As Sete Vampiras

Especial John Herbert

 

As Sete Vampiras
Direção: Ivan Cardoso
Brasil, 1987.
 

Por Filipe Chamy      

 

Ivan Cardoso, todos sabem, é considerado o mestre do “terrir” brasileiro, uma mistura de terror com comédia. Não sei afirmar até que ponto essa fama lhe é lisonjeira, mas também não a acho desabonadora; o que acontece é que estamos diante de um problema “quantitativo”: quem mais faz um cinema assim aqui? 

Então chegamos ao ponto de achar que Ivan Cardoso não faz um cinema paródico, mas puramente de gênero. O horror não exclui necessariamente o humor, e por isso um filme como As sete vampiras talvez seja um legítimo representante de um “terror brasileiro”, sempre nas pegadas do pioneiro Mojica Marins — a quem Cardoso homenageou anteriormente com um documentário-reflexão, aliás. 

Todo o aspecto kitsch desta obra é evidentemente deliberado, assim como toda a metalinguagem das artes “terroríficas”, as várias citações a Alfred Hitchcock, a Sherlock Holmes, a escritores policiais como Raymond Chandler: Nuno Leal Maia faz um certo “Marlou”, claro que uma brincadeira com o Marlowe chandleriano. Esse agrupamento de referências não se restringe a colar tributos e envernizar com a blindagem de “bagagem cultural” uma falta de senso cinematográfico (como é comum ocorrer); ele antes serve como uma maneira de estabelecer o terreno, criar um ambiente de fantasia com suas próprias estruturas, um mundo à parte onde a coerência e a lógica mundanas não são necessariamente presentes. Daí, talvez, o grande sofrimento de Silvia (Nicole Puzzi), a real protagonista da fita, que desde o início (quando um amigo seu tem problemas com uma planta carnívora!) pena um pouco por ser “real demais” em meio a criaturas inventadas, caracteres insólitos e toda uma organização surreal de viver, entender o mundo e agir e pensar. 

Nosso homenageado John Herbert também é um pouco uma peça de descompasso: com sua aparência “fleumática”, de porte (real class, diriam os gringos), adentrando com charme viciado o mundo da libertinagem e servindo de mote a uma clássica encenação de crime. É preciso observar que Ivan Cardoso não ridiculariza a releitura de gênero, mas se diverte imensamente ao fazê-la. 

Léo Jaime canta, Lucélia Santos exibe seus seios nus e Carlo Mossy dá uma de galã: a princípio, nada de novo no fronte; mas quando Wilson Grey encarna Fu Manchu, quando uma planta carnívora parece interessada em carne humana e quando os distúrbios verificados pelas personagens parecem não ter outra origem e explicação que não um ataque programado de seres sobrenaturais, então aí é possível vislumbrar a dimensão da farsa (no sentido teatral, não de engodo) engendrada por Cardoso e sua trupe, que podem não ter se aproximado de um materialismo inquestionável na representação do horror, mas que com certeza apresentam uma honesta abordagem em um filme digno.

A Super Fêmea

Especial John Herbert

A Super Fêmea
Direção: Aníbal Massaini Neto
Brasil, 1973.

Por Edu Jancz

“Abaixo o poder dos homens”; “Está na hora de ficar por cima”; Viva a supremacia das mulheres”; “Contra a pílula feminina”; “A favor da pílula masculina”…

Em meio a esse clima de contestação, um grupo de mulheres propõe maior participação dos homens no controle da natalidade. Em vez delas, seriam os homens que tomariam a pílula.

Uma empresa vê nessa reivindicação a possibilidade de vender milhões de pílulas e engordar a sua conta bancária. Apenas um problema: pesquisa revela que 83% dos homens temem tomar a tal pílula com medo de uma redução total ou parcial de seu desejo sexual.

Como em publicidade tudo um jeito se dá, um guru (interpretado por Perry Salles) vê a luz no fim do túnel: uma campanha que associe os três mitos brasileiros: mulher, café e jogo. O primeiro e difícil passo é achar mulher belíssima que seria nominada de Super Fêmea e defenderia incondicionalmente o uso da pílula masculina. Bem como da eficácia de tal pílula, de cor marrom, no aumento do desejo sexual dos homens.

Nasce a Super Fêmea. Surge saindo de uma piscina a deliciosa Vera Fischer, 22 aninhos, um corpo escultural, convite irrecusável para bem mais de 400 talheres. Se hoje, 2012, ainda babo falando de Vera, imaginem eu com 23 anos vendo-a de calcinha e sutiã em boa parte das cenas do filme assinado por Aníbal Massaini Neto.

Mulheres gostosas, de calcinha ou sutiã, ou com algum seio nu escapando por poucos fotogramas na tela eram uma das marcas das boas pornochanchadas. Em A Super Fêmea elas estão bem presentes e apimentam nosso paladar.

