O Furo

Dossiê José Miziara

O Furo
Direção: José Miziara
Brasil, 1976.

Por Adilson Marcelino

“Das atrizes que trabalhei, a melhor foi Nádia Lippi, e exatamente no primeiro filme que dirigi que foi o episódio O Furo, do longa Ninguém Segura essas Mulheres. Foi a atriz que consegui o melhor resultado com a direção e eu duvido que exista no cinema nacional outro trabalho melhor dela do que o desse filme”. Assim se pronunciou o cineasta José Miziara sobre Nádia Lippi, quando ela foi homenageada na coluna Inventário Grandes Musas da Boca, aqui na Zingu!

Antes de estourar nacionalmente com Bem Dotado – O Homem de Itu, Miziara realizou esse Ninguém Segura essas Mulheres, filme em episódios produzido pelos Estúdios Silvio Santos. O filme fez boa bilheteria e carimbou o passaporte do cineasta para dirigir seu primeiro longa, O Bem Dotado, já que aqui dirigiu apenas o segmento O Furo – ainda que tenha assinado o roteiro de todas as quatro histórias do filme.

Ninguém Segura Essas Mulheres é formado pelos episódios Marido que Volta deve Avisar, dirigido por Anselmo Duarte; Desencontro, dirigido por Harry Zalkowistch; Pastéis para uma Mulata, dirigido por Jece Valadão; e O Furo, de Miziara. Para cada um deles, a produção escalou deusas de diferentes linhagens: respectivamente, Vera Gimenez, Betty Saddy, Aizita Nascimento e Nádia Lippi.

A diferença crucial entre os três primeiros segmentos e o episódio dirigido por Miziara é que eles são comédias rasgadas e o último um drama tocante. Se nos primeiros, Dennis Carvalho, Milton Moraes e Tony Ramos são os astros, em O Furo quem faz par com Nádia é Jece Valadão, em mais uma composição de personagem característica de sua carreira, ainda que aqui em um perfil mais sensível e romântico, apesar das conseqüências de sua história.

Em O Furo, Nádia Lippi é Dalva, moça típica do interior que é flagrada pelos pais em amasso com o namorado – o próprio Miziara fazendo uma participação – e é expulsa de casa. Sem lenço e sem documento – é menor de idade -, desembarca em São Paulo com destino direto para a antiga arte de rodar bolsinha no asfalto. E é em uma dessa noites de viração que conhece Lúcio – Jece Valadão -, um guarda noturno que a deixa se esconder em seu trabalho quando a polícia baixa no pedaço e leva outras prostitutas em cana.

O jeito simples de Dalva conquista Lucio, e ali naquela noite mesmo ele a leva para casa em que mora na periferia. Ao acordar, ele não a vê ao seu lado na apertada cama, instintivamente corre para ver se sua carteira não havia sido surripiada, mas é surpreendido com a atitude da moça, que lhe traz o café no leito. Depois de passar manhã e tarde juntos, Lúcio faz o convite derradeiro: “ eu sou sozinho, você também. Quer morar aqui comigo? O que eu ganho é pouco, mas se você fizer o serviço de casa, dá para a gente viver junto”. Dalva se emociona, mal acredita no convite, mas aceita logo que percebe que ele fala sério. Lúcio, porém, faz um aviso: se você se interessar por outro homem não tem problema, me avisa e vai embora. Eu só não aceito ser traído.

E assim o casal leva a vida com dificuldade, mas feliz. Até que um simples detalhe sela o destino trágico dos dois – O tiro que ele desfere nela, já vemos desde o início da narrativa, com ela balbuciando “por que? por que?”. Mas o motivo só saberemos durante o desenrolar da história.

Ninguém Segura Essas Mulheres foi a primeira e única investida dos Estudios Silvio Santos no cinema naquela época, já que o Homem do Baú priorizou seu canal de TV. Mas essa produção foi especial, além do mérito do filme, por revelar o talento de José Miziara como roteirista e cineasta, que a partir daí construiria uma das mais bem-sucedidas trajetórias no cinema popular.

Meus Homens, Meus Amores

Dossiê José Miziara

Meus Homens Meus Amores
Direção: José Miziara
Brasil, 1978.

Por Adilson Marcelino

Em Meus Homens, Meus Amores, José Miziara reúne a cantora Rosemmary e a atriz Silvia Salgado como as protagonistas Miriam e Ana. Elas moram no mesmo prédio, são vizinhas de portas, e vez ou outra se encontram no elevador, onde sempre disfarçam o que sentem em conversas banais. Aparentemente, elas não têm nada a ver uma com a outra, a não ser o fato de que são estudantes em uma universidade. Porém, há mais semelhanças entre elas do que ambas possam supor.

Miriam é uma jovem reprimida pelo forte moralismo da mãe, Bárbara Fázio, que se sente ofendida até com propaganda de preservativo. O canal de vazão que encontra para seus desejos eróticos é a pintura, nas quais invariavelmente pinta imagens associadas pela mãe a monstros. Vestida de blusa de manga comprida, saia para baixo do joelho e botas a cobrir o resto da perna, seu jeito de vestir causa deboche nos colegas de faculdade, todos eles doidos para botar as mãos na beldade. Mas é para o personagem de John Herbert, um amigo da família, que ela vai abrir guarda, sem saber que seu ato não só irá causar a repulsa de sua mãe, que se afastará dela definitivamente, como também mudará totalmente sua vida.

Já Ana é casada com Peter, Roberto Maya, um empresário ciumento e escroto que não a deixa trabalhar e a afasta cada vez mais de seus amigos e amigas. Dentre eles está o personagem de João Signorelli, um antigo namorado que tenta reconquistar a amada. Sufocada pela possessividade, agressividade e maus tratos do marido, Ana se sente cada vez mais angustiada e insatisfeita, estado que chega ao auge quando o vê com uma amante. Vivendo em estado crescente de tensão, solidão e opressão, Ana protagonizará ato que irá mudar também sua vida.

Miriam e Ana, até então duas mulheres que tinham na condição de vizinhas o único elo que as ligavam, vivenciarão momentos de clímax que reservará para elas o mesmo destino. Mesmo que, ainda assim, quando se encontrarem mais uma última vez no elevador, pequenas mentiras e dissimulações sobre o que realmente estão vivendo voltarão a dar o tom em suas conversas.

Meus Homens, Meus Amores está situado nos primeiros filmes de José Miziara, período marcado por dois grandes sucessos: O Bem-Dotado – O Homem de Itu (1978) e Embalos Alucinantes – A Troca de Casais (1979) – ambos estrelados por Nuno Leal Maia. A estreia do cineasta foi com Ninguém Segura Essas Mulheres (1976), filme de episódios em que assinou o roteiro e dirigiu o segmento O Furo – protagonizado por Jece Valadão e Nádia Lippi.

Com Meus Homens, Meus Amores, Miziara dá seqüência à abordagem sobre o universo feminino que havia iniciado com O Furo e que estará presente em outros filmes que fará a seguir, como Mulheres do Cais (1979) e As Intimidades de Analu e Fernanda (1980).

Em Meus Homens, Meus Amores, ele já demonstra pulso na direção, como havia feito nos dois filmes anteriores, o que lhe garantirá um lugar especial no cinema popular da Boca Lixo e de grande aceitação por parte do público. No elenco, Rosemmary está linda e bem como atriz, mas quem rouba a cena mesmo é Silvia Salgado, linda e perfeita como a amargurada Ana. Além delas há as boas presenças de John Herbert e Arlete Montenegro, e raríssima participação da atriz Susy Camacho no cinema.

Filmografia

 
– O Furo -Ninguém Segura Essas Mulheres ( 1976)
– O Bem Dotado – O Homem de Itu (1978)
– Meus Homens, Meus Amores (1978)
– Embalos Alucinantes (1979)
– Nos Tempos da Vaselina (1979)
– Mulheres do Cais (1979)
– Os Rapazes da Difícil Vida Fácil (1979)
-As Intimidades de Analu e Fernanda (1980)
– Como Faturar a Mulher do Próximo (1981)
– Pecado Horizontal (1982)
– As Amantes de um Homem Proibido (1982)
– Mulher… Sexo Veneno (1984)
– Deliciosas Sacanagens (1985)
– Sem Vaselina (1985)
– Rabo I (1985)
– A Quebra-Galho Sexual (1986)
– O Oscar do Sexo Explícito (1986)

Musas Eternas

Helena Ramos

Por Leo Pyrata

Querida Revista Zingu,

Durante algum tempo matutei sobre como faria este texto. Provavelmente o excesso de cerimônias tem duas causas quase incontornáveis. Primeiro porque a Zingu é a revista que atiçou, amplificou e aprofundou minha paixão por um certo cinema brasileiro e a possibilidade de contribuir falando da Helena Ramos é um privilégio mas ao mesmo tempo me coloca numa situação ingrata. Porque verdade seja dita, nada que eu escreva vai mexer mais o leitor que a própria presença graciosa de Helena Ramos na tela.

Existem razões que são mais fortes que meu discernimento de reconhecer minha incapacidade de abraçar tarefas que vão além dos meus limites. O privilégio de escrever sobre Helena Ramos me parecia, num primeiro momento, uma oportunidade de prestar reverencia para a Rainha da Boca e tentar retribuir de alguma forma com a revista que despertou meu amor pelo cinema da boca. Existe na obviedade da escolha do nome de Helena Ramos uma fixação que é mais forte que o medo de estar apenas sublinhando tudo que já foi dito.

Infelizmente, não tenho nada de novo para compartilhar sobre Helena Ramos. De sua presença intensa no cinema brasileiro pude assistir um pouco menos da metade dos filmes e é a partir deles que tentarei me aproximar verbalizando minhas impressões. E no fundo tenho certeza que preciso falar de como suas escleróticas me rasgam por dentro (por mais que isso pareça estranho). Um triangulo das bermudas que se completa com o branco dos dentes que escapa da boca entreaberta da Rainha da boca dos sonhos. Esfinge indecifrável de rosto-enigma que não se esgota em palavras, e é maior que adjetivos produzindo fé na presença da estrela em cena. O cinema sensibilizado nos lábios de Helena em êxtase, um gozo com verdade no olhar. Imagem que guardei no peito e que me trouxe tantas outras.

Possuído pelo pecado de me embriagar com a polifonia de personagens que passearam pelas minhas retinas vivas nas paginas do seu rosto. Algumas vezes com outras vozes, tons de pele, cortes e cortes de cabelo. Em cada história que o corpo de Helena banha o cinema é uma cachoeira bendita. Bendita seja, sereia cangaceira erótica deitada nua nas pedras rindo e avexada ao pagar o primeiro peitinho. Bendita seja como Ana dando um caldo no Bacalhau. Como Dóris que eu queria colocar na minha monark barra forte e preparar o melhor estrogonofe de camarão para picá-la como inseto do amor. Ou Maria com quem enfrentaria o bando de Azulão, ou Alice para ser bem tratado como Jumbo.

