Eros, O Deus do Amor

Dossiê de Anoversário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

 

Eros – O Deus do Amor
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1981. 

Por Sérgio Alpendre 

Khouri é um diretor conhecido pelo desfile de mulheres belas e sensuais em seus filmes, mas o que vemos em Eros é coisa de outro mundo. Sob o pretexto de mostrar um balanço dos casos amorosos de seu alter-ego de sempre, o garanhão Marcelo, as beldades vão aparecendo na tela em ritmo tão alucinante que parece mais um concurso de beleza do cinema nacional da época. Marcelo revisita o histórico de conquistas a partir de uma pergunta de sua última amante, que estava curiosa para saber de seu passado mulherengo. 

Denise Dumont, Patrícia Scalvi, Suely Aoki, Alvamar Tadei, Nicole Puzzi, Monique Lafond, Selma Egrei, Kate Lyra, Kate Hansen, Maria Cláudia, Christiane Torloni, Renée de Vielmond, além das mais coroas e vestidas (e não menos maravilhosas) Norma Bengell, Dina Sfat e Lilian Lemmertz, as duas últimas representando respectivamente a mãe e a mulher de Marcelo. Uma verdadeira seleção nacional. 

No caso de Lemmertz, podemos dizer que é um papel ingrato, e que ela se sai muito bem. A atriz que havia brilhado em As Deusas, que Khouri realizou em 1972, aqui interpreta uma mulher sempre emburrada, infeliz e mal amada, porque deu o azar de se casar com uma das piores versões dos Marcelos de Khouri, um homem antipático, que despreza as mulheres e cuja voz (uma das poucas coisas que conhecemos dele) traz a marca de seu caráter blasé e de seu desdém por aqueles que o cercam. 

Como assim? Não podemos ver o rosto de Marcelo, só ouvimos sua voz? Exatamente. Khouri repete aqui um procedimento muito usado de câmera subjetiva, mas o faz durante todo o filme, exceto nos flashbacks. O truque já havia sido usado, sem muito sucesso, mas com certo interesse, pelo ator Robert Montgomery em seu primeiro trabalho como diretor, A Dama do Lago, de 1947. Era um filme noir no qual só tomávamos conhecimento do rosto do protagonista quando ele se olhava no espelho. Não é exagero dizer que Khouri se saiu bem melhor construindo o filme a partir de tal recurso. Ajudado pela montagem bergmaniana de Luiz Elias, pela fotografia que se aventura pelas sombras, assinada por Antonio Meliande, e pela música vanguardista de Rogério Duprat, Khouri realiza com Eros um de seus filmes mais fortes artisticamente e um dos mais sensuais. 

E como o mundo era muito menos hipócrita em 1981, temos uma cena de sexo implícito entre o pequeno Marcelo (então com cerca de doze anos, num dos inúmeros flashbacks que compõem o filme) e sua professora de inglês. É uma cena de beleza incrível, que hoje faria com que o diretor fosse apedrejado em praça pública, como se um menino na pré-adolescência não sentisse interesse e tesão por uma mulher. 

O mundo era outro, Khouri ainda brilhava com seus filmes muito bem dirigidos e suas musas nuas, e o cinema brasileiro ainda tinha muito do que se orgulhar. Saudades de 1981.

Sérgio Alpendre é crítico de cinema, editor do blog Chip Hazard, redator da Folha de S. Paulo (Guia livros, discos, filmes), do UOL, e da Foco.

 

 

 

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