Entrevista José Miziara – Parte 2

Dossiê José Miziara

Entrevista com José Miziara
Parte 2 – Boca do Lixo e o cinema

006A

Por Gabriel Carneiro
Fotos: Laisa Beatris

Z – Porque demorou seis anos para você conseguir dirigir seu primeiro filme, o episódio O Furo?

JM – Houve uma sucessão de empregos, vim para cá, para TV Bandeirantes, fiquei desempregado, vinha divórcio… Depois da terceira mulher, estava no Rio de Janeiro, tinha separado. Um primo meu arranjou para eu ir morar num apartamento de cobertura de uns amigos deles, que alugavam um quarto. Era perto do Cine São Luís. Não tinha o que fazer, fui para o largo do Machado e passava o filme Banana Mecânica, com o Carlos Imperial. Fiquei pensando: “Porra, como pode fazer um filme desse e ser sucesso?” Na época, estava fazendo uma novela na Globo. Em casa, peguei a minha máquina de escrever portátil – que ainda está guardada; vai para o túmulo comigo – e comecei a escrever o Ninguém Segura Essas Mulheres – que não era o Ninguém Segura Essas Mulheres, chamava-se Trambiques. Eram tudo histórias de jornal. A primeira história que escrevi foi vivida por um grande amigo meu, o Aurélio Teixeira. Quando vim para São Paulo, vim dirigir a linha de show da TV Tupi. Encontrei lá o Clayton Silva, que me avisou que nos Estúdios Silvio Santos estavam querendo fazer um filme. O Clayton sempre trabalhou em meus filmes, como assistente, amigo meu desde os tempos da TV Paulista, em 1958. Dei o roteiro para eles lerem. O Luciano Calegari mandou me chamar e pediu para lê-lo inteiro para ele – televisão brasileira é uma coisa; se você manda qualquer coisa escrita, ninguém lê nada. Depois de ler, ele aprovou e foi marcar com o Silvio. Só fiquei sabendo depois, venci 21 outros scripts que tinham chegado lá. Foi marcado com o Silvio Santos numa churrascaria nos Jardins. Fomos nós, eu, o Mário Wilson – o argentino que era o cenógrafo -, o Silvio e o Luciano. Aí sentamos na churrascaria, e o Luciano diz “lê pro Silvio do jeito que você leu para mim”. “Porra? Vai demorar uma hora e meia!”. “Não, pode ler aí”. Porra… li todo o script outra vez. Acabei de ler, o Silvio respondeu “fechado, quanto custa esse filme?”. “Acho que com um milhão faço.” Um milhão daquela época, né? Ele disse: “tudo bem. Você pode estourar em até 10% essa meta”. Assim nasceu o filme. Só que o filme chamava Os Trambiques, aí o Silvio me disse assim: “Não, não, não vamos botar esse nome não porque eles podem associar com o Baú (risos), então não”. Pedi que escolhessem o nome. Na época, o presidente Médici tinha o “ninguém segura esse país”, e o Silvio teve a brilhante idéia de botar Ninguém segura essas mulheres. E não é que deu certo?

Z – Porque são quatro os diretores, um por episódio?

JM – “Você já dirigiu algum filme?”, me perguntou o Silvio. E eu: “Não, mas tenho escola”. “Então vamos fazer o seguinte. São quatro episódios, você me arrume mais três diretores e você dirige um episódio”. Contrariado, mas desde que o dinheiro viesse, topei. Peguei o Anselmo, meu amigo. Três episódios foram feitos no Rio de Janeiro. Sem falar nada comigo, o Silvio vai lá e contrata o escritório, o equipamento, tudo do Jece Valadão, até os telefones. “Mas pô, vocês não falam comigo?”. Contatei o Domingos de Oliveira, que tinha feito um bom filme antes, de que tinha gostado. Ele me respondeu com um bilhete para mim: “Não posso ir na reunião, mas chego aí para dirigir a sua piada”. Eu mandei outro para ele: “Vai pra puta que te pariu, você não vai mais estar nesse filme”. Dei outro pro episódio pro Jece e o outro dei para um amigo meu russo, Harry Zalkowistch, que tinha vindo da Europa, e me ajudou no roteiro, dando dicas de cinema. O episódio do Harry é feito em cima dele, que era muito ingênuo, muito… ele não tinha malícia, sabe? Sabe uma pessoa pura? Ele foi um dos maiores amigos que eu já tive na vida. Morreu lá em Vila Isabel, coitado.

Z – Esse é também o seu primeiro filme com o Antonio Meliande, com quem você trabalhou bastante.

JM – Quando fiz O Furo, tinha montado minha equipe e queria um diretor de fotografia bom. O chefe da produção, Hélio Siqueira, então me disse: “Vou te trazer o melhor de fotografia que tem aqui no Brasil. Ele é o segundo depois do Dib Lutfi! Ele é o melhor de câmera na mão depois do Dib Lutfi”. O Dib Lutfi era considerado o maior cameraman com câmera na mão. Ele me trouxe o Toninho Meliande. Comecei a conversa com ele dizendo que era o primeiro filme que iria fazer. “Não tenho experiência no campo de filmagem. Preciso mais do que um diretor de fotografia, preciso de um irmão”. “Eu topo”. “Então você vai ter a recíproca sempre”, retruquei. Tanto que ele foi contratado dos estúdios do Silvio Santos. Ele não ganhou por filme, não. Tanto que, depois que acabou o filme, ficamos eu, ele e o Hélio bebendo nas custas do estúdio do Silvio Santos, meses. Acabamos, juro por Deus, com o bar em frente. O Silvio não queria despedir nós três e ficávamos lá. A gente chegava lá: “Ô, eu quero minha demissão!”. Eles: “Pô! Vocês não estão recebendo salário? Não tem uma sauna? Então não enche o saco, fica aí”. “Então tá bom. Então vamos pro bar, porra”. A gente ficava no bar o tempo todo e o Anselmo ia para lá (risos).

Z – Você já freqüentava a Boca nessa época?

JM – Não. Quando fui lançar o Ninguém segura essas mulheres, perguntei qual era a melhor lançadora que tinha. Me disseram que era a Cinedistri. Fui lá. Falei com o Aníbal Massaini e fizeram o lançamento do filme – e fizeram muito bem feito, principalmente de olho no Silvio Santos. Principalmente. O filme fez sucesso, deu uma tremenda renda, um tremendo retorno, o Silvio pediu para a gente ir para porta de cinema, perguntar para o povo o que achavam do filme. O Silvio só acredita no resultado. Íamos para as portas do cinema e levávamos as entrevistas todas para o Silvio – e aí ele viu que o filme deu resultado, que foi um sucesso. Quando saiu a concessão do canal, ele parou com cinema. Foi quando se sucedeu aquele episódio de ficar bebendo, pedindo demissão e recebendo salário. O Toninho foi o primeiro: “Não, eu não vou parar minha carreira para poder ficar aqui recebendo salário”. Toninho se mandou. Aí me mandei também. Enquanto ficava lá no estúdio do Silvio Santos, escrevi O Bem Dotado – O Homem De Itu. Quando saí de lá, fui procurar o Aníbal, que era o único que conhecia da Boca. Foi como entrei na Boca. Ele leu e disse: “Porra, é meu. É meu. Vamos fazer”. Quando fiz O Bem Dotado e ele explodiu – foi aquele puta sucesso -, todo mundo queria que fizesse filme para eles. Foi aí que entrei para a Boca.

Z – O Bem Dotado foi o seu primeiro longa, então?

002-300x199JM – Foi. Graças a eles, aconteceu um fato inédito no cinema nacional. A Fama Filmes me contratou, fixo. Não tinha isso no cinema da época. Eu ganhava 50 mil por mês para ser contratado deles e fazer três filmes. Os curtas que queriam que fizesse, para cumprir a lei da obrigatoriedade dos curtas, me pagavam 10% por fora. Nesse esquema, fiz Os Rapazes da Difícil Vida Fácil e As Intimidades de Analu e Fernanda. Sabe como é que conseguiam dinheiro pros filmes? Eles iam na Paris Filmes, por exemplo, com quem fizeram dois, e diziam: “Tenho o José Miziara sob contrato. Quer entrar no filme?”. Pegavam o orçamento, melhoravam o orçamento e pegavam o dinheiro dos caras (risos). Descobri isso ao acaso. Fui assistir um filme da Fama Filmes/Titanus com o chefão da Paris, cujo nome não me lembro, que reclamou do longa. Eu não tinha nada a ver com isso, isso era problema dele. Disse para falar com o Adone Fragano, produtora. Vem falar comigo? “Ué, mas me venderam você”, ele respondeu. “Eeeu? Não tenho nada a ver com isso, quem fez esse filme aí foi o Ary [Fernandes; o filme é Sexo Selvagem, de 1979]”. O bom do cinema é poder. O que vale é o borderô. Se teu filme faturou, na Boca, não tem esse negócio de pai, filho, irmão, nada disso. Sabe? Lá é assim: seu filme faturou, eles vão atrás de você. E, graças a Deus, meus filmes todos faturaram horrores, então os caras vinham atrás.

Z – De onde surgiu a idéia para O Bem Dotado?

JM – Hoje, já posso contar, estou com 74 anos de idade [a entrevista foi feita em julho de 2010]. Há um filme francês, O Último Homem Virgem Sobre a Terra [ao que tudo indica, Le rosier de Madame Husson, 1950, de Jean Boyer]. Se você achar esse filme, você vê O Bem Dotado. Eu plagiei, plagiei mesmo. É um filme com o comediante francês Bourvil. Peguei e passei para Itu – no original, fazem numa vila da França. Duas mulheres que vão ser para juízas, acham o cara lá que é virgem, trazem para a cidade… igualzinho. Pode pegar lá que você vai ver.

Z – Em O Bem Dotado, como surgiu a idéia de usar o som de maneira caricata, quase como se fosse de um desenho animado?