Mulher sensual, protótipo da mulher brasileira, estrela de novela das oito que entre dezenove eu escolhi como objeto e com a mesma fé que Durvalina se despe em Crazy , me ajoelho perante a imagem de Helena . Como beata da FTP badalando os sinos no Palácio de Venus ou jogando capoeira contra o bando de Azulão.

Invejo as lentes que lamberam os olhos indecifráveis, a boca que com a mesma facilidade ilustra do gozo ao riso e a provocação purificando a metonímia tanto as matizes da burguesa frígida e recalcada quanto quando passeia dengosa pela comédia.

Eu poderia passar o resto dos meus dias testemunhando o evangelho fílmico de Helena Ramos, mas sei que basta guardar aquele olhar no coração da minha memória e estarei salvo.

Leo Pyrata é estudante de cinema, ator do curta Contagem – Prêmio de Melhor Direção para Gabriel Martins e Maurílio Martins no Festival de Brasília -, diretor do curta Retrato em Vão, co-diretor do longa Estado de Sítio, e vocalista da banda Grupo Porco de Grindcore Interpretativo.

Carta ao Leitor

Zingu! - Prêmio IBAC 2010

2010 foi um ano importantíssimo para a nossa Zingu!

O momento máximo está ilustrado na foto acima do prêmio IBAC 2010, que a Zingu! recebeu na categoria Cinema. Os concorrentes foram de peso – a Coleção Aplauso e o Coletivo Alumbramento -, mas a Zingu! trouxe o caneco para casa, enchendo de alegria todos nós. O parabéns é coletivo – editores, redatores e colaboradores de Norte a Sul que fizeram e fazem a história da revista.

Outro fator importante é a ampla reformulação iniciada pela Zingu! e que resulta no que o nosso distinto público acompanhará a partir desta edição 41:

– Foi montado um Conselho Editorial, formado por Andrea Ormond, Gabriel Carneiro, Matheus Trunk e Vlademir Lazo, que vai acompanhar o trabalho de edição da revista, sugerindo pautas e ajudando a decidir o que irá ao ar.

– Depois de um tempo com periodicidade irregular, a Zingu! volta às edições mensais.

– Além dos dossiês, especiais e as colunas tradicionais, a Zingu! engordou seu recheio, com a criação de novas colunas e espaço para artigos especiais.

– Durante um bom tempo, a Zingu! contou com o design de Anne Freitas, que gentilmente disponibilizou seu tempo e sua criatividade para deixar a revista nos trinques. Agora, a bola foi passada para Julia Morena, que está trabalhando no layout novo da Zingu!, a ser inaugurado na edição de fevereiro.

– Por fim, registro, com grande felicidade, que a partir deste número sou o novo Editor-Chefe da Zingu!, depois das notáveis trajetórias na função dos amigos Matheus Trunk e Gabriel Carneiro – fundadores da revista e que permanecem como redatores e membros do Conselho.

A primeira vez que participei da Zingu! foi como colaborador em 2008, passando em 2009 para a função de redator e contribuindo com textos para os diferentes conteúdos da Zingu! – dossiês e especiais, além da coluna Inventário Grandes Musas da Boca. Agora, como Editor-Chefe, sei que minha responsabilidade aumenta, mas o amor e a dedicação são os mesmos. Prometo fazer o melhor possível para a nossa Zingu!

Apresentamos a edição 41 que, como dito, permanece com os espaços tradicionais e traz novidades.

O cineasta José Miziara é o dossiê do mês. Notável nome da Boca do Lixo, Miziara é sinônimo de cinema popular de grande aceitação do público, com filmes amados como O Bem Dotado – O Homem de Itu, Embalos Alucinantes – A Troca de Casais, e Pecado Horizontal. Nesse Dossiê, comentamos a filmografia do cineasta desde a estreia com o episódio O Furo, do longa Ninguém Segura Essas Mulheres, até a fase de sexo explícito – dos 17 filmes só ficaram de fora a comédia em episódios Como Faturar a Mulher do Próximo (1981), Mulher… Sexo Veneno, e Deliciosas Sacanagens (1985). Fazem parte ainda do dossiê longa entrevista com o cineasta, que repassa toda a sua trajetória com falas polêmicas sobre alguns personagens da Boca, e também edição consonante da coluna Inventário Grandes Musas da Boca, que homenageia Márcia Maria, uma de suas atrizes preferidas e protagonistas de dois de seus filmes – As Intimidades de Analu e Fernanda (1980) e As Amantes de Um Homem Proibido (1982).

Ainda nesta edição, temos três colunas novas:

– Nossa Canção – redatores da revista e convidados especiais vão destacar a música nos nossos filmes, seja por uma canção, uma trilha ou mesmo a participação em cena de cantores e compositores em nossos filmes. Na coluna inaugural, Matheus Trunk saúda o sambista Germano Mathias.

– Filme-Farol – redatores da revista e convidados especiais falarão daqueles filmes que foram faróis em suas vidas. O Filme-Farol aqui é entendido não como marco na história do cinema, mas como filme do coração. Sérgio Andrade abre a série com Osso, Amor e Papagaios, de Carlos Alberto de Souza Barros.

– O Que É Cinema Brasileiro? – aqui, pesquisadores e críticos convidados vão responder essa pergunta, que tanto quiproquó costuma gerar nas discussões e que nos ajudará a lançar luzes sobre o tema. O primeiro convidado é o pesquisador Antonio Leão da Silva Neto, autor dos obrigatórios Dicionários de Longas, Curtas e Médias, e de Astros e Estrelas do Cinema Brasileiro.

No Artigo, abrimos espaço para nossos hermanos argentinos. Nosso colaborador Alejandro Sainz de Vicuña, do Rio de Janeiro, apresenta um texto comparativo de fôlego entre o filme argentino Nove Rainhas, de Fabián Bielinsky, e seu remake americano 171, de Gregory Jacobs.

E há, claro, as colunas tradicionais Cinema Extremo, Subgêneros Obscuros, Reflexos em Película, Musas Eternas e Musas do Diniz, que nesta edição nos traz NEKROMANTIK 2, de Jorg Buttgereit, o Mondo de Prosperi & Jacopetti, o terreno controverso das citações em Referência nem Sempre é Reverência, e a beleza das musas Helena Ramos e Luciana Vendramini.

Tenham todos uma ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

Inventário Grandes Musas da Boca

Márcia Maria

Por Adilson Marcelino

Na década de 1970, três atrizes dividiam o estrelato na TV Tupi. E se Eva Wilma era a rainha, as princesas eram, com certeza, Elaine Cristina e Márcia Maria. Todas elas levaram seu talento também para o cinema, mas foi Márcia Maria que se tornou uma das amadas musas da Boca do Lixo.

Márcia Maria construiu uma extensa carreira na televisão, onde trabalhou como atriz e apresentadora, e foi estrela em duas importantes emissoras: Record e Tupi. Na primeira, estreou na série Ceará contra 007, de Marcos César, em 1965, e brilhou em novelas como Algemas de Ouro (1969), As Pupilas do Senhor Reitor (1970) e Os Deuses Estão Mortos (1971). Já na Tupi, atuou em novelas importantes como Mulheres de Areia (1973) e Os Inocentes (1974), ambas de Ivani Ribeiro.

Ainda na Tupi foi uma das estrelas preferidas de Geraldo Vietri, sempre fazendo par romântico com Jonas Mello: Meu Rico Português (1975), Os Apóstolos de Judas (1976), João Brasileiro, O Bom Baiano (1978).

Ainda nos primeiros anos de carreira, Márcia Maria estréia no cinema em ousado filme de Fauzi Mansur, Cio – Uma Verdadeira História de Amor, lançado em 1971. Fauzi Mansur foi um dos mais atuantes nomes da Boca do Lixo e dirigiu quase quarenta filmes, mais outros tantos como produtor. Na história, ela é uma moça da alta sociedade que está de casamento marcado com o personagem de Francisco di Franco, um engenheiro da indústria automobilística. No início da trama, em uma de suas escapadas com a amante vivida por Marlene França, ele vê um garoto retirante na estrada e fica fascinado. Tempos depois reencontra o menino Darci como engraxate, vira seu tutor, mas é assolado por paixão fulminante por ele e se debate ante o despertar do desejo homossexual, que não entende muito bem. Essa estranha relação abalará o casal de forma indesviável.

O próximo filme de Márcia Maria viria alguns anos depois, dessa vez dirigida por Sílvio de Abreu, outro nome de sucesso da Boca, que depois se tornaria novelista consagrado. O filme é Gente Que Transa, de 1974, estreia de Abreu como cineasta depois que Carlos Manga desistiu de dirigir a fita. Na trama, uma sátira sobre acirrada disputa entre Luiz Guilherme e Carlos Eduardo, respectivamente Adriano Reys e Carlos Eduardo Dolabella, para ver quem vence uma concessão de TV. Márcia Maria é Denise, a mocinha do filme.

Uma das marcas de Geraldo Vietri era a de trabalhar quase sempre com o mesmo elenco, e isso valia tanto para a televisão como para o cinema. Portanto, nenhuma surpresa em escalar Márcia Maria, uma de suas queridas atrizes, para o filme Que Estranha Forma de Amar, lançado em 1978. Baseado no romance “Iaiá Garcia”, de Machado de Assis, aqui ela é Eulália.

Mas é no encontro com José Miziara, um dos grandes nomes do cinema popular da Boca do Lixo, que Márcia Maria terá a sua disposição os melhores personagens de sua carreira cinematográfica – a atriz foi casada com o ex-cunhado do cineasta. Com Miziara ela fez As Intimidades de Analu e Fernanda (1980) e As Amantes de um Homem Proibido (1982).

As Intimidades de Analu e Fernanda é um dos melhores filmes de Miziara, em que ele reuniu duas deusas: Helena Ramos e Márcia Maria. Na trama, Helena é Analu, mulher que se sente oprimida pelo marido Gilberto, personagem vivido por Ênio Gonçalves. Cansada de sua vida de casada, que mais parece uma prisão, ela decide se separar, pega suas coisas e cai na estrada. No caminho encontra Fernanda, personagem de Márcia Maria, que gentilmente oferece hospedagem em sua casa. Começa aí um perigoso romance homossexual, já que Fernanda se revelará cada vez mais ciumenta e possessiva. Gilberto descobre o paradeiro de Analu, que por sua vez resolve fugir mais uma vez do marido e da amante. Mas nenhum dos dois vai querer abrir mão tão facilmente de Analu.