Com roteiro assinado por Lauro Cesar Muniz, A Super Fêmea pouco ou em nada nos surpreende. Seu ritmo – considerada a distância dos anos – é lento e precisamos de muita paciência para garimpar boas piadas.

Certamente, o ponto mais negativo e irritante de A Super Fêmea é o exagerado maneirismo do ator e futuro marido de Vera, Perry Salles.

Pontos a favor.  Curiosidades, citações e pequenas-grandes interpretações. Como a do ator Sérgio Hingst, que faz um “Dom Corleone” emblemático. Em sua última cena, após despachar um afilhado, o “padrinho” atira um dardo numa enorme foto de Marlon Brando que está em seu escritório. Não o Brando de O Poderoso Chefão.  O Brando de Queimada.

Outro momento pontual: o beijo lésbico, ainda que suave, entre Vera Fischer e Geórgia Gomide.

John Herbert tem participação especial. Ele é um milionário que encomenda 50 mil caixas da pílula que deixa os homens muitos mais potentes e fogosos. Por acidente, as pílulas caem num rio que municia uma estância balneária para público da Melhor Idade. Dá pra imaginar a festa e sacanagens que rolam entre pacientes – agora bem impacientes – e as jovens enfermeiras do local.

Em meio ao grande elenco, a presença de um hoje senhor respeitável e muito famoso: Silvio de Abreu. Ele dá mostras de seu talento como ator, interpretando um publicitário aparvalhado e com trejeitos muito suspeitos.

Cleo e Daniel

Especial John Herbert

 

Cleo e Daniel
Direção: Roberto Freire
Brasil, 1970.

Por Ailton Monteiro

Um dos trabalhos em que John Herbert mais se destaca, sendo seu, inclusive, o primeiro nome a aparecer nos créditos, Cleo  e Daniel é um filme dirigido pelo próprio autor do livro, o best-seller homônimo do psicanalista Roberto Freire. O livro foi lançado no país em 1966 e fez muito sucesso, especialmente entre o público jovem. A transposição para o cinema, porém, não foi assim tão bem sucedida. Há alguns bons momentos, especialmente no início, mas depois o filme parece não ter fim, mesmo não sendo de longa duração. Isso é atribuído à falta de dinheiro para finalizar a produção, que foi fechada às pressas.

Não deixa de ser curioso Freire pintando o psicanalista (Herbert) como um sujeito meio louco, irresponsável e cruel. Fica parecendo uma crítica aos próprios psicanalistas. O casal do título, vivido por Chico Aragão (Daniel) e Irene Stefânia (Cleo), também são figuras problemáticas. Daniel é viciado em comprimidos. Já Cléo também faz um papel de maluquinha, primeiro se apresentando no consultório do psiquiatra em crise que nem está muito a fim de clinicar. Ela acabara de sofrer um aborto, ajudada pela mãe, vivida por Beatriz Segall.

Em alguns momentos, o filme passa a impressão de tentar emular Khouri, até pela trilha sonora de Rogério Duprat. Mas as tentativas de parecer existencialista são frustradas pela pouca experiência na direção de Freire. Não à toa, Cleo e Daniel foi a única vez que o psicanalista e escritor se aventurou a dirigir um filme.

Alguns momentos são bonitos plasticamente, como a câmera acompanhando a luminária balançando como um pêndulo na cena de sexo entre um casal de jovens. Alguns travellings também são bonitos, bem como a fotografia em preto e branco. O que também ajuda a compor a beleza do filme é a figura de Irene Stefânia, vinda de Fome de Amor, de Nelson Pereira dos Santos. Lembrando que no filme de Nelson, Irene quase eclipsa Leila Diniz, mesmo com a apatia de sua personagem.  Uma atriz que aparece em Cleo e Daniel e que eu não reconheci é Sônia Braga, anos antes de se tornar um dos maiores símbolos sexuais que o país já conheceu.

Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez – episódio Primeiro de Abril

Especial John Herbert

Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez  – episódio Primeiro de Abril
Direção: John Herbert
Brasil, 1984.

Por Matheus Trunk

Cinema, teatro, televisão. O ator e diretor John Herbert (1929-2011) foi um profissional multimídia. Dentro da sétima arte, sua presença foi constante em todos os gêneros. Participou de chanchadas no Rio de Janeiro e de produções do cinema industrial paulista. Chegou a estar presente em filmes que flertavam com o Cinema Novo (Bebel, Garota Propaganda de Maurice Capovilla), Cinema Marginal (Capitão Bandeira Contra o Doutor Moura Brasil de Antônio Calmon), ciclo do cangaço e diversas pornochanchadas. Trabalhou ao mesmo tempo com estrelas populares como Mazzaropi e realizadores autorais como Walter Hugo Khouri.

