Filme-Farol

Por Aílton Monteiro

 

Eros, O Deus do Amor
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1981.

Ao ser questionado sobre um filme brasileiro do coração, o nome de Walter Hugo Khouri foi o que logo me veio à mente. Conheci seus filmes antes mesmo de me autodenominar cinéfilo. Via-os na televisão pelo apelo erótico, pelas mulheres lindas e nuas e porque eu era um adolescente com os hormônios em ebulição. Mas não só por isso, como depois fui perceber. O existencialismo, tão presente na obra khouriana, de certa forma já me atraía. Com o tempo, a atmosfera, a música misteriosa de Rogério Duprat, o jazz, a busca desesperada por sexo dos personagens, todos esses ingredientes já me eram elementos agradavelmente familiares.


Eros, o Deus do Amor
(1981) é provavelmente o mais querido por mim, dentre os vários trabalhos do genial cineasta. Talvez nem seja o seu filme mais próximo da perfeição – pelo menos a cópia que pude ver em VHS é cheia de saltos -, mas é um filme que ficou guardado na memória com muito afeto. É um filme de forte poder imagético, mas a imagem que ficou mais forte em minha mente durante todos esses anos foi a de Denise Dumont nua, de bruços numa cama, enquanto o olhar de Marcelo, em câmera subjetiva, se aproxima de seu corpo. Depois, quando ela acorda – Denise, personificando Ana, a mulher mais desejada por Marcelo no filme -, vemos o quanto ela é encantadora e apaixonante. E um dos grandes motivos de o filme ser tão especial, mesmo com o grande elenco de estrelas femininas.

Poucos filmes mostram tantas mulheres quanto Eros. Além de Denise Dumont, há Dina Sfat, como a mãe de Marcelo, Lillian Lemmertz, como a esposa, e mais Renée de Vielmond, Kate Lyra, Nicole Puzzi, Selma Egrei, Monique Lafond, Patricia Scalvi, Kate Hansen, Lara Deheinzelein, Maria Cláudia, Christiane Torloni, Alvamar Taddei, Sueli Aoki, Dorothée-Marie Bouvier e Norma Bengell. Vários desses nomes já eram bem familiares da cinematografia de Khouri.

E quem pensa que a primeira vez que o cineasta mostrou o pequeno Marcelo fazendo sexo com uma mulher adulta foi em Amor, Estranho Amor (1982) não sabe que, um ano antes, em Eros, Kate Lyra, no papel da professora de inglês, já desempenhara esse papel. A cena só não ficou tão famosa quanto a do filme de 82 por razões que nem é preciso explicar. Em Eros, também é explorado o desejo de Marcelo por sua filha Berenice, já mostrado em O Prisioneiro do Sexo (1979) e levado às últimas consequências em Eu (1987).

O filme começa com um monólogo de identificação com a cidade de São Paulo, que já conquista o espectador que tem algum elo de amor pela cidade. Sobre São Paulo, Marcelo diz: “quase ninguém gosta dela, o país não gosta, os turistas não gostam, os próprios habitantes parecem não gostar, a angústia aqui parece ser maior, tudo aqui parece ser maior (…) dizem que é um lugar descaracterizado, não é o trópico, nem o frio, não é civilizado nem primitivo, não pertence a nada, não tem charme especial, não tem lógica, não é antiga, nem moderna (…) é indiferente, distante, imprecisa, quase sem tradição, egoísta, individualista, cruel e devoradora.” E é a partir dessas características que o personagem se liga à cidade.

Outra característica de destaque do filme está no fato de o rosto de Marcelo nunca ser mostrado. Só ouvimos a voz de Roberto Maya. O uso da câmera subjetiva não é usado em todo o filme, já que em alguns poucos momentos vemos o seu vulto. Mas o fato de Marcelo não ter rosto e de isso ser mencionado pelo menos duas vezes durante o filme pelas mulheres não deixa de ser interessante, levando em consideração o fato de o personagem ter sido interpretado por tantos atores.