Fernanda é um personagem sob medida para Márcia Maria, que empresta toda sua sensualidade elegante e sua carga dramática de atriz. O contraponto com a Analu de Helena Ramos funciona perfeitamente. Há forte acento moralista na construção da personagem Fernanda, em que a homossexualidade é mais uma vez associada ao desequilíbrio emocional e à violência. Mas nada disso tira o brilho do filme, que prende atenção do início ao fim, demonstrando mais uma vez o talento de Miziara.

O outro filme em que Márcia Maria é protagonista é As Amantes de Um Homem Proibido (1982). Nuno Leal Mais é Leandro, o tal homem proibido, e Márcia Maria, Liza Vieira, Regina Tonini e Dirvana Brandão as tais amantes, nesse drama policial. E Nuno é proibido porque fugitivo da polícia depois de sumir de São Paulo com mala de dinheiro roubado de banco e onde matou dois comparsas, inclusive a mulher bandida que amava e que foi usada como escudo. Ele vai parar em Campestre, cidade do interior de Minas Gerais, onde se emprega como caseiro na casa de Márcia Maria, e de quem vira amante.

O roteiro desse As Amantes de Um Homem Proibido, também assinado por Miziara, reserva reviravoltas engenhosas. Márcia Maria está perfeita como Flávia, a dona de um sítio onde passa a maior parte do tempo sozinha, já que o marido, Walter Forster, só aparece nos finais de semana. A forma como se dá a relação de Flávia e Leandro depende, e muito, de bons intérpretes para dar veracidade à história. E aqui, Nuno Leal Maia e Márcia Maria encarnam esse casal na medida certa.

Infelizmente, depois desses dois filmes com José Miziara, Márcia Maria não foi mais escalada para o cinema. O que é uma pena, além de ser completamente incompreensível. De qualquer forma, seu posto de musa jamais será esquecido por todos os amantes do cinema popular.

Pitaco de Matheus Trunk

Márcia Maria! Que alegria eu ter sido lembrado para falar sobre essa grande musa do cinema e da televisão. Vivemos num país sem memória, em que diversas pessoas de real talento são condicionadas a uma espécie de segunda divisão. Esse é o caso da atriz aqui retratada. Posso dizer que a fantástica Márcia Maria foi uma das mais talentosas e sensuais atrizes brasileiras das décadas de 1960 e 70. Fez muitas novelas na saudosa TV Tupi, sempre se destacando entre as suas contemporâneas. Infelizmente, ela fez muito poucos filmes e talvez nunca tenha ganhado um papel a sua altura. Me lembro que fiquei fascinado pela atuação dela no clássico As Intimidades de Analu e Fernanda, do José Miziara. Trata-se de um dos melhores filmes da Boca do Lixo paulista, um pornodrama muito bem feito. O próprio Miziara me falou que seu filme favorito como diretor é mesmo O Pecado Horizontal, mas ele tinha um carinho especial por Intimidades. Outras grandes atrizes que eram muito ativas na Tupi como Arlete Montenegro, Kate Hansen e Wanda Stefânia hoje estão esquecidas. É muito difícil tentar entender o real motivo disso. O melhor é sempre falar e prestigiar essas grandes divas, que, infelizmente, ficaram relegadas a um segundo plano.

 

Filmografia

 . Cio – Uma Verdadeira História de Amor (1971), de Fauzi Mansur
. Gente que Transa (1974), de Sílvio de Abreu
. Que Estranha Forma de Amar (1977), de Geraldo Vietri
. As Intimidades de Analu e Fernanda (1980), de José Miziara
. As Amantes de um Homem Proibido (1978), de José Miziara

Entrevista José Miziara – Parte 2

Dossiê José Miziara

Entrevista com José Miziara
Parte 2 – Boca do Lixo e o cinema

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Por Gabriel Carneiro
Fotos: Laisa Beatris

Z – Porque demorou seis anos para você conseguir dirigir seu primeiro filme, o episódio O Furo?

JM – Houve uma sucessão de empregos, vim para cá, para TV Bandeirantes, fiquei desempregado, vinha divórcio… Depois da terceira mulher, estava no Rio de Janeiro, tinha separado. Um primo meu arranjou para eu ir morar num apartamento de cobertura de uns amigos deles, que alugavam um quarto. Era perto do Cine São Luís. Não tinha o que fazer, fui para o largo do Machado e passava o filme Banana Mecânica, com o Carlos Imperial. Fiquei pensando: “Porra, como pode fazer um filme desse e ser sucesso?” Na época, estava fazendo uma novela na Globo. Em casa, peguei a minha máquina de escrever portátil – que ainda está guardada; vai para o túmulo comigo – e comecei a escrever o Ninguém Segura Essas Mulheres – que não era o Ninguém Segura Essas Mulheres, chamava-se Trambiques. Eram tudo histórias de jornal. A primeira história que escrevi foi vivida por um grande amigo meu, o Aurélio Teixeira. Quando vim para São Paulo, vim dirigir a linha de show da TV Tupi. Encontrei lá o Clayton Silva, que me avisou que nos Estúdios Silvio Santos estavam querendo fazer um filme. O Clayton sempre trabalhou em meus filmes, como assistente, amigo meu desde os tempos da TV Paulista, em 1958. Dei o roteiro para eles lerem. O Luciano Calegari mandou me chamar e pediu para lê-lo inteiro para ele – televisão brasileira é uma coisa; se você manda qualquer coisa escrita, ninguém lê nada. Depois de ler, ele aprovou e foi marcar com o Silvio. Só fiquei sabendo depois, venci 21 outros scripts que tinham chegado lá. Foi marcado com o Silvio Santos numa churrascaria nos Jardins. Fomos nós, eu, o Mário Wilson – o argentino que era o cenógrafo -, o Silvio e o Luciano. Aí sentamos na churrascaria, e o Luciano diz “lê pro Silvio do jeito que você leu para mim”. “Porra? Vai demorar uma hora e meia!”. “Não, pode ler aí”. Porra… li todo o script outra vez. Acabei de ler, o Silvio respondeu “fechado, quanto custa esse filme?”. “Acho que com um milhão faço.” Um milhão daquela época, né? Ele disse: “tudo bem. Você pode estourar em até 10% essa meta”. Assim nasceu o filme. Só que o filme chamava Os Trambiques, aí o Silvio me disse assim: “Não, não, não vamos botar esse nome não porque eles podem associar com o Baú (risos), então não”. Pedi que escolhessem o nome. Na época, o presidente Médici tinha o “ninguém segura esse país”, e o Silvio teve a brilhante idéia de botar Ninguém segura essas mulheres. E não é que deu certo?

Z – Porque são quatro os diretores, um por episódio?

JM – “Você já dirigiu algum filme?”, me perguntou o Silvio. E eu: “Não, mas tenho escola”. “Então vamos fazer o seguinte. São quatro episódios, você me arrume mais três diretores e você dirige um episódio”. Contrariado, mas desde que o dinheiro viesse, topei. Peguei o Anselmo, meu amigo. Três episódios foram feitos no Rio de Janeiro. Sem falar nada comigo, o Silvio vai lá e contrata o escritório, o equipamento, tudo do Jece Valadão, até os telefones. “Mas pô, vocês não falam comigo?”. Contatei o Domingos de Oliveira, que tinha feito um bom filme antes, de que tinha gostado. Ele me respondeu com um bilhete para mim: “Não posso ir na reunião, mas chego aí para dirigir a sua piada”. Eu mandei outro para ele: “Vai pra puta que te pariu, você não vai mais estar nesse filme”. Dei outro pro episódio pro Jece e o outro dei para um amigo meu russo, Harry Zalkowistch, que tinha vindo da Europa, e me ajudou no roteiro, dando dicas de cinema. O episódio do Harry é feito em cima dele, que era muito ingênuo, muito… ele não tinha malícia, sabe? Sabe uma pessoa pura? Ele foi um dos maiores amigos que eu já tive na vida. Morreu lá em Vila Isabel, coitado.

Z – Esse é também o seu primeiro filme com o Antonio Meliande, com quem você trabalhou bastante.

JM – Quando fiz O Furo, tinha montado minha equipe e queria um diretor de fotografia bom. O chefe da produção, Hélio Siqueira, então me disse: “Vou te trazer o melhor de fotografia que tem aqui no Brasil. Ele é o segundo depois do Dib Lutfi! Ele é o melhor de câmera na mão depois do Dib Lutfi”. O Dib Lutfi era considerado o maior cameraman com câmera na mão. Ele me trouxe o Toninho Meliande. Comecei a conversa com ele dizendo que era o primeiro filme que iria fazer. “Não tenho experiência no campo de filmagem. Preciso mais do que um diretor de fotografia, preciso de um irmão”. “Eu topo”. “Então você vai ter a recíproca sempre”, retruquei. Tanto que ele foi contratado dos estúdios do Silvio Santos. Ele não ganhou por filme, não. Tanto que, depois que acabou o filme, ficamos eu, ele e o Hélio bebendo nas custas do estúdio do Silvio Santos, meses. Acabamos, juro por Deus, com o bar em frente. O Silvio não queria despedir nós três e ficávamos lá. A gente chegava lá: “Ô, eu quero minha demissão!”. Eles: “Pô! Vocês não estão recebendo salário? Não tem uma sauna? Então não enche o saco, fica aí”. “Então tá bom. Então vamos pro bar, porra”. A gente ficava no bar o tempo todo e o Anselmo ia para lá (risos).

Z – Você já freqüentava a Boca nessa época?

JM – Não. Quando fui lançar o Ninguém segura essas mulheres, perguntei qual era a melhor lançadora que tinha. Me disseram que era a Cinedistri. Fui lá. Falei com o Aníbal Massaini e fizeram o lançamento do filme – e fizeram muito bem feito, principalmente de olho no Silvio Santos. Principalmente. O filme fez sucesso, deu uma tremenda renda, um tremendo retorno, o Silvio pediu para a gente ir para porta de cinema, perguntar para o povo o que achavam do filme. O Silvio só acredita no resultado. Íamos para as portas do cinema e levávamos as entrevistas todas para o Silvio – e aí ele viu que o filme deu resultado, que foi um sucesso. Quando saiu a concessão do canal, ele parou com cinema. Foi quando se sucedeu aquele episódio de ficar bebendo, pedindo demissão e recebendo salário. O Toninho foi o primeiro: “Não, eu não vou parar minha carreira para poder ficar aqui recebendo salário”. Toninho se mandou. Aí me mandei também. Enquanto ficava lá no estúdio do Silvio Santos, escrevi O Bem Dotado – O Homem De Itu. Quando saí de lá, fui procurar o Aníbal, que era o único que conhecia da Boca. Foi como entrei na Boca. Ele leu e disse: “Porra, é meu. É meu. Vamos fazer”. Quando fiz O Bem Dotado e ele explodiu – foi aquele puta sucesso -, todo mundo queria que fizesse filme para eles. Foi aí que entrei para a Boca.