Herbert tentou a direção em poucas oportunidades. Em 1984, aceitou o convite do amigo Aníbal Massaini Neto para realizar um episódio. As salas nacionais já estavam entupidas pelas películas de sexo explícito. Mesmo assim, a produtora Cinedistri resolveu bancar uma comédia erótica em dois episódios. O primeiro coube ao realizador carioca Ivan Cardoso. Já o segundo, Primeiro de Abril, ficou sob a direção de John Herbert.

A trama do episódio gira em torno do golpe militar ocorrido em 31 de março de 1964. Justamente nesse dia é o aniversário do playboy Edinho (Marcos Frota). O jovem arma a maior festa em sua mansão. O rapaz não resiste à beleza de sua prima revolucionária (Kátia Lopes) e da bela namorada (Vanessa Alves). Embora o argumento pareça sério, Herbert aborda os acontecimentos históricos de maneira jocosa. O episódio parece tirado das comédias de Mário Monicelli. O destaque fica por conta do gigante Dionísio Azevedo, que faz o avô de Edinho, Aldemiro, um senhor reacionário que demonstra seu apoio irrestrito ao golpe. Não admite a pouca vergonha da mocidade.

Esta seria a última investida de Herbert na direção cinematográfica. Seu talento estaria presente em mais alguns longas-metragens (somente como ator), peças teatrais e novelas. Com típico físico de galã conservado graças à natação, John Herbert foi um dos maiores nomes da TV brasileira. Autêntico bon vivant, casou inúmeras vezes e era palmeirense convicto. Sua morte encerrou uma trajetória brilhante de um homem dedicado às artes brasileiras.

A Grande Vedete

Especial John Herbert

 

A Grande Vedete
Direção: Watson Macedo
Brasil, 1958.
 

Por Sérgio Andrade
 

Janete (Dercy Gonçalves) é a veterana estrela de uma companhia teatral que se recusa a admitir que já passou da idade para representar certos papéis. Os aplausos e pedidos de autógrafo e flores que recebe em seu camarim são de responsabilidade de seu fiel secretário Ambrósio (Catalano), que tem pena que ela descubra que não é mais admirada como antes.

Dirigido pelo mestre das chanchadas Watson Macedo, tendo Oswaldo Massaini, da Cinedistri, como produtor associado, o filme tem ecos de Crepúsculo dos Deuses, ao mostrar como é difícil para certas pessoas do meio artístico, depois de alcançarem grande sucesso na carreira, reconhecerem que está na hora de passar o bastão para os mais jovens.

Apesar dos nomes envolvidos, que poderia sugerir uma chanchada tradicional (tem também a impagável Zezé Macedo como a eterna noiva de Ambrósio), trata-se de uma “dramédia”, drama com toques cômicos proporcionados pelo talento histriônico de Dercy, que também demonstra insuspeitas qualidades dramáticas.

John Herbert, já um veterano com 10 filmes no currículo, interpreta Paulo, autor teatral apaixonado pela bailarina Wilma (a argentina Marina Marcel, emprestada por Carlos Machado, o rei da noite carioca), para quem está escrevendo uma peça. Mas Janete lê a peça pensando ter sido escrito para ela, apaixonando-se por Paulo. Não é um papel fácil, pois Paulo fica dividido entre o amor por Wilma e o carinho que passa a sentir por Janete, resistindo em revelar a verdade para não machucá-la. O grande ator, com sua fina estampa, dá conta do recado.

Mas claro que o filme foi realizado para o brilho de Dercy, que canta algumas músicas (Saias Curtas, Tome Polca). Dá vontade de aplaudir de pé!

Filme-Farol

Por Aílton Monteiro

 

Eros, O Deus do Amor
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1981.

Ao ser questionado sobre um filme brasileiro do coração, o nome de Walter Hugo Khouri foi o que logo me veio à mente. Conheci seus filmes antes mesmo de me autodenominar cinéfilo. Via-os na televisão pelo apelo erótico, pelas mulheres lindas e nuas e porque eu era um adolescente com os hormônios em ebulição. Mas não só por isso, como depois fui perceber. O existencialismo, tão presente na obra khouriana, de certa forma já me atraía. Com o tempo, a atmosfera, a música misteriosa de Rogério Duprat, o jazz, a busca desesperada por sexo dos personagens, todos esses ingredientes já me eram elementos agradavelmente familiares.