A presença de Ana (Denise Dumont) durante boa parte do filme, ainda que apenas em close, entrecortando as memórias de Marcelo e suas aventuras com várias mulheres do passado e do presente, simboliza uma falsa esperança de que o personagem possa finalmente mudar, encontrar o amor nos braços de uma única mulher e largar a busca desenfreada do prazer pelo sexo, que sempre resulta no vazio da alma. No entanto, ao mesmo tempo, o sexo pode ser visto também como ponto de partida para uma espécie de amadurecimento espiritual, como é questionado na citação de Norman Mailer que abre o filme: “Será que o sexo é onde começa a filosofia?”. Sendo uma pergunta, a citação está presente mais para gerar reflexão.

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Musas Eternas

Neide Ribeiro

 

Por Matheus Trunk

 

Janeiro, 19

A vida não é fácil. Falta de emprego, falta de mulher, time sem conquistar títulos. Reergo-me toda vez que bebo a cachaça Tatuzinho. Sei que isso não é coisa de pessoas responsáveis. Mas não admito que me chamem de vagabundo. Em hipótese alguma. Isso é xingamento, humilhação. Prefiro ser chamado de desocupado. Aí sim.

De vez em quando, vou no orelhão perto da pensão e ligo pros meus pais. Invento que estou me dando mal na cidade grande. “Mãezinha amada, como anda? O quê? Faculdade… ainda estou pensando. Emprego tá difícil também. Não tem como vocês me ajudarem?”. A tática às vezes funciona. O problema é quando meu pai atende o telefone. Quando é mãe tudo fica mais fácil, e tem que falar: “Mãezinha querida e amada”. Da última vez falei somente “querida” e ela não me ajudou. Pra almoçar os sete dias da semana, tive que vender toda minha coleção de Ping Pong Cards. Tudo agora está nas mãos do filho do dono da pensão. Moleque fedorento, cheio de pintinhas. Parece figurante de fita do Zé do Caixão. Vocês acham que ganhei muito dinheiro? Se fosse assim eu já estava no La Licorne curtindo a noite toda, jogando cédulas do Oswaldo Cruz pra mulherada. Já imaginou eu tomando champagne com a amada Laura Garcia? E a tia Tânia? Quanto tempo não vejo ela. Se estivesse em mares melhores, eu nem me lembraria que existe a maldita Tatuzinho.

Com o capital recém adquirido, posso tentar uma vaga em algum lugar. Compro alguns jornais: A Gazeta Esportiva, Notícias Populares, Popular da Tarde. Mas quem quer emprego? Só de ouvir isso me dá um tremendo calafrio. Sobre o futebol não vou nem comentar. Andamos com uma má sorte dos diabos. Mas mantenho fé no Jorginho Putinatti. O cara é palmeirense mesmo. Pela situação do clube, de noite, irei tomar outra dose cavalar de Tatuzinho. A minha avó sempre dizia: “A vida não é fácil”. Em São Paulo, parece que nunca foi.

Uma capa de jornal me chama a atenção na banca. É uma belezoca que mais parece saída de Hollywood. É pequena, rosto chamativo, impõe respeito. Na realidade, ela bem que poderia estar no outdoor da Biotônica Fontoura. Realmente, a moça está cheia de saúde. Leio que o nome da cocotinha é Neide Ribeiro, está estrelando um novo filme que está em cartaz no Cine Marabá e circuito chamado Palácio de Vênus. Poxa, no elenco ainda tem Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Elizabeth Hartmann. Só filé mignon. Irei na sessão o quanto antes. Eu já tinha visto alguns filmes com a Neide, só não me lembrava dela. Realmente trata-se de uma rapariga das melhores qualidades.

Janeiro, 21

Manhã sombria. Na hora do almoço, pego o primeiro CMTC pro centro. Realmente, minha agenda anda meio cheia. Cheia de nada pra fazer. No radinho que eu trouxe do interior, vou escutando o programa de esportes da Panamericana com o Cândido Garcia e Orlando Duarte. Mas as notícias sobre a equipe são negativas. Que merda! Logo hoje num jogo importante. Chego na avenida São João e entro no primeiro boteco vagabundo.

– Amigo, me vê uma Crush…

– Mas você não é aquele camarada que fica tomando Tatuzinho?

– Poxa meu velho, estou tentando evitar a fadiga. Depois, eu acabo tomando essas cachaças vagabundas e vocês são os responsáveis- digo apontando o dedo para ele. Sou baixo e magricelo. Mas o cara ficou com medo. Me trouxe logo uma Crush.

