As Intimidades de Analu e Fernanda

Dossiê José Miziara

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As Intimidades de Analu e Fernanda
Direção: José Miziara
Brasil, 1980.

Por Gabriel Carneiro

As Intimidades de Analu e Fernanda é surpreendentemente bem feito. Explico: tecnicamente, nada parece fora de lugar; há também uma incrível apuração narrativa. O longa-metragem já começa com cortes secos, sobrepondo duas realidades: Analu (Helena Ramos) dirigindo no carro, e momentos diversos na vida dela e de seu marido. Nada, a princípio, parece fazer sentido; são muitas cenas recortadas e amalgamadas por um eixo que ainda desconhecemos. São 15 minutos de abertura, que também estão simetricamente no oposto, de puro thriller.

Aos poucos, as situações vão se explicando e encontrando seu eixo. É quando conhecemos Fernanda (Márcia Maria), uma mulher que consola Analu, com um fortuito objetivo:As-Intimidades1-300x222 seduzi-la. Em sua destemperança, a jovem interpretada por Helena Ramos se entrega a uma paixão possessiva e histriônica. José Miziara, transitando entre gêneros, realiza um grande drama, um romance erótico, utilizando o amor lésbico, como tema.

Os colegas de Zingu!, Andrea Ormond e Adilson Marcelino, vêem no filme um forte moralismo (seja no todo, seja na personagem de Fernanda). Tomo a primeira pessoa para um ‘achismo’. Confesso que não vejo nada disso, apesar de respeitar demais a opinião de ambos. Se o lesbianismo em As Intimidades de Analu e Fernanda leva a julgamento precipitados acerca da liberdade sexual, parece-me apenas uma exacerbação de um relacionamento, seja homossexual ou não – e Miziara já deu provas que o melodrama trágico de seus filmes atingem as mais diversas sortes de personagens, independente de preconceitos moralistas e subterfúgios baratos.

Afinal, a obra de Miziara é uma das que mais clama em tratar de temas-tabus dentro da prestigiada Boca do Lixo, sem tratá-los como aliens, apenas ficcionalizando hiperbolicamente – o interesse está sempre no acaso. É o acaso que unirá as mulheres, bem como é o acaso que as separará, sem deixar de lado as conseqüências sujeitas nas escolhas de cada. Parece-me – novamente a primeira pessoa – que o efeito dramático em escolher um homem para consolá-la na fossa seria muito menor do que se fosse uma mulher. O amor lésbico é autêntico, mas pode ser igualmente doentio.

Afinal, a beleza de As Intimidades de Analu e Fernanda extrapola a paixão fervorosa e histérica de Analu e Fernanda: está na condução primorosa de Miziara, no entremeio entre thriller e drama, entre luzes opacas e sombras enigmáticas; está nos recortes abruptos, e ainda assim capazes de se ligarem à trama, acentuando o desespero e as incertezas.

É também uma obra que clama pela liberdade, e não só sexual. Pela liberdade do ser humano diante do mundo, dotado de escolhas próprias e não impostas pelas circunstâncias. Se a paixão das duas moças representa tudo menos o exercício completo do livre-arbítrio, nenhum outro relacionamento mostrado no filme o é. É um mundo cão. As Intimidades de Analu e Fernanda é um filme pela liberdade, e não libertário.

Oscaralho – O Oscar do Sexo Explícito

Dossiê José Miziara

Oscaralho – O Oscar do Sexo Explícito
Direção: José Miziara
Brasil, 1986

Por Ailton Monteiro

Depois do sucesso de algumas pornochanchadas – a mais famosa é O Bem Dotado – O Homem de Itu, (1979) -, José Miziara, como muitos diretores da Boca do Lixo, teve que se render ao sexo explícito, que bombou pra valer durante a segunda metade da década de 1980. A pornografia nacional, se ainda hoje é vista como distante dos padrões internacionais de países como Estados Unidos, França e Suécia, naquela época, então, era muito pior. Claro que existem as exceções, como os filmes de Cláudio Cunha e Jean Garret, mas a maioria era mesmo de produções bem vagabundas. E se vistos hoje parecem mais ainda. (1986) levando em consideração a época em que foi realizado, a necessidade de ser esperto, ainda que usando de picaretagem. O humor (grosseiro para os dias de hoje) já está no próprio título, que brinca com o famoso prêmio da academia, sem disfarçar a palavra caralho. Aliás, o prêmio é literalmente um caralho de asa de metal. E ver o público batendo palmas e rindo na tal premiação, não deixa de ser engraçado. Em alguns momentos até parece um quadro do programa da MTV Hermes e Renato.

Por isso é preciso ver um filme como Oscaralho – O Oscar do Sexo Explícito.

