de sua pessoa. Para isso, ele mantém um apartamento destinado aos seus encontros amorosos, um verdadeiro “matadouro”. Convite Ao Prazer pode ser apontado como a versão Boca do Lixo de seu filme-irmão, Noite Vazia. A parceria de Khouri com o elenco feminino é algo que merece ser sempre reparado. Para isso, podemos perceber como ele dirige deusas da pornochanchada como Aldine Müller, Patrícia Scalvi e Kate Lyra. Todas estão divinas graças a direção especial que o realizador dava às moças.

São diversos os pontos que merecem ser destacados na vida e na obra de Walter Hugo Khouri. Dizer que ele é o mais brilhante realizador de sua geração é pouco. O melhor é dizer que este cineasta não deixou herdeiros dentro do cinema brasileiro. Muitos, inclusive, quiseram copiá-lo na época, mas poucos chegaram perto dele. Um filme assinado por Khouri sempre carregou uma marca especial dento da nossa cinematografia. A marca de um homem obcecado pelo perfeccionismo e que deixou seu nome perpetuado dentro do cinema tupiniquim.

 

Eros, O Deus do Amor

Dossiê de Anoversário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

 

Eros – O Deus do Amor
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1981. 

Por Sérgio Alpendre 

Khouri é um diretor conhecido pelo desfile de mulheres belas e sensuais em seus filmes, mas o que vemos em Eros é coisa de outro mundo. Sob o pretexto de mostrar um balanço dos casos amorosos de seu alter-ego de sempre, o garanhão Marcelo, as beldades vão aparecendo na tela em ritmo tão alucinante que parece mais um concurso de beleza do cinema nacional da época. Marcelo revisita o histórico de conquistas a partir de uma pergunta de sua última amante, que estava curiosa para saber de seu passado mulherengo. 

Denise Dumont, Patrícia Scalvi, Suely Aoki, Alvamar Tadei, Nicole Puzzi, Monique Lafond, Selma Egrei, Kate Lyra, Kate Hansen, Maria Cláudia, Christiane Torloni, Renée de Vielmond, além das mais coroas e vestidas (e não menos maravilhosas) Norma Bengell, Dina Sfat e Lilian Lemmertz, as duas últimas representando respectivamente a mãe e a mulher de Marcelo. Uma verdadeira seleção nacional. 

No caso de Lemmertz, podemos dizer que é um papel ingrato, e que ela se sai muito bem. A atriz que havia brilhado em As Deusas, que Khouri realizou em 1972, aqui interpreta uma mulher sempre emburrada, infeliz e mal amada, porque deu o azar de se casar com uma das piores versões dos Marcelos de Khouri, um homem antipático, que despreza as mulheres e cuja voz (uma das poucas coisas que conhecemos dele) traz a marca de seu caráter blasé e de seu desdém por aqueles que o cercam. 

Como assim? Não podemos ver o rosto de Marcelo, só ouvimos sua voz? Exatamente. Khouri repete aqui um procedimento muito usado de câmera subjetiva, mas o faz durante todo o filme, exceto nos flashbacks. O truque já havia sido usado, sem muito sucesso, mas com certo interesse, pelo ator Robert Montgomery em seu primeiro trabalho como diretor, A Dama do Lago, de 1947. Era um filme noir no qual só tomávamos conhecimento do rosto do protagonista quando ele se olhava no espelho. Não é exagero dizer que Khouri se saiu bem melhor construindo o filme a partir de tal recurso. Ajudado pela montagem bergmaniana de Luiz Elias, pela fotografia que se aventura pelas sombras, assinada por Antonio Meliande, e pela música vanguardista de Rogério Duprat, Khouri realiza com Eros um de seus filmes mais fortes artisticamente e um dos mais sensuais. 

E como o mundo era muito menos hipócrita em 1981, temos uma cena de sexo implícito entre o pequeno Marcelo (então com cerca de doze anos, num dos inúmeros flashbacks que compõem o filme) e sua professora de inglês. É uma cena de beleza incrível, que hoje faria com que o diretor fosse apedrejado em praça pública, como se um menino na pré-adolescência não sentisse interesse e tesão por uma mulher. 