Eros, o Deus do Amor
(1981) é provavelmente o mais querido por mim, dentre os vários trabalhos do genial cineasta. Talvez nem seja o seu filme mais próximo da perfeição – pelo menos a cópia que pude ver em VHS é cheia de saltos -, mas é um filme que ficou guardado na memória com muito afeto. É um filme de forte poder imagético, mas a imagem que ficou mais forte em minha mente durante todos esses anos foi a de Denise Dumont nua, de bruços numa cama, enquanto o olhar de Marcelo, em câmera subjetiva, se aproxima de seu corpo. Depois, quando ela acorda – Denise, personificando Ana, a mulher mais desejada por Marcelo no filme -, vemos o quanto ela é encantadora e apaixonante. E um dos grandes motivos de o filme ser tão especial, mesmo com o grande elenco de estrelas femininas.

Poucos filmes mostram tantas mulheres quanto Eros. Além de Denise Dumont, há Dina Sfat, como a mãe de Marcelo, Lillian Lemmertz, como a esposa, e mais Renée de Vielmond, Kate Lyra, Nicole Puzzi, Selma Egrei, Monique Lafond, Patricia Scalvi, Kate Hansen, Lara Deheinzelein, Maria Cláudia, Christiane Torloni, Alvamar Taddei, Sueli Aoki, Dorothée-Marie Bouvier e Norma Bengell. Vários desses nomes já eram bem familiares da cinematografia de Khouri.

E quem pensa que a primeira vez que o cineasta mostrou o pequeno Marcelo fazendo sexo com uma mulher adulta foi em Amor, Estranho Amor (1982) não sabe que, um ano antes, em Eros, Kate Lyra, no papel da professora de inglês, já desempenhara esse papel. A cena só não ficou tão famosa quanto a do filme de 82 por razões que nem é preciso explicar. Em Eros, também é explorado o desejo de Marcelo por sua filha Berenice, já mostrado em O Prisioneiro do Sexo (1979) e levado às últimas consequências em Eu (1987).

O filme começa com um monólogo de identificação com a cidade de São Paulo, que já conquista o espectador que tem algum elo de amor pela cidade. Sobre São Paulo, Marcelo diz: “quase ninguém gosta dela, o país não gosta, os turistas não gostam, os próprios habitantes parecem não gostar, a angústia aqui parece ser maior, tudo aqui parece ser maior (…) dizem que é um lugar descaracterizado, não é o trópico, nem o frio, não é civilizado nem primitivo, não pertence a nada, não tem charme especial, não tem lógica, não é antiga, nem moderna (…) é indiferente, distante, imprecisa, quase sem tradição, egoísta, individualista, cruel e devoradora.” E é a partir dessas características que o personagem se liga à cidade.

Outra característica de destaque do filme está no fato de o rosto de Marcelo nunca ser mostrado. Só ouvimos a voz de Roberto Maya. O uso da câmera subjetiva não é usado em todo o filme, já que em alguns poucos momentos vemos o seu vulto. Mas o fato de Marcelo não ter rosto e de isso ser mencionado pelo menos duas vezes durante o filme pelas mulheres não deixa de ser interessante, levando em consideração o fato de o personagem ter sido interpretado por tantos atores.

A presença de Ana (Denise Dumont) durante boa parte do filme, ainda que apenas em close, entrecortando as memórias de Marcelo e suas aventuras com várias mulheres do passado e do presente, simboliza uma falsa esperança de que o personagem possa finalmente mudar, encontrar o amor nos braços de uma única mulher e largar a busca desenfreada do prazer pelo sexo, que sempre resulta no vazio da alma. No entanto, ao mesmo tempo, o sexo pode ser visto também como ponto de partida para uma espécie de amadurecimento espiritual, como é questionado na citação de Norman Mailer que abre o filme: “Será que o sexo é onde começa a filosofia?”. Sendo uma pergunta, a citação está presente mais para gerar reflexão.

Musas Eternas

Neide Ribeiro

 

Por Matheus Trunk

 

Janeiro, 19

A vida não é fácil. Falta de emprego, falta de mulher, time sem conquistar títulos. Reergo-me toda vez que bebo a cachaça Tatuzinho. Sei que isso não é coisa de pessoas responsáveis. Mas não admito que me chamem de vagabundo. Em hipótese alguma. Isso é xingamento, humilhação. Prefiro ser chamado de desocupado. Aí sim.

De vez em quando, vou no orelhão perto da pensão e ligo pros meus pais. Invento que estou me dando mal na cidade grande. “Mãezinha amada, como anda? O quê? Faculdade… ainda estou pensando. Emprego tá difícil também. Não tem como vocês me ajudarem?”. A tática às vezes funciona. O problema é quando meu pai atende o telefone. Quando é mãe tudo fica mais fácil, e tem que falar: “Mãezinha querida e amada”. Da última vez falei somente “querida” e ela não me ajudou. Pra almoçar os sete dias da semana, tive que vender toda minha coleção de Ping Pong Cards. Tudo agora está nas mãos do filho do dono da pensão. Moleque fedorento, cheio de pintinhas. Parece figurante de fita do Zé do Caixão. Vocês acham que ganhei muito dinheiro? Se fosse assim eu já estava no La Licorne curtindo a noite toda, jogando cédulas do Oswaldo Cruz pra mulherada. Já imaginou eu tomando champagne com a amada Laura Garcia? E a tia Tânia? Quanto tempo não vejo ela. Se estivesse em mares melhores, eu nem me lembraria que existe a maldita Tatuzinho.