O filme nada mais é do que uma série de cenas de sexo bem fracas enxertadas dentro da tal premiação. O próprio José Miziara, ao lado de uma bela jovem (Erika, que infelizmente não participa de nenhuma das cenas de sexo), são os apresentadores do prêmio, que conta com categorias interessantes como “melhor balé erótico”, “melhor chupada”, “melhor trepada”, “melhor enrabada” etc. O interessante é que os vencedores do prêmio que sobem lá para agradecer são dublados. E por dubladores até familiares. É como se já tivéssemos ouvido aquelas vozes em algum desenho animado, por exemplo.

O filme acabou virando uma peça para estudos antropológicos, onde se pode ver não apenas o tipo de mulheres que faziam as cenas, como os próprios homens, alguns deles barrigudos e sem ter o tipo físico que hoje é requerido. Eram outros tempos e ainda que já existisse videocassete, os filmes eram ainda vistos no cinema, em película. Quando o filme era ruim, não havia a tecla fast forward para ir adiantando as cenas. Tinha que ter paciência mesmo. Frequentar os cinemas pornôs na época era, muitas vezes, um tiro no escuro. Havia uma dificuldade muito grande de se conseguir informações a respeito do que era de fato pornô de qualidade. E quando se fala em qualidade, a melhor coisa que se espera de um filme do gênero é ter uma voltagem erótica que faça com que o espectador queira “brincar” quando chegar a sua casa. Ou quem sabe até mesmo antes disso.

Ailton Monteiro é editor do blog Diário de Um Cinéfilo.

 

A Quebra-Galho Sexual

Dossiê José Miziara

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A Quebra-Galho Sexual
Direção: José Miziara
Brasil, 1986.

Por Gabriel Carneiro

Há um certo alento em assistir aos filmes brasileiros de sexo explícito dos anos 1980. Claro, eram outros tempos, mas quem busca nessas produções apenas uma forma de contemplar o ato sexual e a exuberância dos corpos, pode se decepcionar. Ainda que A Quebra-Galho Sexual tenha exceções, o elenco feminino de tais filmes era, geralmente, muito abaixo das tradicionais produções eróticas. Em A Quebra-Galho Sexual há uma bela garota – a quebra-galho do título -, porém só vemos sua nudez. Ela não participa de nenhuma cena de sexo. Ah, o alento. Bem, o alento é que o período produziu ótimas comédias de costumes, que utilizam o sexo explícito apenas como mais uma parte da narrativa, muitas vezes descartáveis, mas que estavam lá por uma questão mercadológica. Bem, o que quero dizer com essa longa introdução é que vale a pena assistir a uma produção pornô da época, mesmo que a parte pornô não interesse.

quebra-galhoA-300x198Afinal, o que José Miziara faz em A Quebra-Galho Sexual é perceber os potenciais cômicos da realização pornográfica, entremeando com toda uma sorte de contos populares, para criar uma narrativa metalingüística muito bem humorada. Miziara faz o dono de uma loja de quebra-galhos, sejam quais for, desde o conserto de uma televisão, até conseguir que o amante copule com a moça em sua própria casa, onde o marido está. O segmento mais interessante é justamente a da realização de um filme de sexo explícito, em que o ator não consegue performar e precisa de uma quebra-galho sexual, que o atice.

A história é um grande achado, com várias tiradas, inclusive ao próprio ator, o Oásis Minitti, que interpreta ele mesmo. Minitti, que já foi considerado o maior astro do cinema pornô brasileiro, apresenta-se todo vaidoso quanto à sua persona de símbolo sexual, como, por exemplo, sua identificação com o público. O diretor sugere que use um dublê nas cenas de sexo, já que não consegue uma ereção, e ele prontamente refuta. Diz que seus fãs o conhecem pela genitália. Pouco depois, vemos o próprio Minitti falando com o personagem de Miziara. Ele conta toda a situação e diz ser Oásis Minitti. Miziara não acredita e o ator diz que vai provar: se vira de costas e abre as calças. Miziara então acredita.quebra-galho-3A-300x203

É por conta de gags como essas, repetidas ao longo de todo o longa-metragem, que o filme se destaca. O não se levar a sério é parte presente, apostando em atuações hiperbólicas. Estão no filme também o sábio uso do som que Miziara faz em comédias desde O Bem Dotado – O Homem de Itu (1978), usando o cartunesco para acentuar o valor humorístico. Feito com sobras de negativo, paralelamente a Oscaralho, o Oscar do Sexo Explícito, o mais indicado é que se assista A Quebra-Galho Sexual como sessão dupla. A diversão é garantida, ao menos se deixar os preconceitos com o gênero de lado.