JM – Era para suavizar o tema central, que era o cara com um puta dum pau. Cada vez que ele vai transar com uma mulher, ela dá aqueles berros. Então, como você faz isso? Você bota de uma forma jocosa, de uma forma caricata, como uma forma engraçada para que não fique violento. Porque senão, você já pensou? Se ele faz aquilo, realmente, é um estupro a cada momento. Acho que é por aí o sucesso do filme.

Z – E como você chegou ao nome do Nuno Leal Maia para protagonizar?

JM – Quando escrevi o filme, era para o Teobaldo [personagem que suplantou o próprio Roberto Marquis, seu criador] fazer. Mas o Aníbal o vetou. “Precisamos de um cara que seja um símbolo sexual”, disse. Abri mão do Teobaldo. O Aníbal fez então uma recomendação: “Ó, tem um cara aqui que fez um episódio, chamado Nuno Leal Maia”. Mandei o script para o Rio, o Nuno já morava lá. Nada do Nuno dar resposta. O Aníbal sugeriu então de irmos para o Rio, atrás de outro nome. Ele tinha em mente o Ricardo Petraglia e mandou o script para ele. Lá fomos nós, hospedados no Copacabana Palace, e marcamos para encontrar com o Ricardo Petraglia lá. Estamos no Copacabana Palace, tomando um uísque, e chega o Nuno Leal Maia. “Oi!” (imitando Nuno Leal Maia, risos), com aquele jeitão meio… Eu olhei para o Aníbal, o Aníbal olhou para mim, como quem diz: “Pô, o que é esse cara tá fazendo aqui?”. “Como é? Quando a gente começa a filmar?”, o Nuno perguntou (risos). “Filmar o quê?” “Pô, O Bem Dotado, pô. Não mandaram script?” “Nuno, nós estamos aqui para conversar com o Ricardo Petraglia”. “O Rick Petra? Não, poxa, pô! Eu é que vou fazer o filme.” “Mas, porra, Nuno, você não respondeu nada, você não falou nada”. “Como não? Não, tem nada disso… manda o Rick andar que eu que vou fazer o filme”. O filme era com o Nuno Leal Maia. Aí comecei a conhecer o Nuno, que hoje é até meu padrinho de casamento. Fez três filmes comigo, é meu ator favorito de cinema, assim como eu sou o diretor favorito de cinema dele. No primeiro dia de filmagem, fizemos a estrada, a participação especial do John Herbert, a chegada das duas com a Mercedes, e aí a cena do mato. O Nuno me pergunta: “Como é que eu faço?” “Porra, mas você tá com esse script há quanto tempo?” Eu explico exatamente o que queria, de novo, e ele me vira: “faz pra mim”. Lá fui eu pro meio do mato, e lá vim andando, como eu queria. “Ah, é assim?”. “É”. “Tá bom”. Tinha um eletricista do lado que estava com um boné vermelho. Ele olhou pro boné do cara, tirou o boné da cabeça do cara e botou na cabeça dele. Entrou pro meio do mato e fez a primeira cena. Aí nasceu O Bem Dotado (risos).

Z – Como você escolheu o elenco feminino?

JM – Tinha minhas predileções, como a Consuelo [Leandro], a Maria Luíza [Castelli]. Depois foi para o painel de Playboy: Helena Ramos. A Esmeralda [Barros], minha amigona, desde o Rio de Janeiro. Tem também a Lola Brah, que era a preferida de todas as equipes de cinema. Você chegava para qualquer um… O diretor de fotografia, o Oswaldo [de Oliveira], cada vez que tinha que fazer um close da Lola, meu deus do Céu, lá ia ele procurar tela, não sei o quê, “vamos deixar ela linda”. A Lola era querida de todo mundo. A pior era a Aldine Müller. “Sabe nadar, Aldine?” “Seeei.” “Sabe montar cavalo?” “Pô, sou gaúcha, Miziara.” Não sabia nem montar cavalo e nem nadar. O Oswaldo gritava: “Mata ela, Miziara, mata essa filha da puta”. A gente lá em Itu filmando, aqueles mosquitos comendo a gente: “Aldine, faz assim na água, não precisa nadar. Anda, fica em pé. Finge que nada”. “Nãããão, porra”. E o Oswaldo gritando lá de cima: “Maaata ela, Miziara, mata essa filha da puta”.

Z – Em 1979, você rodou quatro filmes. Como foi balancear isso tudo?

JM – Ah, é aquilo falei: cinema é bom por causa disso, é borderô. Deu dinheiro, os caras vêm tudo atrás. Você fica folgado. Porque, não sei se você sabe, foram todos eu que escrevi.

Z – Todos eles?

Miziara: Todos.

Z – Mas nos créditos Mulheres do Cais não aparece você como roteirista… [assinam Antonio de Pádua e José Sampaio].

Miziara: Como não? Que isso… só se me roubaram o crédito. Esse filme foi o único filme meu que não editei [em consulta posterior, foi checado que, nos créditos, a edição não foi assinada por Miziara em nenhum de seus filmes]. Porra, me lembro tão bem que escrevi. Tem até uma cena da Yolanda Cardoso, que ela ensina à prostituta como descobre doença018-300x199 venérea, que foi um primo meu, médico, que me ensinou quando era garoto, e coloquei nesse script.

Z – Como era trabalhar com o Galante?

JM – O Galante só visa lucro e o lado dele. Foi assim que ele ficou rico, né? De varredor de estúdio, ficou rico porque só visa o lado dele. Só. Mais nada. Mas paga em dia, ouve tudo o que você quer e tem uma mania… “Olha, queria que você fizesse um filme, mas corte-a-corte, corte-a-corte, corte-a-corte”. “O que é corte-a-corte?” Ele odeia o plano-sequência. É uma figurinha.

Z – Era melhor trabalhar com o Massaini?

JM – Não. Não. Se tivesse que fazer mais um filme com Massaini – o Aníbal -, não faria. Ele é um diretor frustrado. Isso no meu entender. Por exemplo, um filme dele para ser lançado demora mais de seis meses de montagem. Todos os filmes dele. O [Walter Hugo] Khouri chiava muito. Porque tem que esperar, e ele é cheio de palpites. É o que te digo, ele é um diretor frustrado. “Porra, pega o filme e dirige você, irmão”, falei para ele. Só que todas as vezes em que foi dirigir, se deu mal. Tem determinados caras que para você trabalhar é muito difícil, atravanca seu trabalho, interrompe. Tudo na vida há duas opções. Quando você quer decidir qual é a melhor, vem o cara com uma terceira. Uma quarta. Aí não. Você vai fazer determinado negócio. Aí fica um outro cara lá dizendo: “Olha, faz o seguinte, ó, faz o seguinte”. Você tem uma linha pra seguir ao fazer o filme. Larguei de cinema mais por causa disso. Muito melhor ser ator de televisão. Trabalho só terça-feira, decoro meia página, o carro vem me buscar em casa, me traz de volta, pagamento tá lá no dia primeiro…

Z – Como é que era a Boca do Lixo, a atmosfera, o ambiente?

JM – Muito bom. Gostava de todo mundo lá. Pelo menos a minha mesa era sempre cheia de gente. A gente ria muito, bebia muito, jogava pôquer toda noite. Todo mundo era legal, a gente era amigo de todo mundo. Se você precisava de um ou de outro, tinha sempre alguém ali para estender a mão. Se o cara pedisse, você podia ajudá-lo sempre. Ali, olha, não tive nenhum desafeto. Fora a bandidagem, também era todo mundo amigo nosso. Porque a gente tinha um trato com a bandidagem. A gente nunca via nada e eles nunca assaltavam ninguém do cinema. Tanto que uma vez assaltaram o carro de uma pessoa, e deram queixa lá pra uma chefe das trombadinhas lá. Em duas horas voltou tudo que tinham roubado do carro e o cara foi expulso de lá à porrada, porque era um bandido de passagem. Não sabia de nada (risos). Ali era muito bom, viu? Então, durante o dia você atendia o mulherio, as meninas que iam ser feitas, os caras de técnica, tudo. Se você fosse fazer um filme, bastava você descer no bar e dizer assim: “vou filmar!”, já vinha a equipe inteirinha, vinha todo mundo lá e você podia escolher quem você quisesse. Quando chegavam as seis horas da tarde, já tava todo mundo no botequim, todo mundo biritando. Chegava as oito horas, subia para um dos escritórios e jogava pôquer até às três horas da madrugada, saía de lá, ia para a padaria, comia alguma coisa e aí vínhamos pra casa. Era uma festa. A gente chegava às dez, dez e meia, onze horas. Ao meio-dia e meia, uma hora, ia se almoçar. O almoço era na base do “quem convida quem”. Então, era sempre uma festa. Uma vida muito boa, você não tinha problema, não tinha nada. Chegava dia 20, chegava o borderô, aí “olha quanto faturei, olha o quanto faturei”. “Hoje pago? Não, amanhã à tarde”. Era isso. Tinha a estréia um do outro, nas segundas-feiras, ia todo mundo. Todo mundo trocava informação.

Z – Como era trabalhar com o Anselmo Duarte?