Z – O Bem Dotado foi o seu primeiro longa, então?

002-300x199JM – Foi. Graças a eles, aconteceu um fato inédito no cinema nacional. A Fama Filmes me contratou, fixo. Não tinha isso no cinema da época. Eu ganhava 50 mil por mês para ser contratado deles e fazer três filmes. Os curtas que queriam que fizesse, para cumprir a lei da obrigatoriedade dos curtas, me pagavam 10% por fora. Nesse esquema, fiz Os Rapazes da Difícil Vida Fácil e As Intimidades de Analu e Fernanda. Sabe como é que conseguiam dinheiro pros filmes? Eles iam na Paris Filmes, por exemplo, com quem fizeram dois, e diziam: “Tenho o José Miziara sob contrato. Quer entrar no filme?”. Pegavam o orçamento, melhoravam o orçamento e pegavam o dinheiro dos caras (risos). Descobri isso ao acaso. Fui assistir um filme da Fama Filmes/Titanus com o chefão da Paris, cujo nome não me lembro, que reclamou do longa. Eu não tinha nada a ver com isso, isso era problema dele. Disse para falar com o Adone Fragano, produtora. Vem falar comigo? “Ué, mas me venderam você”, ele respondeu. “Eeeu? Não tenho nada a ver com isso, quem fez esse filme aí foi o Ary [Fernandes; o filme é Sexo Selvagem, de 1979]”. O bom do cinema é poder. O que vale é o borderô. Se teu filme faturou, na Boca, não tem esse negócio de pai, filho, irmão, nada disso. Sabe? Lá é assim: seu filme faturou, eles vão atrás de você. E, graças a Deus, meus filmes todos faturaram horrores, então os caras vinham atrás.

Z – De onde surgiu a idéia para O Bem Dotado?

JM – Hoje, já posso contar, estou com 74 anos de idade [a entrevista foi feita em julho de 2010]. Há um filme francês, O Último Homem Virgem Sobre a Terra [ao que tudo indica, Le rosier de Madame Husson, 1950, de Jean Boyer]. Se você achar esse filme, você vê O Bem Dotado. Eu plagiei, plagiei mesmo. É um filme com o comediante francês Bourvil. Peguei e passei para Itu – no original, fazem numa vila da França. Duas mulheres que vão ser para juízas, acham o cara lá que é virgem, trazem para a cidade… igualzinho. Pode pegar lá que você vai ver.

Z – Em O Bem Dotado, como surgiu a idéia de usar o som de maneira caricata, quase como se fosse de um desenho animado?

JM – Era para suavizar o tema central, que era o cara com um puta dum pau. Cada vez que ele vai transar com uma mulher, ela dá aqueles berros. Então, como você faz isso? Você bota de uma forma jocosa, de uma forma caricata, como uma forma engraçada para que não fique violento. Porque senão, você já pensou? Se ele faz aquilo, realmente, é um estupro a cada momento. Acho que é por aí o sucesso do filme.

Z – E como você chegou ao nome do Nuno Leal Maia para protagonizar?

JM – Quando escrevi o filme, era para o Teobaldo [personagem que suplantou o próprio Roberto Marquis, seu criador] fazer. Mas o Aníbal o vetou. “Precisamos de um cara que seja um símbolo sexual”, disse. Abri mão do Teobaldo. O Aníbal fez então uma recomendação: “Ó, tem um cara aqui que fez um episódio, chamado Nuno Leal Maia”. Mandei o script para o Rio, o Nuno já morava lá. Nada do Nuno dar resposta. O Aníbal sugeriu então de irmos para o Rio, atrás de outro nome. Ele tinha em mente o Ricardo Petraglia e mandou o script para ele. Lá fomos nós, hospedados no Copacabana Palace, e marcamos para encontrar com o Ricardo Petraglia lá. Estamos no Copacabana Palace, tomando um uísque, e chega o Nuno Leal Maia. “Oi!” (imitando Nuno Leal Maia, risos), com aquele jeitão meio… Eu olhei para o Aníbal, o Aníbal olhou para mim, como quem diz: “Pô, o que é esse cara tá fazendo aqui?”. “Como é? Quando a gente começa a filmar?”, o Nuno perguntou (risos). “Filmar o quê?” “Pô, O Bem Dotado, pô. Não mandaram script?” “Nuno, nós estamos aqui para conversar com o Ricardo Petraglia”. “O Rick Petra? Não, poxa, pô! Eu é que vou fazer o filme.” “Mas, porra, Nuno, você não respondeu nada, você não falou nada”. “Como não? Não, tem nada disso… manda o Rick andar que eu que vou fazer o filme”. O filme era com o Nuno Leal Maia. Aí comecei a conhecer o Nuno, que hoje é até meu padrinho de casamento. Fez três filmes comigo, é meu ator favorito de cinema, assim como eu sou o diretor favorito de cinema dele. No primeiro dia de filmagem, fizemos a estrada, a participação especial do John Herbert, a chegada das duas com a Mercedes, e aí a cena do mato. O Nuno me pergunta: “Como é que eu faço?” “Porra, mas você tá com esse script há quanto tempo?” Eu explico exatamente o que queria, de novo, e ele me vira: “faz pra mim”. Lá fui eu pro meio do mato, e lá vim andando, como eu queria. “Ah, é assim?”. “É”. “Tá bom”. Tinha um eletricista do lado que estava com um boné vermelho. Ele olhou pro boné do cara, tirou o boné da cabeça do cara e botou na cabeça dele. Entrou pro meio do mato e fez a primeira cena. Aí nasceu O Bem Dotado (risos).

Z – Como você escolheu o elenco feminino?

JM – Tinha minhas predileções, como a Consuelo [Leandro], a Maria Luíza [Castelli]. Depois foi para o painel de Playboy: Helena Ramos. A Esmeralda [Barros], minha amigona, desde o Rio de Janeiro. Tem também a Lola Brah, que era a preferida de todas as equipes de cinema. Você chegava para qualquer um… O diretor de fotografia, o Oswaldo [de Oliveira], cada vez que tinha que fazer um close da Lola, meu deus do Céu, lá ia ele procurar tela, não sei o quê, “vamos deixar ela linda”. A Lola era querida de todo mundo. A pior era a Aldine Müller. “Sabe nadar, Aldine?” “Seeei.” “Sabe montar cavalo?” “Pô, sou gaúcha, Miziara.” Não sabia nem montar cavalo e nem nadar. O Oswaldo gritava: “Mata ela, Miziara, mata essa filha da puta”. A gente lá em Itu filmando, aqueles mosquitos comendo a gente: “Aldine, faz assim na água, não precisa nadar. Anda, fica em pé. Finge que nada”. “Nãããão, porra”. E o Oswaldo gritando lá de cima: “Maaata ela, Miziara, mata essa filha da puta”.

Z – Em 1979, você rodou quatro filmes. Como foi balancear isso tudo?

JM – Ah, é aquilo falei: cinema é bom por causa disso, é borderô. Deu dinheiro, os caras vêm tudo atrás. Você fica folgado. Porque, não sei se você sabe, foram todos eu que escrevi.

Z – Todos eles?

Miziara: Todos.

Z – Mas nos créditos Mulheres do Cais não aparece você como roteirista… [assinam Antonio de Pádua e José Sampaio].

Miziara: Como não? Que isso… só se me roubaram o crédito. Esse filme foi o único filme meu que não editei [em consulta posterior, foi checado que, nos créditos, a edição não foi assinada por Miziara em nenhum de seus filmes]. Porra, me lembro tão bem que escrevi. Tem até uma cena da Yolanda Cardoso, que ela ensina à prostituta como descobre doença018-300x199 venérea, que foi um primo meu, médico, que me ensinou quando era garoto, e coloquei nesse script.

Z – Como era trabalhar com o Galante?

JM – O Galante só visa lucro e o lado dele. Foi assim que ele ficou rico, né? De varredor de estúdio, ficou rico porque só visa o lado dele. Só. Mais nada. Mas paga em dia, ouve tudo o que você quer e tem uma mania… “Olha, queria que você fizesse um filme, mas corte-a-corte, corte-a-corte, corte-a-corte”. “O que é corte-a-corte?” Ele odeia o plano-sequência. É uma figurinha.

Z – Era melhor trabalhar com o Massaini?

JM – Não. Não. Se tivesse que fazer mais um filme com Massaini – o Aníbal -, não faria. Ele é um diretor frustrado. Isso no meu entender. Por exemplo, um filme dele para ser lançado demora mais de seis meses de montagem. Todos os filmes dele. O [Walter Hugo] Khouri chiava muito. Porque tem que esperar, e ele é cheio de palpites. É o que te digo, ele é um diretor frustrado. “Porra, pega o filme e dirige você, irmão”, falei para ele. Só que todas as vezes em que foi dirigir, se deu mal. Tem determinados caras que para você trabalhar é muito difícil, atravanca seu trabalho, interrompe. Tudo na vida há duas opções. Quando você quer decidir qual é a melhor, vem o cara com uma terceira. Uma quarta. Aí não. Você vai fazer determinado negócio. Aí fica um outro cara lá dizendo: “Olha, faz o seguinte, ó, faz o seguinte”. Você tem uma linha pra seguir ao fazer o filme. Larguei de cinema mais por causa disso. Muito melhor ser ator de televisão. Trabalho só terça-feira, decoro meia página, o carro vem me buscar em casa, me traz de volta, pagamento tá lá no dia primeiro…

Z – Como é que era a Boca do Lixo, a atmosfera, o ambiente?