Rabo I

Dossiê José Miziara

Rabo I
Direção: José Miziara
Brasil, 1985

Por Ailton Monteiro

Uma das incursões pornográficas de José Miziara, Rabo I traz no título, obviamente, uma brincadeira com a produção de sucesso estrelada por Sylvester Stallone. Ainda que não apareça nos créditos escritos, o título ganha um complemento falado: “Programado para Trepar”, com toda a pompa que costumamos ouvir dos anúncios da Rede Globo para os filmes de ação. Mas com direito à uma bunda batendo palmas! (dá para imaginar?). Mas a brincadeira Rabo/Rambo é só com o título mesmo. Não há nada no filme que faça lembrar Rambo. Lembrando que Miziara já brincava com títulos baseados em obras de sucesso estrangeiras, como Nos Tempos da Vaselina, uma homenagem a Nos Tempos da Brilhantina, estrelado por John Travolta.

O principal astro de Rabo I é Rony Cócegas, o comediante que ainda hoje é lembrado por seu quadro no programa humorístico A Praça É Nossa. Seu bordão “Calma, Cocada!” e sua gravata que se levantava sempre que via uma mulher gostosa ficaram na memória coletiva nacional. Era um quadro bastante ousado, se lembrarmos que o programa também era visto por crianças, apesar do horário. Mas aqueles eram outros tempos. Em Rabo I, Rony não precisa de uma gravata para demonstrar que está precisando dar uma aliviada, basta correr direto para o banheiro dizendo que quer bater uma punheta, depois de ouvir uma história picante. Rony é também autor da canção-tema do filme, a marchinha de carnaval A Rabada, e no filme ele aparece no papel do garçom que fica escutando as aventuras sexuais de um grupo de mulheres.

Cada uma conta uma história, que vai num crescendo de ousadia, fetichismo e absurdo. Diria que o filme seria bem-sucedido no quesito “voltagem erótica” se possuísse mulheres mais bonitas e as cenas de sexo fossem mais caprichadas e melhor captadas pela lente de Miziara. Para se ter uma idéia da precariedade das performers, a mulher mais bonita do filme não é uma mulher, mas uma travesti!, Porém, boas intenções não faltam. Gostei de algumas canções clássicas dos anos 1970/80 que rolam durante as cenas no motel. Chega a contrastar com as imagens, não tão bonitas de ver. O humor é propositalmente grosseiro. Numa cena de sexo oral, por exemplo, a mulher passa ketchup no caeté do sujeito e diz: “vai gostar de ketchup na casa do caralho”.

Em outra cena, uma mulher tem a fantasia de transar com outro homem e combina com o marido, que se veste de marinheiro fazendo de conta que é um completo estranho. E um marinheiro violento, que pede grana à mulher e ainda bate nela. Durante o ato sexual, há uma sequência de closes, ora do tradicional entra-e-sai, ora dos tapas que a mulher recebe. Há também, esporadicamente, uma estranha escultura de madeira, semelhante a um demônio.

Melhores histórias viriam, como a da mulher que tem a fantasia de se vestir de freira e transar com o primeiro que encontrar. Arranja, junto com uma amiga, uma dupla de caminhoneiros e as duas fazem uma festa. Para variar, as cenas de “ação” são chatas, enquanto as de conversa são mais interessantes. Tem também a história do cara que só queria saber de enrabar a namorada e a mulher teve uma idéia de chamar uma travesti para um ménage a trois. O bloco termina de maneira insólita, com a presença de um cachorro. Ah, é nesse bloco que aparece uma travesti que tem o rosto mais bonito que todas as mulheres do filme juntas. Enquanto isso, no restaurante, Rabo I tinha que terminar com mais uma piadinha infame.

Ailton Monteiro é editor do blog Diário de Um Cinéfilo.

 

Sem Vaselina

Dossiê José Miziara

Sem Vaselina
Direção: José Miziara
Brasil, 1985

Por Filipe Chamy

O cinema pornográfico sofre de vários problemas intrínsecos à sua própria essência. Por exemplo, como extrair prazer do sexo se o espectador não participa do ato senão apenas assistindo a ele?

E também: como pode o filme de sexo explícito ser associado à alegria e à descontração se, sabemos, o cinema pornográfico quase sempre emprega pessoas exploradas, desesperadas, deprimidas, à beira do colapso, sem recursos materiais ou de qualquer outro tipo? Basta observar a taxa de pessoas dessa área que se suicidam ou utilizam drogas em tal quantidade que as leva à ruína. Quase sempre as maiores vítimas do caso são os intérpretes, pois ficam em maior exposição, frente às telas, e sofrem mais os efeitos dessa realidade perversa. Mas ninguém sai realmente ileso quando lida com produções assim.

