Virilidade, beleza e talento

Especial Francisco Di Franco

Por Adilson Marcelino

Francisco Di Franco nasceu no dia 7 de maio de 1938.

O começo da carreira foi fazendo pontas e figuração na TV, mas a grande chance surgiu pelas mãos de Amácio Mazzaropi, que o escala para um de seus clássicos: Jeca Tatu (1960), dirigido por Milton Amaral.

A presença em filmes de Mazzaropi vai pontuar suas primeiras experiências no cinema, atuando em As Aventuras de Pedro Malazartes (1960), de Mazzaropi, Tristeza do Jeca (1961), de Mazzaropi, O Vendedor de Linguiças (1962), de Glauco Mirko Laurelli, O Lamparina (1964), de Laurelli, e ainda assinando como Francisco de Souza.

Logo logo, Di Franco vai despertar o interesse de Walter Hugo Khouri, que o escala para pequenas, mas marcantes atuações em O Corpo Ardente (1966) e em seu episódio em As Cariocas (1966). Essas atuações na década de 1960, que ainda conta com O Quarto (1968), de Rubem Biáfora, Meu Nome é Lampião (1969), de Mozael Silveira, Sentinelas do Espaço (1969), de Ary Fernandes, e O Cangaceiro Sem Deus (1969), de Osvaldo de Oliveira, vão carimbar seu passaporte definitivo para o cinema e o transformará em um de nossos mais carismáticos e talentosos atores.

Vale ressaltar que Francisco Di Franco atuará também na televisão, ainda que em menor constância que no cinema, e que é na telinha que vai encarnar o personagem mais popular de sua carreira ao protagonizar o seriado Jerônimo, O Herói do Sertão, exibido na TV Tupi em 1972 e 73 – o ator voltaria a encarnar mais uma aventura do misterioso cavaleiro na produção Jerônimo, produzida pelo SBT em 1984.

Mas é com seu porte viril, sua estampa de galã e a capacidade de dar vida a personagens tão díspares como o angustiado Paulo em Cio – Uma Verdadeira História de Amor (1971), de Fauzi Mansur, o fanfarrão Rodrigo em Um Certo Capitão Rodrigo (1971), de Anselmo Duarte, e o dúbio Leônidas de Cordélia, Cordélia (1971), de Rodolfo Nanni, que Francisco Di Franco inscreveu seu nome na história do cinema brasileiro.

A carreira cinematográfica de Francisco Di Franco vai do início dos anos 60 ao início dos anos 2000, e seu talento é reconhecido por diferentes cineastas que filmam com ele, como João Callegaro, Sérgio Ricardo, Roberto Santos, Reynaldo Paes de Barros, Victor di Mello, Carlos Alberto de Souza Barros, Carlos Coimbra, Carlos Manga, Lenita Perroy, J.B. Tanko, John Herbert e Deni Cavalcanti.

Francisco Di Franco faleceu no dia 10 de abril de 2001.

