Rabo I

Dossiê José Miziara

Rabo I
Direção: José Miziara
Brasil, 1985

Por Ailton Monteiro

Uma das incursões pornográficas de José Miziara, Rabo I traz no título, obviamente, uma brincadeira com a produção de sucesso estrelada por Sylvester Stallone. Ainda que não apareça nos créditos escritos, o título ganha um complemento falado: “Programado para Trepar”, com toda a pompa que costumamos ouvir dos anúncios da Rede Globo para os filmes de ação. Mas com direito à uma bunda batendo palmas! (dá para imaginar?). Mas a brincadeira Rabo/Rambo é só com o título mesmo. Não há nada no filme que faça lembrar Rambo. Lembrando que Miziara já brincava com títulos baseados em obras de sucesso estrangeiras, como Nos Tempos da Vaselina, uma homenagem a Nos Tempos da Brilhantina, estrelado por John Travolta.

O principal astro de Rabo I é Rony Cócegas, o comediante que ainda hoje é lembrado por seu quadro no programa humorístico A Praça É Nossa. Seu bordão “Calma, Cocada!” e sua gravata que se levantava sempre que via uma mulher gostosa ficaram na memória coletiva nacional. Era um quadro bastante ousado, se lembrarmos que o programa também era visto por crianças, apesar do horário. Mas aqueles eram outros tempos. Em Rabo I, Rony não precisa de uma gravata para demonstrar que está precisando dar uma aliviada, basta correr direto para o banheiro dizendo que quer bater uma punheta, depois de ouvir uma história picante. Rony é também autor da canção-tema do filme, a marchinha de carnaval A Rabada, e no filme ele aparece no papel do garçom que fica escutando as aventuras sexuais de um grupo de mulheres.

Cada uma conta uma história, que vai num crescendo de ousadia, fetichismo e absurdo. Diria que o filme seria bem-sucedido no quesito “voltagem erótica” se possuísse mulheres mais bonitas e as cenas de sexo fossem mais caprichadas e melhor captadas pela lente de Miziara. Para se ter uma idéia da precariedade das performers, a mulher mais bonita do filme não é uma mulher, mas uma travesti!, Porém, boas intenções não faltam. Gostei de algumas canções clássicas dos anos 1970/80 que rolam durante as cenas no motel. Chega a contrastar com as imagens, não tão bonitas de ver. O humor é propositalmente grosseiro. Numa cena de sexo oral, por exemplo, a mulher passa ketchup no caeté do sujeito e diz: “vai gostar de ketchup na casa do caralho”.

Em outra cena, uma mulher tem a fantasia de transar com outro homem e combina com o marido, que se veste de marinheiro fazendo de conta que é um completo estranho. E um marinheiro violento, que pede grana à mulher e ainda bate nela. Durante o ato sexual, há uma sequência de closes, ora do tradicional entra-e-sai, ora dos tapas que a mulher recebe. Há também, esporadicamente, uma estranha escultura de madeira, semelhante a um demônio.

Melhores histórias viriam, como a da mulher que tem a fantasia de se vestir de freira e transar com o primeiro que encontrar. Arranja, junto com uma amiga, uma dupla de caminhoneiros e as duas fazem uma festa. Para variar, as cenas de “ação” são chatas, enquanto as de conversa são mais interessantes. Tem também a história do cara que só queria saber de enrabar a namorada e a mulher teve uma idéia de chamar uma travesti para um ménage a trois. O bloco termina de maneira insólita, com a presença de um cachorro. Ah, é nesse bloco que aparece uma travesti que tem o rosto mais bonito que todas as mulheres do filme juntas. Enquanto isso, no restaurante, Rabo I tinha que terminar com mais uma piadinha infame.

Ailton Monteiro é editor do blog Diário de Um Cinéfilo.

 

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