Vejo uma loira deslumbrante passar pela rua. Me lembro que estou cada dia mais pobre. O que adiantaria ter uma garota daquelas se não teria onde levá-la? A vida não é fácil. Passei no Cine Marabá e me impressionei positivamente com os lobby cards do Palácio de Vênus. Compro a entrada e vejo a película. Realmente, era muito gozado e a Neide Ribeiro está um arraso. No final do filme, ela termina andando de patins e se jogando. Me deixou completamente louco. Ela é uma atriz acima da média. Quando ela fala algo, percebemos que ela tem um carisma e é dona de uma sensibilidade exacerbada. É uma espécie de rainha do nosso cinema. Se eu tivesse uma graninha, eu ia localizá-la, falar da minha paixão por ela. Só que minhas reservas financeiras não conseguem comprar nem uma revista em que ela tenha saído. De noite, eu poderia tomar uns tragos com o Noite Ilustrada no Clube de Paris ou dar uma esticada no La Vie em Rose. Mas estou quebrado. Guardei minhas últimas notas pra ir ver o jogo do Palmeiras. Não esquecerei do radinho pra escutar o garotinho Osmar Santos. Se estiver pegando mal a Globo, fico mesmo na Bandeirantes ouvindo o Fiori Gigliotti.

Janeiro, 22

Não comento mais futebol neste diário. Assunto encerrado. A única notícia boa é que não tomei ontem a maldita Tatuzinho. Sonhei com a Neide Ribeiro a noite inteira. Lembrei que ela tinha sido agente secreta num outro filme. Foi tudo rodado numa praia do litoral paulista. Mas diziam que era na tal Ilha dos Prazeres Proibidos. Li na coluna do Jota Santana no Notícias Populares que ela vai estrelar um outro longa-metragem do mesmo realizador de Palácio de Vênus. Trata-se de um filme chamado A Fêmea do Mar e a maravilhosa Aldine Müller vai fazer a filha dela. Poxa, mas aí começa uma nova confusão. Esse povo que faz pornochanchada é gozado. As duas tem quase a mesma idade! Como uma vai ser a mãe da outra? Só nesses filmes mesmo. Mas dane-se. Quando estrear, eu vou acabar vendo num a sessão no Marabá ou no Windsor com os meus últimos centavos.

Janeiro, 23

Vocês se lembram daquele dinheiro que ganhei vendendo toda a minha coleção de Ping Pong Cards? Então, acabou. Não é que o dinheiro sumiu. Foi muito pior. Eu andava sem ter o que fazer nessa cidade. E fui jogar sinuca num estabelecimento de segunda linha na Lapa. E não é que um camarada quis apostar uma grana comigo nisso? Dizer que me fudi foi pouco. Lá no interior eu era o Carne Frita da sinuca, João Antônio das coloridas. Aqui não sirvo nem pra limpar os sapatos dos caras. Perdi quase tudo. Paguei e quase não sobra grana pro CMTC da volta. Que droga. Tomei várias doses de Tatuzinho. Mas acredito que conseguirei dormir.

Janeiro, 24

Acordei decidido a mudar a minha situação na capital bandeirante. Mas hoje é sábado. Logo no dia em que se é impossível arrumar emprego. Vou deixar isso pra outro momento. Um cinema de subúrbio está passando um filme com a Neide que saiu de cartaz. A película se chama Corpo Devasso, produção do David Cardoso. Sim, aquele mesmo que apareceu outro dia na Hebe dizendo: “Só faço longas-metragens pro público que só tem moedas no bolso”. Parece que sou um desses. Preciso pegar duas conduções pra chegar na sala. Quer saber? Não tenho nada pra fazer. Irei lá.

Janeiro, 25

Estou precisando de novos horizontes, seguir outros rumos e caminhos. Minha paixão pela Neide Ribeiro está se tornando uma obsessão doentia. A vida não é fácil. Quando a Neide aparece inteira na tela, eu fico obcecado. Estou começando a colecionar recortes de jornais, revistas e algumas propagandas em que ela aparece. Como será o nosso encontro? Como será o nosso enxoval? Neide, você prefere lua de mel nas Ilhas Gregas ou em Paris? Com os meus fundos atuais, não dá pra ir nem pra Santos. Quem sabe dar um passeio no Jardim Zoológico ou na Casa do Bandeirante, no Butantã. Não é somente a beleza, ela se impõe nos filmes. Parece que ela possui uma espécie de força interna. Entendo que ela é uma leoa, uma estrela com um brilho próprio. Não estou dizendo que eu não admire Patrícia Scalvi, Zilda Mayo e outras deusas da Boca paulistana. Mas ela parece que tem uma luz especial. Algo difícil de descrever.

