O Quarto

Dossiê Astolfo Araújo


O Quarto
Direção: Rubem Biáfora
Produção: Astolfo Araújo
Brasil, 1968

Por Vlademir Lazo

Que Rubem Biáfora foi um crítico renomado já é do conhecimento geral, mas poucos sabem que ele também dirigiu ocasionalmente. Do seu currículo como cineasta, o mais famoso filme que realizou foi O Quarto, que até hoje permanece como uma das mais densas descrições da solidão masculina dentro do cinema brasileiro, e um dos melhores filmes que quase ninguém viu dos anos 60. O Quarto é um filme que bate forte em revisões feitas de tempos em tempos. Cada revisita a ele é uma oportunidade diferente de experienciar as questões com que seu personagem se confronta, e as quais todos nós cada qual à sua maneira lidamos ao longo dos anos: a passagem do tempo, a sensação dos dias e horas escoando em vão, e também de estar ficando para trás, ultrapassado pelo peso da idade e do vazio se acumulando.

O Quarto gira em torno do isolamento de Lucio (Sergio Hingst), um funcionário público retraído e solteirão, que só sai do quarto em que vive sozinho para ocasionais visitas a uma irmã, e em encontros com prostitutas que encontra na rua, às quais paga a peso de ouro por generosas doses de afeto e alguns momentos de sexo e carinho. E com quem gosta de conversar, dividir a atenção e o interesse pelo que as moças têm a dizer, se frustrando com a inevitável postura profissional delas ou simplesmente quando devem ir embora.

O personagem também costuma passar pela pior espécie de solidão que alguém pode sofrer: a de se sentir sozinho mesmo na companhia de um grupo ou multidão, seja nas ruas ou em bares em meio às rodas de desconhecidos vendo o futebol na TV, ou nas próprias arquibancadas dos estádios. Com a irmã casada tampouco se sente à vontade diante da vida dela no subúrbio, e das pressões para que ele também constitua família, preferindo eventuais idas aos cabaré, o que inclui no filme de Biáfora um longo strip-tease completo, além das sequências de sexo e de nudez, o que ainda não era muito frequente no cinema brasileiro da época.

A câmera de Biáfora radiografa a rotina do personagem dissecando minuciosamente a personalidade de uma existência desbotada, que não sabe como lidar com o mundo impiedoso que o cerca e asfixia. Os planos tratam de isolar Sergio Hingst no quadro, sempre próximo e implacavelmente distante dos demais, quando na companhia de outras pessoas, como nas cenas da repartição em que trabalha. Algumas vezes quando se fala de O Quarto, na dificuldade de se encaixar o filme numa corrente de nosso cinema, muitos apontam uma bem provável influência de Walter Hugo Khouri. Vendo cenas como as do local de trabalho de Lucio, no entanto pode-se perceber certa inspiração em outro diretor predileto de Biáfora, o americano William Wyler. Não é difícil lembrar ali de alguns aspectos de O Colecionador (realizado poucos anos antes), cujo protagonista tampouco se sentia à vontade em seu ambiente de trabalho, como também nutria dificuldades parecidas de estabelecer relacionamentos amorosos ou de simples amizade.

O Quarto é um filme simples mas bem psicologizante, e ganha muito com o talento do grande Sergio Hingst no papel principal. Hingst sabe ser melancólico na medida certa, e divertido quando tem que ser, realçando o comportamento por vezes patético do protagonista. Ao contrário da personagem de O Colecionador, o de Hingst não chega ao ponto da psicopatia, nem de ser submetido a se tornar uma vítima dos demais ou de se sentir como uma. Do começo ao final, O Quarto trabalha como a deixar claro que a responsabilidade pela condição do protagonista não é de outro se não dele próprio. Mesmo os rituais de humilhação, ou a crueldade e o desprezo para com os personagens que não raro aparecem na filmografia de Wyler (e que já lhe renderam críticas até certo ponto injustas), em O Quarto pouco se manifestam em cena, no que contribui o talento de Hingst em tornar o seu personagem mais humano. Os tais rituais de humilhação são deixados para perto do final, quando o protagonista pensa encontrar sua redenção quando toma por amor uma aventura com uma socialite com quem se deixa envolver emocionalmente. A falta de experiências e relações humanas cobra então o seu preço, quando Lucio embora se sentindo seguro, na verdade mal sabe a maneira apropriada de se comportar diante do circulo de amizades da mulher com quem se relaciona. Ao personagem restará sempre a solidão implacável do quarto que o acolhe do mundo.

O Quarto é um filme que poucas vezes recebeu a atenção que merecia. Diante dele não é difícil (nem exagero) considerar a atuação de Sergio Hingst como a melhor de todo o cinema brasileiro. Mesmo um vulto tão distante do cinema paulista como Glauber Rocha, que em seu livro Revisão Critica do Cinema Brasileiro escrevera opiniões negativas impublicáveis e exageradas ao primeiro filme de Biáfora (Ravina, cujo comentário no Revisão se encerrava dizendo que era “um exemplo de como não se deve fazer cinema em qualquer parte do mundo”), reconheceu as devidas qualidades de O Quarto, enviando uma carta a Biáfora declarando que “esse filme é um depoimento comovente e humano”. No passado, Biáfora como crítico foi durante anos especialista em detectar qualidades em obras que os demais demoravam em enxergar, como ocorreu nos anos 40 com os filmes de terror produzidos por Val Lewton e nos musicais de Arthur Freed, ou na década seguinte com Ingmar Bergman. Cabe agora no presente que se redescubra e se dê valor a um grande filme como O Quarto.

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