O mundo era outro, Khouri ainda brilhava com seus filmes muito bem dirigidos e suas musas nuas, e o cinema brasileiro ainda tinha muito do que se orgulhar. Saudades de 1981.

Sérgio Alpendre é crítico de cinema, editor do blog Chip Hazard, redator da Folha de S. Paulo (Guia livros, discos, filmes), do UOL, e da Foco.

 

 

 

Estranho Encontro

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri 


Estranho Encontro
Direção: Walter Hugo Kouri
Brasil, 1958.

Por Ailton Monteiro 

Uma prova de que o talento de Walter Hugo Khouri já nasceu praticamente no início de sua carreira, Estranho Encontro (1958) é uma obra que deve muito à cinematografia americana, especialmente aos filmes noir, mas que também carrega aquela aura que iria percorrer toda a filmografia khouriana. O filme serve até mesmo para provar aos detratores do diretor o quanto o cineasta domina a narrativa cinematográfica com esmero e que preferiu entrar no campo das experimentações em obras posteriores por vontade própria, cada vez mais se aproximando de um cinema autoral.

Seguindo um registro de suspense, Estranho Encontro já começa com o protagonista Marcos encontrando numa estrada deserta uma moça frágil. Ele para o carro e ela, Júlia, é levada por ele até uma casa de campo. Ela não explica a razão de estar fugindo, a não ser mais tarde, num interessante flashback. Enquanto a relação dos dois vai se estreitando a ponto de aumentar o sentimento de cumplicidade para uma paixão, o caseiro começa a achar estranho o comportamento de Marcos, que consegue esconder a moça o quanto pode. Como ele é casado e a mulher (rica e de quem ele depende economicamente) não está em casa, ele procura fazer tudo às escondidas, mas as circunstâncias só atrapalham seus planos.

Um dos pontos altos de um filme já cheio de pontos altos é o já citado flashback, no qual Julia conta seu horror em relação ao marido, que é mais psicológico do que puramente físico. O próprio marido, durante o flashback, não tem o seu rosto totalmente mostrado. A câmera sempre está num ângulo que o evita, tornando-o um personagem vilanesco. Mas não tanto quanto o caseiro, que se mostra a pior das ameaças.

A trilha sonora de Gabriel Migliori acentua os climas de horror ou de desespero mostradas no filme, combinando harmonicamente com os travellings ou close-ups, tão bem utilizados para que esses sentimentos se tornem próximos do espectador. E se a maior parte da filmografia de Khouri parece ser influenciada pelo cinema europeu, em especial por Bergman e Antonioni, Estranho Encontro mostra as suas influências hollywoodianas, até também por ser uma política da companhia Vera Cruz, de tornar o filme brasileiro próximo do cinema americano.

A bela fotografia em preto e branco de Estranho Encontro é de uma beleza singular e que é valorizada pela cópia em dvd, mais limpa do que a de filmes mais recentes do cineasta, que carecem urgentemente de uma restauração e de um lançamento digital. Um diretor tão importante e tão querido como Khouri não merece ter sua obra vista sempre em cópias ruins. Aguardemos a iniciativa da família ou dos produtores para que sua filmografia possa ser apreciada da melhor maneira possível.

Eu

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri  

 

Eu
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1987. 

Por Filipe Chamy 

Uma das principais críticas que fazem ao cinema de Walter Hugo Khouri é seu “estrangeirismo”. 

Sua aproximação (nunca disfarçada) de cineastas como Bergman e Antonioni lhe valeu o desprezo generalizado de boa parte da crítica “politizada”, a quem negar as raízes pátrias é crime de lesa-cultura. Mas quem disse que Khouri nega o Brasil e sua gente? Essa é uma das tantas mentiras sobre o homem e seus filmes. 

Um filme como Eu deveria ser reverenciado, ao invés de procurarem picuinhas tacanhas para atacá-lo ou diminuí-lo. As polêmicas ocas só servem para atrasar a real discussão das coisas: ora, onde Khouri estaria “não servindo” ao seu povo e traindo sua identidade, se é com a atemporalidade e o “cenário universal” — ou seja, uma trama que se passa em qualquer lugar e época — que se combate o envelhecimento precoce das narrativas cinematográficas? Ao contrário de tantos e tantos diretores autores de filmes embolorados por sua raivosa mensagem política, Walter Hugo Khouri preocupava-se em fazer cinema, e por isso sua relevância, daí seu olho perspicaz de realizador. Eu é um filme brasileiro de grande inteligência, e isso é muito mais importante que ser um filme brasileiro. 

