24 Horas de Sexo Explícito / 48 Horas de Sexo Alucinante

Especial Boca Pornô – 30 anos

24 Horas de Sexo Explícito
Direção: José Mojica Marins
Brasil, 1985.

48 Horas de Sexo Alucinante
Direção: José Mojica Marins
Brasil, 1987.

Por Vlademir Lazo

A visão de um público numeroso que torce o nariz diante dos filmes realizados pela antiga Boca do Lixo, desprezando-os como fitas artisticamente pobres e recheadas de sexo, só seria verídica se considerássemos apenas o ciclo final da produtora paulista, o de sexo explícito no decorrer da década de oitenta. Seguir em frente com essa opinião é desconsiderar um outro período bem mais rico e proveitoso que foi o dos anos 60 até mais ou menos 1982 – quando o sexo explicito tomava conta do mercado e filmes com apenas sequências eróticas (chamarizes de bilheteria, mas que não raro permitiam certos diretores de rodarem filmes por vezes notáveis), em tempos de pós-Abertura, já não eram mais suficiente para atender a vontade irrefreável de um público que, à época, finalmente se via em liberdade para consumir o erotismo no grau que desejasse. O que gerou não apenas uma corrida ao pote de ouro como uma necessidade de sobrevivência dos profissionais de cinema na época, desde produtores e roteiristas até os técnicos e atores/atrizes (estes, em sua maioria, acabaram na miséria ou morrendo de doenças venéreas), o que inclui os cineastas que tiveram de aderir ao pornô, muitos contra a própria vontade. Com José Mojica Marins não foi diferente.

Os filmes dessa fase, quando muito, valem como curiosidade histórica em se tratando de um período difícil para o cinema brasileiro, ou no caso dos que Mojica realizou, interessam unicamente aos completistas e pesquisadores da obra do criador de Zé do Caixão. Vale dizer que estes de sexo explicito foram praticamente os únicos longas de ficção que Mojica pôde fazer nos trinta anos que separam a sua produção setentista até o lançamento de Encarnação do Demônio, em 2008. Na verdade, eles dão seguimento às (fracas) comédias eróticas que o cineasta filmara na década anterior (assinando-as com o pseudônimo de J. Avelar) – inclusive o primeiro trabalho de Mojica nos anos 80 era um filme erótico comum, A 5ª Dimensão do Sexo (1984), o qual os exibidores exigiram o posterior acréscimo de cenas de sexo explicito para passar nas telas. Mojica conta que o filme (um dos raros na época a tratar de homossexualidade) só não fez sucesso porque teve o azar de estrear simultaneamente com o hoje clássico nacional Oh! Rebuceteio (de Cláudio Cunha), que com um título desses roubou todos os espectadores, mas o produtor do seu filme, Mario Lima (seu parceiro antigo), propôs que entrasse na onda do pornô com a promessa de em seguida produzir o seu sonhado projeto de Encarnação do Demônio. Daí nasceu o 24 Horas de Sexo Explícito.

Pensar em pornô daquela época é completamente diferente do que o que viria a ser mais tarde (com mais sofisticação em cena, padronização do gênero e beleza dos integrantes do elenco, etc.). Os nacionais dessa fase foram em sua maioria uma diluição bem pobre dos aspectos mais superficiais dos filmes eróticos que os precederam, agora como pretexto para as cenas explicitas. Ciente disso, Mojica declarou que encheu 24 Horas de Sexo Explícito de mulheres feias e inseriu cenas de zoofilia para que o público não quisesse mais pensar em sexo, o que alguns podem até achar se tratar de um golpe publicitário por parte do diretor. Mas vendo o filme, realmente ele é muito pouco erótico, não apenas pelo contexto de produção da época, mas pela realização em si. Não há construções de um clima erótico ou de uma atmosfera de sedução (o mais próximo disso é uma cena lésbica perto do final). Os filmes de Mojica Marins jamais prezaram pela singeleza, e nesse o que vemos, cruamente, são apenas uma sucessão de cenas bizarras (e um tanto sem graça) e orgíacas de corpos nus, órgãos genitais masculinos e femininos, felações e carne batendo contra carne. Logo no começo do filme, Silvio Jr., Walter Laurentis e Antônio Rody (três atores conhecidos dos filmes pornográficos na época, interpretando a si mesmos) lêem numa mesa de bar uma noticia de jornal que os chamam de Os Campeões do Sexo Explícito no Brasil. E após uns vinte minutos de alguns encontros e muito falatório, os três iniciam uma competição: gozar mais vezes num período de vinte e quatro horas, em transas ininterruptas com um grupo de garotas na casa de praia do amigo de um deles.