Acontece que o cinema brasileiro dos anos transitórios entre o final da ditadura e a chamada abertura democrática sofria de uma crise de popularização que fazia o popular ser necessariamente vinculado ao vulgar, ao podre, ao sujo, ao apelativo, ao escatológico.

Sem Vaselina, como o constrangedor título já aponta, é uma cria dessa conjunção de fatores que possibilitavam a vinda a público de uma fita tão pavorosamente ruim. Não se pode pretender eximir o filme de seus incontáveis defeitos por conta de uma condescendência para com os filmes pornográficos, marginais elementos na cinematografia de qualquer país. Essa aparente falta de amparo por meio da intelectualidade crítica não impediu cineastas como Bud Townsend de construírem um admirável porn movie como Alice in Wonderland: An X-rated musical fantasy, em 1976, nove anos antes deste lamentável trabalho de José Miziara, conhecido por suas comédias e pornochanchadas — e a Cinemateca Brasileira, sempre centrada na divulgação do cinema em todas as suas formas, exibiu em 2010 o consagrado Behind the green door, filme de sexo explícito que procura (com sucesso) alcançar um diferente nível de expressão e direção. Sem vaselina é péssimo porque suas fraquezas são um demérito exclusivo seu.

O filme é dividido em dois segmentos, e o primeiro episódio apresenta, por puro acaso, uma metalinguagem que se aproxima do célebre Oh! Rebuceteio e expõe uma alegada hipocrisia sobre como o cinema pornográfico funciona. Mas mais hipócrita é o próprio filme de Miziara, pois se esconde atrás do humor para fingir zombar de uma condição de que se beneficia. Todos os vícios, problemas e trapaças ironizados são os mesmos que estruturam Sem Vaselina e o fazem ser, a seu modo, um exemplo do que ele próprio acusa como contra-exemplo. A impessoalidade das relações está lá, a mecanização do sexo também: os atores e atrizes não têm rostos, mas falos e vulvas; o diretor se importa mais em gravar os diálogos pretensamente engraçados do que em naturalizar o encenado; as pessoas são descartáveis porque o sexo é aleatório e feito apenas como concretização da possibilidade animalesca de se excitar sexualmente; etc.

O segundo episódio é ainda mais repulsivo e trata de um assalto em que mulheres se prostituem por vontade própria, doença mental é tratada como desvio de caráter, torturados e torturadas gostam de ser subjugados, entre outras pérolas de um mau gosto insuperável. E, naturalmente, os dois segmentos filmados com pobreza técnica ímpar, imagem quase tão feia quanto o que é retratado nela, atuações pífias, desleixo em todos os sentidos.

De tempos em tempos, tentam injetar nesse degradante cinema “chute no cão morto” uma espécie de aura de louvável libertinagem, como se fosse digno de orgulho ser tão escancaradamente abominável.

As Amantes de Um Homem Proibido

Dossiê José Miziara


As Amantes de Um Homem Proibido
Direção: José Miziara
Brasil, 1978.

Por William Alves

Nuno Leal Maia é um dos mais representativos intérpretes da pornochanchada. Ele foi dirigido por José Miziara em produções como Bem Dotado, o Homem de Itu (1978), e Embalos Alucinantes: A Troca de Casais (1978). Em ambos, ele interpretava o varão dominante, o terror das mulheres, casadas ou não. Já nesse As Amantes de Um Homem Proibido, Nuno continua emanando virilidade – mas aqui a coisa é mais séria.

Ele é Leandro, um foragido da polícia, que participou de um assalto frustrado e acabou matando a sua grande paixão. Durante a ação, ele foi traído pelo seu parceiro (em participação rápida de John Doo). Ele se transforma em um fugitivo de alta periculosidade (sua foto está na primeira página dos jornais) e só resta ao sujeito se esgueirar por matagais e áreas rurais para se manter em liberdade.

Como se trata de um filme setentista com Maia, não há elipses. Ou seja: não aparece nenhum aviso dizendo “Alguns dias depois” no meio da tela. Leandro, que não é bobo nem nada, irá aproveitar todos os noventa minutos da produção para cativar algumas fêmeas. E o seu intento é alcançado nas formas de Flávia, que o emprega como caseiro (e amante casual) em sua propriedade; e de Marina, uma jovem com problemas com o pai alcoólatra. Enquanto ele concretiza essas conquistas, a polícia vai coletando pistas sobre seu paradeiro.
Há alguns elementos do film noir em Os Amantes…, como a femme fatale e o bode expiatório (no caso, o próprio Leandro), além da corrupção mal disfarçada praticada pelos donos das boates locais. Miziara alia esses elementos ao magnetismo sexual do personagem de Maia (Humphrey Bogart dos trópicos?) que, não por acaso, já está em pleno coito nos primeiros minutos do filme. O diretor também não poupa nas filmagens das belezas naturais, especialmente a que circunda a propriedade de Flávia e que contrasta com o clima sujo das casas noturnas que Leandro freqüenta antes de se instalar lá.