Miziara: Ah, era uma farra. Era uma farra do cacete. O Nuno, quando era principiante, fez um filme com ele, e o Anselmo o gozou o tempo todo. Quando foi pros Embalos Alucinantes, o Nuno era o principal. Então, começou a ir à forra com o Anselmo. Sabe a cena quando todos acordam e vão para o terraço, pro mar? Você já viu a cara do Nuno e do Anselmo? Eu botei os dois bebendo a noite toda, não dormiram (risos). Eu queria aquelas caras, então botei os dois bebendo. Enchi eles de bebida, beberam a noite inteira. Quando chegou de manhã, os dois ainda dormindo: “filmagem! Eu preciso pegar uma cena do sol, não, não, filmagem!”. O Anselmo tava morto, o Nuno também. O que a gente riu durante essas filmagens, você não faz idéia. Esse Embalos Alucinantes, a gente foi para aquela casa lá, era uma festa. E o Anselmo e o Nuno, os dois juntos, então você morria de rir. O Nuno acabou se tornando um grande amigo meu, o Anselmo também. Eu ia para Itu todo fim de semana com ele. Ele tinha uma namorada feia para cacete, e ele tinha vergonha de sair com ela, mas ela era milionária. E ele tinha que sair com ela. Ele me arrumou uma namorada lá. Mas, para gente sair, a gente não podia ir em Itu, a gente tinha que ir em Campinas, para ir na boate, tudo, dançar, jantar. Aqueles caras lá de Itu se encontram toda noite, então eles não têm mais assunto. Ficam um olhando para a cara do outro, bebendo o chope. O Anselmo, que é rico de assunto – o repertório dele é fantástico -, quando entrava no bar, era recebido pelos velhos: “Ansermo, vem tomar uma aqui”. Todo mundo disputando o Anselmo. O Anselmo sempre tinha uma história. Sempre. Porque, ele partia de um ponto verídico, e fazia um roteiro. As histórias dele sempre são fantásticas, eu sei todas elas. Chegava na Boca era a mesma coisa, todo mundo queria o Anselmo na mesa. Ele tinha cada história que você não faz idéia. O que ele inventava, você ria o tempo todo que ele tava na mesa. O tempo todo. Você ria mais com ele do que com o Mazzaropi.

Z – Como você teve a idéia para fazer o Embalos Alucinantes?

JM – Sempre ia pro Rio, visitar minha filha, fruto do terceiro casamento que tinha acabado em divórcio. Me hospedava na casa do Roberto Maia. E tava deitado, assim, no sofá, encostado, e vi a revista Veja. Peguei aquilo e comecei a ler.

Z – É a mesma reportagem que você mostra no filme?

JM – Exatamente! É a mesma revista. Peguei aquela revista, não conhecia, e comecei a ler – e tinha a história do swing. Pedi para levar aquela Veja de volta para São Paulo. Peguei aquela Veja, botei no meu carro e vim pra São Paulo maquinando. Aliás, porque, passei nove anos indo pro Rio e voltando, ia para lá, sexta à noite ou sábado bem cedinho e voltava segunda de manhã, por causa da minha filha. Pegava ela e ia para o hotel, ficava com ela, e depois eu devolvia e voltava. Esse Embalos Alucinantes foi todo elaborado no trecho Rio-São Paulo. Analu e Fernanda também foi todo elaborado na estrada.

Z – Ao fazer As Intimidades de Analu e Fernanda, você usou o cinema policial americano e noir como referência? Nos jogos de luzes…

0141-300x199JM – Ah, isso é trabalho do diretor de fotografia. Quando escrevi o roteiro, não tinha visto O Último Tango em Paris ainda. Alguém leu o roteiro e disse assim: “Isso aqui é o filme do Marlon Brando, porra. O final é d’O Último Tango em Paris!”. “É?”. “É.” Aí fui procurar ver O Último Tango em Paris, tinha escrito a mesma coisa. A mesmíssima coisa. Aí tive que refazer. Mas mesmo assim ainda ficou meio igual. Não tinha muito como fugir também.

Z – Como você chegou na Márcia Maria para o papel?

JM – Ela era ex-esposa do meu cunhado e uma atriz – e como já sabia das tendências dela… É também uma tremenda companheira de bebida. Quando veio filmar Analu e Fernanda, levou duas malas: uma de roupa e uma de bebida (risos). A Helena Ramos chiava pra caralho: “porra, vem me beijar com aquele bafo”.

Z – Como que era trabalhar com a Helena Ramos?

JM – Ah, a Helena era muito chata. Porque ela é muito burra. Muito burra. Olha, Aldine Müller, Helena Ramos e a Lenilda Leonardi são muito burras. Nunca vi. Lenilda Leonardi, essa bate todas as outras duas. Agora a Márcia era uma maravilha trabalhar com ela. É uma atriz.

Z – E porque usou Helena Ramos em vários filmes?

JM – Era aquele negócio, escolha de produtor. Porque você não pode negar que a Helena sempre foi bilheteria, né? Em O Bem Dotado, o Aníbal que botou ela, não fui eu. No As Intimidades de Analu e Fernanda, tinha que colocar uma que puxasse o elenco, então foi ela. Aquilo me deu um trabalho que vou te contar. Na cena de perseguição dos carros, acho que não aconteceu um acidente por obra e graça do… Ela não sabia dirigir, e tinha que fazer aquela perseguição de automóvel, um com o outro. Mandei vir dois dublês. Me mandaram dois dublês de bigode. Como a Helena não sabia dirigir, disse a ela para se sentar e ficar na direção. E disse para os dublês irem, com as mãos, pisando no acelerador, na embreagem. Não sei como que não caiu no desfiladeiro. Eu tava tão fera com aquilo lá, tava puto da vida, “que se dane”. Falei para a Marcia: “mete o carro em cima, bate lá”. E o produtor: “amassa um pouquinho só, amassa um pouquinho só”. Porra. Aquele filme me deu trabalho. Por causa desse produtor, e por causa do Félix Aidar, que fez a produção também. Dirigindo a cena, dizia: “faz isso, bate o carro aqui, bate o carro ali. Ele ia lá e dizia: “olha, amassa um pouquinho só, viu, amassa um pouquinho só”. “Porra, não pedi pra você fazer isso?”. “Ah, ele falou para amassar um pouquinho só”. Aí que virava bicho. Mas gosto muito do filme. É um dos melhores filmes que fiz. Gosto muito dele.

Z – No Pecado Horizontal, você fez basicamente um filme de três episódios, só que juntou tudo.

JM – São todas histórias verídicas. Todas acontecidas comigo (risos). A primeira história, da hemorróida: comecei a namorar uma secretária lá dos estúdios do Silvio Santos – é minha amiga até hoje, me telefona inclusive -, a Ana Lucia. Fomos pra Santos, chegamos lá e o galã aqui diz “vamos comer um peixe, com molho de camarão, pimenta, e vamos tomar Calamares. Tomamos duas garrafas de Calamares e fomos para o hotel. Na primeira noite, era igualzinho ao filme. “Dá licença, vou no banheiro”. Voltava… “dá licença, vou no banheiro”. Só que não tinha o porteiro, né? Que eu inventei, que é um show do Clayton Silva. Dei a cópia para ele agora há pouco. Coitado, teve um câncer. É um dos meus atores favoritos. Esteve em quase todos os filmes meus. A da tia: tinha um padrinho, lá em Barretos e ela me chamava para jogar escopa, com ela. E lá ia eu jogar escopa, e era a mesma coisa [no filme, o protagonista é amante da tia]. E tinha o cachorro também. A terceira história era de quando era garoto, baseada em outra mulher lá de Barretos, a dona Edith. Só que fantasiei as histórias. Os meninos achei lá em Campestre. Você viu aquele cara que é a cara do Costinha? Impressionante. O negrinho era engraxate na praça, catei lá. Fiz um cursinho rápido com eles lá e botei, porque daqui só levei dois. Levei um, que hoje é diretor da MTV e faz o principal, e aquele garoto bonito [Marcelo Ribeiro] que fez o filme com a Xuxa, Amor, Estranho Amor. É muito biográfico, é um dos filmes que mais gosto, o Pecado Horizontal. Ele fica naquela linha da do cineasta que mais gosto, o René Clair, daquele filme, Grandes Manobras. Ele conta a vida com uma suavidade, com uma leveza, como se nenhum problema fosse problema, nenhum drama fosse drama. Ele é assim, “aconteceu”.

Z – Você tinha preferência em dirigir comédia ou drama?

JM – Não. Tinha mais facilidade para dirigir comédia, porque sempre fui um cara de muito bom humor. Outro dia estava assistindo um filme meu, Os Rapazes da Difícil Vida Fácil. 004-199x300Quando acabou o filme: “meu Deus do céu, escrevi isso?”. Tenho insônia, na madrugada fico aqui na sala. Copo na mão, com vodka, e sentado aqui. Às vezes fico recordando, recordando, de vez em quando fumo um cigarro de palha e vou ali na varanda… “Mas porra, consegui escrever isso?”. Isso já me aconteceu, e não uma ou duas vezes, mais até. Mais até. Esse Os Rapazes da Difícil Vida Fácil fazia muito tempo que não via. Mas me fizeram a cópia em DVD. Inclusive, tem um quarteto de amigos meus lá no filme e não sei se talvez por serem tão bons amigos, goste tanto. Consegui fazer um bloco, que são quatros caras que ficam jogando carta, discutindo – um é o João Loredo.

Z – Seus filmes mostram uma grande diversidade sexual. Por tratar desses temas?

JM – Era tudo jornal. A maioria desses filmes vem quase que de encomenda. Por exemplo, teve uma fase que os produtores chegaram e pediam: “Miziara, dá para você fazer um filme disso, um filme daquilo”. Quando comecei, a maioria era tudo de A Última Hora. Eu pegava o jornal, começava a ler e via o desenvolvimento disso. Como te falei, O Furo é um fato verídico, vem de jornal. A maioria vem disso, vem de história de amigo. Eu parei para pensar e vi que tudo na vida tem conotação sexual. Não existe nenhum pensamento que não tenha conotação sexual. Já reparou isso? Até na história da igreja católica é assim. Você parte do princípio do Adão e Eva, daí em diante você pode ir por toda a história universal. Não existe um rei que foi rei se não tivesse a mulher na história, não existe nada que não tenha uma mulher na história. Não tem. Como fazer uma história? Se você parte sempre desse princípio, é muito mais fácil para você arquitetar. Você vai arquitetando e bate de encontro ao que as pessoas pensam, com o que as pessoas sentem, ou com o que as pessoas ainda não descobriram, mas vão descobrir ali. Então a sua história sempre vai fazer sucesso. É uma forma de pensar. Não quero dizer que isso seja a verdade. Mas é uma forma de pensar. Você vai vendo que tudo vai bater.

Z – Conte um pouco da experiência de atuar em seus próprios filmes.

