A Morte Comanda o Cangaço

Especial Carlos Coimbra


A Morte Comanda o Cangaço
Direção: Carlos Coimbra
Brasil, 1961.

Por Daniel Salomão Roque

O ambiente determina o homem, aparenta dizer Carlos Coimbra em A Morte Comanda o Cangaço. Ao longo do filme, uma considerável galeria de personagens – cangaceiros, agricultores, coronéis, mulheres ambíguas – se deixam enquadrar pela câmera, mas nenhum deles parece adquirir o mesmo peso que a obra confere à geografia nordestina. A urgência, clareza e sinceridade com que o filme sustenta este ponto de vista são tantas que, antes mesmo dos créditos iniciais, um prólogo se incumbe da tarefa de contextualizar os eventos subsequentes no ano de 1929, quando cercas mortíferas impunham uma luta desigual do homem contra natureza: “os desmandos do coronelismo, o banditismo assalariado, a imposição da vontade de poderosos chefes políticos pelo terror criaram um clima de insegurança”, proclama a narração em off por cima de longos, belos e ameaçadores planos gerais do sertão.

Tanto o ambiente quanto os homens por ele determinados são caracterizados, ao longo do filme, por meio de uma estrutura dramática tipicamente clássica. A narrativa é límpida, cristalina, as motivações alheias são imutáveis e evidentes desde o início, ao passo em que certos problemas, como o cangaço e o coronelismo, são reduzidos a questões pessoais ou conflitos do bem contra o mal. Trata-se de um viés certamente questionável, mas o fato é que Coimbra mergulha de corpo e alma nessa perspectiva e explora seus recursos com espantosa eficiência.

Não coincidentemente, os astros de A Morte Comanda o Cangaço são os mesmos de O Cangaceiro, que oito anos antes já apontava as possibilidades oferecidas pelo banditismo social enquanto fonte de ação e aventura cinematográfica. Milton Ribeiro é o Capitão Silvério, fora-da-lei movido por instintos cruéis e braço direito do corrupto Coronel Nesinho; Alberto Ruschel é Raimundo Vieira, pequeno fazendeiro que, ousando questionar a ordem vigente, tem a casa destruída, a mãe brutalmente executada e se torna, ele mesmo, alvo de uma tentativa de assassinato, que seus algozes erroneamente julgam bem sucedida. Enraivecido, Raimundo Vieira forma seu próprio bando e decide extinguir o cangaço por conta própria.

A Morte Comanda o Cangaço é, pois, uma crônica de vingança, filhote nativo de John Ford e Howard Hawks, espécie de faroeste tipicamente hollywoodiano onde os cowboys são substituídos por peões e os assaltantes de bancos, por cangaceiros. Trata-se também de cinema essencialmente físico, voltado para a beleza plástica dos corpos em movimento e da agonia a acometê-los quando perfurados por balas e fações ou violentados pelo clima árido do sertão – uma agonia que, desconhecendo exceções, torna-se ainda mais pulsante quando filtrada por engenhosos travellings e pelo Eastmancolor que não nos poupa do azul escaldante emanado pelo céu nordestino, tampouco do vermelho a escorrer da cabeça decapitada de uma idosa.

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