Sei que pior que não encontrá-la, é permanecer falido e sem emprego. Mas essa situação muda. Minhas andanças sem rumo na capital paulista terão fim em breve. Amanhã é segunda-feira e irei arrumar uma maldita ocupação.

Janeiro, 26

Acordei com uma ressaca braba. Foi mais Tatuzinho. Vou tentar não ficar alcoólatra. Como minha agenda anda lotada, passei pelo centro e encontrei minha musa numa dessas publicações masculinas. Tá na cara que eu comprei. Vi seu rosto… sua face adorada e fiquei doente. Olha, Neide Ribeiro vicia mais que Tatuzinho. Pena que a revista seja de papel e não seja a própria deusa em carne e osso. Se eu tivesse uma chance de conhecê-la, só de olhá-la de longe ficaria satisfeito. Até emprego eu ia arrumar. Mas precisava de uns trocados pra correr atrás disso. Gastei a grana comprando a revista da Neide. Mas só fiz isso porque ela era capa da publicação.

Janeiro, 28

Novo sonho com a rainha da Boca paulistana. Parecia realidade. O resultado foi tão forte que estou pensando em ir lá qualquer hora, quem sabe falar com ela. Afinal, a moça não deve ter tantos fãs. Nem escuto mais o horário esportivo no rádio. Deixei de tomar cachaça vagabunda. Estou me tornando um compulsivo pela Neide. Daqui a alguns meses, vai estrear um outro filme com a moça. Se chama Violência na Carne do diretor Alfredo Sternheim. Ela é atriz e está numa casa que é seqüestrada por ex-marginais. Poxa, fiquei realmente curioso para ver essa película. Soube que a Neide está presente porque deu nos jornais que a Censura liberou o longa. Tenho que esperar mais uns quatro meses pra conseguir ver essa produção. Realmente, a vida não é fácil.

Janeiro, 30

Que fase! Num emprego querem que você tenha língua estrangeira. No outro, diploma de datilografia. Vocês acham que eu estudei filosofia? Poxa, o máximo que eu lia era aqueles romances tipo Sharon Scott, Charlie Chan. Estão falando que o Enéas vai vir da Itália jogar no Palmeiras. Poxa, na Portuguesa ele jogava o maior bolão. Pelo menos isso me animou o dia. Não suporto mais o cheiro de cachaça sem vergonha. Estou numa fase triste e aguda. Por isso, resolvi adotar a cerveja preta. Faz uma linha de bebida proletária (afinal, é cerveja), mas se diz um pouco sofisticada. Vou pegar um dinheiro emprestado pra ir fazer minhas refeições diárias em algum local de segunda linha. Vida ordinária. Vou ter que esperar mais alguns meses para rever Neide Ribeiro na telona em filme inédito. Já revi Palácio de Vê nus dezenas vezes. Minha esperança é que apareça alguma cópia com algo diferente. Estou decorando as falas do filme.

Fevereiro, 3

Estou quebrado. Agora é verdade. Desse jeito, vou voltar pro interior. Essa cidade é predatória e vai te destruindo aos poucos. Minhas ambições são fáceis de serem alcançadas: emprego decente, namoro com Neide Ribeiro e Palmeiras campeão. Alguma coisa de outro mundo? Penso que não. Ontem fiz uma das piores coisas que poderia ter feito. Tomei doses crepusculares de Tatuzinho e conheci uma moça muito feia num desses bares fedorentos. Mas como eu estou numa pior, topei a parada. Não me lembro o nome dela, só sei que a chamei de Neide. Depois, ela falou: “Essa Neide é sua irmã? Sua mãe? Por quê você fala tanto nela?”.

Fevereiro, 5

Falta grana até pra pagar o fim de mês da pensão. Agora vou vender o quê? O rádio? O meu relógio? Minhas roupas? Tá foda. Sento num bar de um português conhecido que fica perto da pensão.