Filmografia

Especial Francisco Di Franco

Jeca Tatu, Milton Amaral, 1960
As Aventuras de  Pedro Malazartes, Amácio Mazzaropi, 1960
Tristeza do jeca, Amácio Mazzaropi, 1961
O Vendedor de Linguiças, Glauco Mirko Laurelli, 1962
O Lamparina, Glauco Mirko Laurelli, 1964
O Corpo Ardente, Walter Hugo Khouri, 1966
As Cariocas, episódio de Walter Hugo Khouri, 1966
O Quarto, Rubem Biáfora, 1968
Meu Nome é Lmpião, Mozael Silveira, 1969
Sentinelas do Espaço, Ary Fernandes, 1969
O Cangaceiro sem Deus, Osvaldo de Oliveira, 1969
O Pornógrafo, João Callegaro, 1970
Juliana do Amor Perdido, Sérgio Ricardo, 1970
Balada dos Infiéis, Geraldo Santos Pereira, 1970
Sertão em Festa, Osvaldo de Oliveira, 1970
Um Anjo Mau, Roberto Santos, 1971
Pantanal de Sangue, Reynaldo Paes de Barros, 1971
Um Certo Capitão Rodrigo, Anselmo Duarte, 1971
Quando as Mulheres Paqueram, Victor di Mello, 1971
Cio, Uma Verdadeira História de Amor, Fauzi Mansur, 1971
Cordélia, Cordélia, Rodolfo Nanni, 1971
Os Devassos, Carlos Alberto de Souza Barros, 1971
Um Marido sem… é como um Jardim sem Flores, Alberto Pieralisi, 1972
Como Evitar o Desquite, Konstantin Tkaczenko, 1973
O Marginal, Carlos Manga, 1974
O Supermanso, Ary Fernandes, 1974
Noiva da Noite – Desejo de 7 Homens, Lenita Perroy, 1974
O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, J.B. Tanko, 1977
As Aventuras de Robinson Crusoé, Mozael Silveira, 1978
A Força do Sexo, Sérgio Toledo, 1978
Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel, Carlos Coimbra, 1979
Os Trombadinhas, Anselmo Duarte, 1979
As Borboletas também Amam, J.B. Tanko, 1979
Mulheres do Cais, José Miziara, 1979
Paixão de Sertanejo, Pio Zamuner, 1979
Os Três Boiadeiros, Waldir Kopesky, 1979
Os Pankekas e o Calhambeque de Ouro, Antônio Moura Matos, 1979
Boneca Cobiçada, Raffaele Rossi, 1980
O Sexo e as Pipas, José Vedovato, 1981
Tessa, a Gata, John Herbert, 1982
A Difícil Viagem, Geraldo Moraes, 1983
O Filho Adotivo, Deni Cavalcanti, 1984
Anúncio de Jornal, Luiz Gonzaga dos Santos, 1984
Sexo, Sexo, Sexo, Francisco Cavalcanti, 1984
Hans Staden, Luís Alberto Pereira, 1999
Até que a Vida nos Separe, José Saragoza, 2000

Carta ao Leitor

Apresentamos aos nossos distintíssimos leitores a Zingu # 54.

Nesta edição, escalamos dois nomes do nosso cinema de estilos completamente diversos, mas igualmente interessantes e importantes: o provocador ator, cineasta, roteirista e produtor Júlio Calasso; e o galã e ator talentosíssimo Francisco Di Franco.

Júlio Calasso é o dossiê do mês. Gabriel Carneiro nos apresenta, em ótima e longa entrevista, a trajetória de Calasso, que nos fala sobre sua infância, formação, início da carreira, Cinema Marginal, filmes em que atuou, o longa que dirigiu, O Longo Caminho da Morte, e muito mais. Novidade desta edição: você também poderá assistir trechos da entrevista, no nosso canal do Youtube.

Tem também no dossiê, críticas de oito de seus filmes, inclusive o raro que dirigiu, mais filmografia.

Já Francisco Di Franco é o especial do mês. Ator que começou no cinema nos filmes de Mazzaropi, marcou época na TV Tupi com o seriado Jerônimo, O Herói do Sertão, e construiu carreira cinematográfica marcante, que vai dos anos 1960 aos 2000. Di Franco foi dirigido por cineastas do quilate de Walter Hugo Khouri, Rodolfo Nani, Sérgio Ricardo, Anselmo Duarte, Roberto Santos, Osvaldo de Oliveira, Fauzi Mansur, e muitos outros.

No especial, temos texto perfil, críticas de 10 filmes e filmografia.

Já nas colunas tradicionais temos o cineasta e crítico Alfredo Sternheim respondendo a coluna O Que É Cinema Brasileiro?; o mítico O Bandido da Luz Vermelha como o Filme-Farol do crítico Marcelo Miranda; a deusa Natalie Wood no Musas Eternas; a paulista Nádia Destro no Inventário Grandes Musas da Boca; e a despedida de Reflexos em Película.

E é também em tom despedida que termino essa minha última Carta ao Leitor da nossa grandiosa e amada Zingu!