Com o capital recém adquirido, posso tentar uma vaga em algum lugar. Compro alguns jornais: A Gazeta Esportiva, Notícias Populares, Popular da Tarde. Mas quem quer emprego? Só de ouvir isso me dá um tremendo calafrio. Sobre o futebol não vou nem comentar. Andamos com uma má sorte dos diabos. Mas mantenho fé no Jorginho Putinatti. O cara é palmeirense mesmo. Pela situação do clube, de noite, irei tomar outra dose cavalar de Tatuzinho. A minha avó sempre dizia: “A vida não é fácil”. Em São Paulo, parece que nunca foi.

Uma capa de jornal me chama a atenção na banca. É uma belezoca que mais parece saída de Hollywood. É pequena, rosto chamativo, impõe respeito. Na realidade, ela bem que poderia estar no outdoor da Biotônica Fontoura. Realmente, a moça está cheia de saúde. Leio que o nome da cocotinha é Neide Ribeiro, está estrelando um novo filme que está em cartaz no Cine Marabá e circuito chamado Palácio de Vênus. Poxa, no elenco ainda tem Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Elizabeth Hartmann. Só filé mignon. Irei na sessão o quanto antes. Eu já tinha visto alguns filmes com a Neide, só não me lembrava dela. Realmente trata-se de uma rapariga das melhores qualidades.

Janeiro, 21

Manhã sombria. Na hora do almoço, pego o primeiro CMTC pro centro. Realmente, minha agenda anda meio cheia. Cheia de nada pra fazer. No radinho que eu trouxe do interior, vou escutando o programa de esportes da Panamericana com o Cândido Garcia e Orlando Duarte. Mas as notícias sobre a equipe são negativas. Que merda! Logo hoje num jogo importante. Chego na avenida São João e entro no primeiro boteco vagabundo.

– Amigo, me vê uma Crush…

– Mas você não é aquele camarada que fica tomando Tatuzinho?

– Poxa meu velho, estou tentando evitar a fadiga. Depois, eu acabo tomando essas cachaças vagabundas e vocês são os responsáveis- digo apontando o dedo para ele. Sou baixo e magricelo. Mas o cara ficou com medo. Me trouxe logo uma Crush.

Vejo uma loira deslumbrante passar pela rua. Me lembro que estou cada dia mais pobre. O que adiantaria ter uma garota daquelas se não teria onde levá-la? A vida não é fácil. Passei no Cine Marabá e me impressionei positivamente com os lobby cards do Palácio de Vênus. Compro a entrada e vejo a película. Realmente, era muito gozado e a Neide Ribeiro está um arraso. No final do filme, ela termina andando de patins e se jogando. Me deixou completamente louco. Ela é uma atriz acima da média. Quando ela fala algo, percebemos que ela tem um carisma e é dona de uma sensibilidade exacerbada. É uma espécie de rainha do nosso cinema. Se eu tivesse uma graninha, eu ia localizá-la, falar da minha paixão por ela. Só que minhas reservas financeiras não conseguem comprar nem uma revista em que ela tenha saído. De noite, eu poderia tomar uns tragos com o Noite Ilustrada no Clube de Paris ou dar uma esticada no La Vie em Rose. Mas estou quebrado. Guardei minhas últimas notas pra ir ver o jogo do Palmeiras. Não esquecerei do radinho pra escutar o garotinho Osmar Santos. Se estiver pegando mal a Globo, fico mesmo na Bandeirantes ouvindo o Fiori Gigliotti.

Janeiro, 22

Não comento mais futebol neste diário. Assunto encerrado. A única notícia boa é que não tomei ontem a maldita Tatuzinho. Sonhei com a Neide Ribeiro a noite inteira. Lembrei que ela tinha sido agente secreta num outro filme. Foi tudo rodado numa praia do litoral paulista. Mas diziam que era na tal Ilha dos Prazeres Proibidos. Li na coluna do Jota Santana no Notícias Populares que ela vai estrelar um outro longa-metragem do mesmo realizador de Palácio de Vênus. Trata-se de um filme chamado A Fêmea do Mar e a maravilhosa Aldine Müller vai fazer a filha dela. Poxa, mas aí começa uma nova confusão. Esse povo que faz pornochanchada é gozado. As duas tem quase a mesma idade! Como uma vai ser a mãe da outra? Só nesses filmes mesmo. Mas dane-se. Quando estrear, eu vou acabar vendo num a sessão no Marabá ou no Windsor com os meus últimos centavos.