– Manda o de sempre.

– Mas tu vais começar logo cedo gajo?

– Lógico. Melhor. É pra evitar a fadiga- respondo, numa tentativa de ser um talento na comunicação Brasil-Portugal.

– Aqui estás- diz ele me trazendo mais uma dose da Tatuzinho.

Todo dono de bar é uma espécie de psicólogo. Peço um conselho pro gajo.

– O senhor sabe, estou sem emprego, sem remuneração. Devendo todo mundo. Fico tomando Tatuzinho toda hora. E toda noite sonho com uma atriz maravilhosa da pornochanchada que nem sabe que eu existo.

– Olha meu filho, posso te falar uma única coisa. A vida não é fácil.

 

O Que É Cinema Brasileiro?

Por Marcelo Miranda

 

Cinema brasileiro… 

… é a cachoeira de Humberto Mauro.
… são os grilhões de Mário Peixoto.
… é o barco dos irmãos Segretto.
… é o esculhambo de Sganzerla.
… é o Corisco de Glauber.}
… é a presença física de Helena Ignez.
… são as putas humanizadas e sofridas de Ody Fraga.
… são as unhas e a cartola do Zé do Caixão.
… é a grandiloquência da Vera Cruz.
… é a cruz de Zé do Burro.
… é o facão de Augusto Matraga.
… é a música de Sérgio Ricardo.
… é o bacalhau de Adriano Stuart.
… é o corpo de Helena Ramos.
… é a virilidade de David Cardoso.
… é a provocação de Sônia Braga.
… é o destrambelho de Mazzaropi.
… é a ingenuidade aventuresca dos Trapalhões.
… é a beleza de Anselmo Duarte.
… são os delírios de Carlos Prates Correia.
… é a cafajestagem de Jece Valadão.
… é a curra de Lucélia Santos.
… é o grito interminável de Hugo Carvana.
… são os marginais cineastas de Fernando Coni Campos.
… são os fantasmas e assassinos de Jean Garrett.
… é a cinefilia obsessiva e fascinante de Carlão.
… é a dor de seu próprio fim perpetrado por Collor.
… é a possibilidade de seu renascimento representada por Carla Camurati.
… é a subversão de seus próprios caminhos.
… é tudo e nada.
… é o que temos e é o que não temos.
… é o que se renova e o que permanece igual.
… é o que amamos, infinitas coisas mais. 

E quem não ama o cinema brasileiro ou não sabe dizer por que o ama…
… não sabe em que mundo vive.

Marcelo Miranda é crítico na revista eletrônica Filmes Polvo (www.filmespolvo.com.br) e repórter no jornal O Tempo em Belo Horizonte (MG).

Reflexos em Película

Por Filipe Chamy

 


Sejamos gratos a quem faz coisas boas, apenas
 

           

Filmes, como a maior parte das artes, podem e devem ser preservados. Então é relativa e consideravelmente fácil termos acesso a coisas antigas, de décadas atrás. 

Essas coisas ficaram, estão eternizadas. Elas são daquele jeito, por inúmeros fatores. Estão necessariamente atreladas ao momento histórico de sua produção, o que não significa que as coisas não pudessem ser diferentes. 

Como assim, diferentes? Explico: se obras artísticas refletem um período específico (aquele em que viveu o artista), os fatores externos à criação são passíveis de mudança, sempre. 

Vou tentar esclarecer mais um pouco. Todos conhecem O grande ditador, uma de tantas obras-primas de Charles Chaplin. Ocorre que poucos percebem o erro que é “ser grato” ao nazi-fascismo por ter gerado trabalhos incríveis assim. As aspas são evidentes: poucos reconheceriam esse sentimento, mas no fundo é o que se considera. Não adentrarei doutrinações morais ou sentimentaloides, meu objetivo (se tenho um) é simplesmente fazer essa ressalva: os males do mundo são ruins ao mundo; a arte não serve para justificá-los, em absoluto. 

