As Intimidades de Analu e Fernanda

Dossiê José Miziara

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As Intimidades de Analu e Fernanda
Direção: José Miziara
Brasil, 1980.

Por Gabriel Carneiro

As Intimidades de Analu e Fernanda é surpreendentemente bem feito. Explico: tecnicamente, nada parece fora de lugar; há também uma incrível apuração narrativa. O longa-metragem já começa com cortes secos, sobrepondo duas realidades: Analu (Helena Ramos) dirigindo no carro, e momentos diversos na vida dela e de seu marido. Nada, a princípio, parece fazer sentido; são muitas cenas recortadas e amalgamadas por um eixo que ainda desconhecemos. São 15 minutos de abertura, que também estão simetricamente no oposto, de puro thriller.

Aos poucos, as situações vão se explicando e encontrando seu eixo. É quando conhecemos Fernanda (Márcia Maria), uma mulher que consola Analu, com um fortuito objetivo:As-Intimidades1-300x222 seduzi-la. Em sua destemperança, a jovem interpretada por Helena Ramos se entrega a uma paixão possessiva e histriônica. José Miziara, transitando entre gêneros, realiza um grande drama, um romance erótico, utilizando o amor lésbico, como tema.

Os colegas de Zingu!, Andrea Ormond e Adilson Marcelino, vêem no filme um forte moralismo (seja no todo, seja na personagem de Fernanda). Tomo a primeira pessoa para um ‘achismo’. Confesso que não vejo nada disso, apesar de respeitar demais a opinião de ambos. Se o lesbianismo em As Intimidades de Analu e Fernanda leva a julgamento precipitados acerca da liberdade sexual, parece-me apenas uma exacerbação de um relacionamento, seja homossexual ou não – e Miziara já deu provas que o melodrama trágico de seus filmes atingem as mais diversas sortes de personagens, independente de preconceitos moralistas e subterfúgios baratos.

Afinal, a obra de Miziara é uma das que mais clama em tratar de temas-tabus dentro da prestigiada Boca do Lixo, sem tratá-los como aliens, apenas ficcionalizando hiperbolicamente – o interesse está sempre no acaso. É o acaso que unirá as mulheres, bem como é o acaso que as separará, sem deixar de lado as conseqüências sujeitas nas escolhas de cada. Parece-me – novamente a primeira pessoa – que o efeito dramático em escolher um homem para consolá-la na fossa seria muito menor do que se fosse uma mulher. O amor lésbico é autêntico, mas pode ser igualmente doentio.

Afinal, a beleza de As Intimidades de Analu e Fernanda extrapola a paixão fervorosa e histérica de Analu e Fernanda: está na condução primorosa de Miziara, no entremeio entre thriller e drama, entre luzes opacas e sombras enigmáticas; está nos recortes abruptos, e ainda assim capazes de se ligarem à trama, acentuando o desespero e as incertezas.

É também uma obra que clama pela liberdade, e não só sexual. Pela liberdade do ser humano diante do mundo, dotado de escolhas próprias e não impostas pelas circunstâncias. Se a paixão das duas moças representa tudo menos o exercício completo do livre-arbítrio, nenhum outro relacionamento mostrado no filme o é. É um mundo cão. As Intimidades de Analu e Fernanda é um filme pela liberdade, e não libertário.

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