Dizer algo não significa escancarar uma realidade social facilmente perceptível aos espectadores. Engodos como Tropa de elite e Meu nome não é Johnny amparam-se nessa blindagem falsamente realista, porém daqui a vinte anos a realidade social brasileira será outra e esses filmes servirão apenas como registro histórico, curiosidade de museu, material didático em determinados cursos etc. Eu não sofre desse problema, pelo contrário. O filme é atualíssimo, mas não é esse o único de seus méritos. 

É preciso reconhecer a beleza de um relato assim despido de moralismos de fachada, conclusões preconceituosas a respeito da vida e da natureza das personagens. Não há vilões, culpados, monstros. Há sim culpa, mas em seu devastador aspecto psicológico, que é justamente o grande mote do filme: o sentimento que o ricaço Marcelo (Tarcísio Meira) nutre por sua jovem filha (uma lindíssima Bia Seidl), ou mais propriamente o remorso de não conseguir controlar esse desejo. 

A sombra do incesto é intensa. Marcelo parece procurar em suas (muitas) mulheres elementos que não só não o fazem se esquecer da filha como reforçam essa presença, aproximam o obcecado da obsessão. Khouri não é estúpido, não resume as mulheres do longa a rascunhos estereotipados de fêmeas “pornochanchadianas”, vulgarizando essa jornada íntima; ao contrário, cada atriz/personagem tem um caráter distinto e crível e isso avança o drama e permite a respiração da encenação — que não fica engessada, teatral, idiotizada. Então são aceitáveis e bem desenvolvidas as mudanças de comportamento por que passa a ala feminina da fita: Monique Lafond (Renata) vai da comodidade à violência, Nicole Puzzi (Lila), da confiança ao medo, Monique Evans (Diana), da aparência ao visceral, Christiane Torloni (Beatriz), da superioridade à confusão, e Bia Seidl (Berenice, a alma do filme, a filha de Marcelo), da euforia à perturbação. A ligação entre todas elas é Marcelo, e presenciando essas experiências dolorosas está o espectador, que Khouri trata com respeito, não zombando de seu olhar “alheio”, demonstrando por meio de planos cuidadosos, direção de atores apurada e sensibilidade ímpar que um filme sobre temas escabrosos como incesto e desagregação familiar pode sim dizer mais sobre seu público do que uma obra encharcada do convencionalismo dos noticiários e seus “grandes temas”. Eu é um trabalho bravo e honesto inclusive por escapar desse reducionismo.

As Filhas do Fogo

Dossiê O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

As Filhas do Fogo
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1978.

Por Sérgio Andrade 

Homem extremamente culto, estudante de filosofia, admirador de escritores como Edgar Allan Poe e Sheridan Le Fanu e dos filmes do produtor Val Lewton, Khouri não poderia deixar de abordar o gênero terror. E o fez de forma brilhante em O Anjo da Noite e neste As Filhas do Fogo, um de seus filmes mais complexos. 

Ana (Rosina Malbouisson) viaja até a serra gaúcha para passar um tempo com a amiga Diana. Ela reclama de uma sensação estranha que está sentindo. Naquela época, final dos anos 70, ainda não se sabia – a doença só se tornou popular nos anos 80 – mas hoje Ana poderia ser diagnosticada como portadora de síndrome ou transtorno do pânico (sensação de pânico permanente, de angústia, sentimento de estar chegando num lugar estranho, de estar fora do mundo, de que algo terrível vai acontecer, de um aperto por dentro do corpo, de estar sendo observada). De fato, Ana imagina ver olhos que a observam em qualquer objeto (sulcos na madeira, duas pétalas de flor, as janelas da frente do avião, duas conchas de um colar, etc.). 

O caso de Diana (a italiana Paola Morra) chega ao paroxismo: órfã de mãe desde cedo, ela nunca conseguiu se desligar da figura materna. Diana mantém viva a lembrança de Silvia (Selma Egrei, atuando divinamente com os olhos) através das histórias que conta sobre aquela mulher silenciosa, ou do álbum de fotos que folheia constantemente. 