Janeiro, 23

Vocês se lembram daquele dinheiro que ganhei vendendo toda a minha coleção de Ping Pong Cards? Então, acabou. Não é que o dinheiro sumiu. Foi muito pior. Eu andava sem ter o que fazer nessa cidade. E fui jogar sinuca num estabelecimento de segunda linha na Lapa. E não é que um camarada quis apostar uma grana comigo nisso? Dizer que me fudi foi pouco. Lá no interior eu era o Carne Frita da sinuca, João Antônio das coloridas. Aqui não sirvo nem pra limpar os sapatos dos caras. Perdi quase tudo. Paguei e quase não sobra grana pro CMTC da volta. Que droga. Tomei várias doses de Tatuzinho. Mas acredito que conseguirei dormir.

Janeiro, 24

Acordei decidido a mudar a minha situação na capital bandeirante. Mas hoje é sábado. Logo no dia em que se é impossível arrumar emprego. Vou deixar isso pra outro momento. Um cinema de subúrbio está passando um filme com a Neide que saiu de cartaz. A película se chama Corpo Devasso, produção do David Cardoso. Sim, aquele mesmo que apareceu outro dia na Hebe dizendo: “Só faço longas-metragens pro público que só tem moedas no bolso”. Parece que sou um desses. Preciso pegar duas conduções pra chegar na sala. Quer saber? Não tenho nada pra fazer. Irei lá.

Janeiro, 25

Estou precisando de novos horizontes, seguir outros rumos e caminhos. Minha paixão pela Neide Ribeiro está se tornando uma obsessão doentia. A vida não é fácil. Quando a Neide aparece inteira na tela, eu fico obcecado. Estou começando a colecionar recortes de jornais, revistas e algumas propagandas em que ela aparece. Como será o nosso encontro? Como será o nosso enxoval? Neide, você prefere lua de mel nas Ilhas Gregas ou em Paris? Com os meus fundos atuais, não dá pra ir nem pra Santos. Quem sabe dar um passeio no Jardim Zoológico ou na Casa do Bandeirante, no Butantã. Não é somente a beleza, ela se impõe nos filmes. Parece que ela possui uma espécie de força interna. Entendo que ela é uma leoa, uma estrela com um brilho próprio. Não estou dizendo que eu não admire Patrícia Scalvi, Zilda Mayo e outras deusas da Boca paulistana. Mas ela parece que tem uma luz especial. Algo difícil de descrever.

Sei que pior que não encontrá-la, é permanecer falido e sem emprego. Mas essa situação muda. Minhas andanças sem rumo na capital paulista terão fim em breve. Amanhã é segunda-feira e irei arrumar uma maldita ocupação.

Janeiro, 26

Acordei com uma ressaca braba. Foi mais Tatuzinho. Vou tentar não ficar alcoólatra. Como minha agenda anda lotada, passei pelo centro e encontrei minha musa numa dessas publicações masculinas. Tá na cara que eu comprei. Vi seu rosto… sua face adorada e fiquei doente. Olha, Neide Ribeiro vicia mais que Tatuzinho. Pena que a revista seja de papel e não seja a própria deusa em carne e osso. Se eu tivesse uma chance de conhecê-la, só de olhá-la de longe ficaria satisfeito. Até emprego eu ia arrumar. Mas precisava de uns trocados pra correr atrás disso. Gastei a grana comprando a revista da Neide. Mas só fiz isso porque ela era capa da publicação.

Janeiro, 28

Novo sonho com a rainha da Boca paulistana. Parecia realidade. O resultado foi tão forte que estou pensando em ir lá qualquer hora, quem sabe falar com ela. Afinal, a moça não deve ter tantos fãs. Nem escuto mais o horário esportivo no rádio. Deixei de tomar cachaça vagabunda. Estou me tornando um compulsivo pela Neide. Daqui a alguns meses, vai estrear um outro filme com a moça. Se chama Violência na Carne do diretor Alfredo Sternheim. Ela é atriz e está numa casa que é seqüestrada por ex-marginais. Poxa, fiquei realmente curioso para ver essa película. Soube que a Neide está presente porque deu nos jornais que a Censura liberou o longa. Tenho que esperar mais uns quatro meses pra conseguir ver essa produção. Realmente, a vida não é fácil.

