Corisco, o Diabo Loiro

Especial Carlos Coimbra

Corisco, o Diabo Loiro
Direção: Carlos Coimbra
Brasil, 1969.

Por Edu Jancz

A primeira seqüência de Corisco, o Diabo Loiro deixa todas as pistas, o DNA, do filme que vamos assistir. Ela também, numa espiral da trama, é a sequência final do filme.  Num circuito contínuo que envolve cangaceiros, soldados (a volante), a população – em sua maioria pobre -, que tenta sobreviver como pessoas de bem, mas o destino…

Corisco e seu bando, cavalgando velozmente, chegam numa casa carregando cabeças cortadas de várias pessoas, entre elas Domingos (Jofre Soares), que “dedurou” o esconderijo de Lampião para os “macacos”, sinônimo popular para soldados, volante.  Lampião, Maria Bonita e seu bando foram aniquilados. Corisco assumiu a vingança.

Sem Lampião, sua liderança e a força do cangaço – como forma opcional de vida -, Corisco e sua companheira Dada´ resolvem mudar de cidade e seguir novos rumos. São emboscados por “macacos”, feridos e presos pelo tenente Rufino (Turíbio Ruiz), implacável caçador e justiceiro.

No caminho da prisão, Corisco e Dadá recordam, em flashback como tudo começou.

Vítima de dupla injustiça, inclusive familiares torturados e mortos violentamente pelos soldados, Corisco não tem outra opção a não ser viver como cangaceiro. Rapidamente, o agora capitão Corisco e seu pequeno bando ganham notoriedade e respeito.

Corisco conhece Dadá ainda garota. Junta-se com o bando de Lampião (Milton Ribeiro), numa festa popular.  Lampião fica fascinado por Maria Bonita (Maracy Mello).  Ela confessa que esperava esse encontro há muito tempo. A partir desse momento, o bando de Lampião permite que seus homens possam levar as companheiras em sua jornada de resistência.

Corisco, o Diabo Loiro mostra os confrontos, parcerias e traições entre cangaceiros, coronéis e a população.  O filme não toma nenhum partido. Mostra a violência de vinganças x traições e o dia a dia da comunidade de “cangaceiros liderados por Lampião”.

A direção de Carlos Coimbra é ponto alto e fundamental de Corisco, o Diabo Loiro. A noção de ritmo do diretor é perfeita. Se visto hoje, em tela grande, o filme seria visto como atual – basicamente no quesito linguagem, fluência e tempo de narrativa. O roteiro administrado por Coimbra cria um filme “sempre vivo”. Nada de planos “mortos”, ou câmera fixa como se o espetáculo fosse visto num teatro com palco italiano.

Carlos Coimbra tem a noção de movimento e encenação que resulta em cinema de identidade universal.  Os brasilianistas e cinemanovistas vão reclamar. Não estou nem aí. O cinema de Coimbra é cinema por excelência. E Pronto.

Corisco, o Diabo Loiro resulta num filme ágil e moderno, visto somar a roteirização e direção de Carlos Coimbra, mais a forma de interpretação dos atores que deram vida a cangaceiros, volante e povo.

Um elenco superafinado (e bem dirigido) é parte fundamental desse resultado.

Corisco, interpretado por um Maurício do Valle, se superando sempre. Ele tem nas mãos um personagem complexo: é povo, é vingador, é marido apaixonado. Teve que trabalhar e variar gestos, olhares e gestão corporal para cumprir a sua missão.

Dadá é a jovem Leila Diniz no auge de sua beleza. À medida que “incorpora” o seu caso com Corisco, Dadá tem que crescer como mulher e cangaceira. O que ela faz com muita sutileza.

Lampião é interpretado pelo veterano Milton Ribeiro.  “Sua atuação cria um “líder” que varia entre o “saber arbitrar”, o “ser duro e viril”, e o ser “romântico e carinhoso” com a sua Maria Bonita.

O veterano Turíbio Ruiz interpreta um tenente “cangaceirofóbico”, que jura ser ele o primeiro a mandar Corisco e seu bando para a cadeia. Sua interpretação soturna e de pouco falar tem um resultado “forte e intimador”.

Por último, cito a bela Maracy Mello. Ela interpreta Maria Bonita. Em 1969 é jovem, linda e atriz de muita personalidade. A altura de um líder como Lampião.

Pessoal. Conheci Maracy Mello e seu companheiro Denoy de Oliveira no final do século XX, mais precisamente em 1998. Os dois ministravam um curso do cinema no Instituto Emílio Fontana. Eu me inscrevi. Fiz o curso. Tanto azucrinei que os dois tornaram-se meus amigos.  Maracy ainda era linda! Companheira exemplar de Denoy “O Baiano Fantasma” de Oliveira.

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