JM – Tive que atuar por acidente. Por exemplo, Nos Tempos da Vaselina. Fomos filmar na Barra da Tijuca, num motel, o ator tinha que vir, mas houve uma puta duma tempestade, ninguém conseguia subir, chegar lá e o Galante pede: “Miziara, faz, porra, pra mim”. E o Toninho Meliande, que era o diretor de fotografia: “pô, Miziara, faz para a gente ir embora logo, porra”. Era uma cena só. Lá fui fazer um viado. Nos Embalos Alucinantes, me fez passar a maior vergonha da vida. Estava para filmar, e o cara que ia fazer o papel não pode ir filmar, ligou de última hora. Os produtores do filme eram eu e o Oswaldo Massaini, o Oswaldinho, o filho. O Oswaldinho disse: “ó, nós só temos a locação para hoje. Miziara, faz você, então”. Peguei um cara da produção e pedi para ir à minha casa e trazer um terno verde e uma camisa de seda. E tô lá fazendo um viadão no filme. Esse filme me fez passar a maior vergonha da vida. Estou eu lá em casa, em Barretos, onde minha mãe e vó moravam. Minhas primas foram lá e pediram um filme meu emprestado para elas poder exibirem e pegarem a renda – estavam angariando fundos para alguma coisa. Topei. Chego aqui, fui lá na Cinedistri e pedi uma cópia de O Bem Dotado. “Não tem, Miziara, tá tudo correndo”. “Que filme tem meu aí?”. “Tem Embalos Alucinantes”. Ok. Não me lembrava. Mandei o filme pra Barretos. As primas lá saíram vendendo ingresso, lotaram o cinema e convidaram a minha mãe (risos). Minha mãe foi lá para ser homenageada, porque não estava lá. Sentou na primeira fila. (risos). Tadinha, lembro disso até hoje. “Homenagem a José Miziara. Dona Micolinda, muito obrigado ao seu filho, José Miziara e tal”. O cinema aplaudiu, apagaram as luzes, começa o filme. Sabe como é minha primeira tomada, no Embalos Alucinantes? Vem a câmera correndo pelas luzes, abaixa, eu de costas, viro, toda bichona, e pá. A coitada da minha mãe se jogou no chão, escorregou na poltrona e começou a engatinhar (risos), a sair pelo corredor do fundo. Foi de gatinho até o final do cinema, coitada, e foi embora. Me ligou: “Zezé, como é que você me faz isso?”. “Eu não saio mais na rua” (risos). “Mamãe, é um papel, mamãe, é um papel”. “Zezé, pelo amor de Deus!”. Em Barretos, tinham dois viados: o Zé Dastrude e o Camilinha. “Você parecia o Zé Dastrude!”. Fiquei sem ir a Barretos muitos anos (risos). Já imaginou, uma coitada engatinhando pelo corredor? Fugindo sem ninguém ver… (risos). Ai, coitada da minha mãe. “Não me chame mais para ir ao cinema!”.

Z – Nessa época você também atuou muito no trabalho de outras pessoas, não?

JM – Não. Só fiz filmes que eram da minha produtora [Titanus], e eu era o responsável. O filme do Alfredinho [Sternheim, Herança dos Devassos], que o argentino [Cesar Cabral] veio fazer aqui, e botei o Alfredinho de codiretor dele, e depois tiramos o argentino totalmente e deixamos só o Alfredinho dirigir. Faço uma participação porque sou o produtor-executivo. Tinha lá que fazer o advogado, entrei lá. Teve um outro que fiz de favor para um amigo meu, por exemplo. Tem um filme que dizem que trabalhei, A Rota do Brilho. Até hoje não me lembro que filme é esse. Teve um outro do Mário Vaz Filho [A Grande Trepada], em que fazia dois papéis. Eu me lembro que um era de cabelo encaracolado, e outro era de cabelo liso. Era um funeral… Mas, era sempre assim, “vou fazer um favor”. Fiz com o Toninho Meliande um filme lá [O Delicioso Sabor do Sexo], eu, Mario Benvenutti e o Serafim Gonzalez. Um piquenique. Ninguém queria saber de filme nem nada. Mas isso você fazia porque o cara chegava para você e dizia: “pô, Miziara, faz lá pra mim e tal…”.

Parte 1 // Parte 3

Entrevista José Miziara – Parte 3

Dossiê José Miziara

Entrevista com José Miziara
Parte 3 – Transição para o cinema de sexo explícito e a volta para a TV

003A

Por Gabriel Carneiro
Fotos: Laisa Beatris

 Z – Nos anos 1980, houve a transição para o cinema e sexo explícito e você fez alguns…

JM – Quatro [a filmografia oficial apresenta seis].

Z – Como você se adaptou a isso? Você viu algum problema?

JM – Habituei-me da seguinte forma. Depois que você faz o filme, você tem que levar para o distribuidor e o exibidor, não é? Geralmente ele acumula as duas funções, distribuidor e exibidor. No começo, ele perguntava: “tem trepada?”. Você dizia: “tem”. “Mas simulado, né?”. “É”. Acabou. Passou um tempo: “quantas trepadas tem por rolo?”. O filme tem nove rolos. “Tem tantos”. Tudo bem, ele passava o filme. Chegou um tempo em que dizia assim: “tem sexo explícito?”. “Não”. “Então não dá”. As Amantes de Um Homem Proibido foi o maior fracasso que tive por causa disso, foi justamente na passagem. “Não tem sexo explícito?”. “Não”. “Então não passa”. Eu escolhia circuito em que ia passar meus filmes, chegava lá e dizia assim: “eu quero Ipiranga, Art Palácio, quero em Campinas, quero em Ribeirão, quero aqui, senão não dou meu filme.” Aí inverteu, não tinha circuito para mim. “Ó, se você quiser tem um cineminha ali, outro cineminha ali”. Aí o fracasso do As Amantes de Um Homem Proibido – que é um bom filme. Eu não queria fazer filmes de sexo explícito, não queria mesmo. Inclusive, até hoje, tenho pudor disso. Tenho! Talvez porque tenha filha mulher, sabe? É um negócio deprimente. De-pri-men-te. Chegava dia 20, os caras com o borderô no bar. “Olha o quanto eu faturei”. Vou fechar meu escritório. Não vou poder filmar mais, vou fechar meu escritório. Uma birita aqui, uma birita ali, o pessoal conversando, me convenceram a fazer alguns filmes assim. Senão, como é que ia levar dinheiro pra casa? Pensei: vou fazer, mas vou fazer da seguinte forma: todos os argumentos que escrever serão sátiras em cima desse público estúpido. Você pode pegar os meus filmes. Fiz quatro. Tem uma história muito engraçada. O John Boorman veio filmar aqui no Brasil. Lembra que ele fez um filme na Amazônia [A Floresta de Esmeraldas, 1985]? O filho dele [Charley Boorman] é o astro do filme, que é criado lá entre os índios. Acabou o filme dele, sobrou um monte de ponta de filme. A secretária dele, brasileira, que por sinal foi atropelada em Londres e morreu, pegou essas pontas todas e ofereceu para quem queria comprar. Como sempre soube manipular muito bem negativo, fui lá e comprei todas as pontas dos filmes do John Boorman. Com as sobras dos filmes do John Boorman, fiz dois filmes.

Z – Quais?

JM – A Quebra Galho Sexual, e filmando ao mesmo tempo, filmei O Oscar do Sexo Explícito. Ou seja, numa trepada deixava rodando um minuto e mais meio minuto para outro filme.015-300x199 Com pontas, fiz esses dois filmes, foram os dois que mais renderam dinheiro. Botei um smoking, peguei uma menina, fomos numa boate que emprestaram para a gente e eu e ela lá, apresentando: Melhor chupada, Melhor trepada, Melhor anal. (risos). Pegava as atrizes que tinham feito as cenas, elas vinham ao palco e o pessoal aplaudia, e dava pra elas um Oscaralho, um Oscar do sexo explícito. Foi maravilhoso, era um caralho com uma asinha, era um Oscaralho. Pronto. Dava pra cada um. Pra cada menina, pra cada cara. O único trabalho que tive foi pegar dois velhos e escrever um quadrinho humorístico pequenininho. Os dois eram os primeiros atores de sexo explícito que estavam sendo homenageados naquela noite. E tinha lá a piadinha: “você lembra, bem?”. “Não, não lembro”. Alguma coisa assim. Era uma besteira lá. Foi o filme que mais dinheiro me deu. Mas você pode ver que era tudo assim. Feito com ódio. Escrito com ódio mesmo. Esse povo burro, analfabeto. Montava os planos gerais, então não precisava fazer a cena, era só fingido. Montava os planos gerais e pedia para quem fazia comigo nessa época, o Pio Zamuner. “Pio, vai lá e faz os detalhes”. Ele fazia. A gente conheceu cada coisa, é muito degradante. Muito. Tinha marido e mulher fazendo. Com filho. Você cada uma que… Uma vez foi lá a mulher de um carcereiro com a filha. As duas queriam fazer e disse que já tinham autorização do marido. Porra, mulher de um carcereiro. Aparecia cada uma lá que você não faz idéia.

Z – Quais são os outros filmes?

JM – O Rabo I, que foi para poder gozar com o Rony Cocégas. A música é dele. A música de abertura e ele que faz o garçom. E teve o outro que fiz lá no sítio do meu cunhado, o Deliciosas Sacanagens. Mas é o tipo de filme que você faz em quatro dias. Mas não deu mais. Fechei o escritório, voltei pra televisão.

Z – Já para o SBT?

JM – É. Fui direto para o SBT. Quem formou o departamento de novela do SBT fui eu. Com O Espantalho. Queria ser ator, nada de dirigir ou produzir. “Me dê um texto de no máximo uma página e meia, uma vez por semana, carro vem me buscar, vem me trazer”. Estou lá há 23 anos. Dessa vez. Porque antes já teve outras. Há pouco tempo veio um cara aqui. Ele quase me entusiasmou. O Adone Fragano. “Miziara, você tem algum filme pra gente fazer?”. “Você já tem o dinheiro?”. “Tenho”. “Você não vai arrecadar não, né?”. “Não, já tenho”. Sentei ali no computador, escrevi umas 10 páginas. Aí ele disse: “o negócio é o seguinte. Já tem o dinheiro, mas a gente tem que dar uma nota com 50% a mais”. “Adone, faz um favor pra mim? Vai tomar no seu rabo, tá”. Imagina: quero que você faça um filme pra mim, te dou o dinheiro. Quanto custa o filme? 10 milhões. Tudo bem, te dou os 10 milhões, mas você me dá uma nota de 15. Tô muito velho pra isso.

