Rabo I

Especial Boca Pornô – 30 anos

Rabo I
Direção: José Miziara
Brasil, 1985.

Por Daniel Salomão Roque

Na mesa de um restaurante em São Paulo, quatro mulheres conversam animadamente acerca das suas aventuras sexuais. Os flashbacks, então, nos dão conta de parafilias, fetiches, adultérios e trepadas coletivas que se sucedem num crescente tom de bizarrice. Rabo I, uma das tantas investidas de José Miziara no cinema de sexo explícito, é um filme grotesco que se assume como tal. O verdadeiro protagonista da fita não é o falo de um ator ou a genitália peluda de uma moça qualquer, mas o garçom interpretado por Rony Cócegas, que se excita com as histórias narradas e ao fim das quais sempre tenta – sem sucesso – se masturbar no banheiro do estabelecimento.  

Isso, no final das contas, explica muita coisa. A presença constante de um ícone do humor popular brasileiro não é fruto do acaso, tampouco decorre apenas das necessidades mercadológicas vigentes: ela expressa, sobretudo, uma certa concepção da pornografia e da comédia, marcada pelo entrelaçamento de ambos os gêneros com vistas a atingir os extremos do pastelão e do duplo sentido.

O sexo, em muitos pornôs da Boca, é uma ode ao nonsense, e Rabo I não constitui exceção. Aqui, as transas são sempre anedóticas, de uma vulgaridade berrante e não raras vezes monstruosa – ao mesmo tempo, parece inexistir qualquer intenção de excitar o espectador. Seu elenco canastrão de mulheres flácidas e homens desdentados é pavoroso, e somos levados a nos interessar mais pelo absurdo das situações que pelo ato sexual em si.

Se fazer do sexo um mero pretexto para tiradas grosseiras esvazia o filme de qualquer potencial erótico, por outro lado confere a ele alguns outros matizes que sem dúvida o tornam menos repulsivo. Miziara, dentre outras coisas, nos mostra com todos os detalhes uma sessão de swing na qual um dos casais é composto por um travesti e um cachorro, mas não induz nenhum vínculo de cumplicidade entre a platéia e os personagens. As pessoas simplesmente trepam: a mulher se decepciona com as reduzidas proporções penianas do travesti e este, por sua vez, lhe adverte que o dito cujo “só subirá quando o Brasil pagar a dívida externa”, recomendando em seguida que a moça passe um tempo com seu amante de quatro patas.

Achamos tudo muito engraçado. Ou não. Mas certamente passamos longe da idéia de experimentar qualquer coisa parecida, pois as aventuras narradas em Rabo I estão muito mais próximas da piada suja que do conto erótico, e seu efeito físico mais imediato é o riso – não a ereção.

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