As Filhas do Fogo

Dossiê O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

As Filhas do Fogo
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1978.

Por Sérgio Andrade 

Homem extremamente culto, estudante de filosofia, admirador de escritores como Edgar Allan Poe e Sheridan Le Fanu e dos filmes do produtor Val Lewton, Khouri não poderia deixar de abordar o gênero terror. E o fez de forma brilhante em O Anjo da Noite e neste As Filhas do Fogo, um de seus filmes mais complexos. 

Ana (Rosina Malbouisson) viaja até a serra gaúcha para passar um tempo com a amiga Diana. Ela reclama de uma sensação estranha que está sentindo. Naquela época, final dos anos 70, ainda não se sabia – a doença só se tornou popular nos anos 80 – mas hoje Ana poderia ser diagnosticada como portadora de síndrome ou transtorno do pânico (sensação de pânico permanente, de angústia, sentimento de estar chegando num lugar estranho, de estar fora do mundo, de que algo terrível vai acontecer, de um aperto por dentro do corpo, de estar sendo observada). De fato, Ana imagina ver olhos que a observam em qualquer objeto (sulcos na madeira, duas pétalas de flor, as janelas da frente do avião, duas conchas de um colar, etc.). 

O caso de Diana (a italiana Paola Morra) chega ao paroxismo: órfã de mãe desde cedo, ela nunca conseguiu se desligar da figura materna. Diana mantém viva a lembrança de Silvia (Selma Egrei, atuando divinamente com os olhos) através das histórias que conta sobre aquela mulher silenciosa, ou do álbum de fotos que folheia constantemente. 

Temos então o encontro entre duas garotas problemáticas que se amam, ambas com relações complicadas com as mães (a de Ana, depois de ler uma carta comprometedora de Diana, proibiu a filha de viajar, o que a obrigou a mentir para a família, dizendo que ia para Florianópolis) e instaladas num lugar propício ao isolamento. O avô de Diana construiu um terreno gramado cercado de árvores trazidas da Alemanha, atrás das quais se esconde uma mata fechada e uma alta cerca de arame em volta de tudo para impedir a entrada de estranhos. Diana se identifica com o avô no desejo não ser incomodada, de se isolar na casa com a amiga. 

Essa paz feminina vai ser abalada pela chegada de um homem pedindo um prato de comida (Serafim Gonzáles). Depois de um bate-boca, ele consegue que a empregada Mariana (Maria Rosa) lhe prepare o prato e através dela, de quem se torna amante, irá se infiltrar na casa. 

Outro encontro das amigas será igualmente importante no desenvolvimento da trama. Durante uma caminhada pela mata, as duas encontram Dagmar (Karin Rodrigues), antiga amiga de Silvia, gravando sons. 

Mais tarde elas visitarão Dagmar em sua casa e no momento em que Diana experimenta uma fantasia para uma festa da região, o fantasma de Silvia se materializa pela primeira vez, caminhando pelo sótão, se posicionando na frente da filha diante do espelho, mas apenas Dagmar consegue enxergá-la. 

Depois Dagmar explicará para as moças que ela grava vozes de pessoas mortas. Aqui Khouri aborda a possibilidade de universos paralelos, mas nesse outro mundo imaginado pelo autor as vozes transmitem não a paz esperada, mas inquietação e desespero. Para ele angústia, medo e solidão é o destino trágico da humanidade mesmo na outra vida. Esse é o verdadeiro terror expresso nos olhos de Ana ao ouvir as vozes no gravador. E também ter uma visão na qual descobre que Dagmar e Silvia eram muito mais do que apenas amigas. 

É interessante notar que Diana não se parece fisicamente com a mãe, mas todos dizem que ela lembra muito Silvia (inclusive na preferência sexual). E enquanto essa está sempre presente, seja nos flashbacks, seja nas materializações espectrais, a figura do pai é ausente, embora Diana diga ter puxado a cara de sem vergonha dele e reclame por só querer saber de viajar,  xingando-o de vagabundo. Mas na verdade, ela tampouco consegue se desvencilhar do pai, pois não larga do presente que ele lhe deixou, uma velha e fálica pistola alemã da Primeira Grande Guerra que ele costumava usar dando tiros nas árvores assustando mulher e filha (e que, sintomaticamente, ela usará para humilhar o pedinte, com trágicos resultados). 

Nesse universo predominantemente feminino, a empregada Mariana merece destaque. Ela é a única que parece pressentir que há algo de errado acontecendo. Chega a comentar com o amante da sua preocupação com Diana, que fala de coisas de sua imaginação como se fossem verdade, de coisas que não existem mais, de pessoas mortas como se estivessem vivas. 

Entre as fotos do álbum, Diana guarda uma da irmã mais velha, louca, morta antes da mãe. 

No final, quando o terror se instala de vez, Diana pela primeira vez enxerga a mãe, e ao tentar fugir percebe que não tem como sair da casa. 

Apenas Mariana, carregando a mochila do amado, conseguirá escapar com vida. 

Com música de Rogério Duprat, fotografia de Geraldo Gabriel, direção de arte de Marcos Weinstock, Khouri realizou aqui um de seus filmes mais elaborados visualmente, aproveitando muito bem as locações em Gramado e Canela. Vale destacar também o extraordinário trabalho de som, que faz com que a mata e até objetos inanimados pareçam ter vida própria. 

As Filhas do Fogo é o tipo do filme que a cada revisão descobrem-se novas camadas, sem que talvez nunca se chegue a desvendá-lo por completo.

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