As Feras

Dossiê de Aniversário: O Autor  – Walter Hugo Khouri 


As Feras
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1995 (lançado em 2001).

 Por Vlademir Lazo 

É difícil permanecer indiferente diante de um filme como As Feras. Trata-se de um trabalho que sintetiza toda a obra de seu autor. Walter Hugo Khouri durante muitos anos sofreu de uma certa tendência a reiteração estética e de conteúdo que aos poucos foi retirando parte da vitalidade de seus últimos filmes (mesmo admiradores reconhecem que sua carreira poderia ter ganho um pouco mais se de vez em quando tivesse aceitado algumas encomendas). Pois bem, As Feras é um projeto que se desenvolveu em dois momentos distintos na trajetória de Khouri e do cinema brasileiro em geral. O filme nasceu como um curta rodado no mesmo ano e cenário das filmagens de Amor, Estranho Amor, em 1981, em torno de um garoto (Paulo) perturbado e voyeur diante das relações de sua prima Sônia (Lúcia Veríssimo) com Sylvie (Monique Lafond) num período de férias no palacete em que vive o casal de meninas. Algumas das melhores seqüências filmadas por Khouri estão nesses fragmentos, que só foram retomados em 1995, quando o cineasta concebeu um novo projeto com o personagem do menino já adulto, utilizando as cenas antigas arquivadas como flashbacks do protagonista masculino. 

Problemas causados por brigas do diretor com o produtor Aníbal Massaini fizeram com que o filme apenas fosse lançado em 2001. Nesse meio tempo Khouri dirigiu Paixão Perdida, o último que ele filmou, porém As Feras foi o seu filme derradeiro a ser lançado nos cinemas, saindo-se melhor como um filme crepuscular e terminando por se converter no seu testamento cinematográfico. Paixão Perdida (um de seus trabalhos mais fracos) dava por encerrada a trajetória de seu alter-ego Marcelo e as obsessões com conflitos edipianos recorrentes na carreira do cineasta. As Feras (o melhor de seus últimos filmes) desenvolvia-se num universo mais amplo e instigante em torno das relações afetivas e físicas entre homens e mulheres. 

Não se trata, que fique bem claro, de um filme de todo bem resolvido. Há muitos problemas, a começar por Cláudia Liz, que nem sempre corresponde em cena nos momentos em que mais se exige dela. Os diálogos são bons, mas as vezes resvalam em jargões psicanalíticos ou empolados que tanto aborrecem os que não possuem paciência com o estilo do diretor. Embora não seja uma obra-prima, As Feras existe num contexto à parte de qualquer corrente ou tendência que tenha se tentado formar no cinema brasileiro das últimas duas décadas, como o do caduco e famigerado conceito de “retomada”. Um filme de mestre que não faz feio diante de outros grandes filmes de veteranos como O Viajante, de Paulo César Saraceni, Serras da Desordem, de Andréa Tonacci, Encarnação do Demônio, de José Mojica Morins, ou dos mais recentes trabalhos de Carlos Reichenbach e Julio Bressane. 

Só consigo lembrar de um outro diretor que superasse Khouri no talento de transcender e extrair densidade dramática ao filmar belos corpos femininos nus se digladiando com outros corpos de homens ou de mulheres numa cama ou fora dela: o francês Jean-Claude Brisseau. Não é difícil se enxergar nos personagens de As Feras. O protagonista masculino, quarentão, pode não convencer como professor de psicologia na pele de Nuno Leal Maia, só que este deixa de ser um problema a partir do momento em que a sua profissão já não é do interesse do filme, com somente o personagem perdendo-se em meio a um covil de feras e perplexo com sua corrente posição. 

Poucos filmes brasileiros contemporâneos traduzem uma igual sensação de deslocamento. É um percurso de cerca de quinze anos que leva os fragmentos de um trabalho antigo para dentro de um filme posterior do seu autor, mas nessa curta passagem de tempo muita coisa no mundo se expandiu e se transformou, é o que o cineasta nos parece dizer. Khouri faz milagre num filme que transcorre quase todo o tempo durante o dia e noite de ensaio de uma peça teatral. As Feras é um filme que descreve um estágio em que as mulheres já não são mais dependentes dos homens, privilegiadas, saciam-se entre elas próprias com grande liberdade. Impossíveis de serem controladas, não escondem, pelo contrário, fazem questão de mostrar sua condição livre. Questionam, teorizam, filosofam. Escrevem artigos, fazem filmes, peças de teatro ou televisão. Khouri, que antes já filmara deusas, agora filma esfinges que devoram e não se deixam decifrar. Feras que se libertam de suas jaulas e passam a deter o controle do universo. Não deixa de ser um passo natural e um ponto de chegada na obra de Khouri, desde os seus primeiros filmes profundamente interessado em questões femininas. As Feras por sua vez acaba se mostrando um filme de um artista afogado. 

Nesse processo, Khouri incorre no risco de ou fetichizar as suas figuras ou condená-las de imediato. O cineasta não se permite cometer quaisquer desses erros. O filme parece tratar de uma completa queda da civilização masculina, ou ao menos de alguém que se sente dispensável, com um sereno e calmo desespero cuja tensão só explode no final. Há o discurso com certo rancor e ressentido de Wilson (Luiz Maçãs, prematuramente falecido) – o outro único personagem masculino do filme em um duelo massacrante contra uma maioria esmagadora de mulheres –, abandonado e dividido entre o prazer e a frustração de compartilhar da intimidade das mulheres mais eróticas que conheceu na vida (sutis, ambíguas, suaves), com quem disputa (e perde) a atenção e interesse das outras. Um personagem que vai crescendo ao longo da projeção até incorporar o papel da peça dentro do filme no final. Ou então o femismo da personagem de Monique Lafond, que atinge o auge nas cenas em que o primo de sua amante é submetido a humilhações e flagelações. Mas é preciso dizer que Khouri em momento algum compactua com essas atitudes radicais dos personagens, tanto vítimas como pequenos monstros isolados dentro de uma conjuntura bem mais ampla. 

As Feras é um trabalho em que o cineasta se encontra mais do que nunca exposto. É um filme de crise, feito no meio da crise – inclusive do colapso da produção cinematografia brasileira da primeira metade dos anos noventa –, que leva esta crise ao limite do seu impasse. A própria misoginia aqui é colocada em crise, com a patetice do personagem de Luiz Maçãs, ou os medos e inseguranças de Paulo, a inveja masculina diante do gozo feminino que pode se prolongar por horas em contraponto a ejaculação do homem normalmente tão fugaz. Um trabalho sufocante, amargo e bastante negativo. A sexualidade feminina em Khouri pode ser tanto uma questão em aberto quanto um segredo escancarado. No jogo de espelhos que o diretor lentamente vai armando, ele pode até se compadecer da “tragédia inexorável do macho”, porém ele também ama as suas fêmeas que decidem quando querem se entregar umas às outras. Uma bela despedida e retirada de cena do grande cineasta.

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