Não é preciso ficar penalizado ao se aclamar O grande ditador, longe disso; mas é preciso entender que aquela foi a crítica que Chaplin pôde e se sentiu compelido a fazer em 1940, daquele jeito, com aquela expressão. Caso não tivesse havido esse sistema político (?) e essa violência que Chaplin retrata em seu filme, ora, ele simplesmente faria um filme sobre… outra coisa qualquer. O nazismo não ajudou a Chaplin, não é pertinente considerar genocídios como positivos à arte porque possibilitam o surgimento dessas comunicações de veemente repulsa, por exemplo. Caso não fosse essa uma das tragédias a preocupar o mundo na época (como de resto, parece não ter deixado de preocupar), Chaplin traria outro assunto à luz, com igual ou maior brilhantismo. 

Noite e neblina. Possivelmente uma das mais pungentes ilustrações da “poesia” no cinema, o filme documentário de Alain Resnais retrata vivamente a desgraça da deportação e dos campos de concentração e extermínio durante a Segunda Guerra Mundial. A quem interessa creditar a beleza e inteligência do filme ao caos geopolítico em que o planeta estava imerso? É subestimar a humanidade de um autor como Resnais acreditar que a desgraça lhe vale de alimento, como a um urubu serve de repasto uma carcaça. A arte denuncia aí uma presente forma de opressão, e, portanto, é contra ela e a deseja inexistente ou derrotada. Absurdo imputar-lhe subliminar pecha de aproveitamento “disfarçado” da essência das coisas que combate. 

Estamos acostumados a ver as coisas com essa lógica meio preguiçosa do “resultado”. As coisas são assim porque estão aqui e eu as estou vendo, o produto bruto diante dos meus olhos. Pensar que O grande ditador foi um desafio a Hitler, Noite e neblina, o retrato de uma era negra. Mas e sem esses eventos, onde estariam Chaplin e Resnais em seus ofícios criativos? Parariam de inovar? Não: olhariam para outro lado, teriam outros interesses e trabalhariam outros temas. Assim é o artesanato do cinema, e como a História (e a vida) é instável, não deixa de ser algo previsível (o que pode parecer paradoxal), e então os artistas dos fatos de hoje pensarão nos problemas contemporâneos e os de amanhã terão outras coisas na cabeça. 

Disso tudo fica o mais que óbvio: O grande ditador e Noite e neblina são filmes interessantes porque seus diretores tocam o projeto com a segurança da autoralidade sem imposições, não porque retratam horrores reais e por isso um pouco “louváveis”.

Inventário Grandes Musas da Boca

Monique Lafond

Por Adilson Marcelino

Para abrir o Inventário Grandes Musas da Boca ano 2012, nada melhor que escalar um deusa para ninguém botar defeito: Monique Lafond.

Monique Lafond nasceu no Rio de janeiro em 09 de fevereiro de 1954.

Bailarina, começou a carreira artística os 11 anos no teatro em Música Divina Música, uma versão para o sucesso A Noviça Rebelde.

Nascia aí aquela que seria uma das maiores musas, sobretudo do cinema brasileiro.

Logo depois vem a estreia no cinema em Até que o Casamento nos Separe (1968), de Flávio Tambellini.

Durante sua carreira, Monique fará muitos trabalhos no teatro e na televisão – Fogo Sobre Terra (1974) e Coração Alado (1980) foram algumas novelas. Mas é o cinema que se revelará o habitat natural da atriz, que tem no currículo mais de 50 filmes. Posou também para publicações que fizeram a festa dos marmanjos, como Playboy e Ele Ela.

Monique Lafond vai dividir sua carreira entre o Rio de Janeiro – a maior parte dos trabalhos – e São Paulo. E suas atuações na Boca do Lixo vão lhe reservar lugar garantido como uma de suas musas mais amadas.

O currículo da atriz é impressionante, pois atuou com diretores de diferentes correntes.

Um capitulo especial em sua vida é o encontro com a trupe de Os Trapalhões, atuando em quatro filmes do quarteto: Bonga, O Vagabundo (1971), de Victor Lima; Aladim e a Lâmpada Maravilhosa (1973), de J.B. Tanko; Robin Hood – O Trapalhão da Floresta (1974), de J.B.Tanko; Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão (1977), de J.B.Tanko; além de participações na TV.

Outro capítulo especial na carreira da atriz é mais um encontro, dessa vez com Jece Valadão, produtor e protagonista, e Antonio Calmon, diretor, de Eu Matei Lúcio Flávio (1979), em que dá vida à personagem Margarida Maria, sua maior atuação no cinema.