O tom policial do longa é interrompido pelos devaneios de Marina, que sonha acordada em ser possuída pelo fugitivo o quanto antes. Foragido esse que ela havia encontrado apenas uma vez em toda a história. Bate a impressão de que Miziara enfiou essas cenas à força na produção final, meio que para não deixar dúvida de quem é o macho alfa da história. Ou então, para que o seu filme contivesse o maior número de gêneros em um só, mesclando o típico filme policial com o cinema pornô softcore, o que nunca é uma boa ideia. Já o relacionamento com a rica proprietária é melhor desenvolvido: ele chega, ganha confiança e seduz.

Ok, ser o Nuno Leal Maia em plenos anos 70 também ajudou.

Pecado Horizontal

Dossiê José Miziara

Pecado Horizontal
Direção: José Miziara.
Brasil, 1982.

Por Andrea Ormond

Quase tudo o que se produziu na Boca do Lixo alçou por décadas o estigma de frouxo, submetido a uma perversidade que poluiu até mesmo o imaginário de técnicos sobreviventes do local e do período. Comum ouvi-los repetindo o óbvio, introjetando uma ética auto-depreciativa. E por essa brecha instala-se outra praga: os menos atentos, os mais burros e ingênuos, podem achar que, para acabar com o ataque sofrido por milanos, a defesa há de ser tão intransigente quanto. Para matar uma gazela, cria-se outra – desde que, dessa outra, tenha-se agora total controle.

Sinto muito, senhores, julgamento errado. Trará problemas a longo prazo, é o reverso do espelho. Defender não significa fechar os olhos aos erros. Combater não significa vestir a histeria homicida. A Boca não foi um pacote homogêneo. Ter o símbolo de auto-sustentáveis não iguala as produções realizadas por lá. Este o soberano – nome do bar de larga história – fato.

Aprendiz de feiticeiro, José Miziara embarca no sonho quando os dramas de costumes, as invenções udigrudi, os filmes garnizés, o tosco e o sublime rodavam alucinados, em espiral. Tarefa inglória a de conviver com pontas de lança. Pior: autores de reputação construída por motivos insólitos, frágeis, aparentemente naturais. Walter Hugo Khouri era o homem dos filmes complicados. Ody Fraga, o intelectual libertino. Jean Garrett – para ficarmos em um dos garotos – se esforçava, fazendo o que podia, contrabandeando erotismo em tragédias e cinema de gênero.

Miziara, tentando colocar o anel de alquimista, joga umas ervas, cozinha o caldeirão. Aonde ele se encaixa, de verdade? Ex-artista de circo, faz-tudo da Rádio Nacional, dublador, cômico, seguiu os filões do rádio que moldaram os pioneiros da televisão. O bem e o mal, o homem e a mulher, o esperto e o enganado. Salpicou de anos 70 a regra e desaguou na malícia, no sexo depois da pílula.

Assim fez enorme sucesso em O Bem Dotado: O Homem de Itu (1977) – o jeca versus o povo da cidade grande. Tateia uma reportagem esperta sobre o swing em Embalos Alucinantes (1979) , cruzamento de revista Veja e Vai Trabalhar Vagabundo sem nuances, puro deboche. No polêmico As Intimidades de Analu e Fernanda (1980) avança no paternalismo – homem e mulher, colunas estanques. Tenta vender as carícias loucas entre Fernanda e a separada Analu. Na prática, coloca a sombra do homem rondando em loop, desestabilizador da relação das duas. Um garoto na praia significa o elemento fálico faltante, a justificar interdição. Analu diz ao garoto que vá embora, mente que o marido chegará. Ambas se vêem através de um terceiro, não por si. O filme não alcança a voragem de Jean Garrett , que fez de Karina, Objeto do Prazer (1981), A Mulher que Inventou o Amor (1979), Possuídas Pelo Pecado (1976), antros do exploitation, quicando o feminismo e o machismo superficiais.

Pecado Horizontal (1982), gravado no ano limite entre a chanchada e o pornô, consegue um caminho mais hábil. Acerta. Coloca o corpo em foco não apenas dos moços, mas das moças. Elas a fim, procuram, gozam, sem o terror da vergonha, da racionalização.