Como escrevi na minha primeira Carta ao Leitor como Editor-Chefe, a primeira vez que participei da Zingu! foi como colaborador em 2008, passando em 2009 para a função de redator e contribuindo com textos para os diferentes conteúdos: dossiês e especiais, além da coluna Inventário Grandes Musas da Boca. No segundo semestre de 2010, tornei-me editor-chefe e tive a alegria, e a responsabilidade, de estar à frente de uma equipe fabulosa e verdadeiramente amante do cinema brasileiro.

Tenho que deixar a Zingu! devido a outros compromissos assumidos, mas jamais deixarei de tê-la no coração e na minha cabeceira como leitura obrigatória e indispensável.

Agradeço a todos da revista e a todos os leitores por esses 5 anos de grandes alegrias e aprendizado.

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!


A Casa das Tentações

Dossiê Astolfo Araújo

A Casa das Tentações
Direção: Rubem Biáfora
Produção: Astolfo Araújo
Brasil, 1975.

Por Adilson Marcelino

Importante e controvertido crítico de cinema, o paulista Rubem Biáfora dirigiu três filmes: Ravina (1959); O Quarto (1968); e esse A Casa das Tentações. Alguns detratores acusam seus filmes de artificiais, mas mesmo eles jamais podem ignorar a obra-prima que é O Quarto, com a história do personagem de Sérgio Hingst, um funcionário público mergulhado em solidão urbana. Se essa acusação de artificialismo recaiu sobretudo em Ravina, em A Casa das Tentações o cineasta ofereceu mais munição para seus críticos.

Na trama, Flávio Portho é um jovem andarilho com dramas existenciais – pensa que pode morrer aos 33 como Cristo – retorna ao casarão da família com a namorada Elizabeth Gasper, e a encontra detonada e decadente. Lá vive Aurea Campos, a bá, preocupada com o destino da construção que pode virar um bordel disfarçado de boate. Portho passa a rememorar o passado vivido na casa, ao mesmo tempo em que assiste impotente tudo ruir à sua volta.

A direção de Biáfora – que também assina o argumento e o roteiro; a produção é de Astolfo Araújo – adota uma estética quase teatral, com tomadas sem profundidade e os atores interpretando seus personagens em registro de planitude, ainda que seus dramas possam ser profundos. Efeito que a cenografia de Rocco Biaggi e a fotografia e a câmera de Cláudio Portioli potencializam – os tons coloridos, como o quarto vermelho, são destaques.

Elizabeth Gasper, eternamente moderna, é presença marcante como a cantora sem direito à ribalta, já que Betina Viany – outra ótima presença – é a mulher que lhe retira o lugar real e no imaginário da casa. Mas quem rouba a cena em suas participações é Marilena Ansaldi em belos números de dança, e, sobretudo, Paulo Hesse como um auto-denominado diretor de teatro de vanguarda, que faz de Cavagnole Neto um Netuno hilariantemente ultrajado. Há ainda a presença hipnotizante de Selma Egrei e destaques para Arassary de Oliveira e Pedro Stepanenko, que recebeu o APCA de Melhor Ator Coadjuvante como o escroque Voronoff.

Fora das Grades

Dossiê Astolfo Araújo


Fora das Grades
Direção: Astolfo Araújo
Brasil, 1971.

Por Filipe Chamy

O cinema brasileiro, como qualquer arte que visa a expressar um povo, tem em boa parte da sua produção um nicho dedicado aos derrotados. Sejam os excluídos sociais das favelas, sejam os fracassados amorosos das pornochanchadas, temos vasta gama — sobretudo, talvez, no chamado “cinema popular” — de fracassados. Gente que deu errado, que não funcionou. Estamos aqui com mais uma figurinha desse álbum: Fora das grades é, como o título indica, uma história de prisão.

Na verdade, uma história pós-prisão. O que acontece quando a liberdade é restituída a alguém que por anos ficou encarcerado? A ideia de liberdade é sempre muito discutida por filósofos e pensadores, e aqui temos mais um exemplo do clássico: “a pior prisão é a da nossa cabeça”. No Brasil, após alguns anos todo mundo sai da cadeia. Mas o que isso significa? É possível esquecer ou apagar tudo que se passou entre as quatro grades?