E, claro, o maior de todos foi seu posto garantido como uma das musas de destaque do cinema de Walter Hugo Khouri, com quem atuou em Paixão e Sombras (1977), Eros, O Deus do Amor (1981), Eu (1987), As Feras (1995/2001).

Monique Lafond tem atuações importantes também em filmes de cineastas como Carlos Hugo Christensen, Nelson Pereira dos Santos, David Neves e Tereza Trautman – impossível na registrar sua participação como uma guerrilheira que morre de amores por Alba Valéria no grande sucesso Giselle (1980), e o pioneiro na questão de amor e sexual das lésbicas como protagonista em Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio.

Já propriamente na Boca do Lixo, que lhe reservou posto de musa, a atriz atuou sob a lente de Carlos Coimbra – Independência ou Morte (1972), Os Campeões (1982); J. Marreco – Emanuelle Tropical (1977); Roberto Mauro – Um Menino, Uma Mulher (1980); Antonio Meliande – Prazeres Permitidos (1981), Tudo na Cama (1983); Jair Correia e Hélio Porto – Retrato Falado de Uma Mulher Sem Pudor (1982).

Vale destacar a versão brasileira para o sucesso francês Emanuelle, em que Monque arrasa levando homens e mulheres para a cama; e Retrato Falado de Uma Mulher sem Pudor, em que faz a modelo fotográfica Paula, uma mulher independente e liberada que é assassinada na banheira.

Filmografia

– Até que o Casamento nos Separe, 1968, Flávio Tambellini
– Um Uísque Antes, Um Cigarro Depois, 1969, Flávio Tambellini
– Ascensão e Queda de um Paquera, 1970, Victor di Mello
– Bonga, o Vagabundo, 1971, Victor Lima
– Salve-se quem puder, 1972, J. B. Tanko
–  Os Machões, 1972, Reginaldo Farias;
–  Independência ou Morte, 1972, Carlos Coimbra
–  As Moças Daquela Hora, 1973, Paulo Porto
–  Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, 1973, J. B. Tanko
–  Robin Hood, O Trapalhão da Floresta, 1974, J. B. Tanko
– Motel, 1974, Alcino Diniz
– Enigma para Demônios, 1975, Carlos Hugo Christensen
– Ipanema, Adeus, 1975, Paulo Roberto Martins
– Com Um Grilo na Cama, 1975, Gilvan Pereira
– Ladrão de Bagdá, 1976, Victor Lima
– O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, 1977, de J. B. Tanko
–  O Pequeno Polegar contra o Dragão Vermelho, 1977, de Victor Lima
– Paixão e Sombras, 1977, Walter Hugo Khouri
– Emanuelle Tropical, 1977, de J. Marreco
– Eu Matei Lúcio Flávio, 1979, Antonio Calmon
– Amante Latino, 1979, Pedro Carlos Róvai
– Um Menino, Uma Mulher, 1980, Roberto Mauro
– Prazeres Permitidos, 1981, Antonio Meliande
– Eros, O Deus do Amor, 1981, Walter Hugo Khouri
– A Mulher Sensual, 1981, Antonio Calmon
– Retrato Falado de Uma Mulher Sem Pudor, 1982, Jair Correia e Hélio Porto
– Luz Del Fuego, 1982, David Neves
– O Fuscão Preto, 1982, Jeremias Moreira Filho
– Os Campeões, 1982, Carlos Coimbra
– Giselle, 1983, Victor di Mello
– Tudo na Cama, 1983, Antonio Melliande
– Amor Maldito, 1984, Adélia Sampaio
– Memórias do Cárcere, 1984, Nelson Pereira dos Santos
– Fulaninha, 1986, David Neves
– Sonhos de Menina Moça, 1986, Teresa Trautman
– Leila Diniz, 1987, Luiz Carlos Lacerda
– Eu, 1987, Walter Hugo Khouri
– O Diabo na Cama, 1988, Michele Massimo Tarantini
– Não Quero Falar Sobre Isso Agora, 1991, Mauro Farias
– As Feras, 1995/2011, Walter Hugo Khouri
– Lara, 2002, Ana Maria Magalhães