Dirigido e escrito por Miziara, busca a atmosfera, bem nacional, dos subterrâneos de uma cidade do interior. A se prestar atenção na trilha sonora – a valsa Oh, Minas Gerais –, chegamos ao estado das Alterosas.

Três conhecidos reúnem-se em volta de uma mesa, bebem cerveja e contam “causos” passados de suas vidas. Relatá-los seria perda de tempo. Estão no limite do grosseiro – o protagonista não consegue traçar Matilde Mastrangi por conta de hemorróidas – e do engraçadíssimo, principalmente o segundo. O que interessa é que idas, vindas e deslizes dos personagens têm um objetivo: a obcecada fornicação. Sentem prazer absurdo em quase perderem a vida por conta desse mito. As mulheres, quando “dão”, sorriem; os homens, vivenciam um êxtase.

Essa vontade natural impressiona as normas egoístas e atualíssimas de conduta. Colocando-se em perspectiva, a “busca existencial” do sexo parece ter morrido no século XXI. Deu lugar ao aspecto esquizóide, narcísico, em que a aparente liberalidade oculta uma perturbação moralista. Ir pra cama não é mais libido, recompensa. Necessita de enrolação, de pose, de frieza. José Miziara nunca foi Betty Friedan, mas Pecado Horizontal coloca o desejo feminino atuante. Notem que as três protagonistas são mulheres insatisfeitas, que escolhem seus parceiros e desejam somente aquilo que toda fêmea heterossexual deseja, mas que certos homens costumam atrapalhar com grilos e lentidões.

Um mergulho nos documentos da censura revela dado espantoso: nenhum vigilante do governo militar implicou com a terceira história, na qual um menino de doze anos transa uma coquete aflita. Em 82, o duvidoso intercurso entre menino e mulher podia ser visto tanto no cinema de Miziara, quanto em Amor Estranho Amor, de Khouri. Implicando com cenas de sodomia, por outro lado a censura aceitava tranqüilamente o garoto Ric Ostrower cobrindo Mariza Sommer.

Além do princípio de que cinema popular não é pornochanchada, precisamos entender que, dentro dos filmes legítimos do gênero, existem sutilezas a serem pesquisadas e resgatadas. O passado de má vontade dos críticos explicava-se por um (falso) ideal de melhora, que não faz mínimo sentido quando o tempo e as influências são outros. Hoje, um chiste como Pecado Horizontal vira subversivo, libertário, porque nos ensina um espanto: a picardia pelo prazer de ser vivida. E que ocorreu, de igual maneira, fora da Boca do Lixo. Carlo Mossy, leitor de Schopenhauer, não fez Giselle à toa: nada mais importante para a menina “recém-chegada da Europa” que a vontade cega do corpo. Em tantas pornochanchadas – algumas de Mozael Silveira – o corpo é quem manda. E tal imperativo pede para destroçarmos o labirinto, entendermos as pistas falsas que o enfoque bruto – favorável ou contrário – cisma em corromper.

Os Rapazes da Difícil Vida Fácil

Dossiê José Miziara

Os Rapazes da Difícil Vida Fácil
Direção: José Miziara
Brasil, 1980
Por William Alves

 

 

 

 

A vida de João (interpretado por Ewerthon de Castro) já era boa na primeira cena de Os Rapazes da Difícil Vida Fácil. Apesar do emprego modesto de cozinheiro em uma cantina italiana, o rapaz não sofria de nenhuma debilidade psicológica por conta dessa condição de proletário. Afinal, suas animadas interpretações de canções italianas tradicionais no restaurante lhe ajudavam a conquistar diversas admiradoras, que não raro o presenteavam com bilhetes indiscretos que propunham encontros românticos a dois.

No entanto, João é noivo da bela Carla (Silvia Salgado, lindíssima), moça ciumenta e virgem. Ela resiste com galhardia às investidas sexuais (cada vez mais freqüentes) do noivo, sob a justificativa de poder trajar com a devida castidade o vestido matrimonial. João lamenta, mas entende – mais ou menos.

Até que João é abordado por uma cafetina chamada Gilberto (!) e seu empregado, uma bicha simpática que atende por Luizinho. Gilberto já estava acompanhando os passos de João há um bom tempo, e havia notado o frisson que a presença carismática dele despertava nas garotas. A cafetina então transforma o rapaz, como ela mesma diz, em um “cinco estrelas”, um michê de alto gabarito. Gilberto é interpretado (a) por Yolanda Cardoso, ainda uma beldade em 1980.

O novo contratado da “agência” não tarda a descobrir os percalços da nova profissão, que exige que ele esteja em ponto de bala para quantas clientes pintarem no dia. Ele aceita a ajuda de Rodolfo, um prostituto picareta de relevância nula no estabelecimento, que convence João a acreditar que a sua idade avançada é sinônimo de experiência. Ou know-how, como ele insiste em afirmar. E tome gemada afrodisíaca no novato ingênuo.