Janeiro, 30

Que fase! Num emprego querem que você tenha língua estrangeira. No outro, diploma de datilografia. Vocês acham que eu estudei filosofia? Poxa, o máximo que eu lia era aqueles romances tipo Sharon Scott, Charlie Chan. Estão falando que o Enéas vai vir da Itália jogar no Palmeiras. Poxa, na Portuguesa ele jogava o maior bolão. Pelo menos isso me animou o dia. Não suporto mais o cheiro de cachaça sem vergonha. Estou numa fase triste e aguda. Por isso, resolvi adotar a cerveja preta. Faz uma linha de bebida proletária (afinal, é cerveja), mas se diz um pouco sofisticada. Vou pegar um dinheiro emprestado pra ir fazer minhas refeições diárias em algum local de segunda linha. Vida ordinária. Vou ter que esperar mais alguns meses para rever Neide Ribeiro na telona em filme inédito. Já revi Palácio de Vê nus dezenas vezes. Minha esperança é que apareça alguma cópia com algo diferente. Estou decorando as falas do filme.

Fevereiro, 3

Estou quebrado. Agora é verdade. Desse jeito, vou voltar pro interior. Essa cidade é predatória e vai te destruindo aos poucos. Minhas ambições são fáceis de serem alcançadas: emprego decente, namoro com Neide Ribeiro e Palmeiras campeão. Alguma coisa de outro mundo? Penso que não. Ontem fiz uma das piores coisas que poderia ter feito. Tomei doses crepusculares de Tatuzinho e conheci uma moça muito feia num desses bares fedorentos. Mas como eu estou numa pior, topei a parada. Não me lembro o nome dela, só sei que a chamei de Neide. Depois, ela falou: “Essa Neide é sua irmã? Sua mãe? Por quê você fala tanto nela?”.

Fevereiro, 5

Falta grana até pra pagar o fim de mês da pensão. Agora vou vender o quê? O rádio? O meu relógio? Minhas roupas? Tá foda. Sento num bar de um português conhecido que fica perto da pensão.

– Manda o de sempre.

– Mas tu vais começar logo cedo gajo?

– Lógico. Melhor. É pra evitar a fadiga- respondo, numa tentativa de ser um talento na comunicação Brasil-Portugal.

– Aqui estás- diz ele me trazendo mais uma dose da Tatuzinho.

Todo dono de bar é uma espécie de psicólogo. Peço um conselho pro gajo.

– O senhor sabe, estou sem emprego, sem remuneração. Devendo todo mundo. Fico tomando Tatuzinho toda hora. E toda noite sonho com uma atriz maravilhosa da pornochanchada que nem sabe que eu existo.

– Olha meu filho, posso te falar uma única coisa. A vida não é fácil.

 

O Que É Cinema Brasileiro?

Por Marcelo Miranda

 

Cinema brasileiro… 

… é a cachoeira de Humberto Mauro.
… são os grilhões de Mário Peixoto.
… é o barco dos irmãos Segretto.
… é o esculhambo de Sganzerla.
… é o Corisco de Glauber.}
… é a presença física de Helena Ignez.
… são as putas humanizadas e sofridas de Ody Fraga.
… são as unhas e a cartola do Zé do Caixão.
… é a grandiloquência da Vera Cruz.
… é a cruz de Zé do Burro.
… é o facão de Augusto Matraga.
… é a música de Sérgio Ricardo.
… é o bacalhau de Adriano Stuart.
… é o corpo de Helena Ramos.
… é a virilidade de David Cardoso.
… é a provocação de Sônia Braga.
… é o destrambelho de Mazzaropi.
… é a ingenuidade aventuresca dos Trapalhões.
… é a beleza de Anselmo Duarte.
… são os delírios de Carlos Prates Correia.
… é a cafajestagem de Jece Valadão.
… é a curra de Lucélia Santos.
… é o grito interminável de Hugo Carvana.
… são os marginais cineastas de Fernando Coni Campos.
… são os fantasmas e assassinos de Jean Garrett.
… é a cinefilia obsessiva e fascinante de Carlão.
… é a dor de seu próprio fim perpetrado por Collor.
… é a possibilidade de seu renascimento representada por Carla Camurati.
… é a subversão de seus próprios caminhos.
… é tudo e nada.
… é o que temos e é o que não temos.
… é o que se renova e o que permanece igual.
… é o que amamos, infinitas coisas mais. 

E quem não ama o cinema brasileiro ou não sabe dizer por que o ama…
… não sabe em que mundo vive.

Marcelo Miranda é crítico na revista eletrônica Filmes Polvo (www.filmespolvo.com.br) e repórter no jornal O Tempo em Belo Horizonte (MG).

Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

 


Sejamos gratos a quem faz coisas boas, apenas
 

           

Filmes, como a maior parte das artes, podem e devem ser preservados. Então é relativa e consideravelmente fácil termos acesso a coisas antigas, de décadas atrás. 

Essas coisas ficaram, estão eternizadas. Elas são daquele jeito, por inúmeros fatores. Estão necessariamente atreladas ao momento histórico de sua produção, o que não significa que as coisas não pudessem ser diferentes. 

Como assim, diferentes? Explico: se obras artísticas refletem um período específico (aquele em que viveu o artista), os fatores externos à criação são passíveis de mudança, sempre. 