Temos então o encontro entre duas garotas problemáticas que se amam, ambas com relações complicadas com as mães (a de Ana, depois de ler uma carta comprometedora de Diana, proibiu a filha de viajar, o que a obrigou a mentir para a família, dizendo que ia para Florianópolis) e instaladas num lugar propício ao isolamento. O avô de Diana construiu um terreno gramado cercado de árvores trazidas da Alemanha, atrás das quais se esconde uma mata fechada e uma alta cerca de arame em volta de tudo para impedir a entrada de estranhos. Diana se identifica com o avô no desejo não ser incomodada, de se isolar na casa com a amiga. 

Essa paz feminina vai ser abalada pela chegada de um homem pedindo um prato de comida (Serafim Gonzáles). Depois de um bate-boca, ele consegue que a empregada Mariana (Maria Rosa) lhe prepare o prato e através dela, de quem se torna amante, irá se infiltrar na casa. 

Outro encontro das amigas será igualmente importante no desenvolvimento da trama. Durante uma caminhada pela mata, as duas encontram Dagmar (Karin Rodrigues), antiga amiga de Silvia, gravando sons. 

Mais tarde elas visitarão Dagmar em sua casa e no momento em que Diana experimenta uma fantasia para uma festa da região, o fantasma de Silvia se materializa pela primeira vez, caminhando pelo sótão, se posicionando na frente da filha diante do espelho, mas apenas Dagmar consegue enxergá-la. 

Depois Dagmar explicará para as moças que ela grava vozes de pessoas mortas. Aqui Khouri aborda a possibilidade de universos paralelos, mas nesse outro mundo imaginado pelo autor as vozes transmitem não a paz esperada, mas inquietação e desespero. Para ele angústia, medo e solidão é o destino trágico da humanidade mesmo na outra vida. Esse é o verdadeiro terror expresso nos olhos de Ana ao ouvir as vozes no gravador. E também ter uma visão na qual descobre que Dagmar e Silvia eram muito mais do que apenas amigas. 

É interessante notar que Diana não se parece fisicamente com a mãe, mas todos dizem que ela lembra muito Silvia (inclusive na preferência sexual). E enquanto essa está sempre presente, seja nos flashbacks, seja nas materializações espectrais, a figura do pai é ausente, embora Diana diga ter puxado a cara de sem vergonha dele e reclame por só querer saber de viajar,  xingando-o de vagabundo. Mas na verdade, ela tampouco consegue se desvencilhar do pai, pois não larga do presente que ele lhe deixou, uma velha e fálica pistola alemã da Primeira Grande Guerra que ele costumava usar dando tiros nas árvores assustando mulher e filha (e que, sintomaticamente, ela usará para humilhar o pedinte, com trágicos resultados). 

Nesse universo predominantemente feminino, a empregada Mariana merece destaque. Ela é a única que parece pressentir que há algo de errado acontecendo. Chega a comentar com o amante da sua preocupação com Diana, que fala de coisas de sua imaginação como se fossem verdade, de coisas que não existem mais, de pessoas mortas como se estivessem vivas. 

Entre as fotos do álbum, Diana guarda uma da irmã mais velha, louca, morta antes da mãe. 

No final, quando o terror se instala de vez, Diana pela primeira vez enxerga a mãe, e ao tentar fugir percebe que não tem como sair da casa. 

Apenas Mariana, carregando a mochila do amado, conseguirá escapar com vida. 

Com música de Rogério Duprat, fotografia de Geraldo Gabriel, direção de arte de Marcos Weinstock, Khouri realizou aqui um de seus filmes mais elaborados visualmente, aproveitando muito bem as locações em Gramado e Canela. Vale destacar também o extraordinário trabalho de som, que faz com que a mata e até objetos inanimados pareçam ter vida própria. 

As Filhas do Fogo é o tipo do filme que a cada revisão descobrem-se novas camadas, sem que talvez nunca se chegue a desvendá-lo por completo.

Forever

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

 

Forever
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1991.