Quase sempre teremos um quadro de fatalismo. No aspecto moral, o crime “viciou” o praticante e já não há mais remédio para ele: roubará, matará e estuprará novamente, pois é um fruto podre; no aspecto narrativo, o caráter noir se insinua por meio de um destino inescapável, a sociedade não dará mais chance ao marginal e ele só se degradará cada vez mais, até o inevitável, doloroso e amargo fim.

Não que Fora das grades não sofra desse “pacote fechado”, essa sina anterior à própria obra. Sofre, sim; mas é nisso que está o mote, acompanharmos a jornada do tal cidadão (saiu da prisão, virou cidadão) e nos indagarmos: “ele terá sucesso? O que ele fará? Voltará ao crime, por certo”.

Contrariar as expectativas do espectador ou ir ao encontro delas é a tarefa aqui de Astolfo Araújo. É um iter meio maçante, verificar o “acerto” ou o “erro”. No final a coisa vai dar problema, sabemos, afinal o drama pulsa com o sentido de uma maldição, seria hipócrita e deslocado trazer para as personagens uma felicidade forçada, pois não é o próprio filme que se nutre desse sentido de fatalidade?

Ainda que Astolfo Araújo pinte um pouco cenas de ação, num sentido que imediatamente relacionamos a violência urbana, Fora das grades é mais uma fita psicológica que policial. Por isso um anticlímax no arco final da história, o que não significaria nada caso os olhos do público não estivessem voltados a um falso sentido do superficial que abarcou como sendo a essência do relato. Isso nada diz sobre as intenções ou o resultado da película, mas é uma marca do distanciamento que marca um pouco a recepção aparentemente fria que ela recebeu.

Mas nisso o filme acaba ganhando força, pois ilustra metaforicamente o grande dilema de seu protagonista (feito por Luigi Picchi, espécie de Warren Oates tupiniquim): escapar das amarras é apenas o primeiro passo. E a aceitação?

O Quarto

Dossiê Astolfo Araújo


O Quarto
Direção: Rubem Biáfora
Produção: Astolfo Araújo
Brasil, 1968

Por Vlademir Lazo

Que Rubem Biáfora foi um crítico renomado já é do conhecimento geral, mas poucos sabem que ele também dirigiu ocasionalmente. Do seu currículo como cineasta, o mais famoso filme que realizou foi O Quarto, que até hoje permanece como uma das mais densas descrições da solidão masculina dentro do cinema brasileiro, e um dos melhores filmes que quase ninguém viu dos anos 60. O Quarto é um filme que bate forte em revisões feitas de tempos em tempos. Cada revisita a ele é uma oportunidade diferente de experienciar as questões com que seu personagem se confronta, e as quais todos nós cada qual à sua maneira lidamos ao longo dos anos: a passagem do tempo, a sensação dos dias e horas escoando em vão, e também de estar ficando para trás, ultrapassado pelo peso da idade e do vazio se acumulando.

O Quarto gira em torno do isolamento de Lucio (Sergio Hingst), um funcionário público retraído e solteirão, que só sai do quarto em que vive sozinho para ocasionais visitas a uma irmã, e em encontros com prostitutas que encontra na rua, às quais paga a peso de ouro por generosas doses de afeto e alguns momentos de sexo e carinho. E com quem gosta de conversar, dividir a atenção e o interesse pelo que as moças têm a dizer, se frustrando com a inevitável postura profissional delas ou simplesmente quando devem ir embora.

O personagem também costuma passar pela pior espécie de solidão que alguém pode sofrer: a de se sentir sozinho mesmo na companhia de um grupo ou multidão, seja nas ruas ou em bares em meio às rodas de desconhecidos vendo o futebol na TV, ou nas próprias arquibancadas dos estádios. Com a irmã casada tampouco se sente à vontade diante da vida dela no subúrbio, e das pressões para que ele também constitua família, preferindo eventuais idas aos cabaré, o que inclui no filme de Biáfora um longo strip-tease completo, além das sequências de sexo e de nudez, o que ainda não era muito frequente no cinema brasileiro da época.