JM – Muito bom. Gostava de todo mundo lá. Pelo menos a minha mesa era sempre cheia de gente. A gente ria muito, bebia muito, jogava pôquer toda noite. Todo mundo era legal, a gente era amigo de todo mundo. Se você precisava de um ou de outro, tinha sempre alguém ali para estender a mão. Se o cara pedisse, você podia ajudá-lo sempre. Ali, olha, não tive nenhum desafeto. Fora a bandidagem, também era todo mundo amigo nosso. Porque a gente tinha um trato com a bandidagem. A gente nunca via nada e eles nunca assaltavam ninguém do cinema. Tanto que uma vez assaltaram o carro de uma pessoa, e deram queixa lá pra uma chefe das trombadinhas lá. Em duas horas voltou tudo que tinham roubado do carro e o cara foi expulso de lá à porrada, porque era um bandido de passagem. Não sabia de nada (risos). Ali era muito bom, viu? Então, durante o dia você atendia o mulherio, as meninas que iam ser feitas, os caras de técnica, tudo. Se você fosse fazer um filme, bastava você descer no bar e dizer assim: “vou filmar!”, já vinha a equipe inteirinha, vinha todo mundo lá e você podia escolher quem você quisesse. Quando chegavam as seis horas da tarde, já tava todo mundo no botequim, todo mundo biritando. Chegava as oito horas, subia para um dos escritórios e jogava pôquer até às três horas da madrugada, saía de lá, ia para a padaria, comia alguma coisa e aí vínhamos pra casa. Era uma festa. A gente chegava às dez, dez e meia, onze horas. Ao meio-dia e meia, uma hora, ia se almoçar. O almoço era na base do “quem convida quem”. Então, era sempre uma festa. Uma vida muito boa, você não tinha problema, não tinha nada. Chegava dia 20, chegava o borderô, aí “olha quanto faturei, olha o quanto faturei”. “Hoje pago? Não, amanhã à tarde”. Era isso. Tinha a estréia um do outro, nas segundas-feiras, ia todo mundo. Todo mundo trocava informação.

Z – Como era trabalhar com o Anselmo Duarte?

Miziara: Ah, era uma farra. Era uma farra do cacete. O Nuno, quando era principiante, fez um filme com ele, e o Anselmo o gozou o tempo todo. Quando foi pros Embalos Alucinantes, o Nuno era o principal. Então, começou a ir à forra com o Anselmo. Sabe a cena quando todos acordam e vão para o terraço, pro mar? Você já viu a cara do Nuno e do Anselmo? Eu botei os dois bebendo a noite toda, não dormiram (risos). Eu queria aquelas caras, então botei os dois bebendo. Enchi eles de bebida, beberam a noite inteira. Quando chegou de manhã, os dois ainda dormindo: “filmagem! Eu preciso pegar uma cena do sol, não, não, filmagem!”. O Anselmo tava morto, o Nuno também. O que a gente riu durante essas filmagens, você não faz idéia. Esse Embalos Alucinantes, a gente foi para aquela casa lá, era uma festa. E o Anselmo e o Nuno, os dois juntos, então você morria de rir. O Nuno acabou se tornando um grande amigo meu, o Anselmo também. Eu ia para Itu todo fim de semana com ele. Ele tinha uma namorada feia para cacete, e ele tinha vergonha de sair com ela, mas ela era milionária. E ele tinha que sair com ela. Ele me arrumou uma namorada lá. Mas, para gente sair, a gente não podia ir em Itu, a gente tinha que ir em Campinas, para ir na boate, tudo, dançar, jantar. Aqueles caras lá de Itu se encontram toda noite, então eles não têm mais assunto. Ficam um olhando para a cara do outro, bebendo o chope. O Anselmo, que é rico de assunto – o repertório dele é fantástico -, quando entrava no bar, era recebido pelos velhos: “Ansermo, vem tomar uma aqui”. Todo mundo disputando o Anselmo. O Anselmo sempre tinha uma história. Sempre. Porque, ele partia de um ponto verídico, e fazia um roteiro. As histórias dele sempre são fantásticas, eu sei todas elas. Chegava na Boca era a mesma coisa, todo mundo queria o Anselmo na mesa. Ele tinha cada história que você não faz idéia. O que ele inventava, você ria o tempo todo que ele tava na mesa. O tempo todo. Você ria mais com ele do que com o Mazzaropi.

Z – Como você teve a idéia para fazer o Embalos Alucinantes?

JM – Sempre ia pro Rio, visitar minha filha, fruto do terceiro casamento que tinha acabado em divórcio. Me hospedava na casa do Roberto Maia. E tava deitado, assim, no sofá, encostado, e vi a revista Veja. Peguei aquilo e comecei a ler.

Z – É a mesma reportagem que você mostra no filme?

JM – Exatamente! É a mesma revista. Peguei aquela revista, não conhecia, e comecei a ler – e tinha a história do swing. Pedi para levar aquela Veja de volta para São Paulo. Peguei aquela Veja, botei no meu carro e vim pra São Paulo maquinando. Aliás, porque, passei nove anos indo pro Rio e voltando, ia para lá, sexta à noite ou sábado bem cedinho e voltava segunda de manhã, por causa da minha filha. Pegava ela e ia para o hotel, ficava com ela, e depois eu devolvia e voltava. Esse Embalos Alucinantes foi todo elaborado no trecho Rio-São Paulo. Analu e Fernanda também foi todo elaborado na estrada.

Z – Ao fazer As Intimidades de Analu e Fernanda, você usou o cinema policial americano e noir como referência? Nos jogos de luzes…

0141-300x199JM – Ah, isso é trabalho do diretor de fotografia. Quando escrevi o roteiro, não tinha visto O Último Tango em Paris ainda. Alguém leu o roteiro e disse assim: “Isso aqui é o filme do Marlon Brando, porra. O final é d’O Último Tango em Paris!”. “É?”. “É.” Aí fui procurar ver O Último Tango em Paris, tinha escrito a mesma coisa. A mesmíssima coisa. Aí tive que refazer. Mas mesmo assim ainda ficou meio igual. Não tinha muito como fugir também.

Z – Como você chegou na Márcia Maria para o papel?

JM – Ela era ex-esposa do meu cunhado e uma atriz – e como já sabia das tendências dela… É também uma tremenda companheira de bebida. Quando veio filmar Analu e Fernanda, levou duas malas: uma de roupa e uma de bebida (risos). A Helena Ramos chiava pra caralho: “porra, vem me beijar com aquele bafo”.

Z – Como que era trabalhar com a Helena Ramos?

JM – Ah, a Helena era muito chata. Porque ela é muito burra. Muito burra. Olha, Aldine Müller, Helena Ramos e a Lenilda Leonardi são muito burras. Nunca vi. Lenilda Leonardi, essa bate todas as outras duas. Agora a Márcia era uma maravilha trabalhar com ela. É uma atriz.

Z – E porque usou Helena Ramos em vários filmes?

JM – Era aquele negócio, escolha de produtor. Porque você não pode negar que a Helena sempre foi bilheteria, né? Em O Bem Dotado, o Aníbal que botou ela, não fui eu. No As Intimidades de Analu e Fernanda, tinha que colocar uma que puxasse o elenco, então foi ela. Aquilo me deu um trabalho que vou te contar. Na cena de perseguição dos carros, acho que não aconteceu um acidente por obra e graça do… Ela não sabia dirigir, e tinha que fazer aquela perseguição de automóvel, um com o outro. Mandei vir dois dublês. Me mandaram dois dublês de bigode. Como a Helena não sabia dirigir, disse a ela para se sentar e ficar na direção. E disse para os dublês irem, com as mãos, pisando no acelerador, na embreagem. Não sei como que não caiu no desfiladeiro. Eu tava tão fera com aquilo lá, tava puto da vida, “que se dane”. Falei para a Marcia: “mete o carro em cima, bate lá”. E o produtor: “amassa um pouquinho só, amassa um pouquinho só”. Porra. Aquele filme me deu trabalho. Por causa desse produtor, e por causa do Félix Aidar, que fez a produção também. Dirigindo a cena, dizia: “faz isso, bate o carro aqui, bate o carro ali. Ele ia lá e dizia: “olha, amassa um pouquinho só, viu, amassa um pouquinho só”. “Porra, não pedi pra você fazer isso?”. “Ah, ele falou para amassar um pouquinho só”. Aí que virava bicho. Mas gosto muito do filme. É um dos melhores filmes que fiz. Gosto muito dele.

Z – No Pecado Horizontal, você fez basicamente um filme de três episódios, só que juntou tudo.

JM – São todas histórias verídicas. Todas acontecidas comigo (risos). A primeira história, da hemorróida: comecei a namorar uma secretária lá dos estúdios do Silvio Santos – é minha amiga até hoje, me telefona inclusive -, a Ana Lucia. Fomos pra Santos, chegamos lá e o galã aqui diz “vamos comer um peixe, com molho de camarão, pimenta, e vamos tomar Calamares. Tomamos duas garrafas de Calamares e fomos para o hotel. Na primeira noite, era igualzinho ao filme. “Dá licença, vou no banheiro”. Voltava… “dá licença, vou no banheiro”. Só que não tinha o porteiro, né? Que eu inventei, que é um show do Clayton Silva. Dei a cópia para ele agora há pouco. Coitado, teve um câncer. É um dos meus atores favoritos. Esteve em quase todos os filmes meus. A da tia: tinha um padrinho, lá em Barretos e ela me chamava para jogar escopa, com ela. E lá ia eu jogar escopa, e era a mesma coisa [no filme, o protagonista é amante da tia]. E tinha o cachorro também. A terceira história era de quando era garoto, baseada em outra mulher lá de Barretos, a dona Edith. Só que fantasiei as histórias. Os meninos achei lá em Campestre. Você viu aquele cara que é a cara do Costinha? Impressionante. O negrinho era engraxate na praça, catei lá. Fiz um cursinho rápido com eles lá e botei, porque daqui só levei dois. Levei um, que hoje é diretor da MTV e faz o principal, e aquele garoto bonito [Marcelo Ribeiro] que fez o filme com a Xuxa, Amor, Estranho Amor. É muito biográfico, é um dos filmes que mais gosto, o Pecado Horizontal. Ele fica naquela linha da do cineasta que mais gosto, o René Clair, daquele filme, Grandes Manobras. Ele conta a vida com uma suavidade, com uma leveza, como se nenhum problema fosse problema, nenhum drama fosse drama. Ele é assim, “aconteceu”.

Z – Você tinha preferência em dirigir comédia ou drama?

JM – Não. Tinha mais facilidade para dirigir comédia, porque sempre fui um cara de muito bom humor. Outro dia estava assistindo um filme meu, Os Rapazes da Difícil Vida Fácil. 004-199x300Quando acabou o filme: “meu Deus do céu, escrevi isso?”. Tenho insônia, na madrugada fico aqui na sala. Copo na mão, com vodka, e sentado aqui. Às vezes fico recordando, recordando, de vez em quando fumo um cigarro de palha e vou ali na varanda… “Mas porra, consegui escrever isso?”. Isso já me aconteceu, e não uma ou duas vezes, mais até. Mais até. Esse Os Rapazes da Difícil Vida Fácil fazia muito tempo que não via. Mas me fizeram a cópia em DVD. Inclusive, tem um quarteto de amigos meus lá no filme e não sei se talvez por serem tão bons amigos, goste tanto. Consegui fazer um bloco, que são quatros caras que ficam jogando carta, discutindo – um é o João Loredo.

Z – Seus filmes mostram uma grande diversidade sexual. Por tratar desses temas?