Por Adilson Marcelino 

Se é fato para muitos que alguns dos últimos filmes de Walter Hugo Khouri são inferiores aos seus filmes até os anos 80, é fato também que ainda assim, por mais conturbadas que tenham sido essas produções, esses mesmos filmes mantiveram o olhar personalíssimo do cineasta e jamais perdem em interesse.

Forever é o título mais fraco de toda a filmografia Khouriana, e não é  preciso ter nenhuma bola de cristal para localizar onde possa estar o ninho da serpente. Vale a pena dar uma olhada na ficha técnica para vermos um inacreditável pool de roteiristas, cabendo espaço até para o co-produtor italiano do filme, Augusto Caminito – assinam também o roteiro Lauro César Muniz e Anthony Foutz, ao lado de Khouri.  Ou seja, nada do clássico “roteiro e direção de Walter Hugo Khouri”

Como se não bastasse esse loteamento, há ainda os diálogos em inglês e a equivocada escalação da atriz italiana Eva Grimaldi para ser a Berenice da vez. Eva carrega nas tintas onde se pede sutileza, faz carão até para beber um copo de água, e cada vez que dos seus lábios –  dublados?  – saem expressões como “good night mother”, o frio percorre nossa espinha em onda de mais pura canastrice.

Co-produção Brasil/Itália com olho aberto para o mercado externo, Forever se vale de um elenco curioso, juntando brasileiros e estrangeiros, para trazer ao centro da cena mais uma vez o personagem Marcelo, elemento e signo fundamental da obra khouriana.

Aqui, o filme já começa com a morte do personagem, que é encontrado na cama, possivelmente morto enfartado – seria uma morte pós-gozo? pensam em voz alta policiais, o advogada da família, e mesmo a filha Berenice. Esta última demonstra ainda mais certeza sobre isso, pois diz ter sido avisada da morte do pai pelo telefonema de uma misteriosa voz de mulher.

A partir daí, a trama é toda descortinada pela reconstrução do olhar de Berenice, e, por isso, nunca se sabe se o mostrado realmente aconteceu ou é apenas a personificação do desejo irrefreável da filha pelo pai.

Marcelo, como se sabe, pelo menos para  quem conhece um pouco a obra de Khouri, é o milionário egocêntrico que procura obsessivamente e inutilmente na satisfação sexual a resposta para sua angústia existencial. Presente em vários filmes, vários atores já lhe deram rosto: Paulo José, Wilfred Khouri, Fernando Amaral, Roberto Maya (três vezes), Tarcísio Meira, Antônio Fagundes. Em Forever a vez é do ator americano Bem Gazzara.

Gazzara tem uma elegância nata e ainda que não faça um Marcelo memorável, também não chega a comprometer o resultado como Eva Grimaldi faz interpretando sua filha Berenice – que também já foi vivida em outros filmes por outras atrizes, como Nicole Puzzi e Bia Seidl.

Como não poderia deixar de ser em um filme de Khouri, há toda uma fauna feminina de belas mulheres às voltas do protagonista, com pelo menos duas delas apropriadíssimas ao universo do cineasta: a francesa Corinne Cléry – que no cinema pátrio personificou a mítica O de A História de O, em versão dirigida por Just Jaeckin em 1975 -, como uma mulher casada que se envolve com Marcelo; e a italiana Gioia Scola, como a amiga de Berenice que cai nas garras do garanhão.

Já a italiana Janet Agren não tem muitas chances como a esposa traída de Marcelo, o mesmo acontecendo com Vera Fischer, que faz outra de suas amantes. Forever marca ainda a estreia cinematográfica de Ana Paula Arósio, como Berenice na adolescência.

Mônica e a Sereia do Rio

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri  

Mônica e a sereia do rio
Direção: Maurício de Souza
Direção de cenas ao vivo: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1986. 

Por Filipe Chamy  

O Brasil, em termos de cinema de animação, não engatinha: rasteja. 

No decorrer das últimas décadas pudemos ver alguns esforços isolados e louváveis persistências no sentido de fazer desse estilo de arte um cinema um pouco menos “de exceção”, mas sempre caminhamos no sentido contrário ao ideal, insistindo em objetivos errados — como o de fazer a apologia do ufanismo (com Rio e Brasil animado temos dois aparentes exemplares dessa tendência), ao invés de simplesmente procurar fazer um bom trabalho. Nosso país não nega a influência católica, ao provar que não deseja conquistar pela sinceridade do discurso, mas simplesmente catequizar o espectador. 