A câmera de Biáfora radiografa a rotina do personagem dissecando minuciosamente a personalidade de uma existência desbotada, que não sabe como lidar com o mundo impiedoso que o cerca e asfixia. Os planos tratam de isolar Sergio Hingst no quadro, sempre próximo e implacavelmente distante dos demais, quando na companhia de outras pessoas, como nas cenas da repartição em que trabalha. Algumas vezes quando se fala de O Quarto, na dificuldade de se encaixar o filme numa corrente de nosso cinema, muitos apontam uma bem provável influência de Walter Hugo Khouri. Vendo cenas como as do local de trabalho de Lucio, no entanto pode-se perceber certa inspiração em outro diretor predileto de Biáfora, o americano William Wyler. Não é difícil lembrar ali de alguns aspectos de O Colecionador (realizado poucos anos antes), cujo protagonista tampouco se sentia à vontade em seu ambiente de trabalho, como também nutria dificuldades parecidas de estabelecer relacionamentos amorosos ou de simples amizade.

O Quarto é um filme simples mas bem psicologizante, e ganha muito com o talento do grande Sergio Hingst no papel principal. Hingst sabe ser melancólico na medida certa, e divertido quando tem que ser, realçando o comportamento por vezes patético do protagonista. Ao contrário da personagem de O Colecionador, o de Hingst não chega ao ponto da psicopatia, nem de ser submetido a se tornar uma vítima dos demais ou de se sentir como uma. Do começo ao final, O Quarto trabalha como a deixar claro que a responsabilidade pela condição do protagonista não é de outro se não dele próprio. Mesmo os rituais de humilhação, ou a crueldade e o desprezo para com os personagens que não raro aparecem na filmografia de Wyler (e que já lhe renderam críticas até certo ponto injustas), em O Quarto pouco se manifestam em cena, no que contribui o talento de Hingst em tornar o seu personagem mais humano. Os tais rituais de humilhação são deixados para perto do final, quando o protagonista pensa encontrar sua redenção quando toma por amor uma aventura com uma socialite com quem se deixa envolver emocionalmente. A falta de experiências e relações humanas cobra então o seu preço, quando Lucio embora se sentindo seguro, na verdade mal sabe a maneira apropriada de se comportar diante do circulo de amizades da mulher com quem se relaciona. Ao personagem restará sempre a solidão implacável do quarto que o acolhe do mundo.

O Quarto é um filme que poucas vezes recebeu a atenção que merecia. Diante dele não é difícil (nem exagero) considerar a atuação de Sergio Hingst como a melhor de todo o cinema brasileiro. Mesmo um vulto tão distante do cinema paulista como Glauber Rocha, que em seu livro Revisão Critica do Cinema Brasileiro escrevera opiniões negativas impublicáveis e exageradas ao primeiro filme de Biáfora (Ravina, cujo comentário no Revisão se encerrava dizendo que era “um exemplo de como não se deve fazer cinema em qualquer parte do mundo”), reconheceu as devidas qualidades de O Quarto, enviando uma carta a Biáfora declarando que “esse filme é um depoimento comovente e humano”. No passado, Biáfora como crítico foi durante anos especialista em detectar qualidades em obras que os demais demoravam em enxergar, como ocorreu nos anos 40 com os filmes de terror produzidos por Val Lewton e nos musicais de Arthur Freed, ou na década seguinte com Ingmar Bergman. Cabe agora no presente que se redescubra e se dê valor a um grande filme como O Quarto.

Profissão: Mulher

Dossiê Astolfo Araújo


Profissão: Mulher
Direção: Cláudio Cunha
Roteiro: Márcia Denser, Astolfo Araújo e Claudio Cunha
Brasil, 1984.

Por Daniel Salomão Roque

Algumas pessoas certamente se surpreenderiam ao assistir Profissão: Mulher. O espanto, imagino, estaria de alguma forma relacionado com o descompasso existente entre a perspectiva que a obra adota diante do cotidiano feminino e as ideias pré-concebidas de boa parte do público a respeito do cinema feito no Brasil ao longo das décadas de 70 e 80 – ideias estas pautadas pelo desconhecimento da produção nativa, uma repulsa mal disfarçada por tudo o que seja deliberadamente popular e, sobretudo, por fartas doses de moralismo contra determinada estética e temática que o filme, a julgar pelo título e cartaz, aparenta explorar.