JM – Era tudo jornal. A maioria desses filmes vem quase que de encomenda. Por exemplo, teve uma fase que os produtores chegaram e pediam: “Miziara, dá para você fazer um filme disso, um filme daquilo”. Quando comecei, a maioria era tudo de A Última Hora. Eu pegava o jornal, começava a ler e via o desenvolvimento disso. Como te falei, O Furo é um fato verídico, vem de jornal. A maioria vem disso, vem de história de amigo. Eu parei para pensar e vi que tudo na vida tem conotação sexual. Não existe nenhum pensamento que não tenha conotação sexual. Já reparou isso? Até na história da igreja católica é assim. Você parte do princípio do Adão e Eva, daí em diante você pode ir por toda a história universal. Não existe um rei que foi rei se não tivesse a mulher na história, não existe nada que não tenha uma mulher na história. Não tem. Como fazer uma história? Se você parte sempre desse princípio, é muito mais fácil para você arquitetar. Você vai arquitetando e bate de encontro ao que as pessoas pensam, com o que as pessoas sentem, ou com o que as pessoas ainda não descobriram, mas vão descobrir ali. Então a sua história sempre vai fazer sucesso. É uma forma de pensar. Não quero dizer que isso seja a verdade. Mas é uma forma de pensar. Você vai vendo que tudo vai bater.

Z – Conte um pouco da experiência de atuar em seus próprios filmes.

JM – Tive que atuar por acidente. Por exemplo, Nos Tempos da Vaselina. Fomos filmar na Barra da Tijuca, num motel, o ator tinha que vir, mas houve uma puta duma tempestade, ninguém conseguia subir, chegar lá e o Galante pede: “Miziara, faz, porra, pra mim”. E o Toninho Meliande, que era o diretor de fotografia: “pô, Miziara, faz para a gente ir embora logo, porra”. Era uma cena só. Lá fui fazer um viado. Nos Embalos Alucinantes, me fez passar a maior vergonha da vida. Estava para filmar, e o cara que ia fazer o papel não pode ir filmar, ligou de última hora. Os produtores do filme eram eu e o Oswaldo Massaini, o Oswaldinho, o filho. O Oswaldinho disse: “ó, nós só temos a locação para hoje. Miziara, faz você, então”. Peguei um cara da produção e pedi para ir à minha casa e trazer um terno verde e uma camisa de seda. E tô lá fazendo um viadão no filme. Esse filme me fez passar a maior vergonha da vida. Estou eu lá em casa, em Barretos, onde minha mãe e vó moravam. Minhas primas foram lá e pediram um filme meu emprestado para elas poder exibirem e pegarem a renda – estavam angariando fundos para alguma coisa. Topei. Chego aqui, fui lá na Cinedistri e pedi uma cópia de O Bem Dotado. “Não tem, Miziara, tá tudo correndo”. “Que filme tem meu aí?”. “Tem Embalos Alucinantes”. Ok. Não me lembrava. Mandei o filme pra Barretos. As primas lá saíram vendendo ingresso, lotaram o cinema e convidaram a minha mãe (risos). Minha mãe foi lá para ser homenageada, porque não estava lá. Sentou na primeira fila. (risos). Tadinha, lembro disso até hoje. “Homenagem a José Miziara. Dona Micolinda, muito obrigado ao seu filho, José Miziara e tal”. O cinema aplaudiu, apagaram as luzes, começa o filme. Sabe como é minha primeira tomada, no Embalos Alucinantes? Vem a câmera correndo pelas luzes, abaixa, eu de costas, viro, toda bichona, e pá. A coitada da minha mãe se jogou no chão, escorregou na poltrona e começou a engatinhar (risos), a sair pelo corredor do fundo. Foi de gatinho até o final do cinema, coitada, e foi embora. Me ligou: “Zezé, como é que você me faz isso?”. “Eu não saio mais na rua” (risos). “Mamãe, é um papel, mamãe, é um papel”. “Zezé, pelo amor de Deus!”. Em Barretos, tinham dois viados: o Zé Dastrude e o Camilinha. “Você parecia o Zé Dastrude!”. Fiquei sem ir a Barretos muitos anos (risos). Já imaginou, uma coitada engatinhando pelo corredor? Fugindo sem ninguém ver… (risos). Ai, coitada da minha mãe. “Não me chame mais para ir ao cinema!”.

Z – Nessa época você também atuou muito no trabalho de outras pessoas, não?

JM – Não. Só fiz filmes que eram da minha produtora [Titanus], e eu era o responsável. O filme do Alfredinho [Sternheim, Herança dos Devassos], que o argentino [Cesar Cabral] veio fazer aqui, e botei o Alfredinho de codiretor dele, e depois tiramos o argentino totalmente e deixamos só o Alfredinho dirigir. Faço uma participação porque sou o produtor-executivo. Tinha lá que fazer o advogado, entrei lá. Teve um outro que fiz de favor para um amigo meu, por exemplo. Tem um filme que dizem que trabalhei, A Rota do Brilho. Até hoje não me lembro que filme é esse. Teve um outro do Mário Vaz Filho [A Grande Trepada], em que fazia dois papéis. Eu me lembro que um era de cabelo encaracolado, e outro era de cabelo liso. Era um funeral… Mas, era sempre assim, “vou fazer um favor”. Fiz com o Toninho Meliande um filme lá [O Delicioso Sabor do Sexo], eu, Mario Benvenutti e o Serafim Gonzalez. Um piquenique. Ninguém queria saber de filme nem nada. Mas isso você fazia porque o cara chegava para você e dizia: “pô, Miziara, faz lá pra mim e tal…”.

Parte 1 // Parte 3

Entrevista José Miziara – Parte 3

Dossiê José Miziara

Entrevista com José Miziara
Parte 3 – Transição para o cinema de sexo explícito e a volta para a TV

003A

Por Gabriel Carneiro
Fotos: Laisa Beatris

 Z – Nos anos 1980, houve a transição para o cinema e sexo explícito e você fez alguns…

JM – Quatro [a filmografia oficial apresenta seis].

Z – Como você se adaptou a isso? Você viu algum problema?

JM – Habituei-me da seguinte forma. Depois que você faz o filme, você tem que levar para o distribuidor e o exibidor, não é? Geralmente ele acumula as duas funções, distribuidor e exibidor. No começo, ele perguntava: “tem trepada?”. Você dizia: “tem”. “Mas simulado, né?”. “É”. Acabou. Passou um tempo: “quantas trepadas tem por rolo?”. O filme tem nove rolos. “Tem tantos”. Tudo bem, ele passava o filme. Chegou um tempo em que dizia assim: “tem sexo explícito?”. “Não”. “Então não dá”. As Amantes de Um Homem Proibido foi o maior fracasso que tive por causa disso, foi justamente na passagem. “Não tem sexo explícito?”. “Não”. “Então não passa”. Eu escolhia circuito em que ia passar meus filmes, chegava lá e dizia assim: “eu quero Ipiranga, Art Palácio, quero em Campinas, quero em Ribeirão, quero aqui, senão não dou meu filme.” Aí inverteu, não tinha circuito para mim. “Ó, se você quiser tem um cineminha ali, outro cineminha ali”. Aí o fracasso do As Amantes de Um Homem Proibido – que é um bom filme. Eu não queria fazer filmes de sexo explícito, não queria mesmo. Inclusive, até hoje, tenho pudor disso. Tenho! Talvez porque tenha filha mulher, sabe? É um negócio deprimente. De-pri-men-te. Chegava dia 20, os caras com o borderô no bar. “Olha o quanto eu faturei”. Vou fechar meu escritório. Não vou poder filmar mais, vou fechar meu escritório. Uma birita aqui, uma birita ali, o pessoal conversando, me convenceram a fazer alguns filmes assim. Senão, como é que ia levar dinheiro pra casa? Pensei: vou fazer, mas vou fazer da seguinte forma: todos os argumentos que escrever serão sátiras em cima desse público estúpido. Você pode pegar os meus filmes. Fiz quatro. Tem uma história muito engraçada. O John Boorman veio filmar aqui no Brasil. Lembra que ele fez um filme na Amazônia [A Floresta de Esmeraldas, 1985]? O filho dele [Charley Boorman] é o astro do filme, que é criado lá entre os índios. Acabou o filme dele, sobrou um monte de ponta de filme. A secretária dele, brasileira, que por sinal foi atropelada em Londres e morreu, pegou essas pontas todas e ofereceu para quem queria comprar. Como sempre soube manipular muito bem negativo, fui lá e comprei todas as pontas dos filmes do John Boorman. Com as sobras dos filmes do John Boorman, fiz dois filmes.

Z – Quais?

JM – A Quebra Galho Sexual, e filmando ao mesmo tempo, filmei O Oscar do Sexo Explícito. Ou seja, numa trepada deixava rodando um minuto e mais meio minuto para outro filme.015-300x199 Com pontas, fiz esses dois filmes, foram os dois que mais renderam dinheiro. Botei um smoking, peguei uma menina, fomos numa boate que emprestaram para a gente e eu e ela lá, apresentando: Melhor chupada, Melhor trepada, Melhor anal. (risos). Pegava as atrizes que tinham feito as cenas, elas vinham ao palco e o pessoal aplaudia, e dava pra elas um Oscaralho, um Oscar do sexo explícito. Foi maravilhoso, era um caralho com uma asinha, era um Oscaralho. Pronto. Dava pra cada um. Pra cada menina, pra cada cara. O único trabalho que tive foi pegar dois velhos e escrever um quadrinho humorístico pequenininho. Os dois eram os primeiros atores de sexo explícito que estavam sendo homenageados naquela noite. E tinha lá a piadinha: “você lembra, bem?”. “Não, não lembro”. Alguma coisa assim. Era uma besteira lá. Foi o filme que mais dinheiro me deu. Mas você pode ver que era tudo assim. Feito com ódio. Escrito com ódio mesmo. Esse povo burro, analfabeto. Montava os planos gerais, então não precisava fazer a cena, era só fingido. Montava os planos gerais e pedia para quem fazia comigo nessa época, o Pio Zamuner. “Pio, vai lá e faz os detalhes”. Ele fazia. A gente conheceu cada coisa, é muito degradante. Muito. Tinha marido e mulher fazendo. Com filho. Você cada uma que… Uma vez foi lá a mulher de um carcereiro com a filha. As duas queriam fazer e disse que já tinham autorização do marido. Porra, mulher de um carcereiro. Aparecia cada uma lá que você não faz idéia.

Z – Quais são os outros filmes?