Esse problema, do cinema-panfleto, eu já o discuti muitas vezes neste espaço. É crônico e não parece que nos livraremos cedo de tal entrave à liberdade de criação e veiculação artística. 

Mônica e a sereia do rio, por sorte, não sofre nem sombra de um mal parecido. É um média-metragem bastante simpático e que nada tem de ofensivo ou pernóstico. Remete aos bons tempos do descompromisso das revistas de Mauricio de Sousa, pois hoje é sabido que ele se interessa mais por campanhas sociais, de conscientização e inclusão, que pela qualidade e inovação dos produtos que assina. Neste filme não há o “cartilhismo” tão facilmente encontrável em quaisquer de seus gibis atuais, o que é uma felicidade tremenda: aqui temos apenas histórias fantasiosas estreladas por crianças, e é nisso que podemos enxergar a força da narrativa. Ou das narrativas, pois o filme é episódico e possui diversos núcleos narrativos. 

A animação, propriamente dita, não é exemplar, mas está longe do aspecto tosco das tristemente célebres criações da Hanna Barbera. As limitações técnicas dos desenhos apresentados em Mônica são claras desde o início, porém contornadas pela singeleza dos movimentos e dos cenários e das expressões faciais das personagens. A dublagem delicada contribui também para um programa agradável. Ou seja: é um desenho limitado, mas nos limites do aceitável (e do satisfatório). 

O mais curioso da fita é sua parte live action, dirigida pelo icônico Walter Hugo Khouri. Sim: Khouri foi filmar em Goiás as cenas “reais” do filme, onde Mônica contracena com a então popular Tetê Espíndola. São passagens que propõem uma comunhão intensa com a natureza, com a vida e com as crianças, elementos basilares para uma “mensagem” positiva a ser passada aos jovens que assistirem a este média. Mas sem hipocrisia: Khouri filma com competência pequenos espaços cenográficos, e com isso dá ao filme uma dimensão mais séria e respeitável à encenação, fazendo com que Mônica deixe de ser uma criatura “de papel” e vire uma menina de verdade, interagindo com o cenário e seus intérpretes. Não à toa, a despeito de gags divertidas nas esquetes com os outros personagens, Mônica e a sereia do rio é sempre referenciado como “o filme da Mônica com a Tetê Espíndola”, mostrando que teve êxito a meta de Khouri de tornar a coisa toda mais coesa, dar unidade a uma obra que desejava ser dispersa. Então temos uma equipe animando Mônica, Cebolinha, Cascão, Anjinho etc. e também temos Khouri a comandar um pouco a razão de tudo, que é a entrada de Mônica em um mundo fantástico onde é tudo tridimensional, real. Aí fica mais fácil integrar os relatos contados pela garota, a saber: uma gruta (literalmente) dos diabos, a saga do jacaré “lagartixa”, uma releitura de O corcunda de Notre-Dame e a tal sereia-título, que rivaliza moderadamente com o místico avatar da própria Tetê Espíndola, a todo instante chamada por Mônica de “fadinha”. Mônica e a sereia do rio é um mergulho prazeroso nas águas de uma infância talvez extinta.

Noite Vazia

Dossiê de Aniversário – O Autor  – Walter Hugo Khouri

 

Noite Vazia
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1964.

Por Edu Jancz 

Realizado em 1964 (data emblemática para o Brasil), Noite Vazia revela um diretor, Walter Hugo Khouri, completo,  com estilo próprio.

A narrativa de Noite Vazia foge ao realismo do Cinema Novo. Bom? Mau? É Walter Hugo Khouri. O seu contar se assemelha ao de Michelangelo Antonioni. O seu tempo (timing) é muito particular. Bom para a diversidade do cinema brasileiro.

O enredo. Luis (Mario Benvenuti) -casado, rico, infeliz no casamento e com a vida-  encontra Nelson (Gabriele Tinti) – saindo de um caso, inseguro, depressivo – , e os dois saem pela noite em busca de aventuras, mulheres para uma noite que promete farras. Uma noite cheia. Encontram Mara (Odete Lara) e Cristine (Norma Bengell), duas escorts, ou garotas de programa de luxo.