Não que o erotismo esteja ausente em Profissão: Mulher, muito pelo contrário. A nudez é uma constante na fita de Cláudio Cunha, em que as relações e vivências pessoais invariavelmente surgem como consequência da necessidade de possuir e ser possuído. A diferença básica entre esse filme e outros do mesmo período, contudo, encontra-se na maneira como o sexo é enquadrado pelas câmeras, esgueirando-se de sua posição central para concentrar-se nas beiradas do dia a dia, longe das convenções morais e de qualquer outro olhar que não o do espectador.

Profissão: Mulher se baseia no livro O Animal dos Motéis e foi escrito por Astolfo Araújo, em parceria com a autora do texto original, Marcia Denser, e o diretor Cláudio Cunha – que aparece, pensativo, na abertura do filme, numa digressão acerca das mudanças sociais a envolver o sexo feminino nos últimos tempos. Embora a presença física do cineasta morra por ali, sua mão é sentida ao longo de toda a obra, que, partindo da vivência diária de um grupo de funcionárias de uma agência de publicidade no Rio de Janeiro, caminha muito delicadamente na direção da análise de costumes.

Para as mulheres, não muito parecidas entre si, o ambiente de trabalho é o local onde compartilham pequenos fragmentos de sua existência que, apenas nós sabemos, vai muito além das passarelas e escritórios. Para Cláudio Cunha, é uma alternativa humana às famosas cartelas de texto: a rigor, Profissão: Mulher poderia ser dividido em pequenos episódios relativamente autônomos. Natália, diretora de criação que decide tomar todas na confraternização de final de ano do escritório e acaba dormindo com um vendedor impotente que jamais vira na vida, está mergulhada num drama aparentemente isolado das agonias de Sandra Stewart, a modelo homofóbica que se envolve com um jovem motoboy, e esta, por sua vez, não mantém grandes vínculos com Vera, secretária recatada e adepta da masturbação com água fervente. Contudo, isolar suas trajetórias em blocos fechados esterilizaria a narrativa no que ela tem de mais interessante: a tentativa de emular o fluxo da vida real para rompê-lo abertamente no final da projeção.

A Morte Comanda o Cangaço

Especial Carlos Coimbra


A Morte Comanda o Cangaço
Direção: Carlos Coimbra
Brasil, 1961.

Por Daniel Salomão Roque

O ambiente determina o homem, aparenta dizer Carlos Coimbra em A Morte Comanda o Cangaço. Ao longo do filme, uma considerável galeria de personagens – cangaceiros, agricultores, coronéis, mulheres ambíguas – se deixam enquadrar pela câmera, mas nenhum deles parece adquirir o mesmo peso que a obra confere à geografia nordestina. A urgência, clareza e sinceridade com que o filme sustenta este ponto de vista são tantas que, antes mesmo dos créditos iniciais, um prólogo se incumbe da tarefa de contextualizar os eventos subsequentes no ano de 1929, quando cercas mortíferas impunham uma luta desigual do homem contra natureza: “os desmandos do coronelismo, o banditismo assalariado, a imposição da vontade de poderosos chefes políticos pelo terror criaram um clima de insegurança”, proclama a narração em off por cima de longos, belos e ameaçadores planos gerais do sertão.

Tanto o ambiente quanto os homens por ele determinados são caracterizados, ao longo do filme, por meio de uma estrutura dramática tipicamente clássica. A narrativa é límpida, cristalina, as motivações alheias são imutáveis e evidentes desde o início, ao passo em que certos problemas, como o cangaço e o coronelismo, são reduzidos a questões pessoais ou conflitos do bem contra o mal. Trata-se de um viés certamente questionável, mas o fato é que Coimbra mergulha de corpo e alma nessa perspectiva e explora seus recursos com espantosa eficiência.