Os Rapazes da Difícil Vida Fácil se ancora nos princípios básicos da pornochanchada: um roteiro minimalista (rapaz bem dotado fazendo sucesso no prostíbulo), bom humor e um monte de mulher pelada. José Miziara capricha no vasto ,i>cast de clientes de João, que engloba diversas nacionalidades e etnias. Tudo dura 90 minutos e algumas piadas são garantidas, como quando João, quase morto de medo, transa com uma mulher no parapeito de uma janela aberta.

Miziara é um diretor eclético, que durante a sua carreira transitou pelo dramalhão (Mulheres do Cais, 1979), flertou com o noir (As Amantes de Um Homem Proibido, 1982) e com a putaria sem pudores (Rabo I, 1985). Mas nenhum vestígio desse ecleticismo dá as caras quando se tem apenas este Os Rapazes de Difícil… em mãos. É uma produção objetiva, que abusa do humor instantâneo – um dos personagens do puteiro é um anão, que é solicitado por uma senhora que não agüenta mais “o complexo de superioridade” do marido, um craque do basquete.

As cenas de sexo rendem planos curtos, como que para mostrar que João é um cliente solicitado e não pode perder tempo com uma mulher só. Roberto Maya, que também trabalhou com Miziara em Como Faturar a Mulher do Próximo e Mulheres do Cais, também está presente, como o empresário que tenta traçar Carla, a noiva santa de João. Aliás, aí reside a essência do longa: com exceção da bem intencionada Carla, todos os personagens querem comer o maior número possível de gente.

Mulheres do Cais

Dossiê José Miziara

 

Mulheres do Cais
Direção: José Miziara
Brasil, 1979

Por William Alves

Terezinha (interpretada por Wanda Estefânia) está se mudando. De uma bucólica casinha adornada com muitas gaiolas de pássaros no interior para Santos, a abonada cidade portuária paulista. Mulheres do Cais não esconde as suas intenções. Logo no início do filme, a gente já fica sabendo que a garota chegou ao município para trabalhar no baixo meretrício. Não se trata, então, de uma história sobre a garota interiorana que se vê forçada a usar o corpo em troca de alguns trocados, após malfadadas tentativas de outras carreiras de vida na metrópole. Mas sim da história da moça caipira que já chega na cidade com somente a sua constituição física para comercializar.

Ela, pois, já é uma prostituta no exato momento em que seu navio atraca. Acolhida por uma governanta conhecida como Mãezona, ela logo é apresentada ao seu novo universo. Nele habitam Caixeta e Pepe, dois contrabandistas de alto calibre (e clientes da moça), Calu (o homossexual caricato que também trabalha no rendez-vouz) e as outras garotas da pensão, como a belíssima mulata Lídia, noiva do falastrão e pretenso jogador de futebol Dante. A despeito do título, somente Terezinha tem sua trajetória explorada. As outras tais mulheres do cais só aparecem para dançar e desfilar seus atributos.

Terezinha parece inicialmente empolgada com a recém-adquirida profissão. Em uma sequência no início do filme, em uma boate adulta pertencente ao misterioso Caixeta, ela aplaude entusiasticamente o desempenho das colegas de trabalho, que também trabalham como strippers. Mas a rotina do meretrício vai desgastando mentalmente a garota, que passa a freqüentar assiduamente os bares da região, se embriagando e disparando chiliques aos quatro pontos cardeais. Paralelamente, se desenvolve a trama de Pinote, um contrabandista subordinado a Pepe, um dos barões do crime em Santos.

Além dos belos travellings que apresentam a cidade ao espectador, grande parte do conteúdo das imagens projetadas é, obviamente, erótico. Não faltam closes nos seios das strippers e Terezinha passa grande parte do longa vestindo apenas uma calcinha. Só que diferente de outras obras de Miziara, Mulheres do Cais é uma densa experiência. Ao contrário do irreverente Os Rapazes da Difícil Vida Fácil, por exemplo, que é uma típica pornochanchada oitentista.

Verdade seja dita, não há grandes atuações aqui. Wanda Estefânia definitivamente não convence, principalmente quando sua personagem recorre aos gritos para externar a frustração. O veterano Roberto Maya se sai melhor, ao encarnar o maquiavélico Caixeta, uma espécie de microempresário da putaria santista, cínico e pouco confiável.