A noite cheia acontece no apartamento que Luis tem para o “abate de suas coelhinhas”. Elas são designadas numericamente. Já deu para perceber a cabeça e personalidade do nosso Luis. Mara e Cristine recebem, respectivamente, os números 367 e 368. Mas nem tudo será tão simples.

Luis é o dominador entre os homens. Mara é a dominadora entre as mulheres. Entre os dois um duelo de força nasce e termina naquela noite. Sem vencedores. Só rancores. Os submissos, Nelson e Cristine, vão descobrir como unir forças para ver uma luz em suas vidas. Um momento de prazer, de amor. Amor, algo que os dois não sentem há muito tempo.  E algumas respostas para os seus dias vazios.

Noite Vazia é um filme honesto sexualmente. Na época (triste e negra ditadura), teve problemas com a censura. Quem não teve? E certamente alguns moralistas o classificaram como um filme forte, ousado. É apenas um filme correto. Afinal, são dois casais que escolhem uma noite para fazer sexo, sem limites. Até estarem satisfeitos.

É importante ver Noite Vazia como um filme de Walter Hugo Khouri. O tempo em sua narrativa é um elemento fundamental. É necessário respeitá-lo.  Dúvidas e incertezas dos personagens recebem primeiros planos longos, que realçam seus sentimentos. O silêncio constante dos personagens Nelson e Cristine  é visto por uma câmera contemplativa e paciente, que dá ao espectador o tempo necessários para ler todas as indagações, vontade de desistir até da vida, esperanças.

 

BASTIDORES –  Conversei com o mestre e amigo Alfredo Sternheim, que foi assistente de direção de Walter Hugo Khoury em Noite Vazia. Ele me contou informações importantes sobre os bastidores que divido com vocês:

“Lilian Lemmertz foi cogitada para o papel de Odete Lara, mas Lilian não tinha ainda nenhuma experiência de cinema. Eu e o Khouri ficamos deslumbrados com o seu talento no palco. Ela, depois, recusou, porque se considerava imatura para tamanha responsabilidade. Mas pediu licença para ir à filmagem. E foi com a filhinha  Julia Lemmertz , com uns 2 anos.

Francisco di Franco já estava acertado para fazer o segundo personagem masculino, mas  Khouri resolveu escalar o Gabriele Tinti, então marido de Norma. Ela vinha de uma brilhante carreira na Itália (filmes de Lattuada, Montaldo e outros).

Outro que debutou em Noite Vazia como ator foi David Cardoso. Ele foi recomendado pelo Glauco Laurelli como continuísta, mas no meio da filmagem, quando viu que existia um personagem que podia interpretar, pediu a mim e a Norma para “fazer” a cabeça do Khouri. Deu certo o lobby.

Noite Vazia chegou a ser proibido pela censura, mas depois conseguiram liberar sem cortes.”

 

O Anjo da Noite

Dossiê O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

 

O Anjo da Noite
Dir. Walter Hugo Khouri
Brasil, 1974. 

Por Eduardo Aguilar 

Cobravam de Khouri um excesso de classicismo, alguns até o achavam acadêmico, entendiam que seu cinema ignorava as questões sociais, seria um cinema burguês focado em dramas existências de uma elite pseudo-intelectual. Pois bem, então Khouri fez  As Amorosas, no qual abordou as questões existenciais de um rapaz classe média baixa. Há, inclusive. a violência social na seqüência com Stênio Garcia, há as ambições que movem essas pessoas, no caso, a personagem de Jacqueline Myrna, mas isso não convenceu a ninguém, pois o “olhar khouriano” era mais largo ainda que parecesse mais estreito, e ele insistia nas questões existenciais se sobrepondo as sociais. Mais adiante, Khouri realizou O Palácio dos Anjos, e, novamente, analisou o viés da ambição das classes mais baixas, confrontando com a manipulação e exploração dos que detêm o poder, mas indo muito além através de uma profunda dissecação das entranhas do poder pelo caminho do sexo. E nada melhor do que narrar essa história dentro de um bordel, mas mostrando a possibilidade da mulher subverter seu clássico papel de submissão e utilizar o jogo de aparências para reverter o processo e confundir os homens dando à eles a falsa noção de que manipulam quando na verdade são manipulados. Mas novamente Khouri não convenceu seus detratores, e tanto em As Amorosas como em O Palácio dos Anjos, a narrativa não é usual, a montagem não é clássica, enfim, a subversão também está presente na forma, mas continuava sendo visto como um cineasta burguês, de valores burgueses. 