Não coincidentemente, os astros de A Morte Comanda o Cangaço são os mesmos de O Cangaceiro, que oito anos antes já apontava as possibilidades oferecidas pelo banditismo social enquanto fonte de ação e aventura cinematográfica. Milton Ribeiro é o Capitão Silvério, fora-da-lei movido por instintos cruéis e braço direito do corrupto Coronel Nesinho; Alberto Ruschel é Raimundo Vieira, pequeno fazendeiro que, ousando questionar a ordem vigente, tem a casa destruída, a mãe brutalmente executada e se torna, ele mesmo, alvo de uma tentativa de assassinato, que seus algozes erroneamente julgam bem sucedida. Enraivecido, Raimundo Vieira forma seu próprio bando e decide extinguir o cangaço por conta própria.

A Morte Comanda o Cangaço é, pois, uma crônica de vingança, filhote nativo de John Ford e Howard Hawks, espécie de faroeste tipicamente hollywoodiano onde os cowboys são substituídos por peões e os assaltantes de bancos, por cangaceiros. Trata-se também de cinema essencialmente físico, voltado para a beleza plástica dos corpos em movimento e da agonia a acometê-los quando perfurados por balas e fações ou violentados pelo clima árido do sertão – uma agonia que, desconhecendo exceções, torna-se ainda mais pulsante quando filtrada por engenhosos travellings e pelo Eastmancolor que não nos poupa do azul escaldante emanado pelo céu nordestino, tampouco do vermelho a escorrer da cabeça decapitada de uma idosa.

Corisco, o Diabo Loiro

Especial Carlos Coimbra

Corisco, o Diabo Loiro
Direção: Carlos Coimbra
Brasil, 1969.

Por Edu Jancz

A primeira seqüência de Corisco, o Diabo Loiro deixa todas as pistas, o DNA, do filme que vamos assistir. Ela também, numa espiral da trama, é a sequência final do filme.  Num circuito contínuo que envolve cangaceiros, soldados (a volante), a população – em sua maioria pobre -, que tenta sobreviver como pessoas de bem, mas o destino…

Corisco e seu bando, cavalgando velozmente, chegam numa casa carregando cabeças cortadas de várias pessoas, entre elas Domingos (Jofre Soares), que “dedurou” o esconderijo de Lampião para os “macacos”, sinônimo popular para soldados, volante.  Lampião, Maria Bonita e seu bando foram aniquilados. Corisco assumiu a vingança.

Sem Lampião, sua liderança e a força do cangaço – como forma opcional de vida -, Corisco e sua companheira Dada´ resolvem mudar de cidade e seguir novos rumos. São emboscados por “macacos”, feridos e presos pelo tenente Rufino (Turíbio Ruiz), implacável caçador e justiceiro.

No caminho da prisão, Corisco e Dadá recordam, em flashback como tudo começou.

Vítima de dupla injustiça, inclusive familiares torturados e mortos violentamente pelos soldados, Corisco não tem outra opção a não ser viver como cangaceiro. Rapidamente, o agora capitão Corisco e seu pequeno bando ganham notoriedade e respeito.

Corisco conhece Dadá ainda garota. Junta-se com o bando de Lampião (Milton Ribeiro), numa festa popular.  Lampião fica fascinado por Maria Bonita (Maracy Mello).  Ela confessa que esperava esse encontro há muito tempo. A partir desse momento, o bando de Lampião permite que seus homens possam levar as companheiras em sua jornada de resistência.

Corisco, o Diabo Loiro mostra os confrontos, parcerias e traições entre cangaceiros, coronéis e a população.  O filme não toma nenhum partido. Mostra a violência de vinganças x traições e o dia a dia da comunidade de “cangaceiros liderados por Lampião”.

A direção de Carlos Coimbra é ponto alto e fundamental de Corisco, o Diabo Loiro. A noção de ritmo do diretor é perfeita. Se visto hoje, em tela grande, o filme seria visto como atual – basicamente no quesito linguagem, fluência e tempo de narrativa. O roteiro administrado por Coimbra cria um filme “sempre vivo”. Nada de planos “mortos”, ou câmera fixa como se o espetáculo fosse visto num teatro com palco italiano.

