Os Rapazes da Difícil Vida Fácil

Dossiê José Miziara

Os Rapazes da Difícil Vida Fácil
Direção: José Miziara
Brasil, 1980
Por William Alves

 

 

 

 

A vida de João (interpretado por Ewerthon de Castro) já era boa na primeira cena de Os Rapazes da Difícil Vida Fácil. Apesar do emprego modesto de cozinheiro em uma cantina italiana, o rapaz não sofria de nenhuma debilidade psicológica por conta dessa condição de proletário. Afinal, suas animadas interpretações de canções italianas tradicionais no restaurante lhe ajudavam a conquistar diversas admiradoras, que não raro o presenteavam com bilhetes indiscretos que propunham encontros românticos a dois.

No entanto, João é noivo da bela Carla (Silvia Salgado, lindíssima), moça ciumenta e virgem. Ela resiste com galhardia às investidas sexuais (cada vez mais freqüentes) do noivo, sob a justificativa de poder trajar com a devida castidade o vestido matrimonial. João lamenta, mas entende – mais ou menos.

Até que João é abordado por uma cafetina chamada Gilberto (!) e seu empregado, uma bicha simpática que atende por Luizinho. Gilberto já estava acompanhando os passos de João há um bom tempo, e havia notado o frisson que a presença carismática dele despertava nas garotas. A cafetina então transforma o rapaz, como ela mesma diz, em um “cinco estrelas”, um michê de alto gabarito. Gilberto é interpretado (a) por Yolanda Cardoso, ainda uma beldade em 1980.

O novo contratado da “agência” não tarda a descobrir os percalços da nova profissão, que exige que ele esteja em ponto de bala para quantas clientes pintarem no dia. Ele aceita a ajuda de Rodolfo, um prostituto picareta de relevância nula no estabelecimento, que convence João a acreditar que a sua idade avançada é sinônimo de experiência. Ou know-how, como ele insiste em afirmar. E tome gemada afrodisíaca no novato ingênuo.

Os Rapazes da Difícil Vida Fácil se ancora nos princípios básicos da pornochanchada: um roteiro minimalista (rapaz bem dotado fazendo sucesso no prostíbulo), bom humor e um monte de mulher pelada. José Miziara capricha no vasto ,i>cast de clientes de João, que engloba diversas nacionalidades e etnias. Tudo dura 90 minutos e algumas piadas são garantidas, como quando João, quase morto de medo, transa com uma mulher no parapeito de uma janela aberta.

Miziara é um diretor eclético, que durante a sua carreira transitou pelo dramalhão (Mulheres do Cais, 1979), flertou com o noir (As Amantes de Um Homem Proibido, 1982) e com a putaria sem pudores (Rabo I, 1985). Mas nenhum vestígio desse ecleticismo dá as caras quando se tem apenas este Os Rapazes de Difícil… em mãos. É uma produção objetiva, que abusa do humor instantâneo – um dos personagens do puteiro é um anão, que é solicitado por uma senhora que não agüenta mais “o complexo de superioridade” do marido, um craque do basquete.

As cenas de sexo rendem planos curtos, como que para mostrar que João é um cliente solicitado e não pode perder tempo com uma mulher só. Roberto Maya, que também trabalhou com Miziara em Como Faturar a Mulher do Próximo e Mulheres do Cais, também está presente, como o empresário que tenta traçar Carla, a noiva santa de João. Aliás, aí reside a essência do longa: com exceção da bem intencionada Carla, todos os personagens querem comer o maior número possível de gente.

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