Z – Há quanto tempo você está fazendo A Praça é Nossa?

JM – 23 anos, desde o primeiro programa. Dessa vez, porque em 1956 fiz a Praça. Mas é um bom prêmio pra que tem 56 anos de carreira e tá cansado. Hoje a minha vida é essa aqui, cinema, mais nada. Só saio daqui para jogar sinuca.

Z – Você ainda tem vontade de filmar?

JM – Não tenho. Não tenho a menor vontade. Primeiro, porque não passa nos cinema. Se não for da Globo Filmes, não passa. Então, que circuito eles vão me dar? Vou ter que ir lá024-300x199 novamente, me sujeitar àquele negócio todo? Chega. Tô satisfeito. Mas comecei um roteiro, bom toda vida. É um roteiro policial. Comecei a idéia por ter visto aqui embaixo. Naquela rotatória da São Vicente, tem umas menininhas que ficam ali, que esses merdas botam as meninas pra chupar pau por cinco reais. Fiz a história de uma crioulinha que faz isso, mas só que ela é surda-muda e lê lábio, e ela vê a combinação de um assassinato. Você já viu aquele filme Corra Lola, Corra? A fita é sensacional. E peguei mais ou menos a corrida dessa menina pra poder fugir dos bandidos e poder avisar a moça que os policiais iam matar. Dava um roteiro interessante. Mas aí depois dessa. É bem possível que eu retome. Porque gosto de escrever, gosto, então é bem possível que retome o roteiro. Mas fico pensando: e depois, o que eu faço com ele? Dar para outro é que não vou (risos). Só se eu der para a minha filha, porque minha filha que adora as minhas coisas. Ela já disse: “ô, paiê, quando você morrer tudo isso é meu”. Os outros não ligam. Agora, ela não, ela quer tudo pra ela.

Z – O que você pensa do cinema brasileiro atualmente?

JM – Tem coisas boas. Coisas muito boas. Acabei de rever o Tropa de Elite. Bom filme. Bom filme. Bem feito, bem fotografado, inclusive uns planos novos: o plano começa, ele sendo tapado, aí, no “ação”, o cara sai de trás. Muita câmera na mão. Bem escrito, tudo. Tanto que fez sucesso, né? Tem o Se eu Fosse Você e o Se Eu Fosse Você 2. O Daniel [Filho] tem um defeito. Quando vai fazer comédia, tem o mesmo defeito do Manga. Tem coisas que tinham que ser mais breves, bem mais breves. É o mesmo defeito do Manga. Tem outro nacional que vi, que é muito ruim. O Casamento de Romeu e Julieta. É porque ele filmou o óbvio. Se você pegar o óbvio, o que você vai botar em cima do óbvio?

                                                                           Parte 1 // Parte 2

Entrevista José Miziara

Dossiê José Miziara

019A1

Por Gabriel Carneiro
Fotos: Laisa Beatris

“Aboletem-se! Aboletem-se!”, exclamava José Miziara, vestindo uma camiseta da banda NXZero – seu filho faz parte da equipe de produção -, ao entrarmos em sua casa, no bairro de Sumaré, em São Paulo. Aos 75 anos, Miziara esbanja energia e vigor. Sua paixão por cinema continua, mesmo que hoje não tenha mais tanta vontade de dirigir. Seu emprego estável no SBT, onde há 23 anos aparece como ator em A Praça é Nossa, lhe dá o conforto necessário (grava apenas nas terças, e tem um carro para buscá-lo e levá-lo de volta) e vazão para seus interesses atuais: a sinuca e a vodka.

Miziara é um dos mais notáveis realizadores da Boca, tendo feito uma das comédias mais lembradas até hoje: O Bem Dotado – O Homem de Itu (1978). Dirigiu também, entre outros, Embalos Alucinantes – A Troca de Casais (1979), Nos Tempos da Vaselina (1979), As Intimidades de Analu e Fernanda (1980), Pecado Horizontal (1983), entre outros.

Em entrevista exclusiva para a Zingu! , Miziara conta tudo sobre sua carreira, desde o começo no circo do palhaço Piolim, até seus filmes de sexo explícito.

Parte 1 – Infância, juventude e o começo na área artística
Parte 2 – Boca do Lixo e o cinema
Parte 3 – Transição para o cinema de sexo explícito e a volta para a TV

Entrevista José Miziara – Parte 1

Dossiê José Miziara

Entrevista com José Miziara
Parte 1 – Infância, juventude e o começo na área artística

012A1

Por Gabriel Carneiro
Fotos: Laisa Beatris

Zingu! – Como foi sua infância?

José Miziara – Maravilhosa. Brinquei de Tarzan em mangueiras, de cipó para cipó, em rio, porque sou de Barretos. Então ia para a fazenda, do meu pai, do meu tio, montava a cavalo – fazia laço, amarrava-o na boca do cavalo e fazia como índio. Ia de bicicleta de uma cidade para outra. Minha infância foi maravilhosa. Acho que ninguém teve uma infância tão boa quanto a minha. Fiz tudo de errado na vida e consegui sobreviver (risos).

Z – Você saiu de Barretos e veio para São Paulo?

JM – Vim, vim. Foi no final de 1951, quando saí do colégio interno em São José dos Batatais, hoje Claretiano, onde passei os anos de 1949, 50 e 51. Meu pai era um jogador de baralho inveterado, não conseguia parar de jeito nenhum. Minha mãe disse: “Não, vamos sair daqui, se não como é que vai ser?”. Aí viemos para São Paulo. Em 1951 chegamos aqui.

Z – Você já gostava de cinema nessa época?

JM – Sempre fui vidrado por cinema. Procurava tudo da área. Eu morava na avenida Angélica, eu e um amigo chamado Carlos, nós assistíamos a todos os filmes que estreavam na semana. Mas já acompanhava desde Barretos. Tinha um médico que era nosso médico de família, o Dr. Conde, que morava em frente à nossa casa, na rua 24, com a 19. Eu era garoto e meu pai só dava dinheiro às quartas e aos domingos para o cinema. Mas havia alguns filmes que passavam nas quintas-feiras e que repetiam na sexta. Eu ia para a porta do cinema e ficava olhando os cartazes. O Dr. Conde era muito amigo do Pedro, gerente do cinema, e de noite ia lá bater papo com o Pedro. E eu ficava com aquela carinha de inocente, olhando o cartaz, de um lado para o outro – para ele poder me ver. Aí ele olhava para mim e dizia: “Zezé, você quer assistir o filme?”. “Quero” (risos). E assim me pagava a entrada do cinema ou, lógico, o Pedro nem cobrava dele, e então assistia filmes a semana inteira. Era vidrado; decorava tudo.

Z – Algum filme nessa época te marcou mais?

007-199x300JM – Um monte. Por exemplo, a Metro lançou sete filmes que tinham feito – ah, a memória me falha atualmente -, com o Stewart Granger e o Robert Taylor [A Última Caçada], outro com o James Mason. Um a cada dia. Passou no Cine Rio, que era na Consolação e depois virou TV Record – onde pegou fogo. Eu e o Carlos íamos ao cinema e assistíamos a todos os filmes que eram lançados. A gente pegava os lançamentos da Metro, todos os franceses, depois pegávamos no Normandie os outros filmes franceses – eram os primeiros filmes que apareciam peitos, com Martine Carol. Não tinha um filme que não víamos. Íamos no Cine Brodway onde passavam os filmes mexicanos. Quando vinham ao Brasil, lá ia a gente. Eu me enturmei com o Romeu Sanches, que era cunhado do Lima Duarte e operador de som da TV Tupi. Ele freqüentava a mercearia do meu pai, ia beber de tarde. Ele me levava como puxador de cabos dos sons que ele mexia, no Festival de Cinema de 1954, no cine Marrocos, em que vieram aqueles artistas todos. Tinha que fazer careta para entrar, porque era menor de idade, então para poder passar por 18 anos, tinha que fazer careta. Tinha uma porção de artistas americanos.

Z – Você já sabia que queria trabalhar com cinema, atuando?

JM – Claro. Minha vida sempre foi cinema. Se você olhar por aqui, vai ver a quantidade de filmes que têm espalhados. Eu vejo tudo, vou atrás de tudo. Tenho vidração por cinema, passo o dia vendo filme. Não saio de casa, não vou ao restaurante, à boate, a lugar nenhum. Só vou jogar sinuca. Passo o dia assistindo a filmes. Tenho insônia. Então passo a madrugada vendo filme e bebendo vodka.

Z – Quando veio para São Paulo começou a trabalhar nessa área?