Carlos Coimbra tem a noção de movimento e encenação que resulta em cinema de identidade universal.  Os brasilianistas e cinemanovistas vão reclamar. Não estou nem aí. O cinema de Coimbra é cinema por excelência. E Pronto.

Corisco, o Diabo Loiro resulta num filme ágil e moderno, visto somar a roteirização e direção de Carlos Coimbra, mais a forma de interpretação dos atores que deram vida a cangaceiros, volante e povo.

Um elenco superafinado (e bem dirigido) é parte fundamental desse resultado.

Corisco, interpretado por um Maurício do Valle, se superando sempre. Ele tem nas mãos um personagem complexo: é povo, é vingador, é marido apaixonado. Teve que trabalhar e variar gestos, olhares e gestão corporal para cumprir a sua missão.

Dadá é a jovem Leila Diniz no auge de sua beleza. À medida que “incorpora” o seu caso com Corisco, Dadá tem que crescer como mulher e cangaceira. O que ela faz com muita sutileza.

Lampião é interpretado pelo veterano Milton Ribeiro.  “Sua atuação cria um “líder” que varia entre o “saber arbitrar”, o “ser duro e viril”, e o ser “romântico e carinhoso” com a sua Maria Bonita.

O veterano Turíbio Ruiz interpreta um tenente “cangaceirofóbico”, que jura ser ele o primeiro a mandar Corisco e seu bando para a cadeia. Sua interpretação soturna e de pouco falar tem um resultado “forte e intimador”.

Por último, cito a bela Maracy Mello. Ela interpreta Maria Bonita. Em 1969 é jovem, linda e atriz de muita personalidade. A altura de um líder como Lampião.

Pessoal. Conheci Maracy Mello e seu companheiro Denoy de Oliveira no final do século XX, mais precisamente em 1998. Os dois ministravam um curso do cinema no Instituto Emílio Fontana. Eu me inscrevi. Fiz o curso. Tanto azucrinei que os dois tornaram-se meus amigos.  Maracy ainda era linda! Companheira exemplar de Denoy “O Baiano Fantasma” de Oliveira.

Independência ou Morte

Especial Carlos Coimbra


Independência ou Morte
Direção: Carlos Coimbra
Brasil, 1972.

Por Adilson Marcelino

Independência ou Morte, filme que Carlos Coimbra dirigiu, roteirizou e montou, foi produzido por Oswaldo Massaini em 1972, ano do sesquicentenário da independência.   Acusado de retrato oficial da versão histórica a serviço da ditadura militar, essa pecha apressada e injusta acabou por encobrir os vários méritos do filme.

É importante ressaltar o belo trabalho de ator de Tarcísio Meira, que imprime um ar inconsequente e de Don Juan em seu imperador e que nos conquista de imediato. Mas o ápice se dá mesmo quando entra em cena Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos. É ao focalizar esses acontecimentos de alcova que o filme cresce e não pelo mote que dá título ao filme, ainda que saibamos que um fato está intimamente associado ao outro.

Ainda que em registros distintos, esse foco em Independência ou Morte aponta para o patamar de outro casal torto e conturbado da história, aquele formado pelo Contratador João Fernandes e Xica da Silva, ainda que no filme de Cacá Diegues a lente seja a da carnavalização e os personagens sejam de outra ordem e esfera.

Glória Menezes, desde há muito a senhora Meira, está muito bem na personagem Domitila, mas esse salto não é só por isso, já que o filme tem também outro grande trabalho de atriz, o de Kate Hansen como a Imperatriz Leopoldina.

O grande mérito é porque o aparecimento de Domitila é quando Dom Pedro I chuta o balde de vez, e o que poderia ser apenas um retrato oficial, como tantos injustamente o acusam, dá novo tom para o filme, que fica muitos decibéis acima quando traz essa história de paixão para a boca de cena. E, consequentemente, é também quando a Marquesa de Santos desaparece, em belíssima cena de despedida cruel já nos estertores, que o filme retrocede para o clima do início e muito de seu interesse se dissipa.