JM – O Rabo I, que foi para poder gozar com o Rony Cocégas. A música é dele. A música de abertura e ele que faz o garçom. E teve o outro que fiz lá no sítio do meu cunhado, o Deliciosas Sacanagens. Mas é o tipo de filme que você faz em quatro dias. Mas não deu mais. Fechei o escritório, voltei pra televisão.

Z – Já para o SBT?

JM – É. Fui direto para o SBT. Quem formou o departamento de novela do SBT fui eu. Com O Espantalho. Queria ser ator, nada de dirigir ou produzir. “Me dê um texto de no máximo uma página e meia, uma vez por semana, carro vem me buscar, vem me trazer”. Estou lá há 23 anos. Dessa vez. Porque antes já teve outras. Há pouco tempo veio um cara aqui. Ele quase me entusiasmou. O Adone Fragano. “Miziara, você tem algum filme pra gente fazer?”. “Você já tem o dinheiro?”. “Tenho”. “Você não vai arrecadar não, né?”. “Não, já tenho”. Sentei ali no computador, escrevi umas 10 páginas. Aí ele disse: “o negócio é o seguinte. Já tem o dinheiro, mas a gente tem que dar uma nota com 50% a mais”. “Adone, faz um favor pra mim? Vai tomar no seu rabo, tá”. Imagina: quero que você faça um filme pra mim, te dou o dinheiro. Quanto custa o filme? 10 milhões. Tudo bem, te dou os 10 milhões, mas você me dá uma nota de 15. Tô muito velho pra isso.

Z – Há quanto tempo você está fazendo A Praça é Nossa?

JM – 23 anos, desde o primeiro programa. Dessa vez, porque em 1956 fiz a Praça. Mas é um bom prêmio pra que tem 56 anos de carreira e tá cansado. Hoje a minha vida é essa aqui, cinema, mais nada. Só saio daqui para jogar sinuca.

Z – Você ainda tem vontade de filmar?

JM – Não tenho. Não tenho a menor vontade. Primeiro, porque não passa nos cinema. Se não for da Globo Filmes, não passa. Então, que circuito eles vão me dar? Vou ter que ir lá024-300x199 novamente, me sujeitar àquele negócio todo? Chega. Tô satisfeito. Mas comecei um roteiro, bom toda vida. É um roteiro policial. Comecei a idéia por ter visto aqui embaixo. Naquela rotatória da São Vicente, tem umas menininhas que ficam ali, que esses merdas botam as meninas pra chupar pau por cinco reais. Fiz a história de uma crioulinha que faz isso, mas só que ela é surda-muda e lê lábio, e ela vê a combinação de um assassinato. Você já viu aquele filme Corra Lola, Corra? A fita é sensacional. E peguei mais ou menos a corrida dessa menina pra poder fugir dos bandidos e poder avisar a moça que os policiais iam matar. Dava um roteiro interessante. Mas aí depois dessa. É bem possível que eu retome. Porque gosto de escrever, gosto, então é bem possível que retome o roteiro. Mas fico pensando: e depois, o que eu faço com ele? Dar para outro é que não vou (risos). Só se eu der para a minha filha, porque minha filha que adora as minhas coisas. Ela já disse: “ô, paiê, quando você morrer tudo isso é meu”. Os outros não ligam. Agora, ela não, ela quer tudo pra ela.

Z – O que você pensa do cinema brasileiro atualmente?

JM – Tem coisas boas. Coisas muito boas. Acabei de rever o Tropa de Elite. Bom filme. Bom filme. Bem feito, bem fotografado, inclusive uns planos novos: o plano começa, ele sendo tapado, aí, no “ação”, o cara sai de trás. Muita câmera na mão. Bem escrito, tudo. Tanto que fez sucesso, né? Tem o Se eu Fosse Você e o Se Eu Fosse Você 2. O Daniel [Filho] tem um defeito. Quando vai fazer comédia, tem o mesmo defeito do Manga. Tem coisas que tinham que ser mais breves, bem mais breves. É o mesmo defeito do Manga. Tem outro nacional que vi, que é muito ruim. O Casamento de Romeu e Julieta. É porque ele filmou o óbvio. Se você pegar o óbvio, o que você vai botar em cima do óbvio?

                                                                           Parte 1 // Parte 2

Entrevista José Miziara

Dossiê José Miziara

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Por Gabriel Carneiro
Fotos: Laisa Beatris

“Aboletem-se! Aboletem-se!”, exclamava José Miziara, vestindo uma camiseta da banda NXZero – seu filho faz parte da equipe de produção -, ao entrarmos em sua casa, no bairro de Sumaré, em São Paulo. Aos 75 anos, Miziara esbanja energia e vigor. Sua paixão por cinema continua, mesmo que hoje não tenha mais tanta vontade de dirigir. Seu emprego estável no SBT, onde há 23 anos aparece como ator em A Praça é Nossa, lhe dá o conforto necessário (grava apenas nas terças, e tem um carro para buscá-lo e levá-lo de volta) e vazão para seus interesses atuais: a sinuca e a vodka.

Miziara é um dos mais notáveis realizadores da Boca, tendo feito uma das comédias mais lembradas até hoje: O Bem Dotado – O Homem de Itu (1978). Dirigiu também, entre outros, Embalos Alucinantes – A Troca de Casais (1979), Nos Tempos da Vaselina (1979), As Intimidades de Analu e Fernanda (1980), Pecado Horizontal (1983), entre outros.

Em entrevista exclusiva para a Zingu! , Miziara conta tudo sobre sua carreira, desde o começo no circo do palhaço Piolim, até seus filmes de sexo explícito.

Parte 1 – Infância, juventude e o começo na área artística
Parte 2 – Boca do Lixo e o cinema
Parte 3 – Transição para o cinema de sexo explícito e a volta para a TV

Entrevista José Miziara – Parte 1

Dossiê José Miziara

Entrevista com José Miziara
Parte 1 – Infância, juventude e o começo na área artística

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Por Gabriel Carneiro
Fotos: Laisa Beatris

Zingu! – Como foi sua infância?

José Miziara – Maravilhosa. Brinquei de Tarzan em mangueiras, de cipó para cipó, em rio, porque sou de Barretos. Então ia para a fazenda, do meu pai, do meu tio, montava a cavalo – fazia laço, amarrava-o na boca do cavalo e fazia como índio. Ia de bicicleta de uma cidade para outra. Minha infância foi maravilhosa. Acho que ninguém teve uma infância tão boa quanto a minha. Fiz tudo de errado na vida e consegui sobreviver (risos).

Z – Você saiu de Barretos e veio para São Paulo?

JM – Vim, vim. Foi no final de 1951, quando saí do colégio interno em São José dos Batatais, hoje Claretiano, onde passei os anos de 1949, 50 e 51. Meu pai era um jogador de baralho inveterado, não conseguia parar de jeito nenhum. Minha mãe disse: “Não, vamos sair daqui, se não como é que vai ser?”. Aí viemos para São Paulo. Em 1951 chegamos aqui.

Z – Você já gostava de cinema nessa época?

JM – Sempre fui vidrado por cinema. Procurava tudo da área. Eu morava na avenida Angélica, eu e um amigo chamado Carlos, nós assistíamos a todos os filmes que estreavam na semana. Mas já acompanhava desde Barretos. Tinha um médico que era nosso médico de família, o Dr. Conde, que morava em frente à nossa casa, na rua 24, com a 19. Eu era garoto e meu pai só dava dinheiro às quartas e aos domingos para o cinema. Mas havia alguns filmes que passavam nas quintas-feiras e que repetiam na sexta. Eu ia para a porta do cinema e ficava olhando os cartazes. O Dr. Conde era muito amigo do Pedro, gerente do cinema, e de noite ia lá bater papo com o Pedro. E eu ficava com aquela carinha de inocente, olhando o cartaz, de um lado para o outro – para ele poder me ver. Aí ele olhava para mim e dizia: “Zezé, você quer assistir o filme?”. “Quero” (risos). E assim me pagava a entrada do cinema ou, lógico, o Pedro nem cobrava dele, e então assistia filmes a semana inteira. Era vidrado; decorava tudo.

Z – Algum filme nessa época te marcou mais?

007-199x300JM – Um monte. Por exemplo, a Metro lançou sete filmes que tinham feito – ah, a memória me falha atualmente -, com o Stewart Granger e o Robert Taylor [A Última Caçada], outro com o James Mason. Um a cada dia. Passou no Cine Rio, que era na Consolação e depois virou TV Record – onde pegou fogo. Eu e o Carlos íamos ao cinema e assistíamos a todos os filmes que eram lançados. A gente pegava os lançamentos da Metro, todos os franceses, depois pegávamos no Normandie os outros filmes franceses – eram os primeiros filmes que apareciam peitos, com Martine Carol. Não tinha um filme que não víamos. Íamos no Cine Brodway onde passavam os filmes mexicanos. Quando vinham ao Brasil, lá ia a gente. Eu me enturmei com o Romeu Sanches, que era cunhado do Lima Duarte e operador de som da TV Tupi. Ele freqüentava a mercearia do meu pai, ia beber de tarde. Ele me levava como puxador de cabos dos sons que ele mexia, no Festival de Cinema de 1954, no cine Marrocos, em que vieram aqueles artistas todos. Tinha que fazer careta para entrar, porque era menor de idade, então para poder passar por 18 anos, tinha que fazer careta. Tinha uma porção de artistas americanos.

Z – Você já sabia que queria trabalhar com cinema, atuando?

JM – Claro. Minha vida sempre foi cinema. Se você olhar por aqui, vai ver a quantidade de filmes que têm espalhados. Eu vejo tudo, vou atrás de tudo. Tenho vidração por cinema, passo o dia vendo filme. Não saio de casa, não vou ao restaurante, à boate, a lugar nenhum. Só vou jogar sinuca. Passo o dia assistindo a filmes. Tenho insônia. Então passo a madrugada vendo filme e bebendo vodka.

Z – Quando veio para São Paulo começou a trabalhar nessa área?

