Eu

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri  

 

Eu
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1987. 

Por Filipe Chamy 

Uma das principais críticas que fazem ao cinema de Walter Hugo Khouri é seu “estrangeirismo”. 

Sua aproximação (nunca disfarçada) de cineastas como Bergman e Antonioni lhe valeu o desprezo generalizado de boa parte da crítica “politizada”, a quem negar as raízes pátrias é crime de lesa-cultura. Mas quem disse que Khouri nega o Brasil e sua gente? Essa é uma das tantas mentiras sobre o homem e seus filmes. 

Um filme como Eu deveria ser reverenciado, ao invés de procurarem picuinhas tacanhas para atacá-lo ou diminuí-lo. As polêmicas ocas só servem para atrasar a real discussão das coisas: ora, onde Khouri estaria “não servindo” ao seu povo e traindo sua identidade, se é com a atemporalidade e o “cenário universal” — ou seja, uma trama que se passa em qualquer lugar e época — que se combate o envelhecimento precoce das narrativas cinematográficas? Ao contrário de tantos e tantos diretores autores de filmes embolorados por sua raivosa mensagem política, Walter Hugo Khouri preocupava-se em fazer cinema, e por isso sua relevância, daí seu olho perspicaz de realizador. Eu é um filme brasileiro de grande inteligência, e isso é muito mais importante que ser um filme brasileiro. 

Dizer algo não significa escancarar uma realidade social facilmente perceptível aos espectadores. Engodos como Tropa de elite e Meu nome não é Johnny amparam-se nessa blindagem falsamente realista, porém daqui a vinte anos a realidade social brasileira será outra e esses filmes servirão apenas como registro histórico, curiosidade de museu, material didático em determinados cursos etc. Eu não sofre desse problema, pelo contrário. O filme é atualíssimo, mas não é esse o único de seus méritos. 

É preciso reconhecer a beleza de um relato assim despido de moralismos de fachada, conclusões preconceituosas a respeito da vida e da natureza das personagens. Não há vilões, culpados, monstros. Há sim culpa, mas em seu devastador aspecto psicológico, que é justamente o grande mote do filme: o sentimento que o ricaço Marcelo (Tarcísio Meira) nutre por sua jovem filha (uma lindíssima Bia Seidl), ou mais propriamente o remorso de não conseguir controlar esse desejo. 

A sombra do incesto é intensa. Marcelo parece procurar em suas (muitas) mulheres elementos que não só não o fazem se esquecer da filha como reforçam essa presença, aproximam o obcecado da obsessão. Khouri não é estúpido, não resume as mulheres do longa a rascunhos estereotipados de fêmeas “pornochanchadianas”, vulgarizando essa jornada íntima; ao contrário, cada atriz/personagem tem um caráter distinto e crível e isso avança o drama e permite a respiração da encenação — que não fica engessada, teatral, idiotizada. Então são aceitáveis e bem desenvolvidas as mudanças de comportamento por que passa a ala feminina da fita: Monique Lafond (Renata) vai da comodidade à violência, Nicole Puzzi (Lila), da confiança ao medo, Monique Evans (Diana), da aparência ao visceral, Christiane Torloni (Beatriz), da superioridade à confusão, e Bia Seidl (Berenice, a alma do filme, a filha de Marcelo), da euforia à perturbação. A ligação entre todas elas é Marcelo, e presenciando essas experiências dolorosas está o espectador, que Khouri trata com respeito, não zombando de seu olhar “alheio”, demonstrando por meio de planos cuidadosos, direção de atores apurada e sensibilidade ímpar que um filme sobre temas escabrosos como incesto e desagregação familiar pode sim dizer mais sobre seu público do que uma obra encharcada do convencionalismo dos noticiários e seus “grandes temas”. Eu é um trabalho bravo e honesto inclusive por escapar desse reducionismo.

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