Sem Vaselina

Dossiê José Miziara

Sem Vaselina
Direção: José Miziara
Brasil, 1985

Por Filipe Chamy

O cinema pornográfico sofre de vários problemas intrínsecos à sua própria essência. Por exemplo, como extrair prazer do sexo se o espectador não participa do ato senão apenas assistindo a ele?

E também: como pode o filme de sexo explícito ser associado à alegria e à descontração se, sabemos, o cinema pornográfico quase sempre emprega pessoas exploradas, desesperadas, deprimidas, à beira do colapso, sem recursos materiais ou de qualquer outro tipo? Basta observar a taxa de pessoas dessa área que se suicidam ou utilizam drogas em tal quantidade que as leva à ruína. Quase sempre as maiores vítimas do caso são os intérpretes, pois ficam em maior exposição, frente às telas, e sofrem mais os efeitos dessa realidade perversa. Mas ninguém sai realmente ileso quando lida com produções assim.

Acontece que o cinema brasileiro dos anos transitórios entre o final da ditadura e a chamada abertura democrática sofria de uma crise de popularização que fazia o popular ser necessariamente vinculado ao vulgar, ao podre, ao sujo, ao apelativo, ao escatológico.

Sem Vaselina, como o constrangedor título já aponta, é uma cria dessa conjunção de fatores que possibilitavam a vinda a público de uma fita tão pavorosamente ruim. Não se pode pretender eximir o filme de seus incontáveis defeitos por conta de uma condescendência para com os filmes pornográficos, marginais elementos na cinematografia de qualquer país. Essa aparente falta de amparo por meio da intelectualidade crítica não impediu cineastas como Bud Townsend de construírem um admirável porn movie como Alice in Wonderland: An X-rated musical fantasy, em 1976, nove anos antes deste lamentável trabalho de José Miziara, conhecido por suas comédias e pornochanchadas — e a Cinemateca Brasileira, sempre centrada na divulgação do cinema em todas as suas formas, exibiu em 2010 o consagrado Behind the green door, filme de sexo explícito que procura (com sucesso) alcançar um diferente nível de expressão e direção. Sem vaselina é péssimo porque suas fraquezas são um demérito exclusivo seu.

O filme é dividido em dois segmentos, e o primeiro episódio apresenta, por puro acaso, uma metalinguagem que se aproxima do célebre Oh! Rebuceteio e expõe uma alegada hipocrisia sobre como o cinema pornográfico funciona. Mas mais hipócrita é o próprio filme de Miziara, pois se esconde atrás do humor para fingir zombar de uma condição de que se beneficia. Todos os vícios, problemas e trapaças ironizados são os mesmos que estruturam Sem Vaselina e o fazem ser, a seu modo, um exemplo do que ele próprio acusa como contra-exemplo. A impessoalidade das relações está lá, a mecanização do sexo também: os atores e atrizes não têm rostos, mas falos e vulvas; o diretor se importa mais em gravar os diálogos pretensamente engraçados do que em naturalizar o encenado; as pessoas são descartáveis porque o sexo é aleatório e feito apenas como concretização da possibilidade animalesca de se excitar sexualmente; etc.

O segundo episódio é ainda mais repulsivo e trata de um assalto em que mulheres se prostituem por vontade própria, doença mental é tratada como desvio de caráter, torturados e torturadas gostam de ser subjugados, entre outras pérolas de um mau gosto insuperável. E, naturalmente, os dois segmentos filmados com pobreza técnica ímpar, imagem quase tão feia quanto o que é retratado nela, atuações pífias, desleixo em todos os sentidos.

De tempos em tempos, tentam injetar nesse degradante cinema “chute no cão morto” uma espécie de aura de louvável libertinagem, como se fosse digno de orgulho ser tão escancaradamente abominável.

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