JM – Minha carreira é curiosa. Estava no colégio primário Piratininga. Dois grandes amigos meus, Salomão Guzzo e Álvaro Taquerna, resolveram montar uma companhia de teatro. Começamos a ensaiar A Ceia dos Cardeais. Descobrimos que A Ceia dos Cardeais só dava meio espetáculo, e aí resolvemos também fazer As Máscaras, de Menotti Del Picchia. Aliamos as duas. Na primeira, eu era o Cardeal Gonzaga – imagine, um cardeal de 81 anos feito por um garoto de 19 anos, mas, modéstia à parte, dei um show. Primeiro era a ceia dos cardeais com uma maquiagem mais elocubrada e depois as máscaras. No intervalo, entre uma e outra, entrou no meu camarim um senhor que chegou para mim e disse: “Você quer trabalhar profissionalmente? Gostei muito do seu trabalho”. Disse: “Eu quero, essa é a minha carreira, é o que quero seguir.” “Muito prazer, meu nome é Abelardo Pinto. Dá um pulo no Circo Piolin”. Era simplesmente o Aberlado Pinto Piolin, porra!, terceiro maior palhaço do mundo – só perdeu para o Charles Chaplin e para o Otto Griebling, alemão que veio ao Brasil só para conhecer o Piolin porque achava que o Piolin era melhor que ele. Isso eu vi. Aí eu fui trabalhar no circo, era uma peça por semana. “Me dá o script”, pedi. “Não tem script”. “Como não tem script?! Não dão a peça para a gente decorar?”. “Não, quer ver como é?” O ponto sentava aqui, só ele tinha a peça. Dizia: “Entra pela 2”. É aquela marcação antiga de teatro, a 1, a 2, a 3, o procênio, vai para o fundo… Aí comecei a fazer uma peça por semana. Ela começava com 40 minutos, quando estreava na terça, e quando chegava no sábado, já estava com 1h15 – de tanto que as pessoas colocavam caco em cima. Tem uma passagem muita engraçada com o Piolin. Era uma peça em que tinha que roubar algumas cartas de uma atriz portuguesa, que trabalhava lá junto com a gente. Eu tinha que fingir ser noivo dela e o Piolin em cena colocou um caco lá: “Você sabe quantos anos ela tem?” Eu tinha que dizer “Não”, “Não sei”, e ele dizia “30”. Aí eu, babaca, sem experiência, disse “Em cada perna?”. Ao que ele respondeu: “Quem é o palhaço aqui, eu ou você?” (risos). Por que eu tinha que dizer: “30?!”, repetir, e ele dizia “Em cada perna”. Foi uma tremenda escola. O engraçado é que eu fazia o circo Piolin e ia para o MAM onde tinha como professores o Adolfo Celi, Ruggero Jacobbi, Carla Tivelli, que foi minha grande madrinha, João Ernesto Coelho Neto. Era muito engraçado, porque às 6h da tarde, eu fazia O Mercado de Veneza, Racine, Romeu e Julieta e ia para o circo fazer comédia, às 9h da noite. Duas escolas muito paralelas. Depois fui para a companhia do João Paulo Cantuária, onde fiz Romeu e Julieta e Sonhos de uma Noite de Verão. Imagina eu misturando Shakespeare e as palhaçadas lá do circo. Larguei o circo, fiquei só com o teatro, aí fui para a companhia do Sérgio Cardoso – nos anos 1950, quando estreou o teatro Bela Vista (hoje Sérgio Cardoso). Fiz o Hamlet aqui em São Paulo, depois no Rio, em Santos.

Z – E quando ingressou na televisão?

JM – Fui ao Demerval Costa Lima vender um programa de circo. Ele então me perguntou: “você não quer ser ator?” e me mandou para o Paulo de Grammont. Fui contratado, porque o001-300x199 [Walter] Avancini tinha sido mandado embora. O Demerval não recebia as pessoas na sala dele, e sim no botequim, aonde era a TV Paulista, na Rua da Consolação. Ele me dava a maior força, acreditava em mim – era um negócio impressionante. Quando foi convidado para dirigir a TV Continental, que ia ser inaugurada no Rio, ele me chamou. “Miziara, vou dirigir a TV Continental, que vai ser inaugurada. Quer ir para o Rio?” Garoto é besta. “Depende”, respondi. Dizer para um cara desses, que era o maior diretor artístico que tinha na TV brasileira, “depende”?! “Depende do quê?” “Quanto eu vou ganhar lá?” Eu ganhava 8 mil na TV Paulista, para ser rádio-ator e teleator. Ele disse: “25”. Eu me segurei na cadeira, pedi mais uma vodka e perguntei: “25 quanto?” “25 mil”. Eu estava noivo da filha do Piolin, a Ana Ariel, essa que foi atriz da Globo – antes era Ariel Miziara, maior mulher que já conheci na vida. Respondi para o Demerval: “25 mil eu aceito, mas preciso levar minha mulher.” “Ela é atriz?” “É, e muito boa, filha do Piolin”. No que disse isso, cresceu a imagem para ele. “Quanto você quer para ela?” “12.” Ele disse: “Fechado”. Me deu uma dor de barriga, deus do céu. 25 mil mais 12. Saí correndo dali, fui ao circo (na General Olímpio da Silveira), onde ela tinha uma casa lá de madeira. Bati lá: “Nós vamos para o Rio de Janeiro”. “Quê?” “Nós vamos para o Rio de Janeiro”. Eu vou ganhar 25 mil e você 12 mil, e você vai ser atriz também da TV Continental. Ela disse: “Vem cá, você bebeu muito?” “Não, só o normal, porra.” “Mas isso é verdade? Faz o seguinte. Volta amanhã de manhã e me repete essa história.” Repeti para ela, e lá fomos nós para o Rio de Janeiro. Antes de ir, peguei toda a minha indenização. O porra do Walter Forster, que era o diretor da televisão, quase estrepa a minha vida. Quando fui pedir demissão, ele disse: “não, você é o mais promissor galã da televisão.” Implorei: “pelo amor de deus, ganho 8 aqui; vou ganhar 25. Serei diretor lá.”Aí me deixaram ir. Eu fui com o Zé Oscar ao aeroporto e nunca tinha pego um avião. Chamei-o para ir dar um tempo lá no bar. Bebemos os dois um litro de whisky. Entrei no avião e fiquei: “Puta merda, e se esse avião cai? Agora que a minha vida está tão boa…” (risos) Tinha uma tia que morava na Rua das Laranjeiras, edifício Zacatecas, com quem minha mãe tinha falado pelo telefone, vendo se podia me hospedar lá até eu arranjar um apartamento. Cheguei na TV e aquela festa tremenda de inauguração da TV Continental, tudo lotado, com o deputado Rubens Berardo, dono da televisão, e os irmãos dele. Ao entrar, já me perguntaram: “Aonde você vai?” Expliquei que era contratado e que queria falar com o Demerval Costa Lima. Na portaria, aqueles jagunços não queriam me deixar passar. O Demerval, então, coloca a mão no meu ombro e entra no meio daquele bolo de gente comigo, e diz: “Este é o meu astro”. (risos) A dor de barriga que deu… E vai dizendo que vai ser o diretor de teledramaturgia, que vai dirigir o teatro. Na porta, havia encontrado dois amigos meus que eram aqui de São Paulo, o Roberto Mayer e James Dean – pois era a cara do ator americano; quando o James Dean morreu, foi até para a Argentina. Era um nortista semi-analfabeto que só servia para a direção de estúdio – mas era um tremendo amigo. Fiz o TeleDrama na Continental, que foi um sucesso tremendo. A única estação de televisão que estreou em primeiro lugar foi a TV Continental do Rio de Janeiro, pois investiram em teledramaturgia, de segunda a domingo. Aí é aquele negócio: vem a falência, você fica desempregado, começa a procurar emprego. Fui à Tupi: “quando chegar o script, se tiver um papel masculino, é seu!” Esse cara é amigo, o João Loredo, que era da Tupi. Começou um vai-e-vem que não acabava mais.

Z – Foi nessa época que você fez sua primeira participação no cinema, em Cacareco Vem Aí?

JM – É, do filho da puta do Carlos Manga. Eu era o maior sucesso do Rio de Janeiro em termos de televisão. O Manga ia fazer esse filme, que se chamava, à época, Duas Histórias. Ele manda o Cyl Farney, que era produtor do filme, me convidar. O Cyl Farney chega lá – cara maravilhoso, educadíssimo – e me oferece mil por dia e vinte dias de filmagem. Aceitei. Ganhava 25 e ia ganhar mais 20. Eu fiz Actor’s Studio por correspondência, era um astro. Fui para uma reunião com o Manga, que contou qual era o papel: o de um rebelde sem causa. “E o script?”, perguntei. “Cinema não tem script!” O Manga é o rei da reunião, ninguém bate ele em uma. E me desenhou o papel do James Dean. No primeiro dia de filmagem, fiquei por lá, sem fala. No segundo dia, a mesma coisa. O bacana foi que conheci o Oscarito, o Grande Otelo, a Eliana, pessoas maravilhosas. Aí chega no dia da filmagem da cena do cassino, em que tenho uma fala (“Devolve o baralho para o moço.”), e tem uma briga com o Cyl Farney, que mete um telefone no ouvido. A cena foi repetida vinte vezes. Vai passando e chega um dia de filmagem e o Manga diz: “Todo mundo vestido de mulher”. “Como assim?” Conclusão: era um figurante de luxo dentro do filme, simplesmente. O filme, que se chamava Duas Histórias, era sério. Teve uma eleição aqui em São Paulo e a pessoa mais votada foi o Cacareco. O Severiano Ribeiro ligou para o estúdio e mandou mudar o título, que deveria ter Cacareco. Mudaram para Cacareco Vem Aí. Fizeram uma bicicleta para o Oscarito, do tipo de tintureira. Cresceu o papel da Sonia Mamede, do Oscarito e o pessoal da linha séria, como o Cyl Farney, foi tudo para a cucuia. Ainda bem que pagaram os vinte mil. Tenho uma profunda bronca com o Manga, por duas vezes. Por essa e por outra. Eu frequentava um clube chamado Pontal e tinha um amigo com quem ia lá. Esse meu amigo queria falar com um sujeito, num teatro que era a caminho do clube. O Manga estava lá. “Miziara, aonde você anda? Porra, Miziara!” Como não estava trabalhando, me chamou para ir para a Excelsior. Era final de semana e havia me pedido que passasse lá na segunda-feira. Cheguei lá e estava passando o programa Cidade se Diverte, que eu havia criado em São Paulo e agora estava no Rio de Janeiro, com apresentação do Milton Franco. O Manga me instruiu então a vestir um smoking, que tinha lá no guarda-roupa. Entraria no final. “E você vai entrar junto com ele”, disse. Olhei para o lado e era o Alain Delon – o verdadeiro. No final do programa, o elenco inteiro, em fila, dos dois lados, e anunciam Alain Delon e José Miziara. Fiquei pensando comigo: “Deve ter alguma coisa errada, não é possível, não bebo tanto”. Entramos os dois, eu e o Alain Delon. Acabou, devolvi o smoking, coloquei minha roupa e perguntei: aonde assino o contrato? Lá na sede, na Venezuela. Fui então, na terça-feira, para a Venezuela. Pedi para falar com o Manga: “Não, Miziara, acho que você entendeu mal”. E me descartaram. Isso foi em 1965. Em 1963, havia voltado para São Paulo por conta da Excelsior, depois fui dirigir a TV Rio, depois veio o Boni.

                Parte 2