JM – Minha carreira é curiosa. Estava no colégio primário Piratininga. Dois grandes amigos meus, Salomão Guzzo e Álvaro Taquerna, resolveram montar uma companhia de teatro. Começamos a ensaiar A Ceia dos Cardeais. Descobrimos que A Ceia dos Cardeais só dava meio espetáculo, e aí resolvemos também fazer As Máscaras, de Menotti Del Picchia. Aliamos as duas. Na primeira, eu era o Cardeal Gonzaga – imagine, um cardeal de 81 anos feito por um garoto de 19 anos, mas, modéstia à parte, dei um show. Primeiro era a ceia dos cardeais com uma maquiagem mais elocubrada e depois as máscaras. No intervalo, entre uma e outra, entrou no meu camarim um senhor que chegou para mim e disse: “Você quer trabalhar profissionalmente? Gostei muito do seu trabalho”. Disse: “Eu quero, essa é a minha carreira, é o que quero seguir.” “Muito prazer, meu nome é Abelardo Pinto. Dá um pulo no Circo Piolin”. Era simplesmente o Aberlado Pinto Piolin, porra!, terceiro maior palhaço do mundo – só perdeu para o Charles Chaplin e para o Otto Griebling, alemão que veio ao Brasil só para conhecer o Piolin porque achava que o Piolin era melhor que ele. Isso eu vi. Aí eu fui trabalhar no circo, era uma peça por semana. “Me dá o script”, pedi. “Não tem script”. “Como não tem script?! Não dão a peça para a gente decorar?”. “Não, quer ver como é?” O ponto sentava aqui, só ele tinha a peça. Dizia: “Entra pela 2”. É aquela marcação antiga de teatro, a 1, a 2, a 3, o procênio, vai para o fundo… Aí comecei a fazer uma peça por semana. Ela começava com 40 minutos, quando estreava na terça, e quando chegava no sábado, já estava com 1h15 – de tanto que as pessoas colocavam caco em cima. Tem uma passagem muita engraçada com o Piolin. Era uma peça em que tinha que roubar algumas cartas de uma atriz portuguesa, que trabalhava lá junto com a gente. Eu tinha que fingir ser noivo dela e o Piolin em cena colocou um caco lá: “Você sabe quantos anos ela tem?” Eu tinha que dizer “Não”, “Não sei”, e ele dizia “30”. Aí eu, babaca, sem experiência, disse “Em cada perna?”. Ao que ele respondeu: “Quem é o palhaço aqui, eu ou você?” (risos). Por que eu tinha que dizer: “30?!”, repetir, e ele dizia “Em cada perna”. Foi uma tremenda escola. O engraçado é que eu fazia o circo Piolin e ia para o MAM onde tinha como professores o Adolfo Celi, Ruggero Jacobbi, Carla Tivelli, que foi minha grande madrinha, João Ernesto Coelho Neto. Era muito engraçado, porque às 6h da tarde, eu fazia O Mercado de Veneza, Racine, Romeu e Julieta e ia para o circo fazer comédia, às 9h da noite. Duas escolas muito paralelas. Depois fui para a companhia do João Paulo Cantuária, onde fiz Romeu e Julieta e Sonhos de uma Noite de Verão. Imagina eu misturando Shakespeare e as palhaçadas lá do circo. Larguei o circo, fiquei só com o teatro, aí fui para a companhia do Sérgio Cardoso – nos anos 1950, quando estreou o teatro Bela Vista (hoje Sérgio Cardoso). Fiz o Hamlet aqui em São Paulo, depois no Rio, em Santos.

Z – E quando ingressou na televisão?

JM – Fui ao Demerval Costa Lima vender um programa de circo. Ele então me perguntou: “você não quer ser ator?” e me mandou para o Paulo de Grammont. Fui contratado, porque o001-300x199 [Walter] Avancini tinha sido mandado embora. O Demerval não recebia as pessoas na sala dele, e sim no botequim, aonde era a TV Paulista, na Rua da Consolação. Ele me dava a maior força, acreditava em mim – era um negócio impressionante. Quando foi convidado para dirigir a TV Continental, que ia ser inaugurada no Rio, ele me chamou. “Miziara, vou dirigir a TV Continental, que vai ser inaugurada. Quer ir para o Rio?” Garoto é besta. “Depende”, respondi. Dizer para um cara desses, que era o maior diretor artístico que tinha na TV brasileira, “depende”?! “Depende do quê?” “Quanto eu vou ganhar lá?” Eu ganhava 8 mil na TV Paulista, para ser rádio-ator e teleator. Ele disse: “25”. Eu me segurei na cadeira, pedi mais uma vodka e perguntei: “25 quanto?” “25 mil”. Eu estava noivo da filha do Piolin, a Ana Ariel, essa que foi atriz da Globo – antes era Ariel Miziara, maior mulher que já conheci na vida. Respondi para o Demerval: “25 mil eu aceito, mas preciso levar minha mulher.” “Ela é atriz?” “É, e muito boa, filha do Piolin”. No que disse isso, cresceu a imagem para ele. “Quanto você quer para ela?” “12.” Ele disse: “Fechado”. Me deu uma dor de barriga, deus do céu. 25 mil mais 12. Saí correndo dali, fui ao circo (na General Olímpio da Silveira), onde ela tinha uma casa lá de madeira. Bati lá: “Nós vamos para o Rio de Janeiro”. “Quê?” “Nós vamos para o Rio de Janeiro”. Eu vou ganhar 25 mil e você 12 mil, e você vai ser atriz também da TV Continental. Ela disse: “Vem cá, você bebeu muito?” “Não, só o normal, porra.” “Mas isso é verdade? Faz o seguinte. Volta amanhã de manhã e me repete essa história.” Repeti para ela, e lá fomos nós para o Rio de Janeiro. Antes de ir, peguei toda a minha indenização. O porra do Walter Forster, que era o diretor da televisão, quase estrepa a minha vida. Quando fui pedir demissão, ele disse: “não, você é o mais promissor galã da televisão.” Implorei: “pelo amor de deus, ganho 8 aqui; vou ganhar 25. Serei diretor lá.”Aí me deixaram ir. Eu fui com o Zé Oscar ao aeroporto e nunca tinha pego um avião. Chamei-o para ir dar um tempo lá no bar. Bebemos os dois um litro de whisky. Entrei no avião e fiquei: “Puta merda, e se esse avião cai? Agora que a minha vida está tão boa…” (risos) Tinha uma tia que morava na Rua das Laranjeiras, edifício Zacatecas, com quem minha mãe tinha falado pelo telefone, vendo se podia me hospedar lá até eu arranjar um apartamento. Cheguei na TV e aquela festa tremenda de inauguração da TV Continental, tudo lotado, com o deputado Rubens Berardo, dono da televisão, e os irmãos dele. Ao entrar, já me perguntaram: “Aonde você vai?” Expliquei que era contratado e que queria falar com o Demerval Costa Lima. Na portaria, aqueles jagunços não queriam me deixar passar. O Demerval, então, coloca a mão no meu ombro e entra no meio daquele bolo de gente comigo, e diz: “Este é o meu astro”. (risos) A dor de barriga que deu… E vai dizendo que vai ser o diretor de teledramaturgia, que vai dirigir o teatro. Na porta, havia encontrado dois amigos meus que eram aqui de São Paulo, o Roberto Mayer e James Dean – pois era a cara do ator americano; quando o James Dean morreu, foi até para a Argentina. Era um nortista semi-analfabeto que só servia para a direção de estúdio – mas era um tremendo amigo. Fiz o TeleDrama na Continental, que foi um sucesso tremendo. A única estação de televisão que estreou em primeiro lugar foi a TV Continental do Rio de Janeiro, pois investiram em teledramaturgia, de segunda a domingo. Aí é aquele negócio: vem a falência, você fica desempregado, começa a procurar emprego. Fui à Tupi: “quando chegar o script, se tiver um papel masculino, é seu!” Esse cara é amigo, o João Loredo, que era da Tupi. Começou um vai-e-vem que não acabava mais.

Z – Foi nessa época que você fez sua primeira participação no cinema, em Cacareco Vem Aí?

JM – É, do filho da puta do Carlos Manga. Eu era o maior sucesso do Rio de Janeiro em termos de televisão. O Manga ia fazer esse filme, que se chamava, à época, Duas Histórias. Ele manda o Cyl Farney, que era produtor do filme, me convidar. O Cyl Farney chega lá – cara maravilhoso, educadíssimo – e me oferece mil por dia e vinte dias de filmagem. Aceitei. Ganhava 25 e ia ganhar mais 20. Eu fiz Actor’s Studio por correspondência, era um astro. Fui para uma reunião com o Manga, que contou qual era o papel: o de um rebelde sem causa. “E o script?”, perguntei. “Cinema não tem script!” O Manga é o rei da reunião, ninguém bate ele em uma. E me desenhou o papel do James Dean. No primeiro dia de filmagem, fiquei por lá, sem fala. No segundo dia, a mesma coisa. O bacana foi que conheci o Oscarito, o Grande Otelo, a Eliana, pessoas maravilhosas. Aí chega no dia da filmagem da cena do cassino, em que tenho uma fala (“Devolve o baralho para o moço.”), e tem uma briga com o Cyl Farney, que mete um telefone no ouvido. A cena foi repetida vinte vezes. Vai passando e chega um dia de filmagem e o Manga diz: “Todo mundo vestido de mulher”. “Como assim?” Conclusão: era um figurante de luxo dentro do filme, simplesmente. O filme, que se chamava Duas Histórias, era sério. Teve uma eleição aqui em São Paulo e a pessoa mais votada foi o Cacareco. O Severiano Ribeiro ligou para o estúdio e mandou mudar o título, que deveria ter Cacareco. Mudaram para Cacareco Vem Aí. Fizeram uma bicicleta para o Oscarito, do tipo de tintureira. Cresceu o papel da Sonia Mamede, do Oscarito e o pessoal da linha séria, como o Cyl Farney, foi tudo para a cucuia. Ainda bem que pagaram os vinte mil. Tenho uma profunda bronca com o Manga, por duas vezes. Por essa e por outra. Eu frequentava um clube chamado Pontal e tinha um amigo com quem ia lá. Esse meu amigo queria falar com um sujeito, num teatro que era a caminho do clube. O Manga estava lá. “Miziara, aonde você anda? Porra, Miziara!” Como não estava trabalhando, me chamou para ir para a Excelsior. Era final de semana e havia me pedido que passasse lá na segunda-feira. Cheguei lá e estava passando o programa Cidade se Diverte, que eu havia criado em São Paulo e agora estava no Rio de Janeiro, com apresentação do Milton Franco. O Manga me instruiu então a vestir um smoking, que tinha lá no guarda-roupa. Entraria no final. “E você vai entrar junto com ele”, disse. Olhei para o lado e era o Alain Delon – o verdadeiro. No final do programa, o elenco inteiro, em fila, dos dois lados, e anunciam Alain Delon e José Miziara. Fiquei pensando comigo: “Deve ter alguma coisa errada, não é possível, não bebo tanto”. Entramos os dois, eu e o Alain Delon. Acabou, devolvi o smoking, coloquei minha roupa e perguntei: aonde assino o contrato? Lá na sede, na Venezuela. Fui então, na terça-feira, para a Venezuela. Pedi para falar com o Manga: “Não, Miziara, acho que você entendeu mal”. E me descartaram. Isso foi em 1965. Em 1963, havia voltado para São Paulo por conta da Excelsior, depois fui dirigir a TV Rio, depois veio o Boni.