Vou tentar esclarecer mais um pouco. Todos conhecem O grande ditador, uma de tantas obras-primas de Charles Chaplin. Ocorre que poucos percebem o erro que é “ser grato” ao nazi-fascismo por ter gerado trabalhos incríveis assim. As aspas são evidentes: poucos reconheceriam esse sentimento, mas no fundo é o que se considera. Não adentrarei doutrinações morais ou sentimentaloides, meu objetivo (se tenho um) é simplesmente fazer essa ressalva: os males do mundo são ruins ao mundo; a arte não serve para justificá-los, em absoluto. 

Não é preciso ficar penalizado ao se aclamar O grande ditador, longe disso; mas é preciso entender que aquela foi a crítica que Chaplin pôde e se sentiu compelido a fazer em 1940, daquele jeito, com aquela expressão. Caso não tivesse havido esse sistema político (?) e essa violência que Chaplin retrata em seu filme, ora, ele simplesmente faria um filme sobre… outra coisa qualquer. O nazismo não ajudou a Chaplin, não é pertinente considerar genocídios como positivos à arte porque possibilitam o surgimento dessas comunicações de veemente repulsa, por exemplo. Caso não fosse essa uma das tragédias a preocupar o mundo na época (como de resto, parece não ter deixado de preocupar), Chaplin traria outro assunto à luz, com igual ou maior brilhantismo. 

Noite e neblina. Possivelmente uma das mais pungentes ilustrações da “poesia” no cinema, o filme documentário de Alain Resnais retrata vivamente a desgraça da deportação e dos campos de concentração e extermínio durante a Segunda Guerra Mundial. A quem interessa creditar a beleza e inteligência do filme ao caos geopolítico em que o planeta estava imerso? É subestimar a humanidade de um autor como Resnais acreditar que a desgraça lhe vale de alimento, como a um urubu serve de repasto uma carcaça. A arte denuncia aí uma presente forma de opressão, e, portanto, é contra ela e a deseja inexistente ou derrotada. Absurdo imputar-lhe subliminar pecha de aproveitamento “disfarçado” da essência das coisas que combate. 

Estamos acostumados a ver as coisas com essa lógica meio preguiçosa do “resultado”. As coisas são assim porque estão aqui e eu as estou vendo, o produto bruto diante dos meus olhos. Pensar que O grande ditador foi um desafio a Hitler, Noite e neblina, o retrato de uma era negra. Mas e sem esses eventos, onde estariam Chaplin e Resnais em seus ofícios criativos? Parariam de inovar? Não: olhariam para outro lado, teriam outros interesses e trabalhariam outros temas. Assim é o artesanato do cinema, e como a História (e a vida) é instável, não deixa de ser algo previsível (o que pode parecer paradoxal), e então os artistas dos fatos de hoje pensarão nos problemas contemporâneos e os de amanhã terão outras coisas na cabeça. 

Disso tudo fica o mais que óbvio: O grande ditador e Noite e neblina são filmes interessantes porque seus diretores tocam o projeto com a segurança da autoralidade sem imposições, não porque retratam horrores reais e por isso um pouco “louváveis”.

Entrevista: Ewerton de Castro

Dossiê Ewerton de Castro

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Entrevista com Ewerton de Castro

Por Gabriel Carneiro
Fotos: Adriana Câmara e Pedro Ribaneto

Famoso ator de novelas (A Viagem, Roque Santeiro, Pantanal), Ewerton de Castro fez muito cinema, especialmente nos anos 70, na Boca do Lixo. Com carreira intensa (muito teatro e muita televisão também), Ewerton atuou em mais de 25 longas, entre eles, O Quarto, O Jeca e a Freira, Anjo Loiro, A Noite do Desejo, O Último Êxtase, O Estripador de Mulheres, Os Rapazes da Difícil Vida Fácil, Kuarup e O Príncipe. Ainda encontrou tempo para dirigir um, Viúvas Precisam de Consolo, que acabou sendo um fracasso comercial, e o média semi-amador Em Última Análise.

Em entrevista para a Zingu!, que pretende ser uma complementação ao livro de Reni Cardoso, Ewerton de Castro – Minha Vida na Arte: Memória e Poética, além de fazer um retrospecto na carreira cinematográfica, Ewerton permeia suas respostas com suas crenças em termo de atuação, de seus papéis e do futuro na arte. Sua reflexão sobre a profissão o levou a manter, por vários anos, a Escola de Teatro Ewerton de Castro – tema deixado de fora da entrevista, mas muito comentado no livro -, empreendimento que formou muitos atores competentes.

 

Parte 1: Infância e começo no cinema

Parte 2: Anos 70, Boca do Lixo – ator e diretor

Parte 3: Anos 80 – cinema cada vez menos