É o sexo vivenciado até a exaustão e esgotamento físico completo dos personagens masculinos, alem de um clima de confronto deles com as mulheres, que os provocam e irritam (um deles reclama do excesso de feiúra delas, fazendo uma piada com o elenco dos filmes de Zé do Caixão), coisas que normalmente não seriam vistas em nenhum filme pornô antigo ou novo. As intervenções do juiz homossexual e até de um papagaio falante que aparece em cena só acentuam a esquisitice e os aspectos esdrúxulos do filme – isso para não dizer do pênis e da xoxota maquiados “conversando” ou da transa do cão pastor alemão com uma das garotas. Talvez Mojica quisesse mesmo sabotar o gênero com a pretensão de destruí-lo, filmando tanto bestialismo em cena. Mas se a sua intenção foi essa, o tiro saiu pela culatra: Mojica quase sempre foi subestimado como diretor pelos grandes filmes que realizou, mas independente desse 24 Horas de Sexo Explícito, na melhor das hipóteses (e quando muito), ser ou não uma pérola pela sua ruindade absoluta, o filme foi um êxito estrondoso de público (ainda que só tenha piorado a reputação artística tão injustiça do diretor). Sim, o que provavelmente é o pior filme da carreira do diretor também foi seu maior sucesso de bilheteria. As razões, entretanto, não são difíceis de apontar: por mais “exótico” que fosse o filme, suas bizarrices divertiam um público que, em sua maioria em 1985, ainda não possuíam nem vídeo-cassete em casa (e internet era uma realidade distante), e que se reuniam para sessões em cinemas pornôs que eram quase como grindhouses, onde o que menos importava era a qualidade do filme e mais o divertimento erótico que pudesse provocar dentro e fora da tela.

O produtor havia prometido financiar Encarnação do Demônio caso 24 Horas de Sexo Explicito fosse um sucesso. Foi, mas daí ele e Mojica foram fazer um outro pornô na linha do anterior, 48 Horas de Sexo Alucinante, aproveitando o êxito do outro filme. Mas dessa vez com maiores ambições,  com um roteiro mais elaborado e pretensioso, a começar por um ponto de partida bastante interessante: uma sexóloga de meia-idade (Andrea Pucci) contrata os produtores (Mojica e Mario Lima, interpretando a si mesmos) do filme anterior para rodar outra fita, dessa vez dobrando a dose para dois dias ininterruptos de uma maratona sexual em que novamente vencerá o mais resistente e o que gozar mais vezes. Os vinte primeiros minutos são o melhor do filme, nos proporcionando ver Mojica e seu produtor interagindo com a sexóloga (interessada em pesquisas para fins “científicos” e querendo estudar o comportamento erótico de homens e animais), num curioso processo de metalinguagem que resulta num filme dentro de um filme, e já o suficiente para torná-lo superior ao 24 Horas. O elenco da continuação também é muito melhor do que o filme predecessor, agora com bem mais gente e o melhor do que havia da produção hardcore de São Paulo. Retornam também o juiz gay (agora vestido como imperador romano e com o sugestivo e infame nome de “Calíngua”) e seu assistente, o Papagaio engraçadinho, ambos proporcionando momentos surreais ao filme. Mas quando a maratona começa, 48 Horas de Sexo Alucinante vai ficando enfadonho na sua sucessão de penetrações e muita gente enroscada uma na outra num verdadeiro bacanal, quase um circo romano controlado pelos olhares dos fiscais e  pelo computador que contabiliza tudo. O próprio filme em determinado momento se transforma em um espetáculo deprimente ainda que sempre na intenção de divertir e ser engraçado, o que talvez faça parte da proposta de Mojica de criticar e ironizar a obsessão do homem pelo sexo, pela resistência, e números.

O filme ganha novo fôlego depois de uma hora (ao término da maratona de dois dias), ao se concentrar na frigidez e perversão da sexóloga e suas fantasias, que resulta num dos mais puros momentos do cinema de absurdo vistos num filme nacional, o da mulher dentro da vaca mecânica sendo penetrada por um homem vestido de bumba-meu-boi. Em entrevistas, Mojica até hoje lamenta o que a cena tem de falso, o que por outro lado reforça ainda mais o que ela tem de bizarra (críticos na época descreveram essa sequência como “felliniana”, o que não deixa de fazer sentido). Tivesse terminado logo em seguida, 48 Horas de Sexo Alucinante seria um pouco melhor, pena que depois ele se alongue demais na relação mal-resolvida da sexóloga com seu ex-noivo, tornando-o mais longo que o necessário nos seus quase 100 minutos de duração (o filme anterior, ainda que pior, era bem mais enxuto), com uma salada de canções internacionais de sucesso na trilha instrumental, e uma tentativa de criação de cenas de sexo explicito com certo romantismo (além da apresentação musical completa de cantor interpretando El Dia Que Me Quieras num restaurante onde o filme se encerra).

O excesso de tentativas de sofisticação ajudam e ao mesmo tempo atrapalham o filme de Mojica. O público reagiu negativamente, e 48 Horas de Sexo Alucinante fracassou nas bilheterias, em parte porque os espectadores não se interessaram em compreender as qualidades e defeitos conseqüentes das pretensões do filme, o que inclui todo o seu processo metalingüístico e a participação do próprio Mojica em cena. O gênero também naquela altura já se transformava com a popularização do vídeo-cassete entre a classe média no país, quando então qualquer tentativa dos diretores em contar uma história mais elaborada num filme pornô eram frustradas pelo far forward no controle remoto (além da invasão de uma enxurrada de fitas norte-americanas que determinaram um novo estilo pro gênero). Na época, Mojica ainda se comprometeu em dirigir dois filmes em Brasília, ambos produzidos por Ary Santiago: um de sexo explicito, Dr. Frank na clínica das taras (1987), que praticamente ninguém viu e até hoje permanece inacessível (e o qual o cineasta renega a montagem); e um outro que não foi finalizado por desentendimentos entre os sócios.

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