No entanto, o grande mérito de Miziara é a forma com que ele constrói a sequência de acontecimentos que revela a intensa sensação de abandono que permeia o espírito de Terezinha. Na primeira cena, ela é abraçada e beijada por todos os seus parentes, deslumbrados com a possibilidade de uma integrante do clã poder se aventurar numa cidade grande de verdade, com asfalto e telefones em abundância. Mas quando a moça chega lá, não demora muito para que ela dê conta de que ninguém se importa muito. Todos os outros personagens estão preocupados demais com as suas próprias vidas e problemas – como, por exemplo, em determinado momento do filme, quando ela tenta conversar com Calu, mas este está ocupado demais copulando com o garoto que ele seduziu. Como os pais desprezados do seminal Tokyo Story, de Ozu, Terezinha não era esperada. E ninguém tampouco parece muito interessado em ciceronear a recém-chegada.

Nos Tempos da Vaselina

Dossiê José Miziara

Nos Tempos da Vaselina
Direção: José Miziara
Brasil, 1979

Por Filipe Chamy

Ainda boa parte dos apreciadores do cinema brasileiro de gênero suspira com saudades das pornochanchadas. Mas a se julgar por exemplos aparentemente representativos como este Nos Tempos da Vaselina, essa forma canhestra de comédia de costumes saiu muito tarde do cardápio do espectador brasileiro, dando-lhe a impressão de estar com a barriga cheia mas em verdade causando-lhe uma indigestão que ainda hoje o cinema pós-Retomada não conseguiu sanar.

A tal censura dos últimos anos da ditadura militar é um dos motivos alegados para o reputado escracho das fitas, como se viver em época de controle repressivo por parte do Estado impedisse não apenas a exposição da libertinagem, violência e outras facetas humanas como também extinguisse a competência, o talento, a vontade de fazer algo realmente interessante e não apenas juntar rascunhos de idéias com um molde formulaico para agradar ao máximo de pessoas possível. O cinema que quer agradar a todos, a ninguém agrada. Nos Tempos da Vaselina nada tem de engraçado e pouco tem de realmente erótico, então qual é a função de uma pornochanchada em condições assim?

O mote do filme é o deslocamento do protagonista, sujeito metido a malandro que pretende estrear uma grande vida na casa do primo, no Rio de Janeiro. Promessa de volúpia e irresponsabilidade, o litoral embriaga as expectativas do caipira abobado, mas não custava nada alguma alma caridosa lembrar a ele o ditado popular que diz: “malandro é malandro, metido a malandro é mané”. O tal viaja todo alegre e sonhando com farras, mulheres, dinheiro, a fama e o poder dos pobres de espírito. Claro que treinamento nenhum é praticado, apenas a cara e a coragem já servem de escudo. Mas não se pode esperar nada muito bom de alguém que abre o filme satisfazendo suas animalescas vontades sexuais em um oco de árvore, não é? Nesse sentido, o filme é justo, porque compensa a infâmia do personagem com uma galeria de constrangimentos por que ele terá de passar.

O percurso é desastroso. Logo que o homem chega ao Rio é roubado, perde o endereço do primo, quando acha se indispõe com alguns de seus conhecidos por razões diversas etc. A saga do cidadão é fadada ao fracasso, e caso José Miziara não dirigisse o filme na inércia e considerasse seus personagens como seres humanos (e não como tipos específicos, que é o que faz), talvez o filme tivesse a sombra de algum mérito. Mas é esperar demais de uma pornochanchada corriqueira como esta uma atenção aos atores e aos personagens que não resume a coisa toda aos clássicos “pé rapado folgado tenta cantar de galo e se dá mal”, “coroa ninfomaníaca arrasta garotões para o quarto para satisfazer seu fogo pós morte do marido”, “gostosa safada quer sexo com todos que encontra e vira refeição familiar” e outras decorrências desse maniqueísmo bobo e que só traz ao filme a qualidade (negativa) de ser ridículo, em um sentido certamente não pretendido pelo diretor, mas que faz com que não possamos nos importar menos com tudo aquilo mostrado a nós.

Some-se a isso (ou diminua-se) a tradicional falta de apuro técnico em todas as etapas de construção do filme, e teremos mais um exemplar do cinema industrial (com fama de anárquico, vejam só!) praticado por aqui naqueles anos tão “inocentes” quanto “rebeldes”. Se já é bastante medonho intitular um filme com um produto lubrificante utilizado para o sexo, isso diz muito sobre a qualidade do filme. Senão vejamos: o que os responsáveis por fazer uma obra de nome Nos Tempos da Vaselina esperam senão tentar lubrificar a paciência do espectador? Ocorre que o produto (filme e vaselina) de péssima qualidade não presta para aquilo a que se propõe. E assim como no sexo mal lubrificado, o filme mal feito não dá prazer.