                Parte 2  

As Intimidades de Analu e Fernanda

Dossiê José Miziara

As-intimidades-2

As Intimidades de Analu e Fernanda
Direção: José Miziara
Brasil, 1980.

Por Gabriel Carneiro

As Intimidades de Analu e Fernanda é surpreendentemente bem feito. Explico: tecnicamente, nada parece fora de lugar; há também uma incrível apuração narrativa. O longa-metragem já começa com cortes secos, sobrepondo duas realidades: Analu (Helena Ramos) dirigindo no carro, e momentos diversos na vida dela e de seu marido. Nada, a princípio, parece fazer sentido; são muitas cenas recortadas e amalgamadas por um eixo que ainda desconhecemos. São 15 minutos de abertura, que também estão simetricamente no oposto, de puro thriller.

Aos poucos, as situações vão se explicando e encontrando seu eixo. É quando conhecemos Fernanda (Márcia Maria), uma mulher que consola Analu, com um fortuito objetivo:As-Intimidades1-300x222 seduzi-la. Em sua destemperança, a jovem interpretada por Helena Ramos se entrega a uma paixão possessiva e histriônica. José Miziara, transitando entre gêneros, realiza um grande drama, um romance erótico, utilizando o amor lésbico, como tema.

Os colegas de Zingu!, Andrea Ormond e Adilson Marcelino, vêem no filme um forte moralismo (seja no todo, seja na personagem de Fernanda). Tomo a primeira pessoa para um ‘achismo’. Confesso que não vejo nada disso, apesar de respeitar demais a opinião de ambos. Se o lesbianismo em As Intimidades de Analu e Fernanda leva a julgamento precipitados acerca da liberdade sexual, parece-me apenas uma exacerbação de um relacionamento, seja homossexual ou não – e Miziara já deu provas que o melodrama trágico de seus filmes atingem as mais diversas sortes de personagens, independente de preconceitos moralistas e subterfúgios baratos.

Afinal, a obra de Miziara é uma das que mais clama em tratar de temas-tabus dentro da prestigiada Boca do Lixo, sem tratá-los como aliens, apenas ficcionalizando hiperbolicamente – o interesse está sempre no acaso. É o acaso que unirá as mulheres, bem como é o acaso que as separará, sem deixar de lado as conseqüências sujeitas nas escolhas de cada. Parece-me – novamente a primeira pessoa – que o efeito dramático em escolher um homem para consolá-la na fossa seria muito menor do que se fosse uma mulher. O amor lésbico é autêntico, mas pode ser igualmente doentio.

Afinal, a beleza de As Intimidades de Analu e Fernanda extrapola a paixão fervorosa e histérica de Analu e Fernanda: está na condução primorosa de Miziara, no entremeio entre thriller e drama, entre luzes opacas e sombras enigmáticas; está nos recortes abruptos, e ainda assim capazes de se ligarem à trama, acentuando o desespero e as incertezas.

É também uma obra que clama pela liberdade, e não só sexual. Pela liberdade do ser humano diante do mundo, dotado de escolhas próprias e não impostas pelas circunstâncias. Se a paixão das duas moças representa tudo menos o exercício completo do livre-arbítrio, nenhum outro relacionamento mostrado no filme o é. É um mundo cão. As Intimidades de Analu e Fernanda é um filme pela liberdade, e não libertário.

Oscaralho – O Oscar do Sexo Explícito

Dossiê José Miziara

Oscaralho – O Oscar do Sexo Explícito
Direção: José Miziara
Brasil, 1986

Por Ailton Monteiro

Depois do sucesso de algumas pornochanchadas – a mais famosa é O Bem Dotado – O Homem de Itu, (1979) -, José Miziara, como muitos diretores da Boca do Lixo, teve que se render ao sexo explícito, que bombou pra valer durante a segunda metade da década de 1980. A pornografia nacional, se ainda hoje é vista como distante dos padrões internacionais de países como Estados Unidos, França e Suécia, naquela época, então, era muito pior. Claro que existem as exceções, como os filmes de Cláudio Cunha e Jean Garret, mas a maioria era mesmo de produções bem vagabundas. E se vistos hoje parecem mais ainda. (1986) levando em consideração a época em que foi realizado, a necessidade de ser esperto, ainda que usando de picaretagem. O humor (grosseiro para os dias de hoje) já está no próprio título, que brinca com o famoso prêmio da academia, sem disfarçar a palavra caralho. Aliás, o prêmio é literalmente um caralho de asa de metal. E ver o público batendo palmas e rindo na tal premiação, não deixa de ser engraçado. Em alguns momentos até parece um quadro do programa da MTV Hermes e Renato.

Por isso é preciso ver um filme como Oscaralho – O Oscar do Sexo Explícito.

O filme nada mais é do que uma série de cenas de sexo bem fracas enxertadas dentro da tal premiação. O próprio José Miziara, ao lado de uma bela jovem (Erika, que infelizmente não participa de nenhuma das cenas de sexo), são os apresentadores do prêmio, que conta com categorias interessantes como “melhor balé erótico”, “melhor chupada”, “melhor trepada”, “melhor enrabada” etc. O interessante é que os vencedores do prêmio que sobem lá para agradecer são dublados. E por dubladores até familiares. É como se já tivéssemos ouvido aquelas vozes em algum desenho animado, por exemplo.

O filme acabou virando uma peça para estudos antropológicos, onde se pode ver não apenas o tipo de mulheres que faziam as cenas, como os próprios homens, alguns deles barrigudos e sem ter o tipo físico que hoje é requerido. Eram outros tempos e ainda que já existisse videocassete, os filmes eram ainda vistos no cinema, em película. Quando o filme era ruim, não havia a tecla fast forward para ir adiantando as cenas. Tinha que ter paciência mesmo. Frequentar os cinemas pornôs na época era, muitas vezes, um tiro no escuro. Havia uma dificuldade muito grande de se conseguir informações a respeito do que era de fato pornô de qualidade. E quando se fala em qualidade, a melhor coisa que se espera de um filme do gênero é ter uma voltagem erótica que faça com que o espectador queira “brincar” quando chegar a sua casa. Ou quem sabe até mesmo antes disso.

Ailton Monteiro é editor do blog Diário de Um Cinéfilo.

 

A Quebra-Galho Sexual

Dossiê José Miziara

Cartaz_AQuebraGalhoA

A Quebra-Galho Sexual
Direção: José Miziara
Brasil, 1986.

Por Gabriel Carneiro

Há um certo alento em assistir aos filmes brasileiros de sexo explícito dos anos 1980. Claro, eram outros tempos, mas quem busca nessas produções apenas uma forma de contemplar o ato sexual e a exuberância dos corpos, pode se decepcionar. Ainda que A Quebra-Galho Sexual tenha exceções, o elenco feminino de tais filmes era, geralmente, muito abaixo das tradicionais produções eróticas. Em A Quebra-Galho Sexual há uma bela garota – a quebra-galho do título -, porém só vemos sua nudez. Ela não participa de nenhuma cena de sexo. Ah, o alento. Bem, o alento é que o período produziu ótimas comédias de costumes, que utilizam o sexo explícito apenas como mais uma parte da narrativa, muitas vezes descartáveis, mas que estavam lá por uma questão mercadológica. Bem, o que quero dizer com essa longa introdução é que vale a pena assistir a uma produção pornô da época, mesmo que a parte pornô não interesse.

quebra-galhoA-300x198Afinal, o que José Miziara faz em A Quebra-Galho Sexual é perceber os potenciais cômicos da realização pornográfica, entremeando com toda uma sorte de contos populares, para criar uma narrativa metalingüística muito bem humorada. Miziara faz o dono de uma loja de quebra-galhos, sejam quais for, desde o conserto de uma televisão, até conseguir que o amante copule com a moça em sua própria casa, onde o marido está. O segmento mais interessante é justamente a da realização de um filme de sexo explícito, em que o ator não consegue performar e precisa de uma quebra-galho sexual, que o atice.

A história é um grande achado, com várias tiradas, inclusive ao próprio ator, o Oásis Minitti, que interpreta ele mesmo. Minitti, que já foi considerado o maior astro do cinema pornô brasileiro, apresenta-se todo vaidoso quanto à sua persona de símbolo sexual, como, por exemplo, sua identificação com o público. O diretor sugere que use um dublê nas cenas de sexo, já que não consegue uma ereção, e ele prontamente refuta. Diz que seus fãs o conhecem pela genitália. Pouco depois, vemos o próprio Minitti falando com o personagem de Miziara. Ele conta toda a situação e diz ser Oásis Minitti. Miziara não acredita e o ator diz que vai provar: se vira de costas e abre as calças. Miziara então acredita.quebra-galho-3A-300x203

É por conta de gags como essas, repetidas ao longo de todo o longa-metragem, que o filme se destaca. O não se levar a sério é parte presente, apostando em atuações hiperbólicas. Estão no filme também o sábio uso do som que Miziara faz em comédias desde O Bem Dotado – O Homem de Itu (1978), usando o cartunesco para acentuar o valor humorístico. Feito com sobras de negativo, paralelamente a Oscaralho, o Oscar do Sexo Explícito, o mais indicado é que se assista A Quebra-Galho Sexual como sessão dupla. A diversão é garantida, ao menos se deixar os preconceitos com o gênero de lado.