No meu modo de entender, Khouri foi, dos cineastas brasileiros, um dos mais felizes na análise das classes menos favorecidas, ele não se compadecia delas, mas ao mesmo tempo tinha respeito e afeto por essas pessoas. A cena dos bolinhos de chuva em Noite Vazia é primorosa sob esse aspecto, o social está presente sem o discurso, sem a manipulação, mas tem a percepção do entorno, reconhece que uma pessoa é feita “também e inclusive” pelo ambiente em que vive. Em Estranho Encontro temos o personagem de Sergio Hingst, o caseiro que na ausência da patroa ocupa a sua posição, se serve de um drinque ao piano. Ou seja, a ambição pelo poder que reside no ser humano é a melhor forma de manipulação que permite perdurar as diferenças de classe em uma sociedade. 

E então, surge o O Anjo da Noite

O prólogo deste texto pode parecer longo, mas acredito que necessário, O Anjo da Noite é, no meu entender, o filme de Khouri que melhor resolve essas questões a respeito de um cinema que busca, acima do social, inventariar a alma humana, mas não sem ignorar a mesquinhez que envolve as disputas de classe. No entanto, Khouri opta por isolar os menos favorecidos, um vigia noturno e uma babá. Ela é uma universitária de origem classe média baixa que busca pagar sua faculdade com bicos, e ele, um homem que em razão de uma doença aceita sua condição de eterno vigia do patrão. Esses dois personagens irão passar uma noite juntos ao lado dos filhos de um casal abastado que vive em um mundo totalmente diverso, em festas, jantares luxuosos, etc. 

A babá é vivida por Selma Egrei na medida certa entre uma sensualidade despojada e uma inteligência que demonstra sua consciência sobre aquele universo asfixiante em que se encontra, eu diria que é a versão feminina do personagem de Paulo José em As Amorosas; e o vigia noturno é interpretado magistralmente por Eliezer Gomes, através de uma atuação que trabalha apenas no campo do inconsciente a percepção da angústia e mediocridade a que está condenado o personagem do vigia, viver “servindo” os outros. Viver a sombra. Neste sentido, fica evidente o contraponto estabelecido com o personagem de Selma Egrei, já que ela busca alargar seus horizontes. 

Num processo lento e gradual, Khouri vai mostrando a crescente loucura do personagem de Eliezer Gomes. Um momento em especial pode certamente figurar entre as maiores cenas do nosso cinema, é quando o vigia brinca com uma das crianças de “bang bang”, o menino com seu revólver de brinquedo e o vigia com sua arma real. Trata-se de um cena extremamente poderosa, que combina com rara felicidade a escolha dos planos somada as atuações e a exploração do ambiente com um resultado atmosférico surpreendente e uma tensão que traduz com perfeição a presença da loucura naquela casa. 

O maior acerto de Khouri neste trabalho é justamente a escolha da casa em questão como locação, uma mansão que tem no teto de sua sala a forma da tampa de um esquife. Dessa forma, os personagens estão enclausurados em um caixão, a loucura toma conta deste ambiente, a casa vira personagem e não poderia haver gênero mais acertado do que o terror para contar esta trama. Por conta destas escolhas, Khouri abusa da liberdade em relação aos recursos de linguagem, a câmera na mão; os enquadramentos com lentes grande-angulares ajudam a enfatizar o clima angustiante ao mesmo tempo em que burlam a narrativa tradicional, e, ainda por cima, resolvem as questões de uma produção de baixo orçamento. Ou seja, tudo muito bem orquestrado: forma X conteúdo X conceito. Resultado: uma obra-prima sobre os sentimentos mais recônditos da alma humana, e como se só fosse possível encontrar essa alma, louca ainda que seja, naqueles que vivem à margem, que vivem a agonia sem ter consciência da mesma, mas quando tomados por ela, tem como resposta o ÓDIO!

 

Eduardo Aguilar é cineasta e professor de audiovisual.