Rabo I

Dossiê José Miziara

Rabo I
Direção: José Miziara
Brasil, 1985

Por Ailton Monteiro

Uma das incursões pornográficas de José Miziara, Rabo I traz no título, obviamente, uma brincadeira com a produção de sucesso estrelada por Sylvester Stallone. Ainda que não apareça nos créditos escritos, o título ganha um complemento falado: “Programado para Trepar”, com toda a pompa que costumamos ouvir dos anúncios da Rede Globo para os filmes de ação. Mas com direito à uma bunda batendo palmas! (dá para imaginar?). Mas a brincadeira Rabo/Rambo é só com o título mesmo. Não há nada no filme que faça lembrar Rambo. Lembrando que Miziara já brincava com títulos baseados em obras de sucesso estrangeiras, como Nos Tempos da Vaselina, uma homenagem a Nos Tempos da Brilhantina, estrelado por John Travolta.

O principal astro de Rabo I é Rony Cócegas, o comediante que ainda hoje é lembrado por seu quadro no programa humorístico A Praça É Nossa. Seu bordão “Calma, Cocada!” e sua gravata que se levantava sempre que via uma mulher gostosa ficaram na memória coletiva nacional. Era um quadro bastante ousado, se lembrarmos que o programa também era visto por crianças, apesar do horário. Mas aqueles eram outros tempos. Em Rabo I, Rony não precisa de uma gravata para demonstrar que está precisando dar uma aliviada, basta correr direto para o banheiro dizendo que quer bater uma punheta, depois de ouvir uma história picante. Rony é também autor da canção-tema do filme, a marchinha de carnaval A Rabada, e no filme ele aparece no papel do garçom que fica escutando as aventuras sexuais de um grupo de mulheres.

Cada uma conta uma história, que vai num crescendo de ousadia, fetichismo e absurdo. Diria que o filme seria bem-sucedido no quesito “voltagem erótica” se possuísse mulheres mais bonitas e as cenas de sexo fossem mais caprichadas e melhor captadas pela lente de Miziara. Para se ter uma idéia da precariedade das performers, a mulher mais bonita do filme não é uma mulher, mas uma travesti!, Porém, boas intenções não faltam. Gostei de algumas canções clássicas dos anos 1970/80 que rolam durante as cenas no motel. Chega a contrastar com as imagens, não tão bonitas de ver. O humor é propositalmente grosseiro. Numa cena de sexo oral, por exemplo, a mulher passa ketchup no caeté do sujeito e diz: “vai gostar de ketchup na casa do caralho”.

Em outra cena, uma mulher tem a fantasia de transar com outro homem e combina com o marido, que se veste de marinheiro fazendo de conta que é um completo estranho. E um marinheiro violento, que pede grana à mulher e ainda bate nela. Durante o ato sexual, há uma sequência de closes, ora do tradicional entra-e-sai, ora dos tapas que a mulher recebe. Há também, esporadicamente, uma estranha escultura de madeira, semelhante a um demônio.

Melhores histórias viriam, como a da mulher que tem a fantasia de se vestir de freira e transar com o primeiro que encontrar. Arranja, junto com uma amiga, uma dupla de caminhoneiros e as duas fazem uma festa. Para variar, as cenas de “ação” são chatas, enquanto as de conversa são mais interessantes. Tem também a história do cara que só queria saber de enrabar a namorada e a mulher teve uma idéia de chamar uma travesti para um ménage a trois. O bloco termina de maneira insólita, com a presença de um cachorro. Ah, é nesse bloco que aparece uma travesti que tem o rosto mais bonito que todas as mulheres do filme juntas. Enquanto isso, no restaurante, Rabo I tinha que terminar com mais uma piadinha infame.

Ailton Monteiro é editor do blog Diário de Um Cinéfilo.

 

Sem Vaselina

Dossiê José Miziara

Sem Vaselina
Direção: José Miziara
Brasil, 1985

Por Filipe Chamy

O cinema pornográfico sofre de vários problemas intrínsecos à sua própria essência. Por exemplo, como extrair prazer do sexo se o espectador não participa do ato senão apenas assistindo a ele?

E também: como pode o filme de sexo explícito ser associado à alegria e à descontração se, sabemos, o cinema pornográfico quase sempre emprega pessoas exploradas, desesperadas, deprimidas, à beira do colapso, sem recursos materiais ou de qualquer outro tipo? Basta observar a taxa de pessoas dessa área que se suicidam ou utilizam drogas em tal quantidade que as leva à ruína. Quase sempre as maiores vítimas do caso são os intérpretes, pois ficam em maior exposição, frente às telas, e sofrem mais os efeitos dessa realidade perversa. Mas ninguém sai realmente ileso quando lida com produções assim.

Acontece que o cinema brasileiro dos anos transitórios entre o final da ditadura e a chamada abertura democrática sofria de uma crise de popularização que fazia o popular ser necessariamente vinculado ao vulgar, ao podre, ao sujo, ao apelativo, ao escatológico.

Sem Vaselina, como o constrangedor título já aponta, é uma cria dessa conjunção de fatores que possibilitavam a vinda a público de uma fita tão pavorosamente ruim. Não se pode pretender eximir o filme de seus incontáveis defeitos por conta de uma condescendência para com os filmes pornográficos, marginais elementos na cinematografia de qualquer país. Essa aparente falta de amparo por meio da intelectualidade crítica não impediu cineastas como Bud Townsend de construírem um admirável porn movie como Alice in Wonderland: An X-rated musical fantasy, em 1976, nove anos antes deste lamentável trabalho de José Miziara, conhecido por suas comédias e pornochanchadas — e a Cinemateca Brasileira, sempre centrada na divulgação do cinema em todas as suas formas, exibiu em 2010 o consagrado Behind the green door, filme de sexo explícito que procura (com sucesso) alcançar um diferente nível de expressão e direção. Sem vaselina é péssimo porque suas fraquezas são um demérito exclusivo seu.

O filme é dividido em dois segmentos, e o primeiro episódio apresenta, por puro acaso, uma metalinguagem que se aproxima do célebre Oh! Rebuceteio e expõe uma alegada hipocrisia sobre como o cinema pornográfico funciona. Mas mais hipócrita é o próprio filme de Miziara, pois se esconde atrás do humor para fingir zombar de uma condição de que se beneficia. Todos os vícios, problemas e trapaças ironizados são os mesmos que estruturam Sem Vaselina e o fazem ser, a seu modo, um exemplo do que ele próprio acusa como contra-exemplo. A impessoalidade das relações está lá, a mecanização do sexo também: os atores e atrizes não têm rostos, mas falos e vulvas; o diretor se importa mais em gravar os diálogos pretensamente engraçados do que em naturalizar o encenado; as pessoas são descartáveis porque o sexo é aleatório e feito apenas como concretização da possibilidade animalesca de se excitar sexualmente; etc.

O segundo episódio é ainda mais repulsivo e trata de um assalto em que mulheres se prostituem por vontade própria, doença mental é tratada como desvio de caráter, torturados e torturadas gostam de ser subjugados, entre outras pérolas de um mau gosto insuperável. E, naturalmente, os dois segmentos filmados com pobreza técnica ímpar, imagem quase tão feia quanto o que é retratado nela, atuações pífias, desleixo em todos os sentidos.

De tempos em tempos, tentam injetar nesse degradante cinema “chute no cão morto” uma espécie de aura de louvável libertinagem, como se fosse digno de orgulho ser tão escancaradamente abominável.

As Amantes de Um Homem Proibido

Dossiê José Miziara


As Amantes de Um Homem Proibido
Direção: José Miziara
Brasil, 1978.

Por William Alves

Nuno Leal Maia é um dos mais representativos intérpretes da pornochanchada. Ele foi dirigido por José Miziara em produções como Bem Dotado, o Homem de Itu (1978), e Embalos Alucinantes: A Troca de Casais (1978). Em ambos, ele interpretava o varão dominante, o terror das mulheres, casadas ou não. Já nesse As Amantes de Um Homem Proibido, Nuno continua emanando virilidade – mas aqui a coisa é mais séria.

Ele é Leandro, um foragido da polícia, que participou de um assalto frustrado e acabou matando a sua grande paixão. Durante a ação, ele foi traído pelo seu parceiro (em participação rápida de John Doo). Ele se transforma em um fugitivo de alta periculosidade (sua foto está na primeira página dos jornais) e só resta ao sujeito se esgueirar por matagais e áreas rurais para se manter em liberdade.

Como se trata de um filme setentista com Maia, não há elipses. Ou seja: não aparece nenhum aviso dizendo “Alguns dias depois” no meio da tela. Leandro, que não é bobo nem nada, irá aproveitar todos os noventa minutos da produção para cativar algumas fêmeas. E o seu intento é alcançado nas formas de Flávia, que o emprega como caseiro (e amante casual) em sua propriedade; e de Marina, uma jovem com problemas com o pai alcoólatra. Enquanto ele concretiza essas conquistas, a polícia vai coletando pistas sobre seu paradeiro.
Há alguns elementos do film noir em Os Amantes…, como a femme fatale e o bode expiatório (no caso, o próprio Leandro), além da corrupção mal disfarçada praticada pelos donos das boates locais. Miziara alia esses elementos ao magnetismo sexual do personagem de Maia (Humphrey Bogart dos trópicos?) que, não por acaso, já está em pleno coito nos primeiros minutos do filme. O diretor também não poupa nas filmagens das belezas naturais, especialmente a que circunda a propriedade de Flávia e que contrasta com o clima sujo das casas noturnas que Leandro freqüenta antes de se instalar lá.

O tom policial do longa é interrompido pelos devaneios de Marina, que sonha acordada em ser possuída pelo fugitivo o quanto antes. Foragido esse que ela havia encontrado apenas uma vez em toda a história. Bate a impressão de que Miziara enfiou essas cenas à força na produção final, meio que para não deixar dúvida de quem é o macho alfa da história. Ou então, para que o seu filme contivesse o maior número de gêneros em um só, mesclando o típico filme policial com o cinema pornô softcore, o que nunca é uma boa ideia. Já o relacionamento com a rica proprietária é melhor desenvolvido: ele chega, ganha confiança e seduz.

Ok, ser o Nuno Leal Maia em plenos anos 70 também ajudou.